Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Contos de Verão X: Ruas vazias.

7 de janeiro de 2016 por Camila em Eu Conto!

‘When I desire you a part of me is gone.’

(CARSON, A.)

– 

Abri a porta de casa toda atrapalhada, com dois mundos em cada uma das mãos, e, sem acender a luz da sala ou tirar a chave do lado de fora, larguei as compras na cozinha. Respirei e me considerei vitoriosa na batalha infindável contra o trânsito. Perdi o olhar por uns 10 segundos e lembrei que precisava fechar a porta e iluminar a vida.

Nessa prática cotidiana da pressa e do descuido, vi que alguns envelopes se amontoavam no chão da entrada. Meio que com preguiça da burocracia de cortar papéis e já prevendo que se tratava de contas, peguei e debrucei a vista sobre eles. Eu estava certa, contas, desimportâncias e cobranças indevidas. Quando já tinha me preparado para largar tudo sobre a mesa e ir tomar um banho para tirar a cidade de mim,  encontrei a sua letra incerta num envelope pardo e sem remetente. Meu coração congelou. Trêmula, abri. Você, melancólico, me dizia no verso da fotografia mais bonita que tínhamos:

‘O retrato de uma saudade. O gesto do sentir falta. E, ainda assim, poder dizer que sorri paz em dias azuis, submerso em carnavais de silêncios e eloqüências.’

Quando bem de mansinho eu chorei e enxuguei a face para continuar a me embebedar com as  suas palavras, vi que você parafraseou aquele artista que canta mais ou menos assim:

‘…Fechei os olhos, chamei saudade. Olhei pra dentro, tenho você lá longe, bem longe. Um rumor dos corações, quero você na minha utopia. (…) E o beijo que tu me destes vou levar lá longe, bem longe.’

Fecha aspas. Encerra o tempo. Encolhe o meu mundo. Encurta o meu ar. O golpe foi baixo e a saudade me devora de dentro pra fora e em todas as minhas dimensões: me perco num espaço de 30m2, escorrego pela parede, abraço a foto das nossas pernas entrelaçadas enquanto estou em queda livre em direção ao solo, lembro dos detalhes do seu rosto e quase morro nove meses depois de tê-lo visto pela última vez.

Desisto de qualquer plano envolvendo livro e sofá e aceito a dura realidade que a paz da minha casa, naquele momento, seria o meu fim. ‘A louca morreu de nostalgia’, diriam as más línguas. Não coloco as frutas na geladeira ou me preocupo com a validade do iogurte, e, sem pensar, pego a chave do carro e saio em disparada. Não, não telefono pra você. Emudeço o celular para não correr riscos, mas saio perturbada a sua procura pela cidade. Nos lugares em que íamos, aonde fomos tão felizes e gargalhamos no mesmo compasso: aonde você censurava o meu vestido, me roubava flores, me abraçava forte e levava o meu corpo bêbado embora. Éramos par, simbiose e querer. Você entendia os meus sorrisos e eu conhecia os seus sinais. Seus defeitos que eram o caos de nós não permeiam mais a lista de ‘contras’, mas dançam macios na minha compreensão de lembranças: tudo que o tempo assola parece menor e mais perto do perdoável (que não é de mim exercer).

Não posso precisar o porquê de ter dirigido por quase 3 horas nessa cidade de verão à sua procura, não sei o que esperava que acontecesse. E se eu encontrasse você? Nada – um nada imenso – aconteceria. Acho que eu queria, talvez, ver a sombra do seu sorriso ou os seus trejeitos contidos de longe em bares de esquina. Não pretendia bagunçar a sua vida, encher sua alma de ilusões, roubar os seus chicletes de hortelã ou sequer estacionar o carro para falar com você (o outro lado da calçada é sempre mais seguro): não suportaria a sua voz de brisa a me chamar pelo nome. O seu tom inconcebível a mastigar e a cuspir palavras irresponsáveis pedindo pra voltar faria sangrar os meus ouvidos, ainda que aumentasse as cores do meu próprio viver. Eu sei que um encontro de peles e uma troca suave e malemolente de olhares não seria saudável mas não é sempre que consigo – ao contrário do que você me acusa! – conter os meus impulsos. Às vezes sou eu mesma a personificação da carne tórrida e da falta desmedida.

Sem conseguir decidir se foi melhor assim ou não, resoluta voltei pro meu micro-apartamento e me entreguei à justa solidão. Inocente, mal sabia eu que o perigo maior que corri essa noite não era o de encontrar você distraído por aí, era o de deitar na minha cama e não ter o seu corpo quente me abraçando. Era sentir sua ausência latejando como nunca. ‘Lobinho’, eu lhe dizia pela sua temperatura sempre acalorada, e mandava você parar de ficar tão junto de mim porque eu estava morrendo de aflição. Você, claro, ignorava os meus avisos e ficava se aninhando ainda mais. Eu fingia irritação e sorria timidamente com a certeza de você tão meu.

Com os olhos enevoados de noite pálida, concluo que hoje já nem sei mais os motivos que determinaram nosso fim ao que soa como séculos atrás, mas sigo convicta de que era esse o caminho traçado pelo destino a ser percorrido por nós: obedeço ao imposto pela sina mítica-universal e, com uma foice de gume afiado e passos cambaleantes, sigo cortando você da minha vida sem esperar o seu respeito a essa decisão.

Às vezes eu acho que essa saudade há de virar uma constante e que não tem solução equacional exata ou própria: seu silêncio, tal qual as suas palavras, mudam meu eixo e irrompem na minha razão e nas minhas decisões sem volta.

A coisa mais difícil que eu já tive que fazer em vida foi ficar longe de você.

'There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too tough for him, I say, stay in there, I'm not going to let anybody see you. There's a bluebird in my heart that wants to get out but I pour whiskey on him and inhale cigarette smoke. (...) There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too tough for him, I say, stay down, do you want to mess me up? You want to screw up the works? (...) There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too clever, I only let him out at night sometimes when everybody's asleep. I say, I know that you're there, so don't be sad. Then I put him back, but he's singing a little in there, I haven't quite let him die and we sleep together like that with our secret pact and it's nice enough to make a man weep, but I don't weep, do you?'. (BUKOWSKI, C.)
‘There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too tough for him, I say, stay in there, I’m not going to let anybody see you. There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I pour whiskey on him and inhale cigarette smoke. (…) There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too tough for him, I say, stay down, do you want to mess me up? You want to screw up the works? (…) There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too clever, I only let him out at night sometimes when everybody’s asleep. I say, I know that you’re there, so don’t be sad. Then I put him back, but he’s singing a little in there, I haven’t quite let him die and we sleep together like that with our secret pact and it’s nice enough to make a man weep, but I don’t weep, do you?’. (BUKOWSKI, C.)

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