Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Mea Culpa.

12 de novembro de 2015 por Camila

‘Have you ever been in love? Horrible isn’t it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means that someone can get inside you and mess you up.’

(GAIMAN, N.)

E então, entre beijos irresponsáveis, eu lhe disse:

-Menino, Menino, não se apegue a mim. Não se apaixone por mim. Não me queira ao seu lado. E, sobretudo, não me peça para ficar. Apesar do meu rostinho de boa moça e da doçura levemente maliciosa do meu sorriso torto, eu sou uma mulher muito estranha: Meu coração é bicho solto e meu corpo só fica ocupado pelo prazer hedonista de não pertencer e apenas estar sem ser. Não se perca nas minhas curvas, Menino, eu sou do tipo que só gosta de uma única música do Metallica e que nem é tão boa assim, sabe? Sim, The Unforgiven II. Isso já diz bastante sobre a minha esquisitice existencial, né? Mas antes que eu tergiverse e conceda um milhão de sins só por causa do jeito que você me faz derreter em só chegar perto com essa sua certeza irrefutável em me devorar, Menino, deixa que eu diga que não posso mais lidar com a culpa de – como canta por aí o Bruce Springsteen – encontrar fantasmas nos olhos dos homens que eu mando embora por não saber me dividir com o outro ou quinhoar meu tempo a alguém. Eu gostaria de poder dizer que eu sei como compartilhar espaços e deixar que a pessoa fique, mas a verdade é que tenho desejos compulsivos e vícios indecorosos por beijos demorados, porém, por solidões ainda mais prolongadas e silêncios imperscrutáveis. E você é lindo demais com essa sua cara Cubista de Mick Jagger e o diabo que dança nos seus quadris irresistíveis que se encaixam tão maravilhosamente bem nos meus para querer consigo o conceito de quem você pensa que eu sou. Sim, eu sei, isso parece algo que a Clementine diria naquele clássico insuperável com roteiro do Kaufman, mas sou eu mesma quem acautela a quem quer chegar junto.

Ainda recordo quando eu seguia obstinada em lhe avisar – e que hoje me enfurece duplamente a sua recusa descuidada em me ouvir – numa noite meio trôpega:

-Eu não sou para casar ou namorar ou construir dias e histórias de amor duradouro. Eu sou paixão efêmera e arrebatadora, feita para durar apenas o encantamento eterno dos segundos plausíveis. Os meus poros exalam estamina e as minhas pupilas dilatam liberdade. Eu sou egoísta e não quero estar em canto algum que não dentro de mim inteira, dos meus livros de romances possíveis, do mundo que ainda não percorri, dos meus filmes existencialistas de finais trágicos e impunes, das minhas músicas que nada mais são do que notas de pura melancolia e dos meus amigos que têm ainda menos juízo que eu e que estão por aí sempre perdidos a perambular em noites quase nunca estreladas. Eu tendo a refugar abraços protetores e a correr milhas de discussões de relacionamento. Na verdade, Menino Lindo Demais, eu não sou boa nesse papo de me relacionar com ninguém, sabe? Eu gosto mesmo é de dormir até bem tarde e ocupar as minhas horas com o que me inquieta e seduz e desperta qualquer coisa que não tenha que ser pra sempre. Sim, eu gosto mesmo é de impulsos.

Hoje, quando continuo forçando a memória no caminhar de lembranças, ainda evoca em mim a sensação de que você é raro e que ao menos disso eu sempre soube. Você é o homem pelo qual eu me apaixonaria se eu conseguisse abrir mão do que eu acredito em todas as coisas que eu busco. Você nunca seria um erro, mas a aposta de todas as horas mais seguras e do meu entregar completo e sem medo. O problema – Meu Menino Tão Insuportavelmente Lindo – é que nesses desencontros inexplicáveis do existir, eu sou barco a vela que gosta de viver no tumulto do mar e nas andanças do vento, com a boca cheia de sal e a alma que salta abismos verdes entre as ondas incessantes.

O que tínhamos era foda de tão bom. Era o nosso físico sagrado. Nossa carne trêmula e pulsante. Nosso sangue quente. Nossa chama que ardia. Nossa recusa em sentir algo além do agora. Nossos corpos em delírio febril: o meu cabelo entrelaçado nos seus dedos de forças que desconhecem medidas e limites, as suas pernas buscando espaços entre as minhas, a sua língua sedenta pela minha saliva que me invadia a boca e irrompia ímpetos urgentes, o abraço que me esmagava as costelas contra a parede, o olhar sacana que me desnudava sem sequer me tocar, a sua barba que machucava os meus seios de um jeito muito particular, a sua respiração úmida e intermitente, os gemidos monossilábicos que fariam corar a professora de português da quarta série que abolia os palavrões, a lascívia contínua e insistente, o suor que se misturava a outros fluidos igualmente humanos e incontroláveis, a cumplicidade do silêncio naquele cigarro pós-sexo e o ‘adeus’ que viria em breve para o meu profundo alívio do não-compromisso e o seu estado de graça de entrar imediatamente numa vida de não ter que dar satisfação a ninguém.

Você nos estragou quando quis ficar. Você acabou com a gente quando insistiu em me amar, Meu Menino. Nossos nós eram laços de liberdade. Nós não éramos além do haver das horas entre quatro ou cinco paredes, este era o nosso acordo implícito e urrado. Nós nunca fomos feito para construção: Ao contrário, nós demolíamos muros que cerceavam a possibilidade de um encontro meio desencontrado e deliciosamente errado por qualquer ângulo que tentasse se enxergar. Nós sempre fomos encaixe, nunca sentimento: Torpor que ensurdece e cala qualquer coisa da Bossa Nova que ousou tentar tocar de fundo em existência minimalista. Nós éramos a nulidade irresistível do depois, axioma inevitável e imprescindível do momento. Hard core, soft porn and all that jazz.

Mas eis aqui – e que seja sossego ao seu coração de leão enquanto o meu é de andorinha – a minha mais que mea maxima culpa risível, ridícula, estapafúrdia e sincera. Pela primeira vez será indiscutivelmente honesto dizer o velho ‘não é você, sou eu’: Sim, serei sempre eu com minhas necessidades absurdas de oxigênio, distâncias intangíveis, quietudes turbulentas e lonjuras inabitáveis.

Desculpa, Menino Meu Tão Lindo, mas Pássaro Livre não pousa sempre na mesma árvore ou fio de te(N)são porque sabe que há ainda horizonte largo pra voar.

‘…Me gusta la impunidad con la que tus ojos desnudan mi cuerpo. Me gusta la rebeldía con la que tu pelo discute con el viento. Me gusta la falta de respeto con la que tu sonrisa desafia al miedo.’ (BRANDO.)
‘…Me gusta la impunidad con la que tus ojos desnudan mi cuerpo. Me gusta la rebeldía con la que tu pelo discute con el viento. Me gusta la falta de respeto con la que tu sonrisa desafia al miedo.’ (BRANDO.)

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