Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Por um triz.

28 de novembro de 2012 por Camila

E, naquela noite, morri de vontade de te dizer: -Você me inspira.

Ia falar assim, displicente e irresponsavelmente. Depois ia sorrir um sorriso malemolente só pra bagunçar aquilo que já há em ti. Mas mordi a língua. O caminho a ser seguido depois dessas palavras era perigoso demais. E já não havia mais pernas para seguir, tardes de preguiça para esperar, brisas para semear, expectativas para cultivar, certezas insólitas para formular e o verão inteiro para beber…

Eu precisava subir naquele avião sem olhar para trás, porque olhar e ver ali a sua cara de menino bobo era muita tentação pra uma alma que tinha que ir ainda que quisesse ficar. Quase pedi a Deus para que você não me abraçasse ou segurasse as minhas mãos com aquele seu jeito de romântico incorrigível, mas orar por isso seria crueldade demais com a gente e com a delicadeza toda de ti pra mim.

Saiba, meu bem, você vai sempre dançar muito suave na minha memória e habitar as lembranças daqueles dias amarelos muito bem vividos sob guarda-sóis multicoloridos. Ainda vou lhe procurar no caos do meu querer quando eu der xilique para que alguém me tire a areia dos pés sob pena de morrer de agonia dos grãozinhos entre os meus dedos e unhas meticulosamente pintadas de vermelho. O seu samba vai ecoar quando eu pensar que alguém acha a minha pele bonita e gargalhou da minha proposta de ficar pink néon (vítima da moda, ora ora!) nos dias infinitos de sal e de praia. Seu beijo com gosto de abacaxi há de conservar o doce da minha boca já desgastada pelo superficial das palavras vazias. E vou sorrir calada quando atestar para mim mesma que sim, o seu cafuné era mesmo melhor que o do vento, mesmo quando eu disse inúmeras vezes que não só para me divertir com a provocação ao ver surgir a rivalidade com o abstrato na sua testa. Agradeço pelas estrelas que você caçou e me deu em tantas noites de leveza, elas estão na bolsa que carrego comigo todos os dias contra o tédio absoluto da rotina. Desculpa por ter atrapalhado seu violão tão concentrado em lirismos com meus pedidos insistentes para que você abrisse a lata de leite moça na urgência indizível do brigadeiro pós-amor. Prometo que, em nossos amanhãs que querem existir, escutarei os seus apelos poéticos para desligar o meu celular que não pára de tocar e rompe a ânsia de nós dois. O medo da abstinência de você é tão grande que deliro (imagine só!) até mesmo ao concordar com a idéia de não mais ficar de mau humor quando você me despertar tão cedinho pra te acompanhar ao mar e jogar naquela prancha o teu corpo que conhece tão bem as curvas do meu. Nos teus abraços despreocupados e nos teus beijos tão entregues, menino, eu encontrei tudo aquilo que acreditei ter perdido.

Ouve as ondas? Pois então, desde longe elas embalam tudo que fomos e a vontade bem mansinha que repousa no querer que ainda há. Acho que é a sensação ilustrada daquela saudade azul que a gente achava que ia sentir quando chegasse a hora que quisemos repelir. Mas fizemos um pacto pela não-melancolia e pelo bem-estar absoluto de cada coração e, por isso, bravos como somos, seguiremos. Ainda há poesia. E haverá. Nós sempre teremos os horizontes, mas, veja bem, só quero dizer que a sua música composta e o calor de ti me fazem uma falta desgraçada neste inverno desafinado e sem propósito nenhum de existir.

Suas notas, meu querido, são as minhas também.

E, quando você me perguntar de novo, eu agora vou saber responder (sem pensar em demasia!) que prefiro mesmo é ser feliz. Já que razão – assim, razão mesmo – eu nunca vou ter. Nem mesmo por um triz.

Guardando o sol para cada chuva que há.

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La sorpresa.

28 de novembro de 2012 por Camila

-¿Te acuerdas de mí?

-Sí, creo que para siempre.

Assim começou a retomada de um diálogo textual que a faria sonhar por dias e noites a fio. No sabes cuanta ilusión me haces, cariño – pensou. E, por supuesto, sorriu.

Ela sabia que jamais esqueceria dele. Mas não estava certa se ele lembraria dos olhos verdes de menina que tantas vezes aparentou ser mulher. E, talvez pela incerteza, optou por começar a troca de mensagens com aquela tímida e insegura pergunta.

Lembrou dos olhos nus e castanhos que lhe fitavam (e devoravam!) a alma quase inteira – havia um pedaço virgem e inexplorado que ela guardava para não se sabe quem – e de como ele sempre sabia o que dizer. E quando dizer. Como ele lhe aparentava o tempo todo ser um alguém que sabia, sobretudo, o que fazer. E quando fazer. Não era meramente circunstancial, galanteador ou oportunista, era tão e somente um homem que lhe parecia saber das coisas e dos mistérios desse mundo. Menos dela. Dela, ele pouco sabia. E mostrava o tempo todo o quanto queria conhecer. Ambos faziam-se inéditos em cada um dos rápidos encontros que tiveram.

E aqui abro um parêntese para falar desses encontros. Era quase paradoxal o que faziam com eles. Os minutos passavam rápido entre cada sorriso que trocavam, mas eles conseguiam fazer com que o tempo se arrastasse e quase morresse de preguiça de passar. Talvez o tempo torcesse por eles. Sabiam aproveitar o ligeiro com qualidade. Eram olhares que duravam o suficiente para serem lembrados com um quê de vontade pouco apropriada para a relação que outros estabeleceram para eles. Toques breves que se faziam inesquecíveis, ainda que logo os corpos fossem ocupar continentes distintos. Mas não havia desespero, rispidez, vaidades ou desassosêgo. Veja bem, era fantástico como eles não tinham pressa, mesmo diante do pouco tempo que lhes restava. Era como se soubessem que, sem esforços, um dia haveria de ser o que fosse. Conformados com o próprio destino, em parte porque já sabiam que seria doce.

Há muito não se falavam, mas hoje ela amanhecera com uma coisa muito próxima a saudade. E sentia isso por ele. Era uma vontade de proximidade permeada em calmaria que não sabia explicar o porquê de existir, mas estava ali. Era um chamado. E ele respondeu da maneira mais bonita que permite o bom senso de um desejo não-consumado. Ele viria a seu encontro nesse país distante ainda que não tivessem planejado juntos coisa alguma. Ele chegaria no primeiro mês do ano vindouro quando ela – embalada pelas memórias líquidas de um passado recente e pelo para siempre desse mesmo dia marcado na mensagem do celular – ousou:

-¿Quedamos una cena?

– Claro!!!!!! ¿¡Cómo no?!!!! Será un lujazo para mim.

Ela sorriu (de novo, ele sempre tinha esse efeito sobre ela). Sorriu e, mostrando todos os dentes, começou o contar de horas (agora sim!) apressado para chegada de um tempo em que o próprio tempo queria se arrastar. Em que o tempo queria mesmo era permanecer, queria ser, queria estar, queria ficar. Tudo em transitivo direto.

Ouviu Beatles, imaginou como seria, escolheu a roupa e entendeu Lorca. Tudo isso em átimos de segundos no estímulo de uma mente impiedosamente romântica e fértil.

‘Me he perdido muchas veces por el mar
 con el oído lleno de flores recién cortadas,
 con la lengua llena de amor y de agonía.

 Muchas veces me he perdido por el mar, 
como me pierdo en el corazón de algunos niños.’

Recitou com a língua entre os dentes o poema há muito decorado e teve certeza que neste coração não se perderia, porque ali havia acabado de achar um quinhão do sonho de paz.

Ele se despediu com a promessa indelével de chegar. E agora falando a língua dela:

– Te busco. Beijinhos!!!!!

Mas ele já havia encontrado.

E ela já sabia disso.

…Y que vaya bien.

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Então vem.

25 de novembro de 2012 por Camila

‘- Ela parece distante. Talvez seja porque está pensando em alguém.
– Em alguém do quadro?
– Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
– Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
– Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
– E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?’
(“O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” de Jean-Pierre Jeunet).

Não costumava ser muito precisa, mas hoje tinha guardado bem as horas. Eram 2h48 de uma madrugada de céu de chão de neve e Mick Jagger embalava sua solidão num dos melhores discos de rock – de todos os tempos, que fique claro – que já ouvira. Between the Buttons era mesmo uma obra prima e parecia servir ao próposito de fazer-lhe companhia naquelas horas imensas.

Já estava meio desgostosa com a vida ao se levantar para virar o lado do vinil e encher a taça de vinho tinto quando se viu surpresa com os caminhos que seus pensamentos a estavam levando. –Ele é só um moleque, lembrou. Mas era ele, com aquele ar despretensioso que ele sabia ostentar, que ela queria agora na vastidão daquele sofá para dois ocupado somente por um. Era ele com sua barba mal feita e mãos indecisas que ela sentia acariciar suas pernas no fechar dos olhos. Era com ele que ela queria dividir sorrisos entre músicas e emudecer completamente na contemplação daquele céu de nublagem tão ordinário que hoje lhe parecia especialmente belo. Eram deles os braços em que queria entrelaçar os seus e se aninhar num desejo latente de proteção. Era por ele que ela queria sentir a culpa de ter traído o regime e ter praticado excessos quando sentisse seus dedos incertos e inseguros passearem pela sua barriga e pela sua cintura. Era no ombro dele que queria queria repousar uma mente exausta, ainda que ele não entendesse e nem quisesse saber o porquê de tanto cansaço e complicação.

Não havia ponto comum entre essas almas e por isso gritou por ele. Urrou em silêncio numa tentativa vã de alcançá-lo e arrancá-lo da surdez de uma vida tão distante da dela. Acreditou com cada pulsar de seu corpo que talvez aquele gemido o pudesse trazer para junto de si. Como se pudesse fazê-lo viajar em latitudes e chegar naquele apartamento tão longe do dele naquela cidade enorme que alimentava solidões. Era quando queria que um grito iniciasse histórias ao invés de acabar com todas elas. Um gritar de começos entre desconhecidos que talvez pudessem combinar. Uma voz abafada que ansiava por encontros entre eles.

Recordou vividamente do dia em que se viram pela primeira vez. Ela discutia política com gente pouco interessante e manuseava uma edição especial de uma revista do Elvis quando ele entrou na sala que já lhe era sufocante. Ela fez que não o viu e seguiu no diálogo frenético e nada importante, mas secretamente ficou curiosa sobre a sua figura jovem, descomplicada e de lábios castanhos e promissores que comprimiam um cigarro displicentemente. Tinha um rosto particular –  não era necessariamente bonito e nem feio –  mas era tão ele que ela teve que disfarçar a alegria de um novo oxigênio na rotina daquele lugar tomado de um entra-e-sai de gente sem prazer. Ele também conteve a mirada direta, mas lhe dedicou alguns olhares em intenção.

Ele era de uma timidez tão pura que manteve escondido os sorrisos e, quando ousava exibi-los, o fazia modestamente. O sorriso torto lhe encantou, fez dela mulher o suficiente para perceber olhares furtivos e teve vontade de romper a ausência de palavras entre eles e perguntá-lo se tão novo já gostava de jazz ao perceber que ele tinha um trompete tatuado no antebraço. Ela até hoje não entendia aquela música. Talvez não pudesse sentir coisa alguma tão profundamente para perceber o belo e a dor que poderiam haver naquelas notas que existiam apenas pelo dom da perfeição e pela técnica. Em sua imaginação, quase respondeu a própria pergunta ao dizer que era uma garota muito mais do blues, mas continuou apenas discutindo as eleições em São Paulo e escutando teorias políticas absurdas sobre a democracia pós-moderna.

Parou por um segundo para observar que era mesmo incrível o choque do mundo que habitava dentro dela e o mundo real a quem lhe reservava frases feitas e muita preguiça. Falava nos rumos da social democracia depois do pleito eleitoral paulistano, mas, internamente, concluía que I fall in love too easily e quase podia dançar fora de compasso quando Chet Baker pronunciava certas verdades como ‘I fall in love too terribly hard for love to ever last. My heart should be well-schooled ‘cause I been fooled in the past…’

A simples presença dele refrescava aquela monotonia, mas ela precisava ir embora daquele lugar. Haviam outros sonhos naquelas esquinas, amigos em bares e outro cara a lhe esperar numa realidade na iminência de existir. Piscou os olhos como quem acorda de um sonho paralelo que dura alguns minutos, ouviu Trouble no tom enigmático de Elvis uma última vez, se despediu daquelas pessoas que não lhe comoviam em absoluto e pegou a bolsa já muito apressada.

Desceram juntos no elevador e compartilharam andares de mil vozes aonde todos falavam, menos ele.  Ele ficava apenas atento e de vez em quando se permitia ao resto de nós um sorriso. Daqueles tortos que a tinham encantado. Ela podia apenas supor a bagunça que era a vida daquele menino tatuado, fã de jazz e vivendo nessa cidade vertical tomada por tanta fuligem e buzinas que ensurdecem os ouvidos para a poesia que insiste em haver. Ah, mas se ele soubesse do caos ordenado que era a vida dela…

Esqueceu brevemente daquele dia. Ignorou outras lembranças que imploravam por existir. Sufocou a expectativa. Voltou para essa noite fria e de abraços partidos. Respirou desesperança. Trocou o vinil porque achou que agora era a vez do Sticky Fingers ilustrar aquele vazio. Manchou os dentes de vinho e sentiu aquele vinagre nada aveludado arder nos lábios ressecados. Suspirou um certo desdém. Esperou consciente pela ressaca do amanhecer. E balbuciou:

-Vem, menino.

A semiótica do sentir falta do que não se sabe. Mas se é.

P.S.: Acordou para escrever esse texto. Escreveu no celular. Perdeu todo. Recuperou-se da frustração. Sentou-se no sofá. Reescreveu-o. Não é mais o mesmo e nem tem a mesma alma, mas insistiu em fazer-se presente na urgência de existir contra todas as apostas. Enfim, ei-lo.

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Números.

21 de novembro de 2012 por Camila

Estou exausta de pautar a minha vida por números: o dia do mês, as horas marcadas, os kilos que ganho e as gramas que perco, a faixa do disco acústico no som do carro, a escassez dos meus acertos, o sapato que me aperta, o tamanho da calça jeans, as gotas do remédio, a quantidade de amigos, os sonhos esquecidos, os centavos, as vontades que surgem, as calorias, o contador de palavras do editor, a idade impiedosa que não tarda em chegar, o salário, a minha altura, os erros que cometi e os que ainda não tive tempo de fazer, o começo-meio-fim de cada coisa, as manias, o egoísmo do dividir sem se dar, os minutos famélicos do despertador, a quantidade de pessoas da fila que me furtam a vez, as ruas inertes, o atraso do outro, a velocidade limitada em dois dígitos, o quanto falta, o muito que tenho, a precisão de uma fita métrica, a desgraça de um tempo sem tempo de existir, a demora para que chegue o que se espera, o grau da febre, o tamanho do apartamento, as medidas assimétricas do corpo, o valor das grandes coisas, a mesquinharia do dia a dia, o enorme tédio de uma régua e as favas contadas…

Há algo inumerável e inquantificável nesta vida?

Porque é isso que eu quero.

As estrelas. O infinito. A água do mar. O amor de verdade. A estupidez. O perder de fôlego por muitos segundos que só uma gargalhada permite. A respiração profunda. Os eus. Os tus. Os dias de sol. As gotas da chuva. Os flocos da neve. As folhas secas. A primavera em flor. As histórias que teremos para contar. A soma de tudo que somos. O cheiro de casa. As sementes da melancia. O caminhar. O idílico. A íris da alma. As tardes em azul. A inspiração. A graça de estar. O suave. Os horizontes. Os banhos de lagoa. O vento que faz cafuné. O sublime. A preguiça besta da manhã. O fechar dos olhos. A beleza do sentir. O abraço que não finda. A poesia que há. O identificar com a arte de outra pessoa. O beijo ansiado. O perdão. A liberdade. A ambiguidade das lágrimas. A sensação de estar no lugar certo na hora certa. A busca. Saudades honestas. A leveza do esquecimento. As pontes entre nós. O conforto da própria pele. A rebeldia. O desapego. A pressa de ir e de vir. O reinventar. As urgências. A tenra infância. A batida incansável do coração. A imaginação. O ritmo da música que nos habita. O reconhecer. As escolhas. As curvas. As estradas. As contradições. A lucidez. Os livros na estante. A loucura inocente. Os filmes que contam de nós. As cores nos quadros. Sorrisos sinceros. O desbotar das fotografias. Os recomeços. As colheres de açúcar. As promessas que se cumprem. O encontro. A falta do exato. A calma. A lembrança. O novo. As nuvens. O meu tempo, porque ele é tudo que sou. 

E os números – vãos e efêmeros que são – não contam o tempo. Eles matam o tempo. Fazem da nossa principal matéria algo ordinário, comum e cotidiano. E o tempo é tudo que nos resta. É a nossa poesia viva. É o nosso pulso.

…Quero mais de tudo aquilo que que seja imensurável.

Que seja eterno, pois. Que seja mais justo com a imensidão que é a vida.

Que o contar seja somente de conto. E de canto.

Que encante!

Sublimando e brincando de abstrato.

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Quem sabe de mim sou eu.

20 de novembro de 2012 por Camila

‘Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, da quedas, dos medos, dos choros.’

(ABREU, Caio F.)

Das minhas compulsões, da voz rouca, do meu acordar descabelado e do meu adormecer emudecido. Das olheiras das noites insones. Da opacidade do olhar. Da bagunça interna e contrastante. Dos lençóis sujos de tanta limpeza. Da castidade amedrontada. Da recusa do dia. Da insegurança vaidosa. Da confrontação entre o que quero e o que posso, do sonho puro com a realidade bruta. Do muito que sobra e do pouco que me falta. Da proteção. Da vastidão. De estar trancada num mundo de possibilidades. E de não saber o que fazer. Do pavor que causa a farsa. Da autosabotagem. De ser carceireira da própria prisão. E do apego à fantasia.

Quem me vê sorrindo, não imagina os pensamentos exaustos que me escravizam e que me atravessam a mente em dó dissonante. É uma luta estar inteira. É convencer-me todos os dias que tudo ainda vale a pena. E que ainda há um sorriso para dar.  Há o inédito na próxima esquina.

Sou eu, também. Eu e o que Pessoa chama dos eus de mim.

Meu carro de rolimã, minha cara de romã e a tal inspiração de Rodin…

Tateio – ainda trôpega e de ressaca do porre de abstinência que ando tomando diariamente há anos – o que me alcançam as mãos em busca de papel para contar-lhes sobre as minhas urgências e minhas bebedeiras abstêmias. No guardanapo e de improviso irresponsável, falo depressa. Digo do que pareço não saber. Só que eu sei. E talvez eu não conte. Mas há aqui uma solidão insistente.

Sou eu um mundo que permite poucos, mas abraça muitos. Sou eu o próprio horror iminente de ser incompreendida, abandonada, difamada, desaparecida, ingrata. Subversiva, corajosa, imatura, arrogante. E burra. Mas não me arranquem as asas agora.

Abraço-me a minhas delícias e deixo para depois – por mais aluns minutos, talvez – as minhas dores. Tudo que eu sou.

Silencio. Respiro. Esqueço.

‘Que seja doce’, sussurro.

E apago a luz.

Agora sem fantasmas.

Só o cansaço de ser.

Múltiplos e plural.

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