Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Olhos de Caleidoscópio.

12 de junho de 2015 por Camila em Eu Conto!

‘Des yeux qui font baisser les miens, un rire qui se perd sur sa bouche: Voilà le portrait sans retouche de l’homme auquel j’appartiens. Quand il me prend dans ses bras il me parle tout bas: -Je vois la vie en rose. Il me dit des mots d’amour, des mots de tous les jours, et ça me fait quelque chose. Il est entré dans mon coeur une part de bonheur dont je connais la cause. C’est lui pour moi, moi pour lui dans la vie, il me l’a dit, l’a juré, pour la vie. Et dès que je l’aperçois alors je sens en moi mon coeur qui bat. Des nuits d’amour à plus finir, un grand bonheur qui prend sa place. Des ennuis des chagrins s’effacent: Heureux, heureux à mourir…’

(PIAF,  E.)

Era tão bonito ver o mundo com os olhos cor de violeta do Bernardo: Eu não entendia direito a sua música, mas conhecia as curvas do seu corpo, dançava no mesmo ritmo e admirava os prismas que habitavam as luas do seu olhar.

Eu me apaixonei num dia que seria só mais um dia se ele não tivesse feito todo especial quando chegou assanhado e atrasado pra aula de francês: As lentes dos óculos estavam repletas de digitais e gotas de chuva, a camisa toda amassada, a barba por fazer e ele andava sem jeito e sem porquê. Parecia não saber de onde vinha ou para onde iria, mas a sua voz tinha um tom irresistivelmente calmo (e eu sempre achei – livre de qualquer tentativa de explicação – que boas pessoas tendem a falar baixo) e o jeito franco que pronunciava as palavras foi a melhor coisa que eu ouvi em muito tempo.

Naquela pequena Alliance Française do Brooklin incrustada no caos da zona sul paulistana, sentei sozinha numa mesa de canto – era a nova aluna da turma, imagine só! – com um café na mão e um livro na outra no intervalo entre as aulas. Ele pediu para sentar. Levantei o olhar. Corei. Disse que sim e depois disso já não sabia o que fazer. Deveria falar? Deveria voltar a ler aquele romance de qualidade questionável? Deveria dizer-lhe um ‘boa noite’ clichê e preguiçoso? Deveria, por fim, queimar a boca com o café quente e fazer disto uma desculpa para o meu silêncio e para a minha negação diante daquele mar de novas possibilidades que era o Bernardo? Eu era boa em me auto-sabotar – levava uma vida inteira de prática! -, mas ele era tão lindo e tão leve que, sublimando a minha dúvida a nada além de meros átomos, sorriu e falou qualquer coisa que me fez sorrir com ele. Sorrir para ele. Sorrir sem medo, sem jogos ou disfarces. Sorrir com naturalidade. Sorrir com uma insensatez só possível a quem não tem nada a perder e um universo inteiro de horizontes a ganhar. Sim, eu sorri.

Casamos pouco tempo depois. Ele tinha certezas, enquanto eu apenas cultivava solidões. Escolhi o vestido branco mais bonito que achei, me vesti de alma, enchi a cabeça (e as mãos!) de flores e, do altar, ele me esperava e me sussurrava baixinho: -Linda. Você está linda. Juramos amor sem a prepotência e a amargura do ‘para sempre’, recebemos bênçãos pelas nossas escolhas, juntamos as idéias e fomos percorrer o espaço-tempo da nossa vida e da existência que nos pertence por inteiro: Gostávamos – sim, gostávamos muito! – de pensar que o mundo era grande, parecia impedir que morrêssemos por claustrofobia.

Fomos morar na Holanda e, bravos sobreviventes que éramos da imensidão indeterminada do frio, ele me dava carinho e aconchego. Ele enchia a minha barriga de stroopwafels e de borboletas, me fazia chá ao cair da tarde e me trazia girassóis e tulipas roubadas do jardim do vizinho (que jamais fora mais verde que o nosso). Ele dava nós nos meus cabelos hermeticamente trançados, samba pro meu poema ordinário, direcionamento pros meus passos ora perdidos, oxigênio e esperança para os meus pulmões, bagunça pro meu metodismo e arte para minha vida outrora tão comum.

Atravessamos oceanos, dançamos valsas, falamos sobre os Beatles e Truffaut, quase explodimos de tantas cañas y pinchos na Espanha (o Bernardo adora cerveja!) e de amor em Paris. Andamos de mãos dadas pelas ruas limpas e gélidas de Reykjavík, fomos mascarados ao baile de Carnaval em Veneza, perdemos os olhos pelos tetos vermelhos de Copenhagen e decidimos que bom mesmo é andar até gastar a sola do sapato. Mais que isso, fazíamos piqueniques sobre toalhas xadrez em Bruxelas regados a vinho e respeitávamos os silêncios das nossas leituras vespertinas sem constrangimentos ou carências.

Bernardo é mansidão como o choque das cores e formas do caleidoscópio mágico que ganhei na minha infância e que hoje mora entre os livros da minha estante. O meu homem é singular assim: Sem medo e sem desgosto, sem dor e sem fim. É o homem dos meus sonhos e, paradoxalmente, eu encontrei em meio a realidade – que sempre me fora tão confusa e profunda em mistérios tão tolos e superficiais! – do mundo absurdo e pós-moderno.

E é nesse instante-já (que me habita de memórias e me toma de emoção, eu sei!) que se faz urgente a minha necessidade de declarar amor. Porque – sobretudo – há amor.

Olhos de um mundo mágico, amor em cor.
Olhos de um mundo mágico, amor em cor.

Comentários

4 comentários em “Olhos de Caleidoscópio.

  1. Beatriz Vilela

    Porque sempre vale a pena quando há amor. Seja pela vida, pelo outro, ou pela combinação sonora das palavras. E por isso sempre vale uma passadinha por aqui! Ganhei sorrisos em formas de letras, obrigada! :) Bisous

    • Eu que agradeço pela seu olhar sempre tão gentil, Bibia! Volte sempre, minha flor. Sua energia sempre alegra as minhas palavras. Bom fim de semana! Beijo grande.

  2. Ana Galganni

    Que texto mais bonito! Tudo isso de bonito você tem, merece e terá.
    Um beijo, querida!!

    • Minh’Ana, obrigada pela sua sensibilidade e pela sua grandeza. Que saudades dos nossos olhares cúmplices, minha querida. Que essa boniteza toda seja de nós, sempre. Um beijo bem grande! <3

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