Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Rascunhos de Outono V: Desossada.

28 de abril de 2015 por Camila em Eu Conto!

‘…Then the gate springs open again and there are beautiful silks and powerful horses riding against the sky. Such sadness: everything trying to break through into blossom. Every day should be a miracle instead of a machination. In my hand rests the last bluebird: The shades roar like lions and the walls rattle, dance around my head. Then her eyes look at me, love breaks my bones and I laugh.’

(BUKOWSKI, C.)

‘Love…breaks…my…bones…and…I…laugh.': Bukowski lhe ecoava incessantemente na escassez que era o seu próprio juízo de uma mente oca e ela repetia as palavras e sílabas com malemolência e com um certo desdém de quem acabara de aprender algo novo mas que fingia saber há muito: Escondia a surpresa diante do óbvio e mentia não ser a inocência em pura – porém não menos bruta – flor.

‘Love…breaks…my…bones…and…I…laugh.’: Quase que como embevecida, ficou transtornada. Como era simples, como era frágil, como era previsível, como era exagerada. Das paixões criadas, dos amores sacudidos. Como era  – em carne sangrando e ferida aberta, digo – intensidade submarina versada em mergulhos de cabeça em pessoas rasas. Quebrou o pescoço, era dormência sem mansidão. Era invalidez verbalizada: E ria, a louca. E gargalhava livre de pudor, a pobre desossada.

‘Love…breaks…my…bones…and…I…laugh.’: Repetia enquanto a água lhe escorria escaldante pelos ombros alvos e pelas sardas de seu rosto. Parecia, por fim, ter encontrado todas as respostas cujas ausências tanto lhe atormentaram ao longo dos anos. Observava as gotas deslizando pelo vidro da porta que lhe encarcerava em vapor (quem sabe não formariam algum desenho ou obra prima abstrata?) e repetia – sílaba a sílaba – como se ainda pudesse descobrir alguma outra luz no fim do túnel da sua própria confusão apenas pelo excesso de repetições e ecos da mesma frase. Quem sabe ali não havia mais verdades disfarçadas ou estilhaços de ilusão necessária? Bukowski sabia das coisas, lhe interrompia a intermitente ignorância e lhe vomitava tudo que era morno. E Bukowski, mais que tudo, lhe cuspia a cara: -Como pode não saber disso ainda, sua tola? Você ri. Você ri quando o amor lhe quebra os ossos… Imaginou-se bêbada com o Poeta e Velho e Safado num diálogo de quem não sabe nem quem é e muito menos pra onde vai. Numa conversa desconexa de mil botas batidas regadas a litros de Bourbon e ausência de razão.

‘Love…breaks…my…bones…and…I…laugh.’: Sentiu o amargo do álcool envelhecido em tonel de carvalho lhe entorpecer a língua e repetiu mais uma vez – lenta e dolorosamente – a sua grande e absoluta e novíssima verdade universal. Chegava a ser patético: o amor lhe quebrava os ossos de um corpo inteiro que sustentava uma vida e ela sorria desvairada e desgraçadamente.

...Enquanto cavalos selvagens cortam os céus.
…Enquanto cavalos selvagens cortam os céus.

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