Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Rascunhos de Outono I: Ambivalência.

28 de fevereiro de 2015 por Camila em Eu Conto!

Irônica que era a vida, já não era dele o beijo que habitava a boca dela: Eram outros beijos, era um outro carnaval inteiro. Mas era dele a saudade. Era dele a falta onipresente. Era dele a lembrança. Eram dele os pensamentos. E, sobretudo, era dele – ainda que de um jeito bastante torto, é bem verdade – o amor que lhe restara.

Mas ia passar. Amor evapora. Amores – como tempestades – sempre chovem em telhados rachados e depois secam. E fica tudo árido. E fica tudo o que já não há. Fica o gosto amargo da cerveja, a punhalada da deslealdade, a ruptura que traz a solidão, o silêncio rouco e desesperado, o cigarro que ninguém fumou, o abandono não-requerido, a poesia bruta emudecida e as promessas quebradas: Por fim, nada é bem-vindo e a porta está fechada.

Gritos abafados, manhãs de calor, o tempo que corre vadio e os tropeços em livrarias: ‘Amor, de novo’, dizia a capa em cinza feita por algum designer pós-moderno. Doris Lessing. Nobel em Literatura. Pareceu promissor. Pareceu apaziguador. E, quase que de maneira ambivalente, pareceu uma tortura enorme. Mas, desde que não tivesse um final feliz em mais uma estória mentirosa, parecia bom e real e condizente com aquilo que ela chamava de vida. Arriscou. Enquanto no caixa: -Débito, por favor.

Andou mais uns metros por aquela rua que era toda charme de um entardecer atípico de outono e sentou-se – sozinha como lhe era de direito – numa das mesas da varanda daquele Café. Com a brisa que lhe rachava os lábios enquanto o sol injustamente ardia, deixou que os dedos passeassem entre pautas e percorressem sedentos por palavras. Se escondendo por trás dos óculos escuros maiores que a face, não se sabia preparada para aquilo no presente instante, mas estava segura que um dia aquele livro seria necessário feito bálsamo que perfuma machados no corte. Sangrava, mas a cura não viria agora e sabia apreciar o tempo de recolhimento com certa resignação. Era toda feito lagarta em casulo, ainda que paciência não fosse uma das suas poucas virtudes. Perdeu o olhar nos transeuntes e, com o coração melancólico, se esforçou pra ver a beleza na natureza cotidiana das coisas. Mais que um exercício constante, era um ato de fé no amanhã e no possível sonhado.

-Um espresso, por favor. Duplo.

Entre queimar a língua com o café sem açúcar – como devem ser todos os cafés jamais servidos em qualquer parte! – e a observação calada e obsessiva do mundo (que, concluiu, precisava ser mais doce!), decidiu que naquele preciso momento de uma tarde fria e ensolarada, deveria responder a carta que ele a enviara três meses atrás. Antes, apenas se sufocou em palavras. Agora, era uma máquina de escrever mágoas e reverberar seus mais sinceros e íntimos sentimentos. Muito concisa, apenas rascunhou numa letra cheia de preguiça e má vontade:

Eu tive que escolher entre amar a você ou a mim mesma. Escolhi não apenas o amor por mim, mas o próprio respeito. Perdoe, mas entendi que romances só são reais em livros e talvez num ou noutro filme menos clichê e menos barato. A vida é uma selva e temos que tentar nos salvar quando quem deveria ser abrigo vira deslize, barranco e encosta em plena chuva torrencial. Mentira, – fui relapsa! – Cartola tinha razão: A vida (tal qual o mundo inteiro), na verdade, é um moinho. Não há mais lugar para o idílico, apenas o verdadeiro de alma límpida me interessa. Não faço da minha morada um punhado de lama. Sorte e saúde a você, porque há de vir mundo. E há de vir mais, não seja somente ainda. Já me fiz amanhãs. Seja feliz. Luto bravamente para sê-lo. De longe, lhe beijo com gosto de adeus embora não lhe queira mal. 

Assinou justamente em cima do logotipo do Café impresso no guardanapo e deixou que o correio fizesse a sua parte. A dela já estava feita. A decisão – sobre o próprio destino – fora irremediavelmente tomada: Era, finalmente, dona de si.

Let it be.
Let it be.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>