Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Laços (d)e Nós.

31 de julho de 2015 por Camila em Eu Conto!

‘Fala pra ele que ele é um sonho bom, que mudou o tom da tua vida comprida. Fala pra ele do disco do Tom Jobim, do seu apelido e de mim. (…) Fala pra ele que a vida é um balão, pra cuidar do seu coração.’

(ROSA, C.)

Posso dizer com alguma alegria que sonhei com você. E sabe, como de sutileza e saudade é feita a vida, posso dizer que isso foi suficiente.

Foi o tal sonhar de uma dimensão precisa, quero dizer, para alimentar a esperança de que um dia seja possível e justa a sua chegada. Para me ajudar a atravessar o enorme deserto que preenchem dias sem sentido, noites de solidão e tardes sem poesia. Fico aqui a sua espera, mas agora com uma partícula de alegria de que chegará o momento em que você se fará incuravelmente presente.

Não sei como estarei vestida, se nos meus surrados jeans ou no meu vestido curto. Não sei se a maquiagem estará conferindo alguma dignidade ao meu rosto pálido ou se as olheiras me serão óbvias e de impossível camuflagem. Não sei se a minha boca terá gosto de café puro e amargo ou vodka com cigarro, mas você se sentirá imensamente feliz em beijá-la. Não sei se minha pele estará ressecada pelos carinhos do inverno ou colorida pelo sol do verão, se as pétalas de leveza da primavera deslizarão sobre os meus ombros ou se a confusão do outono estará onipresente em meu coração. Não sei se estarei cansada pela rotina que me engole ou se sorrindo lírios por quem passe debaixo da minha janela quando eu acordar com gosto de caqui. Não sei se serei a melancolia descrita de um soneto ou o contágio de contentamento de um samba. Não sei se serei riscos ou aconchego, aventura ou mansidão. Não sei se serei o medo do sim ou não ou talvez, de hoje ou ontens ou amanhãs. Não sei se serei a burguesia burocrática do romance inglês ou o atirar-se do penhasco de olhos fechados reservado aos de coragem de sangue e poema francês. Não sei se serei balde de pipoca no sofá de sábado a noite ou petisco no bar de má reputação da esquina, vinho barato ou cerveja de degustação. Não sei se serei a que adora os amigos ou a que precisa estar só 24h de cada dia, a que vive pelo trabalho ou a que está de saco cheio de tudo. Não sei se serei a que considera algo além ou a que é incapaz de enxergar um palmo diante do nariz. Não sei se serei a esperta e atenta ou a que é tão facilmente enganada pelas pedras em que tropeça. Não sei se serei aquela a quem o amor desconhece fronteiras ou aquela que sabe calar o sentir. Não sei se saberei lhe dar o espaço que tanto me é preciso ou se lhe sufocarei com tanta ternura e delicadeza desesperadas. Não sei se serei a feminista que troca o pneu ou a que liga chorando porque o mundo-lhe-foi-injusto-e-esse-hoje-nunca-acaba. Não sei se lhe serei o desafio da compreensão ou a selvageria irrestrita do querer. Não sei se terei paciência pra discutir filosofia ou política ou se simplesmente serei lacônica e monossilábica nas minhas respostas tristemente previsíveis. Não sei se terei tido o cuidado de passar perfume antes de sair de casa na manhã azul ou se terei o cheiro da cidade em mim, nas minhas veias e na minha alma inteira. Não sei se serei carne por inteiro ou se saberei sublimar meu desejo. Não sei se serei uma mirada confiante ou se desviarei esses mesmos olhos pelos quatro cantos da parede para não enxergar o que você tanto procura com o lilás do seu olhar. Não sei se serei desperdício ou praticidade, Carnaval ou amor eterno, Nouvelle Vague ou Existencialismo alemão, Renoir ou Van Gogh, Lenin ou Giddens, Beatles ou Stones, gramática ou dislexia, sangue latino ou crença nórdica, alma desvairada a correr mundos ou o criar de raízes na verticalidade das cidades, desilusão ou construção, horizontes ou negação, lucidez ou desatino, divagação por mundos atemporais submersos ou precisão no existir concreto, prova irrefutável ou dúvida consistente, pássaro livre ou paixão em chamas, mensagens de celular bastante concisas ou ligação interurbana prolixa, irresponsabilidade dos arroubos da juventude ou seriedade e cinismo adulto, dever ou ruptura, a vida inteira numa mochila ou casa com jardim e cerca branca.

Quem de mim será o eu de nós? Não sei. Mas sei que há você, um dia, e haverá (Deus, por favor!) alguma certeza de mim. E sei que continuará havendo eu, ainda que nesse arrastar de existir no ultimato das horas até que chegue você: Seremos, então, nós de infinitos laços inquebrantáveis de cetim e sedas mil que enfeitarão os fios de cabelo das nossas filhas.

#PoemeSe
#PoemeSe

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