Arquivos

Diálogos da Invisibilidade VI: Estocolmo.

11 de setembro de 2013 por Camila

“E que bobagem é essa de ‘esse-lance-todo-tem-me-deixado-assustada’? Sou um cara bacana e não um zumbi foragido de ‘Tomb Raider’. Pombos em praça pública ficam assustados, não garotas diante do amor. Sim, amor. Ela mesma disse, somos ótimo juntos, temos tudo em comum e muitas histórias para compartilhar, e o sexo, Deus do céu, nem Anaïs Nin saberia descrever. Se isso não é amor, eu não sei o que é. Venha com o peito aberto, estufado e cheio de coragem. Ou vá embora. Mas depois não vem me dizer que tem coração.”

(NUNES, G.)

Dirigia pelas curvas sempre retas de Brasília com o velocímetro marcando 100km/h às 5h30 da manhã quando um amigo – que costuma ser extremamente carrancudo e avesso a explosões sentimentais – me arranca um sorriso. Um sorriso sincero num fechar de olhos. Ele dizia:

-Vocês fazem um par tão legal, sabe? Mesma sintonia, eu acho. Ele te faz bem, é tão diferente daqueles seus sempre complicadíssimos relacionamentos. Tem uma certa calma e uma certeza no olhar de vocês quando se vêem… Não sei, talvez eu esteja só bêbado, mas tô enganado? E fala a verdade. Sei que às vezes é difícil assumir que está bem quando o resto do mundo anda frustrado…

Voltávamos de uma festa na casa de um alguém esquecido e irrelevante quando ponderei sua pergunta e sua afirmação. Lucas era um grande amigo que me visitava na Capital e tínhamos cumplicidade o suficiente para que ele invadisse meu mundo com indiscrições. Fotógrafo, era um canceriano sentimental que se escondia atrás de negações e garotas manipuladoras que ameaçavam suicídio toda vez que o amor acabava. Fora a trabalho para cobrir um festival e ficou hospedado na minha casa por uns dias. Conseguiu revelações pelas milhares de fotos que tirava de mim sem que eu percebesse e concluiu: –é, garota, você está feliz. Está, sei lá, leve.

-É, talvez sim. Dá até medo, sabe? Tão feliz que assusta. Que coisa louca, né? Não estou acostumada com essa mansidão, com essa vida sem gritos, com essa ausência de acusações, com essa paz no outro. Espero que eu saiba como me comportar. Tomara que eu esqueça daqueles outros padrões de comportamento radioativos. Mas, você sabe… Old habits die hard.

Deixei Lucas no aeroporto e vomitei a cerveja barata que flanava em meu estômago antes de deitar naquele amontoado de lençóis, roupas e toalha que já era ninho na minha cama. Droga, amanhã está fora de questão acordar antes dàs 14h. Maldita futura ressaca, pensei.

Não sei se a felicidade realmente desopila o fígado, mas a verdade é que despertei bem. Ele estava tocando a campanhia e eu, descabelada, abri a porta. Tentei esconder meus pés calçados com meias de dedinhos ridículas, mas ele me abraçou bem forte e disse ‘estou com saudades’ de um jeito tão bonitinho que eu esqueci que era domingo. Eu também estava com saudades, mas, mais que isso, estava de camisola e com restos de rímel nas olheiras (apenas garotas podem se sentir um urso panda no day after de uma festa, me acreditem!). Queria me esconder. Ele, tão lindo e tão vivo. Eu, com um olho aberto e o outro ainda fechado, parecia um filhote de pug engolido por um furacão.  Não sabia o que fazer com a presença dele ali. Não sabia como ser vulnerável a alguém. Não sabia me permitir à entrega aos olhos de um amor sem meu batom vermelho, meu salto alto, minha pose de mulher fatal e minha ilusão de perfeição. ‘Você está linda, pára de olhar pro chão’, ele disse. Eu só repliquei com um sorriso tímido e um ‘e você está louco.’ Achei que ele ia, sei lá, dar por encerrada a conversa e eu poderia ir tomar um banho pra virar gente. Mas não, ele era incapaz de ser realista e deixar pra lá a alma gentleman que lhe coube nesta vida quando mandou a seguinte tréplica: ‘não sou louco, Marcela. Sou um homem apaixonado. Por você, garota, por você. Eu gosto de você. Quer dizer, eu gosto muito de você.’

Pronto. Medo, terror e pânico. E meu silêncio. Minha mudez onipresente  – e contrastante com todos os outros momentos da minha vida – quando alguém falava de sentimentos para mim. Pior, por mim. Eu não sabia lidar com essas doçuras desinteressadas, com esse declarar por declarar, com essa pureza de palavras, com esse carinho e querer. Eu morria de medo de dizer a coisa errada, de fazer a coisa errada e de estragar tudo só em respirar. Eu tinha convicção que tinha nascido pra errar nessas coisas todas de amor e eu sabia que, cedo ou tarde, eu estava fadada a sucumbir ao perigo que é ter um relacionamento funcional, equilibrado e biunívoco.

E é claro, é óbvio, é ululante que eu fracassei. Não no momento das palavras com o meu calar. Não no meu congelar ao ouvir todas as coisas lindas que ele me falava. Mas eu fui, sim, veja que coisa triste, minando o bonito e o sincero que a gente construiu com a minha mania de fazer escolhas erradas e de agir inadvertidamente contra mim mesma.

Lembro muito dele desenhando nas minhas mãos os mapas dos lugares para onde queria me levar (Roma era sempre uma constante dele, e o México sempre idéia minha, eternamente influenciada pelas cores e as paixões arrebatadoras de Kahlo). E do horizonte para onde voaríamos quando consertássemos nossas asas que tinham caído perdidas no Lago Paranoá. ‘Devem estar lááááá no fundinho, já enterradas pela areia’, eu dizia, num certo pôr-do-sol. ‘Não tem problema, a gente arruma outras’, ele sorria e me animava com amanhãs.

A fita dele me chamando pra ir junto – pra bem pertinho –  de tudo que era bom e real é um eterno replay na minha mente. Na minha cabeça de infinitas reprises de momentos que eu mesma destruí e que agora sou obrigada a conviver em tortuosas lembranças vívidas de tudo que eu não tenho e tudo que eu não sou, embora já faça tanto tempo. Acho que, no fundo, eu sempre tive muito medo das coisas que podem dar certo, sabe? Uma espécie de Síndrome de Estocolmo com o drama e os finais infelizes que terminam com o travesseiro ensopado.

Um tal de um apego enorme que me faz inquilina de cativeiro das minhas péssimas escolhas. Um ser carcereira da minha própria prisão. Eu o vi tantas vezes e quis chamá-lo de volta, mas eu não podia ameaçar aquele sorriso. Não novamente. Vê-lo com todas aquelas outras garotas me fez acreditar que ele estava melhor sem mim, contudo, eu sabia que não. Mas qual era o ponto em trazê-lo de volta se eu faria a mesma coisa? Era pura vaidade. E olha, eu posso com o peso de ser covarde e de ter medo do amor e dessas coisas todas. Mas eu não suportaria o de ser egoísta, isso jamais.

-Sinceramente, garoto, me desculpa. Eu sempre tive uma inclinação muito grande em escolher o errado por acreditar de verdade que poderia ser o certo seja lá o que o certo for. Ou por Síndrome de Deus, você entende? De achar que eu posso consertar e salvar as pessoas e as coisas todas que formam o que são essas pessoas tão erradas no meu tempo certo. É confuso, eu sei. E você é meu namorado, não meu psicólogo. Aliás, eu detesto terapia. Meu negócio é o exagero, não o equilíbrio. Sou do time das paixões, não da sanidade.

Infelizmente ele não foi o único que eu machuquei irreversivelmente com a minha tendência autodestrutiva e o meu medo do que pode dar certo. Eu deveria usar uma plaquinha que sinalizasse ‘fique longe’ no meu pescoço. Eu era um repelente humano que atraía apenas os bons corações enquanto degustava meu copo de fel. E eu só queria despedaçar aquele  coração bandido que me afogou em ressaca sentimental.

É, Lucas, meu velho amigo, uma razão entre certezas inseguras eu tinha… Os velhos hábitos demoram mesmo a morrer. E eu continuo refém do que me aprisiona: Memórias, arrependimentos e renúncias.  Cada dia mais exorcizadas, mas ainda pesando algumas gramas nas asas de um pássaro que quer ser livre e que não consegue se perdoar pelas próprias injustiças.

 Hoje não dá. 

'I desire the things which will destroy me in the end.' (PLATH, S.)
‘I desire the things which will destroy me in the end.’ (PLATH, S.)


Diálogos da Invisibilidade V: Das faltas que você me faz.

10 de setembro de 2013 por Camila

Don’t get up.  I can’t see the sunshine. I’ll be waiting for you baby, ’cause I’m through. Sit me down. Shut me up. I’ll calm down and I’ll get along with you…

Eu sinto falta de você interrompendo as minhas frases absurdas, as minhas acusações infantis e palavras ásperas com um beijo. Eu preciso que você me cale todos os dias para que eu não tropece nos meus verbos, nas minhas ações impensadas e nas minhas orações subordinadas.

Eu sinto falta de você andando apressado em minha direção com o seu All Star encardido, seu iPod ensurdecedor e suas mãos enfiadas nos bolsos do jeans tão surrado. Eu preciso que você me leve com você por qualquer caminho que você for, por qualquer poça de água que você pisar e por qualquer lugar que escolher.

Eu sinto falta de você segurando o meu rosto com as duas mãos, se surpreender com a minha temperatura ‘de mortinha’ e encostar meu nariz na sua barba para aquecê-lo. Eu preciso, eu preciso tanto que você me salve do frio das noites, do gelo das manhãs e do inverno da cama.

Eu sinto falta de você abrindo a porta da minha casa com a chave que eu te dei e subindo as escadas pro meu quarto ansioso para me contar as novidades de um dia quase comum. Eu preciso das suas cheganças, das suas voltas e dos seus retornos.

Eu sinto falta do seu jeito desastrado de errar e dos seus olhos em tempestade me pedindo perdão, jurando-que-mais-uma-vez-nunca-mais-vai-esquecer-de novo-como-isso-que-você-faz-sem-querer-me-tira-do-sério. Eu preciso dos seus acertos inesperados, dos seus consertos precisos e das suas calmas nos meus mares agitados.

Eu sinto falta de sentir o seu coração pulsar através do seu pijama quando eu me aninhava pra dormir no seu cheiro de azul,  bem ali, naquele quadrante do seu peito que era o meu canto. Eu preciso do seu corpo, do seu apoio, do seu sorriso, de ver você dormir e de acordar no mesmo lugar em que adormeci.

Eu sinto falta de você soprando em mim o chantilly do seu cappuccino cheio de planos e irritando o garçom com a sujeira que você fez na mesa daquele bistrot esquecido que a gente freqüentava. Eu preciso do calor dos seus sonhos, das certezas dos seus passos e dos traços dos seus desenhos.

Eu sinto falta de você me observando, me navegando e me descobrindo com a paz da espera antes de me arrancar de um mundo meu e construir para mim um mundo que é nosso, antes de me roubar pra você com a demora de um beijo. Eu preciso da invasão do mundo seu, do seu olhar pra mim e do seu abraço que nunca partiu.

Eu sinto falta de você medindo a distância entre a minha nuca e o final das minhas costas (nas covinhas que você amava, lembra?) pelo número de beijos possíveis nesse percurso. Eu preciso que você calcule –  de novo-pela-milésima-vez – o número de sinais e de sardas do meu corpo toda vez que me deito sem blusa pra dormir ao seu lado, eu preciso (muito, muitíssimo!) da sua exatidão.

Eu sinto falta de você me ouvindo falar empolgada do belo das coisas que me tocam e dizer que estava apaixonado por mim, justo ali, sem que eu nem esperasse, bem no meio de uma divagação qualquer e insensata tão comum a mim. Eu preciso das suas surpresas, dos seus rompantes, dos seus inesperados.

Eu sinto falta de você reclamando da minha bagunça, das minhas roupas pelo chão, do meu sapato fora do lugar e da toalha molhada que esqueci em cima da cama. Eu preciso de você cumprindo as promessas de desordem, juntando os nossos pedaços e da sua liberdade quando me aceita como sou.

Eu sinto falta de você morrendo de rir ao me ver comendo melão, porque, aparentemente, isso me deixa parecida com um guaxinim. Eu preciso, eu preciso muito das suas comparações lúdicas no meu dia-a-dia de pessoas sérias que se vestem de cinza e nunca sorriem até conseguir assinar contratos e bater recordes de valores capitais.

Eu sinto falta de você apertando minha barriga como se eu fosse um bichinho, comprando comida pra casa e levando meu cachorro pra passear enquanto eu me perco em páginas e películas. Eu preciso da sua ajuda na rotina que me pesa, das suas fugas e do seu acalanto.

Eu sinto falta de você repousando as mãos no meu corpo e entrelaçando os seus dedos nos meus porque – na sua cabeça – não há motivo para não grudar em mim estando já tão pertinho. Eu preciso da sua pele, dos seus cabelos longos e do você que você me deu e que nobody knows

Eu sinto falta de você secando as minhas lágrimas e sendo invencível contra tudo e contra todos que querem me fazer o mal até mesmo em pensamento. Eu preciso, eu preciso desesperadamente (e mesmo sem nunca tê-lo deixado saber) da sua proteção, dos seus abrigos e das suas batalhas contra a escuridão.

Eu sinto falta de você me mandando mensagem musical no meio da manhã para reclamar do vazio que ficou o nosso ninho porque parti tão cedo pra faculdade. Eu preciso do pão de queijo que você trazia no fim da tarde, das flores que você regava sem saber como e da sua insistência insuportável para que eu ouvisse aquela banda que você amava e que eu detestava.

Eu sinto falta de você não me deixar sentir nenhum tipo de terror noturno ou preocupação mundana ao seu lado porque qualquer ameaça era defensável. Eu preciso da sua força, da sua constância, do seu (super) heroísmo e do seu pavor ao abandono.

Eu sinto falta de você suspirando alto e perdendo a paciência em voz baixa porque eu não fico pronta-nunca-já-que-não-acho-meu-rímel-e-sair-de-casa-sem-super-cílios-é-humanamente-impossível. Eu preciso da sua tolerância com os meus atrasos, com o meu vestido curto e com as minhas escalas de prioridade. Mas, só hoje, então, preciso te contar que nunca mais vou perder a hora porque eu finalmente arrumei minha maquiagem e meu armário de um jeito muito funcional que te deixaria orgulhoso e que agora eu tenho TOC de organização.

Eu sinto falta de você dizendo pra sua mãe que conheceu a mulher da sua vida quando saiu comigo pela primeira vez e ignorando a passagem comprada meses antes para ir viver na Inglaterra dali a 30 dias a partir daquela noite, mas pesquisou qual o cheiro de Paris pra poder me contar e alegrar a minha fantasia francesa. Eu preciso me espantar de novo com o seu romantismo, com a sua velocidade e com as suas decisões sobre nós.

Eu sinto falta do que você sentiu por mim quando nos encontramos tão brevemente naquela confusão de gente que falava tão alto naquele pub já muito barulhento. Eu preciso sentir medo do seu amor, do seu querer, da sua vodka, das suas virtudes e de como foi tudo fácil e simples para nós.

Eu sinto falta de você me proibindo de desistir. Eu preciso do seu acreditar, do seu colo e da sua alma que conforta tão bem a minha.

Eu sinto falta das suas mãos trêmulas ao conhecer minha família e meus amigos, preocupado com o peso de uma desaprovação. Eu preciso que você saiba que todos eles acharam que ninguém nunca foi tão digno de mim, tão companheiro, tão adequado e tão capaz de me fazer feliz.

Eu sinto falta de você criando ângulos para tantas fotos que contam a nossa história. Eu preciso te dizer que tenho horror do desbotar dessas imagens, de virar passado e do ser estático.

Eu sinto falta do seu respirar junto ao meu. Eu preciso do seu movimento, de te assistir ao vivo, de não saber de você pelos outros, de construir memórias ao invés de vivê-las e de saber que eu sou sua.

Eu sinto falta de você me dizendo o quanto sentiu saudades de mim nas horas lentas do dia, entre gente que se arrasta e que quase vive. Eu preciso que você sinta tanta – mas muita mesmo – saudade de mim e que receba um sinal mágico da vida te dizendo pra voltar porque só eu sei andar pela casa com a sua camisa xadrez amassada e o cabelo desgrenhado num coque que deixa o meu pescoço livre ao seu imaginar (e que você imagina tanta coisa).

Eu sinto falta de você me pedindo pra ficar pra sempre e nunca mais ir embora a canto algum. Eu preciso que você me peça de novo em casamento pra que dessa vez eu diga sim e possamos ir para o Kansas logo.

Eu sinto falta do seu maço de Malboro Vermelho largado em cima da televisão, ali pertinho dos DVDs. Eu preciso que você me prometa que vai parar de fumar mesmo que não tenha a intenção de cumprir, só pra me enganar com esse seu charme enorme e o piscar de olhos sedutor.

Porque é o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que meus lábios não conseguem apagar. É o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que eu pronuncio quando quero compartilhar minha felicidade, quando choro sentada no chão da cozinha abraçada ao seu velho moletom, quando canto mais uma música de nós dois e quando estou morrendo de dor de dente, de cólica, de cabeça e de estômago. É o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que eu não quero e nem posso esquecer. É o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que me faz pedir perdão pelo mal irreparável que eu te fiz. Porque é o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que deixa claro o quanto eu não sei ser o que te faz sentir falta e o quanto eu precisava que você sentisse.

É só você. E eu não suporto a idéia que você esqueça de quem sou eu. Eu preciso que você queira voltar e ficar no pra sempre que um dia eu neguei.

A gente só vive uma vez em cada segunda chance.

Voltando muitas vezes pro lugar e pro nosso conto de onde nunca saí.
‘Light… We need more light, beautiful Paris.’


Diálogos da Invisibilidade IV: Caçando luas.

9 de setembro de 2013 por Camila

‘Assim, na América, quando o sol se põe, eu me sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey, e consigo sentir toda aquela terra crua e rude se derramando numa única, inacreditável e elevada vastidão, até a costa oeste, e a estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando naquela imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças
 devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e você não sabe que Deus é a Ursa Maior? A estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria, reluzindo pela última vez antes da chegada da noite completa, que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia, e ninguém, ninguém sabe o que vai 
acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice.’

(KEROUAC, J.)

Não, eu não me levantei do sofá pra ver o eclipse. Nem a chuva de meteoros. Nem o arco-íris depois da tempestade. E muito menos Vênus grudada na Lua. Vênus? Por sinal, a Vênus é uma louca que, nessa proximidade da regente das emoções humanas, causa uma hecatombe nos corações. E, anos depois, esses estragos ainda ecoam nesse músculo involuntário e senhor de almas.

-Não vi nada a olhos nus, mas vi fotos de todos esses fenômenos (palavra que sempre me meteu um medo enorme, diga-se de passagem), fique sabendo. Acho tão bonita a escuridão do céu, sabe? Aquele momento em que as estrelas mais próximas não mais se acanham e se fazem visíveis, mostram para nós uma luz multicor e a gente fica brincando de impossível ao contá-las ou a procurar a constelação que é talvez de onde viemos cada um. Quem sabe um dia seja para lá que voltemos, né? Mamãe sempre me disse que viramos estrela quando fugimos ao alcance dos olhos terrenos. Ela nunca falou de paraíso e nem de inferno, fala sempre do cosmos e de tudo que ali parece tão secreto. Já te disse que queria ser astronauta quando era pequena? Imagina, ficar por ali flanando entre poeiras, escorregando nos anéis de Saturno (ele sempre me pareceu muito bravo, veja bem!) e fugindo desesperadamente dos buracos-negros (socorro!) e cometas desgovernados. Quem sabe fazer um ou outro amigo de três olhos, dois narizes e cinco bocas. Talvez esses verdinhos-azulados entendam melhor das coisas do que nós, não é? Quem era mesmo que pedia ajuda a eles? Acho que era o Raul, mas minha memória já não é mais tão prodigiosa quanto foi na minha infância.

Foto é menos real? Menos real que o quê? Que o céu repartido e rabiscado pelos prédios de São Paulo? Desculpe, mas eu não sei como enxergar coisa alguma num céu loteado em centímetros cúbicos pelas alturas absurdas dessas construções verticais. Mais horizontes e menos fronteiras entre nós e o céu, por favor!

Nem todo mistério é passível de ser visto. Mas nem todo mistério é fundamentalmente secreto: Ainda que nada óbvio, é possível ser sentido se você se fechar para tudo que é menor.

E eu? Eu sinto tudo em mim e sinto tudo de tamanhos diferentes, é por isso que às vezes nem eu posso comigo mesma. É justinho por isso que tanto sou desproporcional, descabida, desequilibrada e deslocada. Tudo que sinto é em ebulição demais. Toda a regência dos astros. Toda a influência das marés. Todas as fases da lua. Todos os desejos de Netuno. Todos os cochichos das brisas. Todas as gotas de chuva. Toda entrega. Todos os hormônios. Toda a imprevisibilidade. Toda negação. Toda vontade. Todo destempero. Todo do outro. Todo você.

A astróloga já me mandou tomar cuidado com o que quero. Com as minhas tendências. Com os meus vícios. Com os meus exageros. Com meus devaneios. Com a profundidade desnecessária que aplico ao comum. Com a poesia que nunca parece cegar meus olhos. Com a rejeição à normalidade e à padronização do mundo homogeinezado e genérico. Com a ruptura completa e violenta aos vínculos rasos de gente vazia. Com a luxúria, a profanidade, a ira, a gula…

Sou uma pisciana louca (olha o pleonasmo, garota!) e desregrada que anda morrendo de medo do tolhimento e da proibição que leva ao cinismo compulsório. Uma romântica que anda convivendo com a antítese de frear impulsos e conquistar coisinhas burguesas. Uma amante há anos dos silêncios das madrugadas e das solidões encontradas nas esquinas da minha casa, do meu corpo e das diferenças do mundo. Uma companheira eloqüente dos amigos de muitas vidas, das conversas sinceras, das discussões passionais e dos diálogos inaudíveis a quem não pode reconhecer a mágica que há na sintonia. Uma insensata tão consciente que anda procurando por onde perdeu muitos dos seus pedaços (você viu algum deles por aí?). Uma desastrada que troca os pés pelas mãos e anda tropeçando pelas pausas de mil compassos de um tempo qualquer. Uma crente em lealdade vagando num mundo perdido em competições vãs, mesquinhas e vaidosas. Uma desmedida que faz mais do que pode e menos do que deve. Uma descompensada que não sabe quando e nem como alguma coisa será, por fim, suficiente. Uma sonhadora que acha que o que realmente importa não tem preço, mas que paga caro por cada hedonismo que insiste em cometer. Uma insana de paixões incontroláveis, indizíveis e que se apagam mais rápido que a centelha de uma vela que quer brilhar no meio de furacões (-falta o elemento terra no seu mapa astral, é por isso -, me disse a dona que conversa com estrelas.) Um espírito livre que sempre quer ficar, mas que vai embora sem nenhum aviso claro ou festa de despedida. Uma completa irresponsável com as coisas supérfluas e apegos pequenos. Uma errante que pula no abismo de olhos abertos pra poder contar depois como foi fantástica a experiência da vida.

Por onde anda a minha estrela do Oeste, afinal?

Kerouac, seu velho safado, me responda.

'Me preguto si las estrellas se iluminan con el fin de que algún día cada uno pueda encontrar la suya.'
‘Me pregunto si las estrellas se iluminan con el fin de que algún día, cada uno pueda encontrar la suya.’ (El Principito)


Diálogos da Invisibilidade III: Do por vir.

8 de setembro de 2013 por Camila

‘I wanted those waters to be blue. And they were not. They were the nighttime waters, and how I suffered then straining to remember the seas that a young man’s untutored senses had taken for granted, that an undisciplined memory had let slip away for eternity. The Mediterranean was black, black off the coast of Italy, black off the coast of Greece, black always black when in the small cold hours before dawn. (…) What can the damned really say to the damned? I never stepped ashore at Piraeus. Yet in my mind I roamed the Acropolis at Athens, watching the moon rise through the open roof of the Parthenon, measuring my height by the grandeur of those columns, walking the streets of those Greeks who died at Marathon, listening to the sound of wind in the ancient olives. (…) And yet nothing turned me from our quest and nothing could turn me, but over and over, committed as I was, I pondered the great risk of our questions, the risk of any question that is truthfully asked; for the answer must carry an incalculable price, a tragic danger.’

(RICE, A.)

Entrou apressada no Starbucks, sentou-se sozinha com um livro nas mãos e comeu um cinnamon roll quase se engasgando. Fugia da garoa e do cinza do céu. Enquanto a fome ia embora em parcelas de mordidas agora lentas, ela fechou os olhos e re-ilustrou mentalmente algumas das cenas daquele verão de promessas esquecidas. O drink de limão limpava a garganta do açúcar e as memórias obsoletas pareciam ainda mais frias e distantes.

Porque a chuva inspira tanta poesia e solidão? Porque aquele sentimento tão comum de melancolia ao olhar o mar salgado e nublado que vi naquela tarde de ressaca? Porque esse maremoto travestido de calma? Porque o eterno quebrar e desconstruir? Porque castelos viram ruínas com forças mínimas de pressão? Que segredos vão e voltam nestas ondas? Quantos amores se afogaram? Para onde vão as pessoas quando nossos olhos não as alcançam mais? E porque tornou tão cinzento um verde que era vivo? – indagou.

E não conseguiu ignorar as perguntas que se sucederam a estas e outras mais. Não eram necessariamente perturbações filosóficas e literárias que mudariam o mundo, eram apenas questões ilusórias e sem respostas repetidas por vezes e mais vezes em cada história dos outros, em cada violência, em cada ruptura, em cada abandono, em todo o amor. E ela nunca lidou bem com a falta de respostas para suas milhares de perguntas. Era incômodo viver sem saber. Parecia simplesmente insensato e um desperdício refocilar na ignorância de todas as coisas que lhe tangiam. E eram muitas as coisas que pertenciam ao seu universo de plurais. E foram muitas as pessoas que fizeram abrigo por ali. E tudo isso era parte do que ela era. Ou ela era inteira.

Fez cara de nojo ao recordar da maresia em seu cabelo e lembrou do profundo desespero que lhe causava a areia molhada entre seus dedos dos pés. Agradeceu por estar longe da umidade, do sal e já devidamente calçada com as velhas sapatilhas vermelhas que pisavam livre de graciosidade o concreto bruto que era a sua realidade.

Mas se era isso a vida, então que fosse possível encontrar formas mais doces de viver. E que fosse sempre novidade se insistisse em ser a mesma. No fim das contas, ela tinha uma certeza inabalável que as coisas iam dar certo. Porque tudo existia para funcionar, afinal. Funcionaria. E pronto. Me contem uma coisa bonita de vocês que eu garanto o meu final feliz, pensou.

Afastou a exaustão dos mil pensamentos recorrentes, deixou-se molhar pelas gotinhas leves, suspirou profundamente, sorriu com a sutileza que traz o sossego, abriu o guarda-chuva resignada pelo medo da pneumonia e caminhou sem rumo, mas segura de que a cada passo chegaria mais perto de um lugar seu.

'To unpathed waters, undreamed shores.' (SHAKESPEARE, W.)
‘To unpathed waters, undreamed shores.’ (SHAKESPEARE, W.)


Contos de Verão IV: Matheus.

8 de setembro de 2013 por Camila

Para quando você existir.

Matheus: É assim que você vai se chamar. É assim que eu imaginei você.

Chegando abruptamente com todas as suas certezas, as suas arrogâncias, os seus acertos. E os seus eventuais erros, ainda que você tenha sido terminantemente proibido de cometê-los sucessivamente. Invadindo a minha vida com o seu jeito seguro de quem tem a mais brilhante das mentes que ocupa espaços de mundos tão comuns, com a idéia de você me perturbando no meio do meu banho ou emaranhando meus cabelos tão longos.

Sendo meu Édipo tão sério e ostentando o seu sorriso torto, quase desaprovando tudo aquilo que fiz durante meu dia por ser tão abstrato e distante de resultados a curto prazo. Mas aplaudindo em silêncio todos os meus desafios e horizontes criados. Falando – de vez em quando, é bem verdade – que inveja o meu poder de desconstruir e recomeçar: Reconstruir castelos e demolir o ordinário dos dias que levam ao tédio e à dor.

Zombando da minha moral e de uma suposta pureza que trago em mim, mas respeitando cada centímetro da formação do meu ser e do povo que chamo de meu. Compartilhando cada sonho, desenhando com perfeição um futuro em nós, planejando com cuidado como realizar cada uma das minhas vontades de menina mimada e de mulher imprevisível para que eu nunca queira ir embora e acabe- perdida-por-aí-com-essa-minha-cabeça-avoada e perguntando preocupado: ‘Já pensou você sem mim? Quem ia te cuidar pra te colocar os pés no chão quando sua cabeça passeia entre nuvens?’. Sendo uma força da natureza que me rompe barreiras e me obriga a ir além, porque sendo nós, sou eu também você e você também sou eu. Somos partes. E somos todos por completo de todas as formas que se pode ser dois sendo um.

Espantando-se com toda a minha capacidade diária de surpreendê-lo com minha irrevogável mania de acreditar em tudo e em fadas, que se choca tão fortemente com a sua visão nada fantasiosa e muito prática de mundo. Falando pela décima quinta vez que aquela moça não é mais apropriada pra você. Que eu sim sou (im) perfeita pra você. E que se você sendo cético como é pode perceber isso, como pode que isso ecoe na minha ignorância e passe descrente nos meus misticismos?

Ouvindo atentamente quando digo bem séria como se fosse falar alguma coisa realmente importante: ‘Pensa numa pessoa que gosta de você… Eu gosto tanto de vocêzinho.’ E, fechando os olhos quase satisfeito, me abraça tão forte que quase me quebra os ossinhos da costela e do pescoço, deixando a marca dos dedos na minha pele e rindo quando eu te acuso dessa violência abominável e irreparável.

Morrendo de ciúmes dos amores que já foram meus, mas sabendo que só com a liberdade que você me dá eu posso realmente ser feliz. E que, no meio de tantos outros amores, eu te amei muito mais. Olhando para mim como uma criança olha para um presente de aniversário ainda embrulhado. Sendo mistério em mim. E eu em você. Ainda que eu te conheça como a mim e você me saiba como a si.

Abaixando o som que eu deixei ligado a plenos pulmões (você fica me aterrorizando dizendo que estou enlouquecendo os vizinhos e que eles vão nos processar, mas daí me acalmo quando lembro que você é mesmo um gênio com essas coisas todas de processo e que ninguém vai me defender tão bem perante um juiz) quando chega em casa e reclamando da minha lista musical que não faz o menor sentido, embora seja tão apurada e você goste um tanto assim.

Rindo da minha eterna cara de gringa que não consegue deixar a tez em cor nem mesmo no verão, e aí eu te lembro que mesmo assim você insistiu em mim no meio daquele lugar barulhento e tão cheio de outras pessoas bronzeadas e possibilidades em pleno janeiro.

Sentando confortável ao meu lado, com cheiro de roupa limpa e de sonho realizado, e tendo paciência pra assistir Jules et Jim comigo, mesmo quando eu choro naquela mesma cena repetidas vezes.

Oganizando nossa rotina que eu desordeno inteiramente com meus horários incompreensíveis para trabalhar, comer, dormir e acordar, mas secretamente adorando a minha atemporalidade e o meu desprezo por tantas coisas concretas que compõem o seu mundo que tanto te cansa. Eu, a rainha do modo soneca do celular. Você, o horror à procrastinação. Nós, a hora certa depois de pessoas desastrosamente erradas.

Tendo uma certeza quase amedrontadora que eu sou mesmo sua e feita quase que sob medida pra você porque sou eu que consigo te livrar da cretinice, da mediocridade, da imbecilidade e da mesmice da gente que você é obrigado a conviver.

Falando eloqüentemente e com pouca paixão sobre coisas que eu nem tento entender de um universo que me enfada (e que também não te inspira sentimentos nobres), mas sendo eu capaz de um conhecimento profundo do que você é, do que você quer, do que você precisa. Aliviado por saber que é no meu colo que você cabe e é no meu corpo que você se encontra.

Fazendo as contas das viagens, dos jantares, dos bens. Porque, você sabe, nem que a minha vida dependesse disso, eu saberia calcular 10% de coisa alguma ou como declarar meu Imposto de Renda, coisa que você faz meticulosamente bem só para que eu te adore ainda mais e efusivamente te chame de ‘meu herói’ como uma donzela de outros tempos em apuros na burocracia do mundo moderno. Mas você continua perdendo a conta dos beijos, do tempo do abraço e do amor que nos deixou tão juntinhos nesse frio todo dessa cidade maluca que é parte inseparável de uma terra de ninguém.

Sendo feliz com o que somos, com a nossa paz, com o nosso canto. Romantizando o que me cabe de parcela, mesmo que não entenda muito bem porquê o faz e justifica que é para meramente ‘evitar a fadiga’ da minha histeria freudiana.

Gostando de me ver brava, mas me trazendo muffins de banana com chocolate e uma hortênsia azul de corte quando estou de TPM. Beijando minha testa, me abraçando e dizendo pela milésima vez que eu não estou gorda e que sou linda mesmo que eu não acredite nisso. Por mais bonitinha que eu fique de mau humor, você costuma dizer que tem amor a vida e que a sua impaciência com hormônios e estética reversa em hipótese alguma supera o seu instinto de autopreservação. Foi a sua sabedoria que me conquistou, enfim, já te disse isso.

Sendo meu equilíbrio e meu paralelo, quando eu te sou linhas curvas.

Esperando que eu adivinhe o que você quer ou porque quase me odiou por cinco segundos durante as nossas brigas, mas nunca me deixando esquecer que nenhum dos dois está autorizado a ir embora ou a desistir enquanto amor houver.

Indo dormir em outro quarto porque eu tenho um jeito especial de ser insuportável quando quero e voltando por decisão própria (embora eu engasgue em apelos mentais) pra nossa cama porque já se acostumou mesmo com a minha chatice e está quase imune a ela.

Ficando irritadíssimo com a minha intolerância ao seu orgulho ferido e a sua vaidade simplesmente porque eu te vejo além da máscara que você veste quando sai de casa. E que, justinho por isso, eu te vejo maior e melhor.

Envergonhando-se por ser acostumado a todo tipo de convicção, mas tendo naquela noite o rosto carregado por uma dúvida imensa se eu casaria com você quando você colocou aquela aliança linda de brilhantes que era um sonho de consumo no meu dedo e que me remetia àquela-cena-de-um-dos-meus-filmes-preferidos-com-a-mulher mais-elegante-de-todos-os-tempos-comendo-croissant-na-vitrine da mesma loja que você comprou. Pensei por meio segundo que nunca o havia tomado como um homem que dá atenção a detalhes tão singelos e que podem ser facilmente batidos, e, nesse instante me vi injusta como nunca antes. Eu estava com as unhas tão mal feitas que quase nem te dei a mão, mas emudecida e com lágrimas nos olhos que me afogavam com a sorte de ter encontrado o meu homem, te disse um sim apaixonado com todos os meus órgãos e defeitos. E não acreditei no tamanho da sua coragem e nem nas notas diferentes que ouvi em Wonderful tonight’ naqueles momentos de múltiplas nuanças de um tempo que parou e virou para sempre. Um eterno 20h40 na Rua Amauri. Hoje posso te confessar que ao mesmo tempo em que enxerguei, deixei de perceber todos os outros rostos daquele restaurante que você me levou quando fez público o seu amor e prestei atenção só no seu, que estava mais lindo do que todos os dias em que te achei tão lindo. Vi somentem os seus olhos de menino que eu nem sabia que eram tão meus assim, mas que agora eu sei.

Para mim, os livros do Neruda. Para você, o que para mim são códigos. Para nós, discussões interessantes sobre teoria política (denominador comum de dois) por intermináveis horas na escuridão da noite e quase sempre regadas à taças de vinho que você sabe escolher tão bem entre garrafas que me parecem – sinceramente – todas iguais. Você me acha sã no meio de toda minha loucura e eu bagunço o seu cabelo, amasso o seu terno, faço piada da sua gravata e tiro os seus óculos só pra te provocar e pra te provar que eu te amo de todos os jeitos. Eu, teimosa. E você incapaz de cessar um argumento, dizendo que o não-recuar é coisa da sua profissão e que foi treinado para ser assim. Nós não temos razão de nada, mas sabemos conviver com a ilusão de sermos coerentes num lugar de insensatos.

Matheus: É assim, em três sílabas, que você vai se chamar porque foi assim que eu te quis. É assim que eu djavaneio e toco seu nome para poder falar de amor. É assim que eu te pronuncio como se estivesse falando no sincretismo de um amor em si e sem dó. É assim que eu vou querer te levar para conhecer os meus e te colocar dentro de casa e da vida. É assim que você vai ser porque foi assim que eu idealizei que fosse em você a história que eu escrevi para mim. Porque foi, sobretudo, assim que eu escolhi você e que te batizei um ser (im) perfeito em mim.

'...Se você soubesse como eu gosto de suas cheganças, você chegaria correndo todo dia.' (BUARQUE, C.)
‘…Se você soubesse como eu gosto de suas cheganças, você chegaria correndo todo dia.’ (BUARQUE, C.)