Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Diálogos da Invisibilidade V: Das faltas que você me faz.

10 de setembro de 2013 por Camila em Eu Conto!

Don’t get up.  I can’t see the sunshine. I’ll be waiting for you baby, ’cause I’m through. Sit me down. Shut me up. I’ll calm down and I’ll get along with you…

Eu sinto falta de você interrompendo as minhas frases absurdas, as minhas acusações infantis e palavras ásperas com um beijo. Eu preciso que você me cale todos os dias para que eu não tropece nos meus verbos, nas minhas ações impensadas e nas minhas orações subordinadas.

Eu sinto falta de você andando apressado em minha direção com o seu All Star encardido, seu iPod ensurdecedor e suas mãos enfiadas nos bolsos do jeans tão surrado. Eu preciso que você me leve com você por qualquer caminho que você for, por qualquer poça de água que você pisar e por qualquer lugar que escolher.

Eu sinto falta de você segurando o meu rosto com as duas mãos, se surpreender com a minha temperatura ‘de mortinha’ e encostar meu nariz na sua barba para aquecê-lo. Eu preciso, eu preciso tanto que você me salve do frio das noites, do gelo das manhãs e do inverno da cama.

Eu sinto falta de você abrindo a porta da minha casa com a chave que eu te dei e subindo as escadas pro meu quarto ansioso para me contar as novidades de um dia quase comum. Eu preciso das suas cheganças, das suas voltas e dos seus retornos.

Eu sinto falta do seu jeito desastrado de errar e dos seus olhos em tempestade me pedindo perdão, jurando-que-mais-uma-vez-nunca-mais-vai-esquecer-de novo-como-isso-que-você-faz-sem-querer-me-tira-do-sério. Eu preciso dos seus acertos inesperados, dos seus consertos precisos e das suas calmas nos meus mares agitados.

Eu sinto falta de sentir o seu coração pulsar através do seu pijama quando eu me aninhava pra dormir no seu cheiro de azul,  bem ali, naquele quadrante do seu peito que era o meu canto. Eu preciso do seu corpo, do seu apoio, do seu sorriso, de ver você dormir e de acordar no mesmo lugar em que adormeci.

Eu sinto falta de você soprando em mim o chantilly do seu cappuccino cheio de planos e irritando o garçom com a sujeira que você fez na mesa daquele bistrot esquecido que a gente freqüentava. Eu preciso do calor dos seus sonhos, das certezas dos seus passos e dos traços dos seus desenhos.

Eu sinto falta de você me observando, me navegando e me descobrindo com a paz da espera antes de me arrancar de um mundo meu e construir para mim um mundo que é nosso, antes de me roubar pra você com a demora de um beijo. Eu preciso da invasão do mundo seu, do seu olhar pra mim e do seu abraço que nunca partiu.

Eu sinto falta de você medindo a distância entre a minha nuca e o final das minhas costas (nas covinhas que você amava, lembra?) pelo número de beijos possíveis nesse percurso. Eu preciso que você calcule –  de novo-pela-milésima-vez – o número de sinais e de sardas do meu corpo toda vez que me deito sem blusa pra dormir ao seu lado, eu preciso (muito, muitíssimo!) da sua exatidão.

Eu sinto falta de você me ouvindo falar empolgada do belo das coisas que me tocam e dizer que estava apaixonado por mim, justo ali, sem que eu nem esperasse, bem no meio de uma divagação qualquer e insensata tão comum a mim. Eu preciso das suas surpresas, dos seus rompantes, dos seus inesperados.

Eu sinto falta de você reclamando da minha bagunça, das minhas roupas pelo chão, do meu sapato fora do lugar e da toalha molhada que esqueci em cima da cama. Eu preciso de você cumprindo as promessas de desordem, juntando os nossos pedaços e da sua liberdade quando me aceita como sou.

Eu sinto falta de você morrendo de rir ao me ver comendo melão, porque, aparentemente, isso me deixa parecida com um guaxinim. Eu preciso, eu preciso muito das suas comparações lúdicas no meu dia-a-dia de pessoas sérias que se vestem de cinza e nunca sorriem até conseguir assinar contratos e bater recordes de valores capitais.

Eu sinto falta de você apertando minha barriga como se eu fosse um bichinho, comprando comida pra casa e levando meu cachorro pra passear enquanto eu me perco em páginas e películas. Eu preciso da sua ajuda na rotina que me pesa, das suas fugas e do seu acalanto.

Eu sinto falta de você repousando as mãos no meu corpo e entrelaçando os seus dedos nos meus porque – na sua cabeça – não há motivo para não grudar em mim estando já tão pertinho. Eu preciso da sua pele, dos seus cabelos longos e do você que você me deu e que nobody knows

Eu sinto falta de você secando as minhas lágrimas e sendo invencível contra tudo e contra todos que querem me fazer o mal até mesmo em pensamento. Eu preciso, eu preciso desesperadamente (e mesmo sem nunca tê-lo deixado saber) da sua proteção, dos seus abrigos e das suas batalhas contra a escuridão.

Eu sinto falta de você me mandando mensagem musical no meio da manhã para reclamar do vazio que ficou o nosso ninho porque parti tão cedo pra faculdade. Eu preciso do pão de queijo que você trazia no fim da tarde, das flores que você regava sem saber como e da sua insistência insuportável para que eu ouvisse aquela banda que você amava e que eu detestava.

Eu sinto falta de você não me deixar sentir nenhum tipo de terror noturno ou preocupação mundana ao seu lado porque qualquer ameaça era defensável. Eu preciso da sua força, da sua constância, do seu (super) heroísmo e do seu pavor ao abandono.

Eu sinto falta de você suspirando alto e perdendo a paciência em voz baixa porque eu não fico pronta-nunca-já-que-não-acho-meu-rímel-e-sair-de-casa-sem-super-cílios-é-humanamente-impossível. Eu preciso da sua tolerância com os meus atrasos, com o meu vestido curto e com as minhas escalas de prioridade. Mas, só hoje, então, preciso te contar que nunca mais vou perder a hora porque eu finalmente arrumei minha maquiagem e meu armário de um jeito muito funcional que te deixaria orgulhoso e que agora eu tenho TOC de organização.

Eu sinto falta de você dizendo pra sua mãe que conheceu a mulher da sua vida quando saiu comigo pela primeira vez e ignorando a passagem comprada meses antes para ir viver na Inglaterra dali a 30 dias a partir daquela noite, mas pesquisou qual o cheiro de Paris pra poder me contar e alegrar a minha fantasia francesa. Eu preciso me espantar de novo com o seu romantismo, com a sua velocidade e com as suas decisões sobre nós.

Eu sinto falta do que você sentiu por mim quando nos encontramos tão brevemente naquela confusão de gente que falava tão alto naquele pub já muito barulhento. Eu preciso sentir medo do seu amor, do seu querer, da sua vodka, das suas virtudes e de como foi tudo fácil e simples para nós.

Eu sinto falta de você me proibindo de desistir. Eu preciso do seu acreditar, do seu colo e da sua alma que conforta tão bem a minha.

Eu sinto falta das suas mãos trêmulas ao conhecer minha família e meus amigos, preocupado com o peso de uma desaprovação. Eu preciso que você saiba que todos eles acharam que ninguém nunca foi tão digno de mim, tão companheiro, tão adequado e tão capaz de me fazer feliz.

Eu sinto falta de você criando ângulos para tantas fotos que contam a nossa história. Eu preciso te dizer que tenho horror do desbotar dessas imagens, de virar passado e do ser estático.

Eu sinto falta do seu respirar junto ao meu. Eu preciso do seu movimento, de te assistir ao vivo, de não saber de você pelos outros, de construir memórias ao invés de vivê-las e de saber que eu sou sua.

Eu sinto falta de você me dizendo o quanto sentiu saudades de mim nas horas lentas do dia, entre gente que se arrasta e que quase vive. Eu preciso que você sinta tanta – mas muita mesmo – saudade de mim e que receba um sinal mágico da vida te dizendo pra voltar porque só eu sei andar pela casa com a sua camisa xadrez amassada e o cabelo desgrenhado num coque que deixa o meu pescoço livre ao seu imaginar (e que você imagina tanta coisa).

Eu sinto falta de você me pedindo pra ficar pra sempre e nunca mais ir embora a canto algum. Eu preciso que você me peça de novo em casamento pra que dessa vez eu diga sim e possamos ir para o Kansas logo.

Eu sinto falta do seu maço de Malboro Vermelho largado em cima da televisão, ali pertinho dos DVDs. Eu preciso que você me prometa que vai parar de fumar mesmo que não tenha a intenção de cumprir, só pra me enganar com esse seu charme enorme e o piscar de olhos sedutor.

Porque é o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que meus lábios não conseguem apagar. É o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que eu pronuncio quando quero compartilhar minha felicidade, quando choro sentada no chão da cozinha abraçada ao seu velho moletom, quando canto mais uma música de nós dois e quando estou morrendo de dor de dente, de cólica, de cabeça e de estômago. É o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que eu não quero e nem posso esquecer. É o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que me faz pedir perdão pelo mal irreparável que eu te fiz. Porque é o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que deixa claro o quanto eu não sei ser o que te faz sentir falta e o quanto eu precisava que você sentisse.

É só você. E eu não suporto a idéia que você esqueça de quem sou eu. Eu preciso que você queira voltar e ficar no pra sempre que um dia eu neguei.

A gente só vive uma vez em cada segunda chance.

Voltando muitas vezes pro lugar e pro nosso conto de onde nunca saí.
‘Light… We need more light, beautiful Paris.’

Comentários

3 comentários em “Diálogos da Invisibilidade V: Das faltas que você me faz.

  1. Sim, Paris é linda, iluminada em todos sentidos. Sempre precisamos de luz, mais e mais. Você consegue fazer isso, com seus belos textos, fotos, pensamentos, sorrisos, rabiscos.

    • Iran, suas palavras em muito me envaidecem. Espero que eu consiga sempre fazer jus aos seus retornos a este meu espaço. Muito, muito obrigada! Que seja sempre luz! :)

  2. “A gente só vive uma vez em cada segunda chance.” Perfeito!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>