Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Rascunhos de Outono VII: Tardes de junho.

1 de maio de 2015 por Camila em Eu Conto!

Brasília, 20 de junho de 2007.

G.,

Pois bem, hoje é Quinta-Feira. São mais ou menos 210 dias sem você. Dentre muitas outras, algumas considerações: voltei à pipoca de microondas, ao banho gelado, à insônia irrestrita, aos dias vazios, à gente sem graça, à arte abstrata, ao choro no chão da cozinha, à cidade concreta, à ruína de sonhos, aos copos de cerveja sem celebração, à solidão dilacerante do ser e, sobretudo, à ruptura do íntimo.

Faço planos a curto prazo porque não sei se terei paciência para lidar com o arrastar das horas e o atraso do futuro, que nunca chega. Tudo demora: O esquecer demora, o desligar-se do outro demora, o abandonar de corpos demora, o gosto amargo nos lábios demora, o secar das lágrimas demora, a esperança de que você mude de idéia e resolva chegar demora (a passar).

Você era você, e perto desse aforismo que trata de atestar o óbvio, lhe digo quase que vulgarmente: os outros são apenas os outros e o resto do mundo me enche de preguiça, indiferença e desinteresse. A garrafa vazia de café me frustra, o espaço desocupado me inquieta, o colchão parece grande demais e os livros não me contam histórias bonitas. Aliás, ninguém tem me contado coisas bonitas. Abro um parêntese para criar uma teoria tola e infundada, mas  seria  impressão minha ou estamos todos de ressaca do sentir?

Lembro dos nossos dias de faculdade e quase cesso nesse meu existir patético: Eu tão virgem enquanto tentava salvar o mundo com as teorias Marxistas-Leninistas e você proclamando poesia com os pulmões plenos de oxigênio e os olhos cheios de paixão. Você falava em Caio Fernando Abreu, Bukowski, Kerouac, Ana C., Nietzsche, Marçal Aquino, Ginsberg, no alter ego de Fante e nos livros que mais tarde iriam mesmo mudar a minha vida (como você, dono dos meus dias vindouros, já previra). Na direção de Truffaut, Godard, Bertolucci, Pasolini, Tornatore, Fellini, Glauber Rocha e Scorsese. Eu só sabia discorrer sobre política e sociologia enquanto você insistia que nossas únicas salvações possíveis eram a literatura e o cinema. Eu temia escrever sobre sentimentos, e você só me lançava uma mirada como quem olha o desperdício em um silêncio constrangedor.

Uma noite, depois de uma longa reunião do Diretório Estudantil, você me esperava e me chamou para sair ao me ver deixando a sala. Fomos a um boteco sujo, andando entre afastados e a vontade de segurar a mão do outro, como que perdidos entre possibilidades. Você começava a profetizar aquela mesma ladainha de que a literatura era o que ia nos salvar dessa loucura que é a vida, então eu acendia meu cigarro, tragava longamente e pensava se era mesmo tão relevante assim sentir alguma coisa por alguém ou pela idéia de amar. Se era mais urgente e mais merecedor da minha atenção do que a fome dos povos, as injustiças dos homens, a propriedade desigual e as pestes que assolam a humanidade. Sorria de canto de boca pra você e, já meio trôpega de tanta vodka, soprava a fumaça na sua cara enquanto você me mandava vestir a jaqueta por cima da minha blusa do Che Guevara, já que estava frio e não era bom arriscar uma gripe. Eu achava que você era uma gracinha com todas as suas idéias de amor, suas olheiras, sua barba mal feita, seus óculos que iam escorregando até o seu nariz e seu descaso pelo materialismo dialético (que me era tão vital!), mas você era do sentir e eu queria ir lutar. Um dia, eventualmente, você me convenceu e o céu foi mais azul.

Sinto saudades: Uma saudade enorme (e que me engole!) de você me abraçando na cozinha enquanto eu fazia brigadeiro, de você me acordando para pedir um abraço, de olhar para janela enquanto esperava a sua chegança, do barulho da sua máquina de escrever, do seu pé quentinho entrelaçado ao meu na bagunça que era a nossa cama, de você levando o cachorro para passear, de você me fotografando com o olhar com seus ângulos tão especiais, de você me roubando sorrisos, de você enchendo a minha taça de vinho tinto (‘você fica tão linda bêbada, Meu Amor!’), de quando você me beijava em luz e cor, de você saindo de casa precisamente às 18h para comprar pão quentinho na padaria da esquina, de você me acordando no sofá para levar para cama quando eu adormecia com a cara enfiada nos livros, de você me pedindo filhos, de você limpando os meus óculos de grau, das suas mãos sujas de tinta, da sua leveza, do seu lirismo, de você tirando a minha franja do rosto enquanto eu dançava e suava, de você tocando violão, de você me fazendo sua sem me exigir o apartar do mundo, do seu cheirinho de mar que nunca foi perdido em meio ao caos da cidade, de você sendo livre ao meu lado e, mais que tudo, de você existindo comigo. Nas minhas memórias mais doces, somos dois e estamos da nossa casa olhando a rua que passa sem porquê, sem premissa, sem prelúdio e sem samba.

Quando eu caí de cara (e me ralei inteira!) no cimento do mundo real e comecei a aceitar que Maquiavel era quem sabia mesmo das coisas, você me salvou do cinismo ao me dar a antologia do Neruda e o vinil do Chico Buarque. E eu vi, naquele valioso e deslumbrante instante, que você tinha razão desde os muitos outros anos anteriores quando perdi o meu coração para você: Só mesmo a arte pode salvar esse mundo que tem seu charme de caso perdido. O único importar é do que sentimos e do que fazemos em relação a isso. Eu sinto e eu me importo.

Ouço Crosby, Stills, Nash & Young e concluo: Hoje, 210 dias depois de você, eu sou só melancolia. E espero que você seja só vida.

Te quero sempre bem, meu querido.

M.

Do café frio, da letra trêmula, do abandono das coisas e da saudade latejante.
Do café frio, da letra trêmula, do abandono das coisas e da saudade latejante.

Comentários

2 comentários em “Rascunhos de Outono VII: Tardes de junho.

  1. Ana Galganni

    Mia, você fala tão bem de saudade.
    <3

    Saudade de você!

    • Obrigada, Minh’Ana! A culpa é da nostalgia, essa constante companheira das madrugadas que parece fazer morada na alma.

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