Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


O silêncio em nós.

29 de dezembro de 2014 por Camila

Texto escrito a quatro mãos: Grata a você que me emprestou suas idéias e fez de mim o seu amor.  Gratidão ao encontro.

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No mesmo instante, numa mesma vida inteira, em dois paralelos. Assim se deu:

Ela: Li Neruda. Em silêncio, ele me suspirou. Beijou-me. Disse-me amar-me. Pediu-me em casamento. Em silêncio, suspirei-lhe. Nada mais disse. As palavras, naquele momento, seriam brutas. A voz, em tal instante, era nada mais que supérflua. Silêncio. Silêncio. Permitam-me apenas o olhar. O conforto de um beijo. O desespero do passar de um tempo.

Ele: E eu te olho em silêncio pra não te interromper. No mesmo silêncio, tu escreves compenetrada. Dois olhinhos verdes que se movem atentos atrás das lentes. Eu penso em silêncio e sobre o silêncio que nos une. Únicos. Conclui tua escrita e, apavorados, percebemos em silêncio que o silêncio era o fio condutor dos teus escritos. Só me beija pra adiar explicações. E esse silêncio que paira entre nós quando escrevemos lado a lado; ou nas horas que passamos mergulhados nos olhos um do outro, lendo nossos pensamentos; esse silêncio de gritos mudos no final da tarde, e nas madrugadas de Neruda e álcool; esse silêncio é nosso amor em carne viva.

Eram essas as interpretações de entreolhares mudos numa madrugada atípica e de calor paulistano (ou senegalês) onde dividiam o mesmo sofá inebriados pelos primeiros dias do amor demais. Ela, espevitada como sempre fora, levantou e pegou na estante mais alta do que os pés podiam alcançar a Antologia de Neruda recém-comprada. Decidiu ler um poema (ou dois ou três ou quatro ou cinco…) em voz alta para colocar em vivas cores os seus sonhos mais românticos de amor total. Ele ouvia sem muito expressar. Ouvia e a olhava com uma certa gula. Num estalo de coisa alguma sem importância e já esquecida que nem a poeira da semana passada sobre a mesa de centro que já não sabe nem de café na caneca borrada de batom e nem de mais nada, os dois largaram livros, beijos, álcool e agarraram-se a idéias. Ela foi divagar. Ele esperou que ela terminasse e, sem saber do que se tratava as garatujas todinhas dela, também foi escrever.

Ali parecia algo mágico. Hoje parece só a constatação de um momento.

Ontem sinalava que esse texto teria um fim diferente pela promessa de um novo começo. Amanhã é só outro consolo.

O amor acabou.

O tempo apagou a idéia.

…E, de algum modo, eles continuaram felizes para sempre.

‘…I cannot tell you how thankful I am for our little infinity.’ <3
‘…I cannot tell you how thankful I am for our little infinity.’ <3

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