O mundo anda cheio de coisas fantásticas. Aqui, quero dividir um pouco do bonito que ando descobrindo em música, produtinhos, maquiagens, comidinhas e demais amenidades que – também elas – são parte de um universo singular em expansão pedindo licença para invadir.


Domingo sem preguiça.

4 de fevereiro de 2015 por Camila

Vamos aclarar uma coisa por aqui antes de falar sobre qualquer outra: Sou indiscutivelmente a favor da preguiça do Dominguinho, e, inclusive sou desse tipo de gente que o coroa como o Dia Internacional Da Malemolência. É o direito sagrado a languidez e a morosidade sem a vergonha e sem a obrigação de produzir e ser melhor, certo? Certo.

Mas – como em tudo há conjunção e alternância -, descobri há algumas semanas atrás que aproveitar o domingo fora da cama ou do sofá pode também ser algo muito bom e compensador. E descobri isso brincando de ser turista na cidade onde moro já há alguns anos.

Sei que morar em São Paulo traz uma variedade muito grande de opções de programas nesse sentido pois, não só nos perdemos nas suas imensidões, mas também sempre temos algo novo para ver. O fluxo não pára. A novidade é constante. A vida acontece todo o tempo e a toda velocidade. E o tradicional também sempre tem algo de diferente a mostrar.

Nesse domingo, o Léo (querido colega dos tempos de USP e futuro grande Doutor em Ciências Políticas) me convidou para vermos uma exposição fotográfica ali no Itaú Cultural. Escreveu-me assim: ‘Tá por Sampa? Tá sabendo de uma exposição de fotografia sobre saudade? Achei que tinha um toque de Camila ali! Anima de ir?’. É claro que animei. E, dei-me conta por fim que, aparentemente, a nostalgia anda escrita no meu rosto e eu nem estava sabendo…

Combinamos pois de tomar um café antes ali na Casa Das Rosas, um cantinho lindo que serve como um oásis no meio do caos da Avenida Paulista e que eu não conhecia. Parece que você se perdeu em São Paulo e caiu no meio de uma calçada parisiense e, convenhamos, é encantador ser surpreendida pela cidade, tropeçar na rua e cair em lugares assim! Um dia que começa com cappuccino, pão de queijo e escutar o outro falando sobre planos grandiosos e possíveis já promete ser um dia nada ordinário. Sem pressa e entre gargalhadas, contávamos o que nos passou desde que não éramos mais colegas de sala (e perrengues universitários!) e pra onde estávamos indo agora. Estando eu já há algum tempo afastada dos meus estudos acadêmicos, silenciei e ouvi com interesse as novas linhas de pesquisa nas quais o Léo está avançando e suas enormes possibilidades de conquistas pelas Ivy League da vida (sorte, querido, toda sorte!).

Resolvemos percorrer a Avenida Paulista de uma ponta a outra e, qual o quê não foi a minha surpresa ao perceber que, mais uma vez e depois de anos por aqui, essa linha reta de concreto e prédios modernistas continua me fazendo ver a vida diferente. Aos domingos, há uma feirinha de todo tipo de trecos armada no vão do MASP, mas, algo que eu sempre gostei de fazer foi de ficar – efetivamente – sentada nesse mesmo vão, sentindo a pulsação de uma cidade que é elemento vivo e constante. São Paulo como organismo, São Paulo como coração. Pois bem, por ali eu sentava enquanto o vento ressecava meus lábios e eu ia sorvendo o mundo inteiro como se tomasse um milkshake no canudinho.

Desviando de artistas e suas guitarras desafinadas, loucos, bêbados, vendedores e artesãos, entramos e saímos rapidamente da Reserva Cultural, onde deixei R$60 e levei uma camiseta lin-da da Frida Kahlo (então, iêeeei pra mim!). A tentação para ver o russo Leviathan até que bateu a porta, mas 141 minutos de um filme um tanto quanto pesado (gente, é russo! Isso devia ser tipo pleonasmo!) pra um domingo que precisava ser leve não pareceu tão boa idéia assim.

Sob um sol causticante e quase sádico que precedeu uma garoa inesperada e bastante fria (bem-vindo a São Paulo, só aqui você consegue experimentar quatro estações no período de um dia!), conseguimos, por fim, chegar ao Itaú Cultural. Com entrada franca, nos deslumbramos com a exposição. Eu passei incontáveis minutos lendo e relendo as palavras que tentavam explicar uma coisa que todo mundo sente e ninguém sabe dizer. Saudade é conceito abstrato: É a falta do que foi, do que ficou, do que é e a promessa de um novo tempo. Saudade é única e universal. Saudade é privilégio da língua portuguesa emprestada a qualquer alma que sinta coisa alguma tocada pelo tempo. Só quem tem sorte pode ter saudade: Só sentimos o vazio do que outrora foi preenchido pelo bom, pelo doce, pelo lúdico e pelo que se fez possível naquele instante. Quem tem história, tem saudade.

A curadoria abordou o tema em diversas vertentes e todas elas com um quinhão de poesia espetacular. As fotos me tocaram, confesso, mas as descrições de cada etapa da exposição me fizeram desejar ter produzido aquelas palavras que pareciam enamoradas uma das outras tamanha perfeição estarem juntas.

Terminada a nossa visita, posso dizer que deixei o centro com uma sensação contínua no peito: a saudade milagrosa de um tempo que não vivi e das histórias que não me pertencem. Dos amores que não conheci e pelos quais me apaixonei, das cidades em que nunca estive e que parecem minhas, dos momentos dos outros que eu me apropriei e, finalmente, da minha vida, cujo o tempo desafia a memória e tudo vai ficando um pouco mais apagadinho se não prestarmos atenção. Num dado momento, sentei no banco, tirei meu caderninho da bolsa e iniciei um conto. Um conto que não sei pra onde vai e nem porquê veio, mas será.

Andamos mais um pouco pela imensidão de concreto que nos cerca sem sufocar e é claro que eu não resisti ao milho cozido quando vi o carrinho parado no meu caminho. Paguei contrariada o absurdo de R$5 (só em São Paulo, é isso!), mas comi feliz. Das coisas boas de passeios de rua despretensiosos, uma delas é a comida que te traz saudades de casa e da infância. Né? É. A essas alturas, já cruzávamos mais uma vez a Paulista debatendo política atual, desesperanças ideológicas, histeria, patrulhas e a reeleição de Dilma Rousseff (suas virtudes sem máscaras e seus desastres iminentes).

Decidimos que seria uma boa almoçar na Casa Das Rosas e terminar o passeio por onde começamos. E, adivinha? Apareceu por lá um Lambe-Lambe, das coisas mais exploradas na exposição que acabáramos de ver! A entrada do Casarão anunciava uma outra exposição sobre o centenário da morte de Augusto dos Anjos, então o prato principal do almoço foi uma troca sobre poesia. E poesia é função do sentir. E quem sente se confunde inteiro. E amigos estão por ali pra jogar uma luz e uma idéia sobre tudo que é disperso em si próprio e tudo que estilhaça quando já não cabe. Nesta hora (que almoçávamos a céu aberto) chovia de verdade e fazia frio, mas isso não estragou um fantástico dia de sol.

Isto posto, recomendo: Domingos para turistar na própria cidade e mudar o ângulo do olhar para o que já lhe parece tão comum. Descubra o novo na paisagem cotidiana. A cama e a maratona de seriados não ficarão com ciúmes da rua. E há vida, ainda, que quer ser vivida sem contar dias de semana. 😉

P.S.: Se quiser aumentar a imagem, basta clicar em cima dela.

A São Paulo fria e suja e chuvosa e caótica que implora e suplica pelos muros barulhentos de si própria... <3
A São Paulo fria e suja e chuvosa e caótica que implora e suplica pelos muros barulhentos de si própria… <3

 

A São Paulo que me grita. A cidade que me cuida.
A São Paulo que me grita. A cidade que me cuida.

 

 

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