Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Diálogos da Invisibilidade XII: Madrugada.

25 de julho de 2015 por Camila em Eu Conto!

‘Hold on to the thread: The currents will shift, glide me towards you. Know something’s left, and we’re all allowed to dream of the next (oh, the next!) time we touch. You don’t have to stray the oceans away: Waves roll in my thoughts, hold tight the ring. The sea will rise, please stand by the shore (oh, oh, oh, I will be)… I will be there once more.’

(VEDDER, E.)

Sobre a Nostalgia, Parte I:

Então eu olhei pra você e me deu uma saudade enorme. De outros tempos, eu acho.

Você, descabelado, cantarolava Pearl Jam e fazia meu coração voltar a minha adolescência, à todas aquelas promessas inconseqüentes e aos vinhos baratos nas calçadas pobremente iluminadas. A um tempo quando outro cara segurava as minhas mãos tímidas e você só observava. Nós, dentro daquele estúdio abafado e afônicos, tentando transformar o sentir em palavras, as revoltas em concreto, o coração em frangalhos. De quando tudo tudo era premissa e simplesmente complicado demais.

Velhos conhecidos que éramos das esquinas que nunca andamos, do cigarro que nunca dividimos, dos amigos em comum com os quais nunca compartilhamos história (ok, estórias) e a vida que nunca conjugamos.

Então eu olhei – de novo – para você e só senti saudades.

*

Sobre a Melancolia, Parte II:

Escrevendo descuidada e sem compromisso estas linhas platônicas e fúteis e improváveis, lembro novamente das noites vívidas em que tinha o batom vermelho borrando os meus lábios, as lágrimas teimosas molhando meu rosto, a manga da sua blusa enxugando os meus olhos e tudo aquilo ia virando poesia em mim, poemas sobre nós que nunca houvera.

Cercada pelos meus amigos lindos, loucos, músicos, boêmios de toda estirpe e artistas cheios de alma naquelas ruas sujas com cheiro de mar: Vida, eu ansiava pela vida. Eu queria sentir tudo aquilo como se tudo me pertencesse sem a responsabilidade de que tudo fosse meu. Eu queria ter – eu queria ser! – tempo e espaço para correr entre as paredes, desbravar o mundo inteiro, tropeçar em mil corpos errantes e beber da fonte inesgotável das certezas absolutamente incertas. Éramos incógnitas matemáticas de soluções inexatas, inexoráveis, incongruentes e inverossímeis.

Coragem, eu tinha coragem.

*

Sobre a Solidão, Parte III:

Depois que olhei pra você e senti todos aqueles momentos merecedores de uma breve saudade, eu olhei pra mim (com olhos enevoados) e me senti tão só: Eu enxerguei ao meu ao redor e estava todo ele numa construção contínua de ruínas, numa solidez indomável de pedaços, numa fé inabalável de que jamais teria ou seria aquilo que eu ainda nem sabia o que queria.

Eu não tinha palavras ou com quem conversar, eu apenas vivia compassivamente as histórias contadas, os amores inesquecivelmente passados, as páginas de livros há séculos escritos, a compulsão Niilista da impossibilidade, a fugacidade dos segundos, os caminhos perdidos, as frustrações de um silêncio eloquente, a plausibilidade da mudez, a ausência da salvação, o medo das más notícias, a tremulação da carne, as oportunidades desperdiçadas. Uma pausa e um parêntese: Nestas noites vazias eu me sentia um desperdício completo em toda a sua totalidade de âmbitos.

Na solidão embora tudo pareça palpável (e implacável, digo!), nada é digerido.

*

Sobre a Expectativa, Parte IV:

Agora a madrugada fez de si quase manhã, e, depois de horas de solidão e desejos abstratos de nada, vou viver meu dia numa noite em Tóquio com a única pessoa que me faz sentir menos saudades e mais porvires: Menos ontens inacabados e mais amanhãs possíveis.

A luz dos olhos dele enchem de ser a minha vida fastidiosa e aborrecida, como que descrito em romance: ‘His face was like a mirror for all my imaginings.’ Sim, eu sinto um enorme alívio por saber que ele existe em mim e que nós flanaremos pela imensidão alcançável e percorrível que é o universo inteiro. Ele então me expande, ele rompe as minhas fronteiras óbvias, ele está sempre além para me mostrar horizontes. Sim, nós ainda vamos ser errantes de um mundo sem esquinas e despido de nostalgias, melancolias, solidões: Seremos, então, expectativas realizadas.

Somos – eu e ele – o absurdo de um reencontro inevitável adiado apenas pela mesquinhez arrastada do dia a dia. Vamos – nós dois – escalar cansados o Monte Fuji apenas pela contemplação incomensurável do pôr-do-sol na Terra do Sol Nascente. E então, eu olharei diretamente para a mirada mágica da minha escolha mais acertada, e, sem que desvie meus olhos daquele imenso significado, eu terei o mínimo de certezas sem o fulgor trôpego das incoerências ou a maledicência dos ‘se’ e demais conjunções do hábito da auto-sabotagem.  

Porque, entenda-me bem, há amor com o qual se pague todas as madrugadas que demoram dias  (e noites!) demais para virar manhãs.

*

Pescando ilusões do meu próprio tempo.
Pescando ilusões e estrelas e noites e oceanos e idéias do meu próprio tempo.

Comentários

2 comentários em “Diálogos da Invisibilidade XII: Madrugada.

  1. Ana Galganni

    Lendo estes escritos me parece que quase posso sentir o momento em que a poesia te invade, como se cada parágrafo coubesse em um silêncio a mais, em um olhar ao longe, em um suspiro quase desapercebido.
    Há amor! Sim, há amor e me conforta o modo como você o segue reafirmando. Acho lindo quando você me lembra e relembra disso porque, às vezes, mesmo a certeza de te-lo nas mãos quando nada é mais óbvio do que isso se desfaz com o vento e escapa pelos dedos. Às vezes o amor parece uma miragem.

    …tão lindas as imagens que você usa para ilustrar!

    • Ana, Minh’Ana… Tão doce, minha eterna Ilha Da Compreensão. Há amor. Há amor e Céu do Miauí, porque, se não houver, o que será de nós? Se não há a possibilidade de ser, então, o quê mais? Então não somos. Então somos somente poeira errante de uma galáxia a outra, vazia, sem poesia, sem porquê, enxergando sem ver, flanando sem voar.

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