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Cheio da alma minha. Ou da alma que me resta.

31 de outubro de 2012 por Camila

‘…Como todas las cosas están llenas de mi alma, emerges de las cosas llena del alma mía. Mariposa de sueño, te pareces a mi alma, y te pareces a la palabra melancolía.’

(NERUDA, P.)

Tocava Caê.

E, deitada sobre aquele velho chão de tacos já amarelados pela implacável ação do tempo, a menina estava pra lá de Marraqueche. Dopada pela angústia do que poderia ter sido e de como poderia ter sido se tivesse se permitido um pouco mais, contorcia de pura melancolia na noite mais quente do ano. Lembrou que nas noites de calor a escolha é entre matar ou morrer. 

Ousou sobreviver a todas as estruturas as quais que se impôs (e que lhe impuseram!) e agora pagava o preço sem matar a ninguém.

Pensava em outras esquinas e no que poderia vir a ser. Em sorrisos que nunca tinha visto, em abraços que nunca tinha dado e nas palavras doces que nunca tinha ouvido. Ou falado. Mas, por incrível que pareça, não trazia em si a dor do arrependimento. Apenas de uma saudade latente que não sabia explicar do quê.

Sabia que medo tinha mesmo era de viver sem ser feliz (e por isso arriscava!), de comer e não sentir gosto, de ouvir sem entender, de amar sem toda a alma, de palavras vazias, de promessas do pra sempre, de respirar e não se arrepiar pelo milagre que há em cada pequeno gesto. Não queria e nem podia perder a mágica dos passos dados em nuvens imaginárias, pois era assim que tinha construído o seu castelo de girassóis no tempo da delicadeza e do eterno. E seguia encantada, apesar de.

-Droga, já são 5h37 da manhã. Às 8h tenho que despertar. Às 9h30 estar brilhante e funcional. Às 10h iniciar mais um job que não tenho saco de fazer para coisas que eu já não quero estar e nem mais acredito. Odeio ter de fingir que me importo. Como me sinto sem propósito passando meus dias numa vida onde meu coração não está. Quanto desperdício de ser…

E caminhava.

Andava por ruas cinzas tentando enxergar um pouco de cor. E, teimosa que era, descobria quase toda uma nova escala de tons. Mesmo em todos os apesares… Acreditava, de verdade, em horizontes.

Tinha sinceras esperanças sabe-Deus-em-quê, mas a realidade de não saber para onde ir ou se tinha capacidade de ir além lhe tirava um pouco do sossêgo. Suspirava e lembrava da menina de olhos verdes de Quintana que não lhe deixava desesperar. Queria manter a alma mansa, mas a ansiedade lhe devorava as entranhas.

A vida se abria crua para quem resguardava resquícios de magia em meio a um certo sonambulismo servido a conta-gotas com comodismos. Era um tal de escolher pra onde ir e sob quais argumentos. Era uma parte do corpo que gritava rebeldia. A outra, que esperava. Mas também não conhecia nenhum modo de como organizar a fronteira entre querer e agir. Como romper com mundo das idéias (Platão lhe tinha envenenado cedo demais!) e colocar em prática aquilo que todo mundo achava que ela sabia lhe era um mistério insolúvel. Sou uma farsa, –  pensava -, e logo se perdia dentro da burocracia do mundo que lhe enchia de preguiça e falta de vontade. Era bruto, amigo.

Mastigava o próprio cérebro entre quereres e falta deles quando escutou uma louca berrando em paixão e desespero no meio da rua e se sentiu profundamente aliviada. Alguém, por fim, havia fugido do cinismo e continuava capaz de sentir alguma coisa nesse mundo em que vivemos tão anestesiados de emoções e perturbações poéticas. Desejou que a moça gritasse um pouco mais, assim –  acreditava ela -, nos despertaria a todos da letargia e em que havíamos entrado num quando incerto…

-Quando começamos a viver nessa dormência de estar? Quando foi que a rotina passou a me dirigir em modo automático como um piloto a seu avião ultramoderno? Qual foi a última vez que tive ambições ardentes e sonhei de olhos abertos? Onde andam as borboletas que engoli ao longo da vida e faziam festa no meu estômago?

Era hora de pular no abismo escuro e imprevisível outra vez, mas com a íris em cor e a retina em espelho. Nunca fora boa com os números e tinha preguiça de calcular cada passo, mas era chegado o tempo de tomar a direção e guiar para onde queria ir.

Mas, para onde queria ir?

Quem não sabe o que procura tampouco vai saber quando encontrá-lo.

Não queria mais estar reduzida a meras escolhas cotidianas entre rosas e azuis. Cansada demais dos tons pastéis, decidiu que queria ser cores primárias.

Queria fazer algo que mudasse alguma coisa.

E, sabia, era preciso paixão.

E tece vida, e desfia, e recria, e recomeça…


Oi, Bonito.

29 de outubro de 2012 por Camila

Hoje acordei apressada e atendi aos apelos de minha mãe para abrir as cortinas e andar de par com a obrigatoriedade do mundo.

Não, não deu tempo da tapioca e nem do acarajé pretendidos, mas deu pra justificar a minha abstenção na ridícula escolha do pleito eleitoral que tomava lugar em São Paulo. Pobre cidade onde alguém vai ganhar e ela mesma vai perder.

Mas não é da metrópole e sua lógica incoerente e desumana que eu quero te falar, Bonito. Quero te falar de mais abstração, ‘do sufoco de uma dúvida, e da dor de qualquer coisa.’

Quer dizer, da dor não. Ela, graças a Deus, não há. O horizonte afastou. A mágica placenta de todo amor dado e recebido nestes dias mais azuis não lhe deu a ousadia da chegança.

E, veja bem, também não tenho o que desfiar em palavras sobre o sufoco de uma dúvida. Ela foi sanada pela conversa confiante de minha mãe. Os temores de incertezas entre ou-isso-ou-aquilo agora são possibilidades de tudo que eu quiser que seja. Sim, plural. A vida tem caminhos demais, devemos ser imodestos e caminhar por quantos queremos. Eu já tinha lhe dito sobre a sabedoria de mamãe antes, não?

Pois bem, já está claro que não tenho um assunto específico para lhe falar, mas me deu saudades de ti e bem sabes da verdade empírica inserida na minha teoria de que versos e frases escritas te aproximam de mim. Por isso, insisto nesta carta descabida e desenxabida.

O avião atravessava sem turbulência ou urros infantis o branco das nuvens que se faziam enquanto eu te pensava. Procurei, em vão, caneta e papel. Estavam ausentes. Diferente de ti, que em mim já existe.

O jeito foi burlar as leis de segurança interplanetárias e intergaláticas e ligar o celular. Outra vez a luz artificial me serviu de alento em busca da idéia de você em mim. Mais uma vez foi num falso rascunho de correio eletrônico que me fiz chegar em ti.

Aqui me faço.

Tudo bem com você?

Vim te contar que quando te penso fico com dificuldades de criar sentenças sem magia ou com pouca dosagem lúdica. Me é incivelmente difícil te falar racionalmente usando palavras ordinárias. São milhares de frases soltas que trafegam a bagunça da minha cabeça e começo a  achar que você é uma junção das melhores partes de todos os homens que amei ou idealizei em silêncios falantes. Não foram tantos, mas você é tão completo que eu fico inexplicavelmente estarrecida com esta realidade sua em mim. Entretanto, ainda que de pedaços, você é todo inteiro e em nada me lembra alguém comum. Você é todo novidade travestido no conforto do saber.

Te penso e te crio lugares e momentos especiais de manhãs calmas em que um dia eu vou te mostrar todas as cartas que eu te escrevi quando ainda nem sabia a cor dos seus olhos ou como era o teu beijo manso. A alma de mil cores e mais eu já tinha visto de relance.

Te quase vejo e sei que tudo vai ficar bem. Porque já está bem quando cai a chuva, quando sai o sol, quando os pés pisam a areia e o asfalto. Já está certo quando sorrio convicta de que a vida é boa e que o chega apenas agrega e não me tira. O mundo gira e eu paro um pouco. Deixa ele. Meu ritmo é o soprar das flores e suas pétalas, como me ensinou uma pequena do alto de sua sabedoria aos quatro anos de idade neste final de semana de grama verde e sol amarelinho.

E nesse pensar extrapolando todas as horas, nesse atentar para a vida prática, no carregar de malas e nas curvas devoradas pelo carro, já é negro o céu e você continua lá. Inteiro. Sujinho do pó de estrela que eu vou achar atrás das suas orelhas ao mordiscá-las. Que bom que você ainda traz na pele esse cheiro do inédito conhecido apenas nas noites oníricas.

Vou por ali, tocar aquela balada do amor inabalável que a tudo resiste. Até mesmo a falta de fantasia presente na confusão do dia a dia.

O sono me chama, Bonito.

Preciso descansar os olhos do mar e prepará-los para a poesia que pode haver no concreto de amanhã.

O que é seu está guardado.

Para quando você chegar.

Porque me saber você já sabe.

Boa noite.

E um beijo meu imbuído na espera mais doce de toda a minha vida.

‘Alga marinha, vá na maresia buscar ali um cheiro de azul. Essa cor não sai de mim, bate e finca pé a sangue de rei. Até o sol nascer amarelinho, queimando mansinho e cedinho, cedinho, cedinho.’ ♥


Doce feito ele.

29 de outubro de 2012 por Camila

Fora jantar com um amigo de outros – e longos! – verões naquela noite. Comeram comida peruana, riram até a barriga doer, continuaram a se tratar pelo mesmo apelido carinhoso de tantos anos e foram embora tranquilos sabendo que ainda existem amizades sadias e que valem a pena. Ele ainda trazia em si o cheiro do oceano e ela ainda tinha cheiro de gargalhadas e novidades. Torciam sinceramente um pelo outro e isso era quase suficiente para que um acreditasse que tudo era possível se o outro quisesse. Deram um longo abraço e marcaram novos encontros nesses horizontes comuns.

Mas a noite acabara de começar e lhe parecia um desperdício ir para casa a uma da manhã de sábado…

Então, incerta do destino, dirigiu por mares, ruas esburacadas, pessoas e possibilidades.

Chegou só.

E lhe avistou.

Ignorou-o solenemente à primeira vista, já que ele estava entrelaçado aos beijos com a menina-sem-sal.

‘Oh, céus, que mais falta me acontecer?’, pensou, resignada e já sem dor no peito.

Andou mais um pouco pelo galpão tomado de uma música estranha e concluiu que os rostos eram mesmo irreconhecíveis. As promessas do sábado a noite já tinham começado a diluir em falta de opção.

Encontrou uma face amiga e, entre sorrisos, decidiram trocar impressões sobre a gente esquisita que andava naquele metro quadrado de pé direito altíssimo e acústica complicada.

E aí, entre tantos outros rostos, se viram. Os olhos se vêem, como deve ser. O sorriso largo e o abraço longo e duradouro foi inevitável. Era o que queriam. E por motivos diferentes, como é peculiar em cada desencontro.

Ele lhe tomou pela cintura como sempre fazia, lhe beijou as faces e falou numa distância tão pequena de sua boca que ela quase se permitiu borboletas. E tinha também aquela coisa de não desprender as mãos durante toda a conversa. Ela assumiu que voltara a escrever e que um diálogo deles ainda naquele inverno tinha criado toda uma reflexão sobre pessoas e expectativas. Não teve tempo de convidá-lo a leitura, mas estava implícito e sabia que ele percorreria o olhar por suas linhas tortas. Já tinha quase esquecido o quanto gostava do som da risada dele. Mas era quase sempre melhor que as músicas que tocavam nos lugares abafados em que se tinham presentes…

Quando tudo ia bem, falaram de amor. E falaram muito. E aí chegaram aos livros, aos quadros e aos filmes. A menina-sem-sal passou e lhe tocou os ombros com as pontas dos dedos, acenando para o lugar que ocuparia naquele vão ausente de paredes. ‘Perfeita intrusa’, pensou Lúcia. Ele não pareceu preocupado com a bússola de novas direções e continou aos sorrisos, gargalhadas, proximidade e teorias. Uma mão ainda na cintura dela, e a outra segurando a uma outra mão de um par que sofria de  urgências. E a boca não distanciou. Era ao pé do ouvido, perto do nariz e raspando as bochechas. Notou que ele havia tirado a barba que ela gostava de tocar quando dançavam. Ela sentiu uma vontade imensa de bagunçar-lhe os fios de cabelo e a vida inteira, mas se conteve.

Escutou o causo do bêbado que uma vez lhe havia alertado – durante um pé-na-bunda e uma fossa de mágoas afogada na cerveja barata de um bar sujo –  que na vida só podemos viver três grandes amores. Ele confessou – aos risos aos olhos curiosos de Lúcia – que quase acreditava na sabedoria do errante, e que todo o resto era igual. Era ímpio, asséptico, tedioso e sem paixão. Era a sucessão literal e pura da expressão ‘mais do mesmo’. Amor de verdade, só a sorte de três nos era assegurada. Ele disse que já estava no segundo, e ela, achando que ele oralizava palavras tão vazias, disse que então tinha vantagem sobre ele, porque só tinha vivido um da tríade. E que lhe faltava um pouco de coragem para viver outro. E agora quem gargalhava era ele. Ela esboçara um sorriso. E era um dos verdadeiros que mantinha em estoque e que se multiplicavam na presença dele.

Deliciosamente cafajeste, pensou.

E recordou quando ele se despedia dela lhe mandando um beijo forte.

Ou quando os olhos negros se fechavam para beijar-lhe as mãos.

Quase perguntou quando teria a sorte de encontrá-lo solteiro, mas engoliu as palavras antes que pudesse despertar uma coisa que não poderia viver. Passar vontade ainda consegue ser pior do que imaginar como seria… Nada como a semiótica da nostalgia do arrependimento para nos privar do futuro do pretérito.

Saiu de perto, conversou com outros homens e o viu dançar. E como dançava bem, este cretino de doce coração! Mas dançava com a menina-sem-sal. Esta sim, embevecida. Ele, cumprindo roteiros. Lúcia tinha certeza que ele apenas fugia de um amor maior. A parte final da trilogia, quem sabe. Bêbados tendem a ter razão todo o tempo, é quase insuportável esta certeza esmagadora.

A vela de Jasmim-da-noite queimava quando ela relembrou a noite já em outra cidade. Mas ainda havia a mala para desfazer, outras histórias para contar, fotos para ilustrar e aquela preguiça iminente de quem passa horas feito pássaro preso em avião…

O efeito que ele tinha sobre ela ainda lhe fazia andar sem ter os pés no chão.

E, por isso, sorria intermitantemente.

Era um canalha.

Mas como era doce!

Quem mais enxerga arco-íris no fundo das poças?


Chapeleiro Maluco.

23 de outubro de 2012 por Camila

Eu achava bonita a recusa que ele tinha em se entregar ao prático, ao óbvio, ao manso e ao burocrático mesmo tendo todo o conhecimento e a capacidade para fazê-lo.

Ele queria mais. Ele queria música, aventura, o novo e mais palavras… Talvez palavras anônimas, mas, ainda assim, aquelas que verbalizam sobre a vida pouco responsável que escolheu viver naquela cidade onde se respirava fuligem, possibilidades e pessoas.

E acho que naqueles instantes eu o quis por perto porque sua boca soube gritar rebeldia enquanto a minha emudecia sobre o mesmo tema, mesmo que meus poros dilatassem em busca desse nobre objetivo.

Dediquei-lhe em silêncio alguns pensamentos enquanto devorava minha salada de kiwi, gergelim e múltiplas folhas verdes. Mistura esquisita, eu sei. Mas me faltavam opções. A salada me cansou muito rápido, mas o pensamento quis vir a tona. Digitei umas palavras soltas no celular, que rapidamente indicou a baixa bateria. Levantei e, aborrecida, peguei um gingerbread a caminho do caixa, paguei a conta e caminhei na garoa para casa. Era a idéia que queria existir.

Perguntava a algum lugar de mim mesma se deveria antecipar aquele convite que ele tinha me feito para sair qualquer dia e, aproveitando a oportunidade mística da chuva, convidá-lo para ver aquele documentário sobre os anos 90 que passamos a madrugada anterior conversando a respeito. O convite, evidentemente, dava acesso ao meu sofá. Justo o mesmo amontoado de almofadas em que ele se confessou – aos risos – um pervertido e me pediu em namoro mesmo tendo me visto apenas duas vezes na vida e sem ter se aproximado sequer 5cm da minha boca em nenhuma das ocasiões. O mobiliário não era tão extenso, mas, em cidades distintas, trocávamos idéias e confissões pouco secretas madrugada a dentro. Veja, isso não era do meu feitio, mas eu recentemente aprendi que a mágica só acontece quando eu me permito sair da minha zona de conforto…

Era inevitável e inexplicável, mas algo nele me deixava curiosa. Quem era e porque fazia as coisas do jeito que fazia? Porque queria ir embora da cidade das oportunidades e voltar para um canto tão pouco característico daquele estado que estava envolto numa placenta enfeitiçada aos meus olhos? O que havia naquela desordem e na complexidade de estar tão fora do eixo assim?

A noite segue fria, a luz artificial ainda ilumina e eu continuo esperando por um sinal cósmico para sair da dúvida entre ação e imaginação, afinal, eu sabia que hoje ocuparíamos praticamente a mesma latitude e longitude. Malditas coordenadas geográficas que acabam com minhas desculpas para me manter refocilada na mais completa falta de coragem!

Ainda estou imersa entre mais um texto que fala do que poderia ter sido ou um que conta apenas do fato que há no presente momento. Um sinal que me arranque da covardia de parecer uma menina fácil e carente e uma mulher que sabe o que quer e pouco se importa com os riscos.

Há dualidade em mim.

E há vontade de realização do que não precisa ser um encontro de almas, senão apenas uma noite divertida e com alguns momentos embaraçosos, já que ainda não estamos no nível da conversa mais fácil aonde palavras surgem e se completam. Apenas nos divertimos das histórias que contamos, que nem aquela-em-que-ele-riu-e-disse-que-eu-tinha-sido-cruel-com-ele-quando-lhe-confessei-que-ele-me-parecia-vocalista-de-banda-de-hardcore-na-primeira-vez-que-o-vi…

Nessa noite de dor de garganta e chuva intermitente, aproveito para ouvir Prot[o], uma banda foda das minhas épocas sorridentes e angustiantes no cerrado. Que saudades daqueles shows dissonantes e distorcidos em teatros pós-modernos… E, ops, estou tergiversando enquanto espero para ver se ele fica online e eu saio, subitamente arrancada pela certeza, dessa Wonderland em que me encontro.

Quem é você?
Cair na real.
Maravilhas para quem arrisca-se em novos mundos.
Pseudônimos.


Um hoje qualquer.

23 de outubro de 2012 por Camila

Enquanto permito que a chama da vela queime a essência da verbena há dois dias ininterruptos, eu espero. Eu espero com olhares que dividem minha atenção entre uma leitura indicada, uma antiga possibilidade e um novo horizonte. Espero notícias que devem chegar não sei de onde ou tampouco de não sei de quem pelo Instagram, pelo Facebook, pelo Blog, pelo Twitter… Ferramentas de comunicação pós-moderna que apenas nos escarram no rosto a velha solidão. É somente um novo jeito de estar só, acabo de concluir. É apenas um novo liquidificador de expectativas. É nada mais que uma nova forma de refletir a usual vaidade. Espelhos binários, poderiam se chamar.

A chuva não cessa, o sol insiste em anunciar que o novo dia chegou. Banho extra quente para alimentar a preguiça que irá me salvar de oito horas de trabalhos medíocres. Deito. A espera aplaca, a escuridão artificial inunda, o sono confunde e eu parto. O telefone irrompe as horas de silêncio, são 17h30. Será que ainda dá pra ver o sol? E chove. Hoje as águas não cansam de se fazer presentes. Lembro das pequenas atividades que me anunciam que há vida. E que o mundo insiste em mim.

‘Preciso dar um jeito nas coisas’, penso. E logo saio porta a fora para marcar alguns check no list da minha agenda. Algumas coisas foram postergadas, obviamente. Oh céus, não se pode mesmo fazer tudo. Pode?

Buzinas neuróticas veladas sob a cortina branca e o vidro entreaberto dessa cidade que parece ilusão mas que é de uma realidade concreta. ‘O que há de errado com essa gente?’, me irrito. Mas eu sei o que há de errado com elas. E talvez comigo. Não arrisco dizer em voz alta, claro, é dar chance demais para que pedras sejam atiradas pela simplicidade da resposta. Precisamos de uma análise antropológica e psicológica de cada gesto – ou de cada não-gesto – para aceitar que precisamos mudar. Precisamos? Mas isso dá um trabalho danado e a vida anestesiada e insatisfatória continua a apelar mais alto…

Nos falta tanto, Santo Deus.

Mas não podemos reclamar, não é mesmo? Temos o suficiente pra pagar as contas a cada fim de mês e alguns breves momentos de eutanásia nos sorrisos largos dos amigos e na noite que já cai outra vez mais…

Pense bem, você poderia ser daqueles que não têm nada.

Nem mesmo placebos.

Só a noite.

Castelo Rodrigo, Portugal 2010.