Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Rascunhos de Outono II: Tempo de era(s).

5 de março de 2015 por Camila em Eu Conto!

Helsinque, 11 de Dezembro de 1978.

B., querido:

Acordei com saudades. E com a certeza de que foi melhor assim: Com essa lonjura que arde, que queima, que causa febre delirante e que tortura em ausência de corpos. Mas que, no meio de todo esse processo perturbado, é também cura.

É a cura de um coração machucado, ferido, atraiçoado e, pior, desconfiado: É remendo, emenda e soneto. É conto, conta, prosa, poema e poesia. Mas é tanta – é grande, é enorme, é urgente, é imensa! – saudade. Corro mundos (e o mundo inteiro!) buscando presença e sanidade e completude e liberdade e amplidão. Mas é tudo tão irremediável, tão vago, tão vão, tão desimportante, tão sem sentido e tão sem graça feito sol em dia de neve e gente que não se dá.

No entanto, me habita a falta. E é falta, entenda, sem que esteja vazio. Não adianta correr mundos, percebo (finalmente!), se é amor que há sem haver. É dúvida de sentir. É a nostalgia de um novo tempo que pereceu e envelheceu o sonho. É o querer-te perto e longe no espaço que pode compreender um átimo de segundo. É banir-te sem o conhecimento sobre se sei, de fato, amar-te (e não sei, concluo). É a escolha por mim ao invés de escolher a ti. É o que desejo e não quero mais. É pulso sem vida. É o existir que se arrasta. É a volição esquecida, dissolvida e apagada.

Tua voz, saiba, é como um punhado de sal na minha carne que sangra, na minha loucura de uma ferida eternamente aberta e incicatrizável. Tuas palavras me varam o fígado, sugam o ar dos meus pulmões, viram úlcera no meu estômago em chamas e tentam – inutilmente – ludibriar meu cérebro na criação de novos planos e na feitura de novas promessas. És o meu coma, o meu estado vegetativo aonde estou acordada e com metade do corpo funcionando.

De mundos diferentes, óticas desiguais e verdades distintas ungidas sob o pano de semelhanças: Esses somos nós. Esses sempre seremos nós – dois seres confusos, perdidos, um pouco sujos e abandonados pelas nossas vaidades rasas e arrogâncias superficiais – , ainda que já não sejamos e tenhamos há muito deixado de ser(mos). Cruzamos os passados e nos tornamos a verossimilhança pretérita subjuntiva e abstrata do fôssemos. Não, não fomos. Jamais hemos de ser.

O nosso tempo é um eterno e desconcertante ‘era’: Era para ser, era uma vez, já era. A Era melancólica do tempo e da vida que não foi. Desafinou. Desandou. Desdisse. Desamou sufocando de paixão. Deixou pra lá. Desapareceu no sólido. Desmanchou o laço. Desocupou espaços. Doeu na impossibilidade permanente.

Inverteu, atravessou, escreveu, mentiu, quebrou, pretendeu, escorreu, adormeceu, vagou, lamentou, lembrou, morreu.

Foi-se (o amor).

Fui-me (embora).

Näkemiin,

M.

Peregrinação de mundos: Já não estou em parte alguma.
Peregrinação de mundos: Já não estou em parte alguma.

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