Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Diálogos da Invisibilidade XIII: C’est Paris.

26 de julho de 2015 por Camila em Eu Conto!

‘Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente.’

(CLAUDEL, C.)

É apenas terça-feira e eu misturo minhas lágrimas aos goles espaçados de vinho: sinto, como Camille C., a tormenta da ausência de coisa alguma e que jamais haverá nome.

Não, não é de você. Não, também é a recusa do ser da nostalgia de um hoje construído a passos largos, de passados que não são os meus, das possibilidades do amanhã: Sim, eu tenho tudo e não sei o que me falta. Sou parte indissociável do tudo, e tudo me pertence sem estar nas minhas mãos.

Penso em Paris e na minha alma vendida. Desperdiço a vida bêbada em São Paulo quando deveria andar aos tropeços na beira do Seine com uma garrafa de vinho tinto nas mãos, sem prestar atenção em nada e ir sentindo tudo. Penso na poesia que não foi gritada, nas madrugadas que não me perdi pelo Louvre, no cigarro que não fumei nas ruas vazias e nos cinco Euros que não paguei naquele café claustrofóbico em Notre Dame. Penso em fugas, na queda da Bastilha e nas batatas fritas que comi em horas incertas. Penso em Marie Antoinette decapitada pelos revolucionários, penso na cobertura do Crème Brûlée sendo quebrada em mil pedaços, na sabedoria de Truffaut e na vida ordinária que tenho levado. Penso no amor sublimado de Simone de Beauvoir em detrimento da filosofia Sartriana e penso – Deus do Céu, quanto tempo gasto em pensar! – nas escolhas erradas e nas imprecisões que deram certo. Penso em labirintos de mim, no caos da capital organizada vista do alto da Tour Eiffel, nas chamas da liberdade do Arc De Triomphe e na histeria de Bardot.

Não quero ninguém, não quero você. Quero um apartamento de um quarto meio sujo e bagunçado (só pra desafiar o meu TOC), quero aprender a andar de metrô em Montamartre,  quero ser alguém famélico como Hemingway num café parisiense qualquer dentre milhares de outros cafés parisienses quaisquer e depois chamar o nada de banquete (…e deixar o cigarro ir fazendo aquela cinza enorme sem nem pensar em cinzeiro), quero gostar de sanduíche de padaria, quero assumir um tom blasè pela banalidade do mundo, quero desapegar da preocupação com as rugas do meu rosto balzaquiano, quero me perder num quadro de Renoir, quero flanar pela irresponsabilidade histórica dos becos e das vielas, quero um filho que faça tudo certo, quero o silêncio de um coração que pulsa afobado, quero a porta do inferno, o consolo dos Céus e quero a distância das certezas das dúvidas da vida.

Cruzo as pernas, desafio o frio e neutralizo as nuvens que me invadem: não quero coisa alguma que seja a longo prazo. Quero apenas o fim do semestre, quero comprar tempo sem culpa, quero falar francês sem erros de conjugação, quero a rispidez das palavras com sotaque de R gutural exagerado, quero a inspiração de ser-me livre e quero, mais que tudo, flanar sem querer nada. Quero o grandíssimo luxo de estar sozinha em Paris e perambulando por Saint-Germain-des-Prés sendo dona somente de mim, sem histórias e sem obrigações de futuros perfeitos e subjuntivos.

Quero becos, quero vielas, quero qualidade duvidosa, quero o charme vagabundo e quero a alegria da solidão destemida. Quero a pureza do Sacré Coeur, o fôlego que me foi tomado nas escadarias de qualquer ponto mais alto da cidade, a decadência dos moinhos vermelhos, a preguiça do joie de vivre e a (falsa) auto-suficiência da mulher francesa.

Quero me encontrar no desatino de um saltimbanco, no olhar desviado de um transeunte apressado, nos equívocos de quem não sabe dar direções e no desespero dos mortais por mais um dia passado.

Quero tudo isso e quase nada até que eu possa somente cometer o enorme e desvairado desregramento de ser. Ser seja lá quem eu deva ser: Apenas – e incansavelmente! – ser até que evapore e vire garoa fina anunciando o inverno injusto que devora a primavera de abril que o cego jamais pôde ver.

...La distance d'un rêve.
…La distance d’un rêve.

Comentários

2 comentários em “Diálogos da Invisibilidade XIII: C’est Paris.

  1. Fantastique! :*

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