Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Contos de Verão IX: Pela última vez pra sempre.

23 de janeiro de 2015 por Camila

‘Vai longe. Não cheirou na rosa a cinza do coração de andorinha.’

(TREVISAN, D.)

O via escovando os dentes pela última vez pra sempre e sentia que já era tudo melancolia. Escovar os dentes – esse hábito tão desgraçadamente ordinário – passara agora a ser qualquer coisa de fantástico. Fotografava com o olhar em câmera lenta cada um dos gestos dele (dava zoom no rosto), temia esquecer o amor mais bonito que já vivera: Temia, sobretudo, que os caprichos da memória pouco prodigiosa fossem apagando a suavidade dos momentos, o sublime do dia a dia e os pequenos gestos de carinho que fazem das coisas miúdas algo majestoso.

Queria que os segundos passassem arrastados só pra recordar dos sonhos que tiveram. Desejou um pouco mais de tempo – tinha medo de como poderia ser a vida sem ele – para prolongar aquele último instante deles dois e, também, tinha alguma ansiedade para que os minutos passassem depressa para ver como seria quando o alívio de estar sozinha repousasse sobre seu corpo. Ela era toda antítese, seria assim pra sempre…

Pensou na barba que ele não tinha e que mesmo assim a espetava e irritava sua pele. Fixou discretamente a mirada nas atitudes corriqueiras dele e decidiu colocar a lembrança tão efêmera e presentemente passageira lá no fundo do relicário (que começara a talhar) dos dois. Um amor de memórias: Nisso haviam se transformado. Um amor de histórias, demoras, milhares de recomeços, pausas, interrupções, urgências, desacordos, descompasso e aspereza. Um amor de pela última vez pra sempre.

E como se amaram, um dia, aqueles dois (é, é de fazer pena tanto amor despedaçado). Amaram-se até que a última gota de afeição fosse sorvida num gole rápido e cortante pelo destino. Amaram-se profundamente até que o instante bruto e involuntário da quebra, da ruptura e da separação fosse a única escolha que restasse a ser feita: Dois mundos que colidiram – trôpegos – e agora voltavam cada um a sua própria órbita. Distantes. Vazios. Serenos. Dissonantes. E completamente apavorados.

Concluiu, portanto, que o fim quando chega é calmo e vem suave no seu silêncio desapegado e na ausência de conflitos. Dessa vez não fez questão de apagá-lo da sua vida ou dos seus contatos. Sabia, simplesmente como a pura paz que lhe cabia no por vir, que ele sumiria nas lembranças que já não entorpeciam ou agitavam sua mente. Haveria de vir um esquecimento tranquilo e certeiro como a brisa que varre as folhas caídas pelo chão de outono. Viria, ela esperava (e ele prometera!), e torcia que o tempo estivesse a seu favor. Ouviu novamente o som do seu coração quebrando e percebeu que, na verdade, ainda doía mais do que deveria: Era o incômodo da dúvida de quem precisa ir embora e sabe exatamente o que está deixando pra trás.

Foi arrancada das suas divagações pelo som dos passos dele, que caminhava até a porta onde deixara sua mala e todos os pertences que podem caber numa só despedida. Com a luz que entrava apenas pela janela da sala, tirou os olhos do chão e colocou sobre ela. Meio sem graça e com o constrangimento que só pode haver entre velhos novos desconhecidos e perfeitos estranhos que se sabem em cada centímetro, balbuciou:

– Já é tarde. Boa noite.

A indecisão borbulhava em sua mente antes que conseguisse escolher a entonação precisa para dizer-lhe ‘boa noite’ pela última vez pra sempre. De repente aquilo parecia a coisa mais importante e mais determinante que jamais dissera ou que emudecera sem coragem. Apenas seguiu e já nem se lembra de onde tirou forças pra responder:

– Boa noite.

Olharam-se apressadamente pela última vez pra sempre. Ele deu um beijo em sua testa que foi sentido mais ou menos como um paliativo que arde feito sal em ferida aberta.

E nunca mais se viram.

Coração de andorinha não cabe num sonho só.
Coração de andorinha não cabe num sonho só.

2 comentários

Contos de Verão VIII: Pretérito mais-que-perfeito imperfeito.

21 de janeiro de 2015 por Camila

Ela estava intoxicada dele. E ele estava em tudo a volta dela: na agenda do novo ano que lhe dera, na paz que lhe faltara, no amor que lhe sobrara, na paixão que lhe queimara, na expectativa que lhe esvaíra, no desapontamento que lhe causara, no cabelo que não cortara, no beijo que morrera, na falta que lhe doera, na lucidez que perdera, na arte que não enxergara, na hora que atrasara, nas esquinas que passara, na agonia que lhe consumira, na insensatez que lhe tomara, nas línguas que não falara, na vida que sonhara, na mentira que não contara, na crase que corrigira, na quarta-feira de cinzas em cores que amanhecera, no filho que não tivera, no coração que não pulsara, na voz que abafara, no ontem que esquecera, nos conselhos que ignorara, no ciúme que sufocara, no neologismo que criara, na monotonia que vomitara, na despedida que chegara, no cigarro que não fumara, no equilíbrio que findara, na presença que negara, nas viagens que não fizera, no carinho que tanto recusara, nos detalhes que lembrara, no sentido que não explicara, nos textos que jamais escrevera e nos livros que nunca lera.

Ele estava em todas as músicas que ela entendia e as tomava para si, possessiva que sempre fora. Ele estava em todos os monólogos teatrais e dilacerantes. Ele estava no copo de cerveja que matava sua sede. Ele estava na sua enorme incapacidade de entrega. Ele estava no drama, no resquício e na esperança. Ele estava no centro da sua confusão e do seu caos artificialmente organizado. Ele estava – incólume – nas ruínas dela. Ele estava no jogo de futebol da quarta-feira e do domingo dispendioso. Ele estava em suas antíteses paradoxais, prolixas, lacônicas, dicotômicas e pleonásticas. Ele estava de corpo inteiro nas suas vaidades e vergonhas. Ele estava na metade dela que sentia medo e ele estava – também ele! – na metade dela que um dia foi toda coragem. Ele estava em seus axiomas de imparcialidade e nas suas teorias vãs de neutralidade. Ele estava no desconhecer. Ele estava na filosofia – e nos filósofos – que ela citava e que ele tanto detestava. Ele estava na ruptura das suas convicções. Ele estava na crítica torpe e nas palavras de apoio e cuidado. Ele estava na sua pretensa compreensão, superficial paciência e rasa tolerância. Ele estava no bem – e no mal – que lhe fazia. Ele estava no alívio do término e na dor do recomeço do qual não era parte. Ele estava no quebrar das ondas, nos gritos emudecidos, nas suas memórias de tempos heróicos, na solidão de (a) dois, nos moinhos-de-vento de Quixote, no fôlego que perdeu, nas madrugadas de muitas noites insones, na pele que queimava de tanta lonjura (pra quê tanta distância, Meu Deus?!), na mudança permanente, na ausência onipresente e na inconstância que não cabe adjetivar. Ele estava no querer que não cansa e nem se satisfaz (quiçá fosse ele em si o próprio verbo querer).

Ele estava em Sylvia Plath & Ted Hughes. Em Anäis Nin & Henry Miller. Frida & Diego. Beauvoir & Sartre. Nancy & Sid. Linda & Paul. Marieta & Chico. Matilde & Pablo. Camille & Auguste. Todas Elas & Vinícius. Ele estava nas mulheres que ela queria ser e nos homens que ela desejou em voz alta e carne viva que ele fosse. Ele estava em todas as coisas de todos que foram. Ou que ainda eram. Ele era dos que ainda…

Ele só não estava, por fim, nas comédias românticas clichês e seus previsíveis e imensos finais felizes, porque, obviamente, jamais lhe amara como se amam os casais centrais de filmes caros e medíocres. Não, ele não lhe amara com tanto tédio e languidez: com alguma preguiça vez por outra, mas nunca sem vontade. Ele lhe amara com um céu da boca que tinha gosto de aventura e prazeres outrora perdidos: amara, sobretudo, com sabor de promessas quebradas e amanhãs que não se sabe. Amara na certeza de um talvez. Amara como pudera. Amara na negação de uma rotina. Amara com a alma que lhe coubera. Amara com os defeitos que quisera deixar pra trás, mas sabia que velhos hábitos custam a apagar-se. Amara como se ontem fora hoje e tudo fora urgente. Amara com a pressa que só habitara naqueles que vivem devagar e de pouquinho…

Foram mais-que-perfeito imperfeito, isso lhe fora – ou lhe era – óbvio. Mas eram, neste preciso instante que lateja, pretérito. Um único pretérito em todas as suas variações tão cruéis de quem deixou de ser e já não há.

Ela estava intoxicada dele. E ele estava em tudo que faltara a volta dela.

Disse Hipólito: ‘Sem você, as emoções do amanhã serão apenas pele morta da emoções do passado.’
Disse Hipólito: ‘Sem você, as emoções do amanhã serão apenas pele morta das emoções do passado.’

7 comentários

Contos de Verão VII: Amanheceres.

16 de janeiro de 2015 por Camila

-Tá vendo? Você não estava quebrado. Eram só as pessoas erradas pro seu tempo certo. Eu sabia. Eu te disse.

-É. É verdade.

Ainda que tenha respondido em um tom meio reticente, ele sabia que ela estava certa. Eram amigos há alguns bons pares de anos e por isso se conheciam. E, além de se conhecerem tão bem, compartilhavam do mesmo medo: o de deixar alguém entrar. Por isso, nas raras vezes em que permitiram isso acontecer, um vibrou pelo outro. E um apoiou o outro incondicionalmente na hora que precisaram mandar outro alguém embora. Compactuaram em viva voz e brancas nuvens com as decisões de fechar a porta mais uma vez. Concordaram que, afinal de contas, não tinham mesmo mais jeito e morriam de preguiça de criar jeito algum para se fazerem entender por outros alguéns e alguns Zés Ninguéns. Sabiam que era melhor a mansidão plácida de ser de si próprio do que a confusão eterna e a bagunça interminável de pertencer a outros mundos de pessoas outras.

Mas agora era diferente. Mais uma vez era diferente. Era outra esperança, era outro recomeço, era outra possibilidade, era outro horizonte, era outra novidade, era outra história, era outra pessoa. Era tudo novo, de novo. Um papel em branco para novas palavras serem escritas, sem rasuras, rascunhos – ou, muito pior -, mágoas e passados que ainda sangram. Era pele refeita e sem cicatriz. Era chama que amansa e acalenta, não que queima e arde sem prazer. Era o completar ao invés de acusar. Era uma canvas incertamente limpa no lugar de uma tela cheia de nódoas e manchas. Era sushi à meia noite pra acabar com a fome e a úlcera estomacal que outrora consumia lentamente. Eram beijos e quereres substituindo recusas e negativas. Eram, existiam, haviam e ali estavam todas as coisas pelas quais berramos em silêncio ensurdecedor.

Enquanto ela lia o e-mail que ele enviara cheio de renovação, lembrou das madrugadas frias  e secas daquele Cerrado em que confidenciavam seus desamores e frustrações entre a piscina e a churrasqueira daquela casa de adulto em que ele foi morar (a casa tinha até pomar, veja você). Lembrou de sentir tanto medo e tanto alívio ao decidir que ia mesmo terminar aquele namoro que era mais dor e vício que amor propriamente dito. Lembrou do olhar compreensivo que ele lhe lançara naquele segundo preciso e, sobretudo, quando perguntou se ela tinha certeza do que fazia ou se não estava exagerando só um pouquinho na reação desmedida. Lembrou dele escolhendo a música ideal para aquele momento de desagravo. Lembrou da imensa quantidade de garrafas vazias de cervejas holandesas que eles mesmo secaram numa sede indomável e morreram de uma ressaca sem precedentes no outro dia. Lembrou que ela queria comer ceviche no jantar e ele foi lá e fez acontecer. Lembrou dele assando carne às 3h da manhã só porque ela pediu e nem se justificou.  Lembrou o quanto ele a protegia não por achá-la inocente, mas por achar que ela tinha um coração precioso e que vivia rifando. Lembrou que ela tinha vontade de explodir o mundo quando lembrava da gente que o fez mal. Lembrou das depressões que ele tinha quando ouvia Robertão (dos anos 60, tá?) por horas – longas horas! – a fio. Lembrou do medo de perdê-lo pros fantasmas que ele alimentava. Lembrou da quantidade de absurdos e bobajadas que os faziam rir histericamente. Lembrou do orgulho que ela sentiu dele na formatura e em cada nova conquista profissional. Lembrou que ela entrava em paranóia quando ele usava drogas. Lembrou dele lhe dando o vinil do ‘Revolver‘ dos Beatles só porque ela achava docaralho aquela trilha sonora para momentos ímpares da vida e, principalmente, porque ele sabia o quanto ela tinha se arrependido de dar aquele vinil histórico pro canalhafilhodaputa do ex dela (ele, obviamente, conhecia toda a história já quase melhor que ela e classificava como obsessão.). Lembrou dela apavorada porque ele falava enquanto dormia e deu um pulo da cama para acordá-lo até se acostumar com essa idéia maluca dele falar enquanto dorme (mentira, ela nunca ia se acostumar com isso). Lembrou dela pedindo a opinião dele para comprar carro (e impressora, e iPod, e saia curta), construir site, baixar filmes online e arrumar a letra para a próxima tatuagem dela. Lembrou quando chorou na primeira noite em que ele disse que a amava e que ela era tipo a melhor amiga dele e que só por causa dela e de mais umas duas ou três pessoas as coisas ainda faziam algum sentido. Lembrou que ela pediu pra ele ficar por aqui porque ela precisava dele por aqui e insistir um pouco mais numa causa sem causa de ser porque ele era melhor e maior que tudo aquilo que o afligia. Ele era abrigo, ela sabia. Ela era entendimento, ele sabia. Eles se sabiam mas não sabiam de muito mais coisa além disso. Eram cúmplices. Eram dois perdidos num mundo vasto e totalmente percorrível. Eram amigos, verdadeiramente. E se importavam, iriam sempre se importar.

Ela própria não passava por um momento suave e, em meio a tanta turbulência e tempestades de dúvidas castanhas e perguntas sem fim, achou um pedaço de sentimento pulsante e inquieto que lhe fez acreditar em cheiro de novo de novo só por vê-lo tão bem. E soube que naquele momento ele seria feliz até alguns próximos e muitos amanheceres e entardeceres e a anoiteceres. E, por isso, sorriu de verdade e suspirou:  -Que assim seja. Que assim continue sendo.

Das longas horas da tarde na calmaria e no consolo do quarto dele.
Das longas horas da tarde na calmaria e no consolo do quarto dele.

Deixe um comentário

Contos de Verão VI: O amor é meu.

11 de janeiro de 2015 por Camila

‘Penso em paisagens da PUC, coisas esperadas, disposições esperadas, e as caras! Deus, as caras! As pessoas tão estupidamente familiares: onde está a raridade, o precioso dos raros, a aura dos que vêm pouco, o halo dos desaparecidos? O que eu queria mesmo era aquele gesto sem olhos (a medo): eu também sei, eu também, eu entendo. Eu queria era aquele gesto que um dia conciliasse os desentendimentos, ou a ausência.’ 

(Ana C., ‘8 de outubro de 71’).

Tallinn, 20 de Setembro de 2014.

Ana,

Separações são tão difíceis. São mais, são exaustivas e demandantes de porções inteiras de alma. Tudo tem que ser tão explicado, tão pensado, tão campo minado, tão pisar em ovos. Você tem que ter uma obrigação quase que intermitente de saber o que quer e do que está abrindo mão. Eu, me achando muito esperta e desapegada de qualquer coisa que não fosse romance em carne viva, fui pela cartilha da Frida Kahlo: ‘Escoge un amante que te mire como si quizás fueras magia’, e, quando ele deixou de me olhar assim, acabou o amor em mim e acordei do sonho azul, sabe? Estou tão cansada de desconstruir tudo outra vez de novo.

E, antes que você me chame de neurótica, posso lhe afirmar com uma certeza que me arde na pele como sol de verão: as coisas mudaram. Elas, definitivamente, mudaram. Não sei precisar em que ponto ou por qual motivo, mas ninguém teve mais forças para permanecer as mesmas pessoas pelas quais nos apaixonamos. De repente, eu acho, eu olhei pra ele e vi que a falta de certeza que sempre me habitou agora fez morada no castanho dos olhos dele. Isso – ainda que egoisticamente – quebrou meu coração. 

Parei a leitura da carta e tomei fôlego. Mentira, tomei chá. Mas isso não importa, o que eu precisava mesmo era tomar cerveja e talvez duas doses de vodka. E alguma vergonha, por certo.  Não gosto de finais. Não gosto de pontos em histórias de amor. Pensei em Ana Cristina César, Caio Fernando Abreu, Vinícius de Moraes, Pablo Neruda, Lorca, num samba do Cartola e até nos sofrimentos de Goethe para tentar compreender em que momento se dá a ruptura e o mudar de curso que ela tentou inutilmente me explicar e que eu não tinha coração para entender. A poesia naquela carta era pouca, mas o sentimento era muito: Essas antíteses da vida tendem a me cansar, mas eu própria compartilho dessa natureza e por isso calo e tolero. Não concluí nada e meus olhos continuaram percorrendo as linhas tortas daquela carta que trazia notícias desconexas da realidade que eu imaginava que Marcela vivia, ou, pelo menos, da realidade que ela planejara para si há algum tempo.

Era primavera! Deus do Céu, era primavera! Não se pode deixar de amar ou interromper o amor em plena primavera, isso é privilégio do recolhimento e do silêncio outonal… Ignorei minha própria revolta com os desencontros das estações e fui ouvir um vinil do Caetano (ele sim, mais uma das minhas relações biunívocas que flutuam serenamente entre o amor e o ódio) com a carta de Marcela ainda nas mãos.

Ela seguia no que me parecia não fazer sentido mas que precisava ser dito mesmo assim:

O Thomás, Ana, já não me olha como deve. E isso me dói. Dói que lateja e machuca feito lonjura entre dois corpos em desacordo. Sei que você vai me acusar de vaidade, insegurança e excesso de mimo. Tenho noção da perda, mas não posso aceitar menos do máximo do que ele já me deu antes. Se tá dando menos é porque perdeu a vontade de dar mais, você entende? Tal qual o sexo, a vontade de dar-se é também um termômetro. Como posso me conformar? Não posso. Não jogo no time do desamor, da preguiça da paixão e do morno. O morno a gente cospe pra ter o luxo de escolher entre o quente e o frio. Não vivo na zona de conforto do meio termo de quem não sabe existir, crio meus extremos e rebolo um bocado pra me manter neles. Dou a minha vida inteira por isso. E a alma, também. Estar junto é escolha, não é penitência. E, veja bem, para estar junto tem que se dar. E tem que dar certo esse dar-se todo, se não, não funciona. Não me venha com porcentagens obscuras, você sabe que nunca vai me convencer do menos que mais de cem… Estou frustrada, é certo. Mas, olha só, eu vou ficar bem. Eu preciso ficar bem, então eu vou ficar bem. Depois dos trinta a gente sempre dá um jeito de ficar bem, né? Acho até que quando esta carta chegar em São Paulo eu já estarei bem. Já terei passado por uns dias de choro, uns dias de muito chocolate (e outros de muito álcool), uns dias de abandono e esquecimento próprio e já terei me afogado em novas possibilidades porque tenho convicção que elas existem. A gente tem que andar pra frente pra não enlouquecer e ver que o mundo é redondinho e que tem solução. E, sobretudo, que a vida há ser bela porque pode ser, independente de qualquer aresta congênita que queira tentar falhar.  

Eu apenas lia. Lia como alguém que acaba de descobrir que pode fazê-lo. E assim (para minha surpresa, confesso!), citando Guimarães irresponsavelmente e sem mais nem menos, Marcela assinou a carta:

Rosa dizia:

‘O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim: esquenta e esfria, 

aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.’

(Re) começos. E assim, recomeço. Uma vez mais… Vamos lá fazer tudo novo de novo.

The best is yet to come.

Ainda que perdida em semiótica e semânticas com breves atalhos pelo devaneio, continuo inteira por aqui.

Beijos,

Marcela. 

‘The best is yet to come’: Isso ficou martelando na minha cabeça. Marcela (aquela doida!) tem mesmo razão – dei o braço a torcer – e, por fim, sosseguei. Ela estava irremediavelmente certa e agora eu sabia. A vida não tem que ser ordinária: O amor tem que ser acima da média e nada conformista. Amor é rebeldia. Amor é vontade de ser. Amor é urgência de corpos. Amor é conflito. Amor é escolha. Amor é risco. Amor é coragem. E o amor não tem que durar pra sempre. Em duas páginas de uma carta vinda lá da Estônia eu descobri (e aprendi) o que nunca dei conta de sentir: O amor não é pouco e nem mais ou menos. O amor é tudo ou nada.

O amor é meu.
O amor é meu.

Deixe um comentário

De Nuvem.

1 de janeiro de 2015 por Camila

Para você, meu Amor. 

Para quando você existir.

É em sonho que você vem me visitar e me dizer que nossa vida há de ser boa, há de ser bela, há de ser inteira, há de ser doce. É também oniricamente que você me faz crer na delicadeza de um tempo que virá, de um futuro dado como presente, da chegança de um dia, da certeza desse amanhã que vale a espera intragável do hoje arrastado e demasiadamente prolongado sem um motivo besta que seja de haver-se.

‘…Ninguém – ninguém – verá o que eu sonhei. Só você, meu Amor, ninguém verá o sonho que sonhei: Um sorriso quando acordar pintado pelo sol nascente, eu vou te procurar na luz de cada olhar mais diferente…’

É verdade, meu Amor. É nas diferenças que eu te procuro – e, veja só qual não é o sentido maluco da vida  – nas quais eu (por fim) te encontro. Eu já sei como vai ser sem nem saber direitinho: Vou estar com a cara de tonta que tenho de quem olha o dia inteiro pro teto apenas por tédio – digo, prazer – em fazê-lo e você vai chegar como se já me conhecesse, falar qualquer coisa que vai me fazer rir de uma maneira quase que descompensada e vai me achar uma doida e justinho por isso vai morrer de amores. Porque sim, queremos risos. Teremos nossas lembranças e cicatrizes (mas não seremos ressabiados por elas, não, de jeito nenhum!) de amores prévios e paixões avassaladoras, mas queremos  sobretudo risos e beijos intermináveis. Seremos companheiros de noites de leituras e vinis e as pessoas hão de perguntar-se porque a vida não tratou de nos juntar tão mais rápido que a casualidade do encontro… Sim, porque é óbvio que seremos o tipo de casal que acaba com a certeza dos cínicos sobre o tudo e o nada. Vamos sair por aí a caçar luas e borboletas amarelas, devorar estradas sem rumo certo, nos perder sem perder-nos (para depois nos sabermos na cumplicidade do olhar), ter certezas vãs e dúvidas ridículas, achar que há lógica nos absurdos tão imenso é o mundo, ignorar o previsível, voar alto lá no azulzinho bem infinito do céu, comer brigadeiro depois da meia noite, tomar cerveja sem se preocupar com a ressaca (e com a barriga!), assistir filmes existencialistas (e películas patéticas, por favor!), crescer enlouquecendo um pouco e citando Kerouac, completando as nossas frases sem parecer que saímos diretamente de uma comédia romântica clichê, andar trôpegos e com as mãos dadas, ser  meros transeuntes nos becos anônimos de Barcelona e flanar pelas vielas de Paris, morrer de amor… E nascer de novo muitas outras vezes mais. Vamos, vamos sim.

Eu te espero, meu Amor. Eu te guardo porque sei que vale a pena a tua chegada. Por enquanto fico te sabendo nas minhas linhas de caderninhos muitos e nas noites lúdicas da tua presença suave e sutil. Um dia, naquele tempo da delicadeza, você há de despertar. E aí os nossos sonhos serão outros e percorreremos mundos deliciosamente reais.

Para você, meu Amor.

Para quando você existir.

‘Eu já estava sua antes: quis minhas mãos dadas, quis o seu sorriso me olhando, quis o seu abraço molhado de pôr-do-sol…’ #PoemeSe
‘Eu já estava sua antes: quis minhas mãos dadas, quis o seu sorriso me olhando, quis o seu abraço molhado de pôr-do-sol…’ #PoemeSe

Deixe um comentário