Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Uma nota qualquer, um lembrete qualquer, uma carta qualquer, um bilhete qualquer.

3 de setembro de 2014 por Camila em Eu Conto!

meu Amor,

Hoje brigamos mais uma vez. Brigamos tanto e feio e fundo. Verbalizamos o pior tipo de estupidez, de coisas desnecessárias, de rudez, de ironias cortantes, de sarcasmos mentirosos. Ficamos eloqüentes de palavras tortas e vomitamos as atravessadas. Confundimos a beleza dos sentimentos que nos unem em detrimento de tudo aquilo que pode nos afastar.

Sinto você tão pertinho de mim na iminência e na brutalidade da distância que pouco nos aparta, mas que insiste bastante. Percebo você tão meu nesse bairro frio e emudecido de casas com cheiro de mofo e gente que passa apressada – e jurando que têm vida – pra ir na padaria, na escola, na farmácia, no parque, na academia…

Ainda com o eco do que pecamos em dizer soando nos meus ouvidos, bati o telefone, tomei um chá e quase engasguei na raiva, vesti os pijamas pelo avesso, busquei abrigo no lençol e conforto na cama.

Fui deletar dados na tentativa de apagar você e encontrei todos os pequenos trechos que rabisquei em guardanapos digitais do que seria um conto de amor, uma ilustração da nossa história, um mundo azul do nosso querer, pequeninas crônicas de nós dois. Apaguei a luz. Perdi a paciência com o celular e desliguei na tentativa vã de dormir. Já chega de aplicativos que transbordam palavras de nós dois. Mando pra lixeira as milhares de notas que só me fazem lembrar de como é bom ter você juntinho.

Eu soube da impossibilidade do sono chegar no exato momento em que li a nota que apontava o que tínhamos consumido naquele longínquo onze de junho de dois mil e catorze numa pousada escondida de um litoral desconhecido, deserto e distante: dez Heinekens, quatro Coca-Colas, uma porção de camarão com -muita!- cebola, dois pratos de lagosta com abacaxi grelhado, duas águas-de-coco…

Eu adorava ficar bêbada ao seu lado: minha língua não desafinava em cinqüenta e cinco assuntos desconexos e seus olhos não paravam de me julgar em silêncio. Você, sóbrio, não permitiria que mal algum me acontecesse enquanto eu perdia a conta de quantas long necks já tinha tomado. Era totalmente caótico e tudo estava em seu lugar.

A brisa enchia de nós os meus cabelos, a rede acarinhava, as palhas de coqueiro musicavam, a areia fazia cócegas entre todos os dedinhos dos pés, a cadela que se enroscava nas minhas pernas enquanto eu caminhava rumo ao mar, a fartura do amor bem-nascido, o sal no sol e a gata que se espreguiçava em cada degrau da escada: aqueles dias de calor e lânguida preguiça foram o nosso mundo inteiro. Foram o que planejamos em sigilo total nas noites em que a saudade aparecia latejando e ardia sem aquecer. Nossa fuga para horas azuis, uma simbiose consciente de nós dois e o isolar de tudo aquilo que não fizesse parte da paz que a gente precisava depois das batalhas contra os moinhos de vento e os inimigos sem rostos.

Você gostava de beijar a flor nas minhas costas. Sendo mais exata: você gostava de dormir com a cara enfiada nas minhas costas e quase jurava que da minha tatuagem saía mesmo um cheiro de jasmim, ainda que ela fosse uma lótus. Eu me lembro com uma certa exatidão: a sua respiração quentinha estava ali, a noite toda, contrastando com a solidão há tanto esfriada do meu corpo. Você só dormia quando eu dormia, e, zelando pelos meus sonhos, se assegurava que seguíamos o mesmo compasso no respirar. Você era a afeição emocionada e a incredulidade diante da possibilidade de nós dois sermos – nesse minuto preciso – reais.

Tudo bem, agora eu sei. Eu também te amo. E acho que me amo o suficiente pra deixá-lo me amar. A dúvida sempre me permeia, não sou fácil em decisões. Mas, ora, você sabe: dizem por aí que, por mais imperfeito que seja, o tal do amor costuma valer a pena. E essas, por fim, são mesmo as flores da estação.

Vamos fazer as pazes?

Vamos dançar nos horizontes?

Vamos passar com alguma graça sobre os pedregulhos no caminho?

Vamos abrir o guarda-chuva pra sustar a tempestade? Ou, melhor, vamos dançar na chuva?

Beijo-te da cabeça aos pés e me despeço do hoje com a certeza de amanhãs,

seu Amor.

A vida que a gente quis... (#PoemeSe)
A vida que a gente quis… (#PoemeSe)

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