Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Contos de Verão XI: Compromisso inadiável.

20 de janeiro de 2016 por Camila em Eu Conto!

‘Sometimes I’m terrified of my heart; of its constant hunger for whatever it is it wants. The way it stops and starts.’ 

(POE, E.A.)

Hoje fui até o restaurante chinês daquela rua onde costumávamos andar de mãos dadas e pedi um frango xadrez. Catei minuciosamente todos os pedaços de pimentão e, enquanto todos me julgavam em silêncio, pensei que só você me entenderia: entre o muito que sempre concordamos, sabíamos que pimentão era um desastre em qualquer circunstância e que cebola sim era tempero, assim como pipoca só é possível com queijo ralado e que não há a nós outro jeito que não juntos.

A noite me desperta, releio suas mensagens e, hesitante, já não sei se respondo o beijo que você me mandou por alguém ou se encerro o assunto em uma mudez atordoante. A dúvida me consome, mas não há propósito de que eu deva fazê-lo: nada positivo poderia resultar de um encontro que não o caos dos sentimentos amordaçados e o desejo que é tormenta na raiz. Queria te contar dos meus dias, mas não posso. Queria especificar a falta que você me faz, mas sufoco essa melancolia intrusa bem dentro de mim e vomito como me é de direito. Calo. Fecho os olhos. Respiro fundo. Controlo com a força do mármore frio o que é indomável, cruel e desregrado. Nada faz passar. Tudo arde, tudo é angústia: e, ainda assim, sei que é de mim o gosto perpétuo que habita a sua boca.

Imagino se você ainda segue emudecido os meus passos, se encontra meus olhos perdidos em cada esquina, se ainda lê os meus textos (e se os edita mentalmente, com todas as minhas crases indevidas – ou ausência delas! – e meus pronomes átonos mal alocados), se ainda me sente doer mansinho, se sabe da minha dificuldade em impor distância e de como eu morro a cada instante com as suas escolhas. E, sobretudo, como fraquejo com as minhas se formos fazer aqui em licença poética a justiça da mea culpa.

Já, já sei da certeza do seu amor enorme e que me engole desossada: me gritou o vento, os seus amigos, as ondas da Garça Torta, o seu sorriso atravessado no reconhecimento do meu olhar enviesado, a bebedeira do primeiro dia de um novo ano, o nosso silêncio amplo e irrestrito de perfeitos estranhos, o pôr-do-sol da Guaxuma e a ambiguidade das suas atitudes. Penso que quero ser maior do que me vejo e só aspiro a você felicidades e a mim o desapego. Tudo é confusão e espero impacientemente que o alívio substitua a dor da partida em vê-lo de (ao) longe: pulo de cabeça em mais distrações, em outros corpos, em novas intoxicações e em qualquer coisa que não tenha o toque embalsamado do seu cheiro no calor da sua saliva entre os meus dentes. Vou brincando de repor adições e correr menos riscos.

Toda viciada é estúpida mesmo quando tenta ser inteligente, e meu vício em adrenalina me deixa ligada em você no que parece um ciclo eterno. Fujo, desesperadamente: procuro curas, recomeços, explicações, mais um pedaço de ilusão, sua mão no meu quadril, meu medo inconseqüente, Gita, meditação e o ‘adeus’ que eu nunca te dei quando me desmanchei (feito tudo que é sólido!) no ar. Peço sinais que não chegam, prazeres efêmeros que em segundos me saciam, a minha vaidade cega feito faca amolada e o meu me perder nos meus próprios caminhos. ‘Sou forte’, repito a mim mesma em frente ao espelho – ao mesmo tempo em que passo batom carmim e embebedo meus lábios com vodka da pior qualidade! – quase que como um Mantra enquanto gargalho da sua convicção ao me rotular como ‘auto-suficiente’. Ah, se você soubesse; ah, se você ousasse divagar por essa trilha nas minhas curvas inexatas…

Você é querer sem poder: se corro pra você, desisto de mim e da mulher que eu gostaria de ser. Me recomponho enquanto me dilacero, me reinvento enquanto me destruo e lembro que o equilíbrio só é possível longe das paixões que nos implodem as vísceras e nos deixam na carne crua. Sei o quanto você gosta de me ver agonizar e me odeio por dar-lhe esta satisfação que, senão por mim, jamais existiria. Mais uma vez sou responsável por manter-me longe do que um dia foi lar, mas te amo feito bicho solto a vagar errante pelo mundo que é agora tão pequeno e claustrofóbico: estava certo quem um dia disse que corações são sim criaturas selvagens, pondero e reafirmo. E, por isso, não me culpo da insensatez que agora me tortura. Isso também vai passar, eu sei e repito para acreditar, como tantas coisas passarinho.

Escuto Sylvia Plath berrando aos meus ouvidos quase moucos e ao meu cérebro inapto: ‘Again, I feel the gulf between my desire and ambition and my naked abilities’, e digo a ela que eu também. Não há o que fazer com o prelúdio que já é premissa do fim. Ignoro minhas questões, acendo um cigarro e caminho com os pés descalços em pleno inverno.

Só por hoje, concluo, sou saudades. Amanhã, me prometo, volto a ser inteira.

Nos meus afluentes e amores pela cidade.
Liberdade: nos meus afluentes e amores pela cidade.


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