Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Rascunhos de Outono I: Ambivalência.

28 de fevereiro de 2015 por Camila

Irônica que era a vida, já não era dele o beijo que habitava a boca dela: Eram outros beijos, era um outro carnaval inteiro. Mas era dele a saudade. Era dele a falta onipresente. Era dele a lembrança. Eram dele os pensamentos. E, sobretudo, era dele – ainda que de um jeito bastante torto, é bem verdade – o amor que lhe restara.

Mas ia passar. Amor evapora. Amores – como tempestades – sempre chovem em telhados rachados e depois secam. E fica tudo árido. E fica tudo o que já não há. Fica o gosto amargo da cerveja, a punhalada da deslealdade, a ruptura que traz a solidão, o silêncio rouco e desesperado, o cigarro que ninguém fumou, o abandono não-requerido, a poesia bruta emudecida e as promessas quebradas: Por fim, nada é bem-vindo e a porta está fechada.

Gritos abafados, manhãs de calor, o tempo que corre vadio e os tropeços em livrarias: ‘Amor, de novo’, dizia a capa em cinza feita por algum designer pós-moderno. Doris Lessing. Nobel em Literatura. Pareceu promissor. Pareceu apaziguador. E, quase que de maneira ambivalente, pareceu uma tortura enorme. Mas, desde que não tivesse um final feliz em mais uma estória mentirosa, parecia bom e real e condizente com aquilo que ela chamava de vida. Arriscou. Enquanto no caixa: -Débito, por favor.

Andou mais uns metros por aquela rua que era toda charme de um entardecer atípico de outono e sentou-se – sozinha como lhe era de direito – numa das mesas da varanda daquele Café. Com a brisa que lhe rachava os lábios enquanto o sol injustamente ardia, deixou que os dedos passeassem entre pautas e percorressem sedentos por palavras. Se escondendo por trás dos óculos escuros maiores que a face, não se sabia preparada para aquilo no presente instante, mas estava segura que um dia aquele livro seria necessário feito bálsamo que perfuma machados no corte. Sangrava, mas a cura não viria agora e sabia apreciar o tempo de recolhimento com certa resignação. Era toda feito lagarta em casulo, ainda que paciência não fosse uma das suas poucas virtudes. Perdeu o olhar nos transeuntes e, com o coração melancólico, se esforçou pra ver a beleza na natureza cotidiana das coisas. Mais que um exercício constante, era um ato de fé no amanhã e no possível sonhado.

-Um espresso, por favor. Duplo.

Entre queimar a língua com o café sem açúcar – como devem ser todos os cafés jamais servidos em qualquer parte! – e a observação calada e obsessiva do mundo (que, concluiu, precisava ser mais doce!), decidiu que naquele preciso momento de uma tarde fria e ensolarada, deveria responder a carta que ele a enviara três meses atrás. Antes, apenas se sufocou em palavras. Agora, era uma máquina de escrever mágoas e reverberar seus mais sinceros e íntimos sentimentos. Muito concisa, apenas rascunhou numa letra cheia de preguiça e má vontade:

Eu tive que escolher entre amar a você ou a mim mesma. Escolhi não apenas o amor por mim, mas o próprio respeito. Perdoe, mas entendi que romances só são reais em livros e talvez num ou noutro filme menos clichê e menos barato. A vida é uma selva e temos que tentar nos salvar quando quem deveria ser abrigo vira deslize, barranco e encosta em plena chuva torrencial. Mentira, – fui relapsa! – Cartola tinha razão: A vida (tal qual o mundo inteiro), na verdade, é um moinho. Não há mais lugar para o idílico, apenas o verdadeiro de alma límpida me interessa. Não faço da minha morada um punhado de lama. Sorte e saúde a você, porque há de vir mundo. E há de vir mais, não seja somente ainda. Já me fiz amanhãs. Seja feliz. Luto bravamente para sê-lo. De longe, lhe beijo com gosto de adeus embora não lhe queira mal. 

Assinou justamente em cima do logotipo do Café impresso no guardanapo e deixou que o correio fizesse a sua parte. A dela já estava feita. A decisão – sobre o próprio destino – fora irremediavelmente tomada: Era, finalmente, dona de si.

Let it be.
Let it be.

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Continho de circunstância.

8 de fevereiro de 2015 por Camila

Então, me deixa te contar uma coisa. Antes de tudo, hoje foi um dia injusto: dormi apenas duas horas, não ouvi o despertador, acordei com saudades de ti, perdi a hora de despertar – e o horário do ônibus! -, choveu a cântaros numa São Paulo que alaga (e falta água ao mesmo tempo!), meus alunos não apareceram, senti saudades de você, furei a dieta – e comi batata frita! -, enfiei o pé em poça d’água (mas isso me fez sorrir, então tudo bem), o meu ciúme quase sempre recatado hoje fez morada em coração de leão, acabou a bateria do meu iPod enquanto eu caminhava de volta pra casa, senti sua falta, não me empolguei com os blocos de carnaval, fiquei com preguiça de existir, passei frio e calor num espaço insano de 20 minutos, não consegui fechar os olhos e cochilar, sujei toda a cozinha de sei lá o quê, refleti e dei replay umas 40 vezes nas nossas brigas nas minhas memórias, não fui pra academia, ainda não sei de ti, as crianças do vizinho não param de berrar, as lentes dos meus óculos estão imundas, crio os piores cenários sobre o seu paradeiro, o livro que estou lendo está empacado numa estória paralela e sem graça, o vinho não está na temperatura ideal, queimei meu dedo no isqueiro enquanto tentava acender minhas velas de cheiro – e derrubei o maldito dentro do pote, que acabou mergulhado em parafina e imprestável pro resto de sua vidinha inanimada! – e, bem, eu já mencionei que ainda não ouvi sua voz? E quanto as minhas saudades, já proclamei?

Já li e reli suas mensagens insistentes uma centena de vezes. Você não consegue cumprir sua promessa de manter-se longe, eu tento manter a minha linha de não ceder e você dificulta as minhas resoluções. Seu charme é quase irresistível, mas está sempre confrontando o meu amor próprio e as promessas que me fiz.

-Sinto tanto a sua falta… É, é exatamente assim, com esse jeito reticente e filhodaputa que você arruma uma maneira de bagunçar meus dias e trazer seu caos pra organização metódica da minha existência no meio de uma tarde comum. Por que, por uma vez na sua vida, você não pode se calar? Ou então dar nós nos dedos e vencer a tentação de mensagens? Escreva-me cartas, pois. Assim terei a opção de guardar no fundo da gaveta ou esquecer displicentemente dentro de um livro qualquer e não abrí-las enquanto você ainda me doer mansinho

Posso – quase que de maneira palpável – sentir a sua carne trêmula ardendo contra a minha, sua língua quente, seu morder de lábios, seu fechar de olhos, seus dedos que aprenderam a me passear, o ângulo exato em que você me roubava beijos, sua mirada quando queria me pedir qualquer coisa – a de cachorro pidão querendo carinho e brigadeiro e perdões a homem que sabe como olhar sua mulher e expressar todo o seu desejo desregrado e ímpeto lascivo -, seu repouso quando eu queria vida acelerada, suas mãos enormes que abarcavam as minhas tão frágeis, sua necessidade constante de me abraçar a noite inteira, seu perder-se de si quando me ia, sua reclamação com o comprimento da minha saia e meus eventuais descuidos no cruzar das pernas, sua impaciência quando eu prometia ser aquela a última Heineken e pedia mais umas três depois, seu encarar de viés quando algum desconhecido passava e me tocava a cintura, sua dificuldade em dizer não as minhas vontades fora de hora, sua hiperatividade quando eu queria – simplesmente – quietude e marasmo, seus erros perdoáveis, o seu agir contrariado só pra evitar a fadiga de perder a discussão pra mim (sim, porque você de antemão já sabia que isto iria eventualmente acontecer), seu corpo tão protetor quando eu fugia pra você parecendo um coelhinho amedrontado pelo mundo… É, eu – também – sinto tanto a sua falta.

Respiro e pondero: -Eu sei, eu sei que as pessoas falam que aos domingos é sempre mais difícil administrar a saudade. Só que hoje é sábado, pôxa… Você traiu nossos hojes e amanhãs possíveis pelo seu passado indecoroso e um pouco encardido. Você bem sabe que, se aqui estivesse e eu o aceitasse, estaríamos agora aninhados num nó só no sofá vendo uma maratona de filmes ou seriados. Você, provavelmente, fazendo pipoca. E eu, com certeza, morrendo de preguiça e pedindo para que você trouxesse tudo pra mim: queijo ralado, refrigentante, álcool em gel para limpar minhas mãos, travesseiro, dengo, beijo, massagem, estalar meus dedinhos dos pés…

Sentei pra escrever um conto besta, desses continhos de circunstância e mera ocasião. Quando terminei, me dei conta de que eu precisava de um revisor das regras gramaticais i-men-sa-men-te tediosas da língua portuguesa. Hoje, mais uma vez – você não vai acreditar nisso – tive dúvidas quanto ao uso da crase… É, eu sei, eu já devia saber. Mas eu tinha você pra cuidar disso pra mim e agora tenho que me perder em índices de gramática para ver em que página constam as normas tão desimportantes… Era bom quando você me revisava sem coragem de me editar. Eu apenas o olhava nos olhos e ria baixinho quando o via se debater contra a própria natureza da chatice e ter que dar o braço a torcer que nenhuma estrutura do texto precisaria ser mudada.

Agora, neste fim de tarde de um dia que começou muito cedo, a fome me chega. Abro a geladeira. Nada me apetece. Mais uma vez furo a dieta: Estou ligando pra pizzaria de sempre. Sim, eu sei qual o sabor da metade que você quer. Não, oito fatias é um exagero, vou pedir a de seis. Sim, a de seis, conforme-se. E pode deixar, eu passo o endereço e explico como chegar aqui. Mas então você desce pra ir buscar na portaria, certo? Se não, eu faço beicinho e desço de camisola mesmo. E aí, já te quase escuto liquidamente dizer: -Não, é claro que eu vou! Menina sem pudor!  E eu caía pra trás de tanto dar risada desse seu ciúme ridículo do meu corpo (-tô gorda, ninguém vai me olhar, bobinho.) e do seu medo apavorado quando eu refletia sobre tudo que não dava certo entre nós enquanto roubava a sua azeitona preta e a cebola quase toda pra mim. -Me dá um gole da sua Coca-Cola, Amor? Mas tem bastante gelo? Só gosto com muito gelo, você sabe disso. Não, nós não vamos comer nada doce depois. Faço questão de lembrar que você é um Gordinho e bem guloso, mesmo tão esguio.

Paro e berro para que o eco do meu grito retorne ao vazio do meu silêncio: -Por que você foi fazer isso com a gente, hein? Dessa eu não posso te perdoar… Não sou boa de perdões, idiotinha. Você sabe que eu fujo para as montanhas sem olhar pra trás quando alguém quebra o meu lirismo, fere o meu eu lúdico ou rompe as fronteiras do aceitável pro meu coração. A solidão é sua. Mas o amor? Ah, o amor é meu. E o que eu faço com ele quando ele acaba mas ainda há? Que droga! 

E, antes de tudo, torno a dizer que injusto são os dias de hojes: Por um erro seu já não posso mais contar com você na minha existência e tenho que lhe dizer repetidos nãos quando todo o meu corpo implora pela existência constante de sins. E volto a vagar sozinha a procura do que nem vou saber quando (ou se) encontrar.

Je veux t’aimer tous les jours, imbécile.
Je veux t’aimer tous les jours, imbécile.

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Diálogos da Invisibilidade XI: De longe, aceno.

7 de fevereiro de 2015 por Camila

‘I loved you so madly, knew you would be true. Now this thing has happened, Dear: It’s over, all over, because we’re through. So sorry, Dear, it end this way… Since the world begin, the old folks say: Everything happens for the best.’

(HOLIDAY, B.)

Era manhã quando passei apressada por baixo de um pé-de-jasmim e pensei que a vida pode ser bonita em tudo que é singelo. Parei por um minuto e sorri. Mas aí, lembrei de você e fiquei triste.

Olhei pro mundo inteiro que cabia ao meu redor numa fração de segundos, e percebi que as ruas em que caminho todos os dias são adornadas por casas de muros baixos, setentistas e silenciosas. É possível até mesmo sentir o cheiro do abandono daqueles telhados melancólicos e daquelas paredes mofadas. Sendo mais concisa, é o próprio cheiro do esquecimento: Portões enferrujados prendiam os cães em seus lugares que realmente não eram seus e as janelas fechadas, gradeadas, claustrofóbicas e empoeiradas escondiam cortinas já desbotadas pelo efeito erosivo do tempo. Provavelmente chovia dentro de todos os quartos e os donos daquelas casas se vestiam sempre de cinza. Ainda assim, caminho. Diferente de quase todo mundo, ando por uma fagulha – uma lasca, que seja! – da esperança que pulsa um pouco abafada, mas que insiste em existir sem alarde. Padeço – e sei disso – de uma enorme (mas não mais eterna!) ressaca sentimental.

O que me inspira não se distingue da fonte dos outros: o amor, a frustração, a ternura desmedida, a dor de ter que deixar pra trás algo que tanto se quis, a ansiedade do olhar, as borboletas na barriga, a ponta fria do nariz, o diálogo comovido que acontece entre um copo de cerveja e outro mais, o cuidado, a vontade de sonhar junto, o calor do coração, as mãos dadas, o medo de uma realidade iminente com ausências presentes, o silêncio do telefone, o carinho eloquente, o contar de estrelas, as rusgas, a paixão incomensurável e as histórias bem contadas. E você, meu Bem, é um prato principal (e entrada e sobremesa e cafezinho) cheio de tudo isso. Você, a pessoa mais inconsciente e irresponsável que eu conheço. Você, que ama e nem sabe amar. Você, que diz saber de si mas que não sabe nem pra onde vai sem mim. Você, que é só desacerto e súplicas de perdão.

O que não mais tem importância é a saudade urgente que lhe sentia entre o seu tempo de sair da redação e chegar em casa com promessas de novas madrugadas: Daquelas que eram só nossas, do nosso jeito, de como poderíamos ser, de como fomos e da felicidade que sentíamos ainda que confrontados com tantas impossibilidades (devia ser a tal da certeza, alimento de amanhãs).

O que ficou irrelevante é dizer que aqui estou, sozinha. Nessa solidão de você em mim: Com meus pensamentos, com suas fotos, me perdendo no seu olhar (e lembrando que, estando de licença poética, posso usar o pronome oblíquo antes do verbo no início da frase se assim quiser, e quero), imaginando quantos – e quais! – dos nossos caminhos me levaram a você. E o quanto dos seus passos o trouxeram – entre tropeços e erros e soluços e circunstâncias – até mim por escolha e por um sentir inexplicável numa noite qualquer que só significou alguma coisa depois do passar de dias inúteis.

O que é obsoleto é eu ficar aqui, num luar de raro silêncio em São Paulo, escutando a nostalgia  prosaica de Dominguinhos e lembrando exatamente do que eu estava fazendo e por quais estradas me havia perdido numa busca frenética pelo algo que – quando o conheci – julgava ter encontrado. Um final feliz, quem sabe? Eu sei: Não foi feliz, foi só final. Você, que era o objeto da minha afeição e o tecedor de dias que viriam, assinou com papel passado e carimbado o ponto final que não abrange o entendimento nem dos meios e nem dos começos. É ordinariamente final, só isso e nada mais.

O que é insignificante é contar a você que abri outra cerveja, acabei com a quentura na minha boca e continuo pensando com certa melancolia em dias que se foram imbuídos no antecipar de dias que, de alguma forma, já existem. Mas que também ainda virão: E você não estará mais lá. São dias e são sonhos que não mais o pertencem. São meus com direito de exclusividade, registrado por testemunha ocular e legalizado pela burocracia preguiçosa que nos rege.

Preciso mesmo lembrá-lo de que deixamos – por alívio ou por tragédia – que o nosso amor morresse? Caiu duro e frio como neve na Rússia quando você (implacavelmente, diga-se de passagem) me atirou no meio de uma highway cheia de informações que eu desconhecia quando me julgava tão sua cúmplice. Tateei meu caminho de volta para a calçada segura e, com lágrimas nos olhos já turvos e o coração que afundou como âncora de navio ao se aproximar do cais, decidi que aquilo era imperdoável. A falta de lealdade, como repeti à exaustão, é pecado capital: A punhalada nas costas e a flecha no meu calcanhar de Aquiles sangra (por fim a heroína foi abatida em pleno combate). É ferida que não cicatriza. É ela que diz ‘não‘ aos seus apelos de volta. É ela quem lhe silencia e lhe indica que o seu arrependimento mesclado ao próprio remorso não me diz coisa alguma.

Não posso reclamar, já me tinham alertado: Minha vida seria mais fácil sem você (se você nunca tivesse entrado nela, mais precisamente), porém, essa minha personalidade empiricamente destrutiva (ou vice-versa?) quis pagar pra ver. Aquele papo de ‘veni, vidi, vici’, sabe? Bem, no seu caso, perdi. E talvez nem tanto assim (embora seja caro o preço que pago pelos meus erros. E eles parecem vir parcelados e contínuos). Quantificar não é comigo, acho que por isso não conto nem as horas e nem os dias. Apenas espero, com certa ânsia contida, o passar do tempo que traz a redução gradativa de tudo que agora parece tão grave e tão doído.

Sou das teses e das antíteses. Prolixa que sou, ironicamente, posso me dar ao enorme luxo de ser – também – síntese (pura Dialética de quem passa a vida sendo Semântica): as minhas contra-argumentações me geram novas teses, repelidas por novas antíteses e continuo a parir síntese. Simplificando, é somente o processo que não parece ter fim de dor, pequenos placebos de alegria e, por último, o consolo que me cabe (que geram outros confortos, momentos de insensatez emudecidas e novas neuroses). É um ciclo que não se fecha e todos os dias eu tenho que procurar novas fórmulas para conseguir funcionar e não deixar que a sua bagunça determine a minha vida: Para impedir, sobretudo, que o seu esparramar de si e o seu invadir de espaços vire a minha paranóia. São diálogos silenciosos que explodem dentro de mim e que jamais se calam. Na metodologia estranha e pessoal que desenvolvi a duras penas para tentar entendê-lo, permiti perder-me de mim e do meu equilíbrio construído em longas batalhas contra as noites vazias. E, por isso, só quero ficar longe de você. Só quero ser se for pra mim: Perceba que, também eu, às vezes me preciso distante. Às vezes me sou bálsamo próprio quando tento me ser cura.

Se eu fosse voyeur de mim mesma, seria tão mais simples observar meus problemas e definir  as minhas rotas de soluções e opções de fuga. No entanto, olhei pra mim e senti tanta pena: Trajava uma camiseta cor-de-rosa com a imagem dilacerada de Billie Holiday e, só por isso, concluí que era claro que meu destino só podia ser esse em que vivo no agora.

Nessa minha eterna mania de entorpecer e domesticar palavras, hoje as digo muito claramente: este é um conto de adeus.

Já me fui.
Já me fui com todos os pedaços de mim que me juntei.

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Diálogos da Invisibilidade X: Oblívio.

7 de fevereiro de 2015 por Camila

‘…El recuerdo es sentir el vacío en el pecho y el nudo en la garganta.’

(GANE, M.)

– 

Você se matou em mim. Você já não é.

Seus vestígios pela minha casa já foram varridos para debaixo do tapete que nem existe, mas que finjo existir. Fingir: Esse tem sido meu verbo favorito esses dias. Ou apenas o mais conjugado em todos os meus eus plurais. E eu que me saiba. E eu que me sobre. E eu que me baste em justaposição (obrigada, Aristóteles!) e medida exata (logo eu, que vivo me esparramando por aí).

Suas camisas já estão jogadas no meu armário, aonde não podem andar de par com a minha memória e minhas lembranças de você, nessa sua tentativa frustrante e desesperada de me fazer cambalear num passo que dei e não voltarei atrás. Joguei na máquina de lavar para tirar delas o seu cheiro e a sua pele, depois as deixei esturricadas ao sol para que desbotassem suas cores. Por último, a pá de cal de um carinho qualquer que já não há: o esquecimento e a obsolescência do fundo escuro do guarda-roupa. Não o guardo, você não me tem. Você, o meu erro líquido que evapora e chove e evapora e chove e evapora e chove e evapora e chove e evapora e chove…

Seu pacote de chicletes – esquecido displicentemente em cima da minha caixinha de chás e sobre a minha decência – já está atirado ao lixo junto com todas as outras coisas que passaram da validade dentro da minha geladeira. Hortelã: Sabor que arde, hálito que queima, língua áspera, lábios afiados, coração em frangalhos. Você é hoje o expoente máximo da arte dos resquícios, ainda que seja nas pequenas coisas que repouse a saudade.

Ao revés de mim e do meu querer, reencontro você e seus poemas dentro dos meus livros de Nietzsche. Parece um passo mal calculado da sua desfaçatez: Essa sua insistência de permanecer perto da minha cama, ainda que esquecido na poeira do meu criado-mudo e nos escritos que ali vivem. Sua letra trêmula e insegura em guardanapos, seus traços desconexos e incertos, as minhas verdades irrefutáveis e o meu lirismo inteiro. Você, sombra de si mesmo.

Da minha estante, me grita – quase já rouco de tanto desespero – Quintana: ‘Do amoroso esquecimento: Eu agora – que desfecho! – Já nem penso mais em ti… Mas será que nunca deixo de lembrar que te esqueci?’. Coloco Bob Dylan na vitrola e ele esfrega nossa história na minha cara. Não pense duas vezes, tá tudo bem… Continuo a evitá-lo pelo microcosmo onde vivo e tropeço mais uma vez no você que está – ainda e não por muito – dentro do meu apartamento: Na lata de leite condensado que ficou pra trás (e na sua voz a ecoar me pedindo brigadeiro repetidamente no meio da noite, coisa mais sem sentido!), nas coisas fora de lugar, no caos da minha cama, nas minhas madrugadas insones, no milho da pipoca que queimou, nas minhas olheiras onipresentes, nas milhares de latas de Coca-Cola e nas xícaras borradas de café. Você, meu arrependimento inquietante e crucial do vivido.

Forço a memória na tentativa de procurar pedaços de você dentro de mim e arrancar antes que novamente me apareça de surpresa e acabe com meus planos de sublimar lembranças. Encontro você, inevitavelmente, no pior de mim: Na quebra de confiança, nos questionamentos, na agonia, na insensatez dos desejos não-atendidos, na falta, na desesperança, na ansiedade mal gerida, no cinismo da omissão, na traição de uma mentira, na minha tendência de fazer péssimas escolhas, no choque de vivências, na covardia de onerar o outro pelos seus erros crassos e grosseiros, no desgaste iminente, na perda da inocência, no fim. Você, o meu tempo perdido.

Encontro rabiscos de Gane – sim, de novo ele com sua dor especial e sevillana –  na minha agenda e a circunstância do escrito me lembra – por fim lembrei! – de você: ‘Anoche lloré. Lloré porque no sentía, porque no tenía ni una gota de amor adentro aunque llovían recuerdos tuyos por todos los lados.’ A data? Ironicamente, meados de setembro, primavera em flor. Às vezes demora muito a amanhecer e a madrugada – trôpega – se arrasta fria e silenciosamente num vazio de dimensões ignoradas. Estou tão… cansada. ‘Sufro de noches sin ti’, emenda Miguel G. Eu apenas agradeço a ocasião que o levou embora antes que eu desistisse dos meus planos para viver os seus. Você, minha decepção.

Quase que em modo automático – um zumbi, caçoariam alguns -, acendo uma vela, Plum Dahlia. Não, nunca mais a fragrância das rosas amarelas para escrever sobre você, seria um desperdício de paz e aconchego e suavidade e sutileza. Cada um faz por merecer o que lhe chega e – honestamente, Benzinho – você fez muito pouco somado a quase nada. Apenas observou passivamente e culpou tudo que estava fora de você e dentro dos outros. Você, entenda, é a sua própria fraqueza. Você, tão irrelevante.

Como que meramente por capricho da vida, durmo. E, nos piores pesadelos que me invadem, todas as suas promessas e pedidos de desculpa e justificativas supérfluas e meu fingimento do acreditar nas suas mentiras. Mas não dói mais, e escrevo meramente por hábito e bons costumes. Você, a desimportância do que já me foi.

Um dia, um conselho: enxergue de verdade cada um dos seus amores, tal qual cada um é. Com os olhos desnudos da paixão, finalmente o enxerguei. E sinto dizer, carinho meu, não gostei do que vi quando me vi. A bagunça de você por inteiro é só aresta congênita para minha mania de organização tentar reparar. E falhar em absolutamente todas as vezes. Sou eu a personificação pálida desse caso perdido de eterna tentativa e erro? Você, a minha desistência.

As pessoas insistem em dizer que, para certas coisas, há que se ter coração. Discordo e vocifero que há que se ter estômago. E, assim como tudo é graça e antítese, tenho um coração que já não pulsa e muita (muita!) fome.

Você se matou em mim, repito para crer. O homem por quem me apaixonei jamais seria dado a tamanho despudor e vulgaridade. Ele era um ser mágico que se esforçava para remendar erros e costurar novos amanhãs. Ele nunca seria ordinário e fundamentalmente vil e vaidoso. Ele, tenho certeza, não me negaria o prazer e a dor da verdade em detrimento do doce amargo da mentira. Eu, a que se engana.

Apenas vá, estranho. Vá embora e não deixe pegadas pelo caminho ou impressões digitais na minha porta, ela está fechada e joguei a chave bem dentro do meu abandono, num lugar bem fundo da minha vergonha. Fiz como Kaufman me sugeriu e o escondi nas profundezas da minha humilhação, aonde você permanecerá encarcerado até que eu consiga, por fim e irrevogavelmente, apagá-lo.

Você, tão pouco. Você – que imenso paradoxo! -, que poderia ter sido tanto e agora já é quase nada.

Etm. do latim: obliviu. s.m. Ação ou efeito de esquecer; perda de memória; esquecimento. Figurado. Condição do que ou de quem se encontra em repouso; descanso ou adormecimento.
Etm. do latim: obliviu. s.m. Ação ou efeito de esquecer; perda de memória; esquecimento. Figurado. Condição do que ou de quem se encontra em repouso; descanso ou adormecimento.

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Diálogos da Invisibilidade IX: Lago Cocite.

5 de fevereiro de 2015 por Camila

‘Vês! Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão – esta pantera – foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro: a mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, apedreja essa mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija!’

(ANJOS, A.)

Moscou, 11 de fevereiro de 1991.

Dante,

Você não entrou na minha vida de um jeito fácil, não permaneceu de um jeito suave e agora sai de um jeito amargo e travoso.

Preciso lhe dizer que este lastimoso processo de juntar pedaços estilhaçados no chão me é imensamente catastrófico. Quando passa o medo, vem a dor indizível e lancinante que quer apagar tudo que um dia foi graça e amor. Ela vem aclarar que foi tudo mentira e quer levar embora o que ficou de bom. Proteger as lembranças é uma arte bastante difícil, ou assim me soa. Então, perdoe as palavras que atravessam seu caminho e confundem o curso do seu dia de uma maneira embaralhada e um tanto quanto magoada. No momento só a bagunça causada pela melancolia me chega implacavelmente, e o azul dos dias que eram nossos foi por inteiro borrado com a paleta atormentada de Van Gogh.

E quanto a essa sensação despudorada e ardente que sufoca meu peito inteiro e que me diz, o tempo todo e em todo o tempo, que qualquer pessoa te conhece muito mais do que eu e que você não deixou que as previsões delas sobre você mesmo falhassem como se fossem elas senhoras e senhores da sua vida? Você se fez tão nítido aos outros e tão profundamente embaçado a mim. Você escolheu ser medíocre e permanecer em mais do mesmo quando eu tentei te apresentar o mundo inteiro de joelhos e colocar o universo aos seus pés. Você quis menos, eu só quis sonhar.

Você me acusou de ser insuportavelmente egoísta até mesmo quando eu abri mão das minhas mais puras convicções para acolher o seu sentir e a sua imensa necessidade da minha energia esgotada. O seu amor-desassossego sorria obliquamente das minhas lágrimas enquanto fingia chorar junto. Você dizia se importar mas não cuidou quando me feriu e me viu sangrando vida entre soluços silenciosos, porém não menos compulsivos. Você com seu eu dissimulado e seu cinismo torpe enraizado. Você que não é pra mim. Você que caminhou pelos Nove Círculos e disse sair inteiro de cada um, mas me parece que está indefinidamente parado no Lago Cocite com suas repetições – ad aeternum – comportamentais.

Diz que morreu quando me fui e agarrou a idéia de mim que se ia, mas então porque quem se sente tão vazia assim sou eu? Porque essa dormência de um coração que já não pulsa, essa alma recolhida, esses olhos molhados, essa frieza nas minhas mãos e esse recesso de curva nos meus lábios? Porque tanta ausência de virtudes neste corpo que me toma e que dizem ser meu? A injustiça fez morada: Os erros são seus, e quem padece por eles sou eu. A queda livre do Paraíso ao Purgatório e, de lá, diretamente ao Inferno é iminente. Procuro onde me segurar, mas tudo é barranco e encosta em períodos de tempestades. Tudo desliza. Nada do que era sólido finca.

Nunca um ‘eu te amo’ tão embevecido de passionalidade soou tão superficial. A poesia desmoronou. O que era romance, ficou barato (e de qualidade bastante duvidosa, diga-se de passagem). O que era conto, calou. O que era canto seu e pedaço de mim, agora é espaço tomado de relva não-arrefecida pelo tempo. Mato selvagem, seco, sem flor, erva daninha, aridez do sertão sem a força do mandacaru resiliente. Tudo se desmanchou no ar.

Obrigada pela ilusão, Dante querido. Você é, inquestionavelmente, o meu mais estimado desconhecido íntimo. A carência que mais me deu prazer. A vaidade que mais me alimentou. A mentira que mais embruteceu. E a omissão que menos sublimou. Você, de tentativas e desculpas e desistências e extremos. Você avesso do que poderia ter sido. Você é hoje o que já foi, o tempo passado que não é ido: pretéritos, imperfeitos, subjuntivos.

O amor é meu, e isso não é novidade aos seus ouvidos. E agora, o medo e o terror também o são. A bolha estourou e o que ficou pelos horizontes de mim foram os resquícios da pretensão de sermos. Vomito o pouco que sobrou e dou por encerrada qualquer discussão: Da minha boca, o silêncio eloquente. Dos seus olhos distantes, o arrependimento pelo vulgar impensado do mundo.

Você não será saudade de um tempo bom: Você já é a falta que eu me faço e a falta que vou sentir de quem eu era antes de você. De você, que nunca foi meu. Do alto da semiótica da minha nostalgia, pergunto-me: –como se pode sentir saudades do que não se conhece? Emudeço. Não se pode. Falta é a ausência gritante do que um dia se ocupou espaço e do que se quer de volta.

Trêmula, apago a luz e vago – insisto burramente em buscar! – sem esperanças pelo sono que não vem. O peito oprimido e o pânico escancarado: Eles tinham razão. E você me avisou. Saio de cena e o devolvo por fim à Comédia sem graça e nada Divina na qual o encontrei.

Assim mesmo, cuide-se. And so remember: open your eyes. 

De muito longe de todas as possibilidades e jamais sua por saber-me muito minha,

Beatriz.

Para uma tarde (de detox e inspiração) de verão no Parque Olhos D'Água: Alighieri, Buarque, passatempos e óculos escuro. ;)
Para uma tarde (de detox e inspiração) de verão no Parque Olhos D’Água: Alighieri, Buarque, passatempos e óculos escuro. ;)

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