Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Rascunhos de Outono III: Parênteses.

13 de março de 2015 por Camila em Eu Conto!

Olha, você gostaria de saber que hoje eu fiz uma baliza perfeita? Aliás, duas. E, em uma delas, estacionei o carro de primeira naquela minha garagem assimétrica. E então, ao fazê-lo, quase deu pra ouvir o seu aplauso e palpar o seu sorriso cheio de orgulho e contentamento (e, é claro, recheado de um punhado da sua ironia peculiar seguido do verbalizado ‘finalmente, meu Bem’).

E que pensei no andamento do seu livro a tarde inteira e novamente antes de dormir, você gostaria? Fiquei elocubrando cá com meus botões se você avançou nas idéias e nos capítulos, na narrativa e no enredo, no começo e no meio (por que o fim – como você sabe – nós nunca entenderemos).

Então você acha que se interessaria em saber que a sua ausência me perturba na mesma proporção que a sua presença? Que o seu silêncio me arde tanto quanto as suas palavras? Que essa distância está tão perto que me confunde os sentidos e que anda por aí desembestada e afirmando que já nem sabe mais de nada? E que eu não reclamei do amargo do café e que ri da hiperatividade que ele me trouxe em seguida (descobri que as noites insones só podem ser salvas por manhãs de cafeína!), você se interessaria?

Freio meus impulsos e digo a mim mesma que você não iria querer saber disso (que é pura bobagem de mim!), mas tentei traçar na minha mente as portas que hoje lhe foram abertas (ou fechadas): Tentei calcular milimetricamente (sim, eu – justo eu – calculando coisa alguma!) o tamanho da alegria ou da profundeza escura da sua decepção, do seu desapontamento ou da sua desesperança. Tive vontade de saber com quantas pessoas já saiu ou aonde foi para buscar curas, porque, obviamente, o meu colo não procurou para o conforto e nem o meu companheirismo para celebração.

E que fui reler os seus poemas antigos, rever as suas fotos velhas, relembrar suas estórias,  reviver os seus momentos e procurá-lo nas redes sociais para saber um pouco mais da sua vida presente, você gostaria de saber? Passos ultrapassados e guiados pelo desconhecer (de ti).

Será que você pensaria ser relevante que, mesmo agora, quando chego em casa apenas levemente molhada enquanto vejo o mundo desabar sob a chuva paulistana e sinto – Deus, como sinto! – tanta pena dessas pessoas que estão encharcadas no corpo e vazias na alma e que buzinam desesperadas ou correm entre poças para chegar até àquilo que chamam ‘lar’ (seja qual é o conceito!), eu penso fastidiosamente sobre as suas hipóteses e vertigens?

Pois hoje foi dia de levar o carro para revisão. E, honestamente, me diga: você consegue pensar em uma tarefa que me sugue mais a vida do que isso? Bem, talvez fila de banco me mate o espírito, mas, revisão do carro?! Posso imaginar a sua cara ao me ouvir dizer pela 97839371 vez que não fui feita para as burocracias do mundo: -Dêem-me algo impassível de ser quebrado e uma impressora que transforme em cédulas o que eu tenho na conta, ora.

É que é na feitura dos meus planos em que fico me indagando continuamente sobre o que você me diria se soubesse deles. Nas suas expressões ao ouvir as minhas novidades e criações de horizontes quando tudo ao meu redor me enfada e me mata de tédio. No seu estar incondicional ao meu lado, mesmo quando me torno mais marasmo que aventura. Nas flores amarelas e azuis que você me traz mesmo quando faço bico e não mereço coisa alguma. Na sua falta de atenção quando a carência me consome. Na nossa via de mão dupla em sentido único. Nos nossos antagonismos semelhantes. No que nos completa e no que nos racha, nos afoga, nos quebra  e nos separa.

E, portanto, lhe digo livre de pretensão ou licença poética: Hoje foi um dia ordinariamente comum, no qual fui feliz nas pequenas coisas e sobrevivi ao sem graça do mundo, à ignorância da gente que me cerca, ao meu próprio mau humor (e TPM, claro!), ao cinza da paisagem, à garoa preguiçosa (que é ora tempestade e ora mansidão), ao destempero do trânsito de uma cidade caótica, às minhas incertezas indestrutíveis e ao carinho do próximo. Hoje foi só mais um dia como tantos foram aqueles outros em que tive vontade de falar com você, de me aninhar no seu peito, de beijá-lo apressadamente, de calar-lhe a boca com alguma rudez proferida e dar um basta na rotina que me exaure. Ou de (te) escrever um conto (sobre nós ou sobre tudo aquilo que me é você). Hoje brinquei de desenhá-lo nas minhas memórias mais bonitas, nos cantinhos tão meus que são só saudades e doçura: Hoje, provavelmente e muito talvez só por hoje, a minha mágoa não latejou feito a louca que é e que há de ser.

No meio de tantas dúvidas sobre suas posturas e tentativas de criar em fantasias (fantasmagóricas?) as suas possibilidades de ações, (te) falo tudo isso porque sei que você ainda vem aqui para beber as minhas lágrimas em taça de champagne ou talvez apenas atrás de notícias, súplicas, fatos, remorsos e sonhos. E que ainda quer saber de mim, mesmo quando eu própria já não quero (e me convenço disso ao fechar meus olhos em mais uma tentativa frustrada de dormir cedo).

Parênteses (cheios) de nós, quereres (plenos) de mins.

Das sutilezas de esquecer de mim em dias comuns de você.
Das sutilezas de esquecer de mim em dias comuns de você.

Comentários

3 comentários em “Rascunhos de Outono III: Parênteses.

  1. adelaide nogueira

    Leitura que nos faz querer viver momentos assim. Fã muito e demais da Camila

  2. Obrigada, minha flor. Sempre bom poder contar com o seu carinho e a sua presença por aqui.

  3. Eu

    Pois, sim, morri de orgulho de saber das ruas balizas. Sim, busquei insanamente quebrar o silêncio e te mandei milhares de mensagens de todos os modelos já criados e alguns novos, nascidos de uma nova angústia, de um não saber de ti inquietante é surdo. Sim, busquei teu colo e não outro colo estéril de mim. Procurei teu companheirismo e só o teu, porque só o teu companheirismo é o que me entende. Sim, eu te trouxe flores. Amarelas, vermelhas, de outra visita ao sertão que hoje, estou certo, só floresce à minha presença, e só floresce para que eu te leve alguma beleza na volta pra casa. E sim, por fim, ainda venho te buscar aqui, quando não te encontro em lugar qualquer. Tua ausência é tudo o que me ocupa nesse vazio que hoje – nada – sou.
    Fala comigo.

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