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The Catcher In The Rye – O Apanhador No Campo De Centeio.

29 de fevereiro de 2016 por Camila

Holden Caulfield acha você um poser!

Numa tarde de domingo de pré-férias e de extremo ócio, fui até a Livraria Cultura tomar um café e dar uma futricada nas novidades das estantes em uma promoção bastante generosa (minhas mãozinhas foram prodigiosas nas escolhas dos títulos e até hoje estou lendo os produtos dessa compra).

Eu sabia que ‘The Catcher In The Rye’ (no Brasil, ’O Apanhador no Campo de Centeio’) era um clássico, mas eu não fazia idéia sobre o que era. Como estava muito barato, decidi trazer pra casa numa expectativa tola de que se tratava de mais um romance do tipo ‘eu-te-amo-pra-sempre-e-não-importa-quanto-tempo-fiquemos-separados’. 

Queria de um livro curto – eu chamo de ‘livros para respirar’ – entre ‘The Vampire Lestat’ e ‘To Kill A Mocking Bird’ (que também acabara de pular pra dentro da minha cestinha pelos mesmos motivos!). Convidei alguns amigos para ler comigo, todos eles toparam e nós criamos um grupo no WhatsApp para debater o livro: nossos trechos preferidos, nossas impressões gerais, o que íamos achando do estilo do Salinger ao passo em que íamos lendo, as referências culturais expostas no romance e a busca pelo entendimento da personalidade do Holden.

Por não saber absolutamente nada – NADA! – da estória, tomei um susto quando estava lendo de madrugada na padaria enquanto tomava café com leite e um moço me abordou perguntando se eu estava planejando matar o John Lennon. Fiz cara de interrogação, e ele prontamente me disse que o Mark Chapman (assassino do Lennon) era completamente obcecado por este livro e o segurava no momento em que fora preso pelo crime. Fiquei em choque, e essa nova informação me trouxe imediatamente uma sensação iminente de desastre a cada página que ia lendo. Ficava imaginando cá com meus botões ‘Meu Deus, o que o Holden vai aprontar? Eu gosto tanto dele, tomara que ele não fique do mal!’, e devorando rapidamente o livro na tentativa de descobrir.

A narrativa é fascinante, e o estilo do Salinger me lembra muito – MUITO MESMO! – a minha adorada Geração Beat (embora eles não sejam ligados literariamente de forma alguma). Eu absolutamente amei os itálicos que imprimiram a entonação exata das palavras e a força precisa de cada frase nos diálogos ou indagações dos personagens. Por muitas vezes, eu gargalhei (bem alto!) sozinha lendo esse livro e passei vergonha em lugares públicos, tentando desviar do olhar das pessoas que me achavam completamente esquisita.

Se você for ler ‘The Catcher In The Rye’, aconselho que esteja preparado a ter o seu coração partido em alguns momentos: vai acontecer de uma maneira melancólica e você nem vai saber identificar porque isso ou aquilo pegou tanto ou fez pensar tão a fundo. Vai colocar algumas coisas, conceitos e escolhas da sua própria vida em perspectiva. Na verdade, você irá realmente se questionar. Um carrossel, por exemplo, jamais será visto do mesmo modo. E o melhor disso tudo é que depois você pode conversar a respeito com os seus amigos, que também terão uma opinião diferente, e transformar isso numa experiência bem bacana.

Não há quem não se veja, pelo menos um pouquinho, em Holden. Seja pela apatia, seja pelo apego, seja pela necessidade de mudança, seja pelas referências culturais, seja pela doçura de alguns apontamentos ou até mesmo pela solidão. É um protagonista que você ama – e tem vontade de estapear ao mesmo tempo! – pela identificação que ele traz (ou pode trazer) com algum momento da nossa própria estória (ou história!). Nós provavelmente o mataríamos de tédio, mas ele é o adolescente de dezesseis anos mais fantástico que eu me deparei na vida. Eu o amo pela sua capacidade de ser tão humano, mas também pelo seu egoísmo, pela sua arrogância e pela sua falta de cuidado. E, mesmo sendo tudo isso, ele consegue também sentir tudo muito profundamente e ser tocado pelas coisas mais simples da vida que provavelmente não tocariam a mais ninguém (e ele deixa isso claro pra você o tempo todo). Holden se desnuda e faz piada de si mesmo. Há que se amar este garoto, de verdade, e eu realmente adoro a percepção dele das coisas.

Esteja pronto também para se sentir sem ar e sem palavras. Esta não é uma obra com a qual você flana sem propósito ou passa despercebido. Você toma lados, você ama, você odeia, você vive, você ri, você chora e você vai tentar desesperadamente quebrar esse ciclo insano de cinismo que nós estamos vivendo já há algum tempo: há tão mais em nós do que o pouco que a gente permite que as pessoas vejam.

É um livro que decididamente merece toda atenção que teve e continua tendo ao longo dos anos: sem a pretensão de ser, clássicos são clássicos e sobrevivem à modismos, ao massacre da literatura vazia, às mudanças do mundo, às nossas ansiedades e aos nossos medos.

P.S.: O que aconteceu com os patos?!

‘…Nobody’d be different. The only thing that would be different would be you. Not that you’d be so much older or anything. It wouldn’t be that exactly. You’d just be different, that’s all. You’d have an overcoat on this time. Or that kid that was your partner in line last time had got scarlet fever and you’d have a new partner. Or you’d have a substitute taking the class, instead of Miss Aigletinger. Or you’d heard your mother and father having a terrific fight in the bathroom. Or you’d just passed by one of those puddles in the street with gasoline rainbows in them. I mean you’d be different in some way – I can’t explain what I mean. And even if I could, I’m not sure I’d feel like it. (…) Certain things they should stay the way they are. You ought to be able to stick them in one of those big glass cases and just leave them alone. I know that’s impossible, but it’s too bad anyway. Anyway, I kept thinking about all that while I walked.’

– Minha resenha no GoodReads: https://www.goodreads.com/review/show/1322422622

– Interessou? Tem aqui: http://www.livrariacultura.com.br/p/the-catcher-in-the-rye-12105

Pra ler no outono acompanhada de um bom Vanilla Latte. <3
Pra ler no outono acompanhada de um bom Vanilla Latte. <3

 

Com Cookies no meio da tarde.
Com Cookies no meio da tarde.

 

Holden, eu também teria guardado os cacos do vinil. <3
Holden, eu também teria guardado os cacos do vinil. <3

 

Dias de chuva: com Apfelstrudel e café quentinho na cestinha de piquenique.
Dias de chuva: com Apfelstrudel e café quentinho na cestinha de piquenique.


The Vampire Lestat – O Vampiro Lestat.

29 de fevereiro de 2016 por Camila

Anne Rice não é uma escritora fácil de se ler. Não é fácil porque suas nuanças se fundem por mil direções e nos fazem pensar. E pensar dá trabalho, pensar é exercício ativo. Lê-la sempre me toma um tempo enorme, e, com ‘The Vampire Lestat’, não foi diferente.

Toda a ojeriza que eu tinha em ‘Interview With The Vampire’ foi se dissipando por toda uma nova apreciação dos sentimentos tão próprios e humanos, da construção do mundo às avessas que criamos, mas também de enxergar o belo sem entrar em modo automático. Através de Lestat, retomei alguns dos meus questionamentos, me emocionei, sofri, gritei, chorei, torci e fui observadora passiva das dimensões do homem e das mudanças do mundo.

O livro começa sua narrativa um pouco antes da Revolução Francesa – em uma França ainda pomposa de príncipes e princesas – e ‘termina’ parte da sua história na efervescência do Rock dos anos 1980 nos Estados Unidos. A visão otimista do personagem sobre o mundo no qual ‘desperta’ me tocou profundamente, já que, para mim, os anos 80 sempre foram associados de maneira intrínseca a todo tipo de exagero e decadência. Lestat – no curso de sua história e buscando sanar suas questões mais íntimas – flana pelo Egito e por tantas outras terras antigas e nos escarna a essência humana e a alma em busca de paz e respostas. É, sem dúvida, um protagonista muito interessante e tinha mesmo que ser eterno para conseguir concluir o muito que entende e, posteriormente, explica. Como ele, todos nós também ardemos tentando silenciar ou contentar as perguntas óbvias – e obscuras, evidentemente! – do nossos existencialismo.

Passei tardes e mais tardes e quase que todo o meu tempo de ócio com esse livro, e mesmo assim demorei a terminá-lo. Mais de mês, na verdade. Às vezes a escrita se arrasta e você perde um pouco a paciência por achar que Anne não vai direto ao ponto, mas que graça tem ir direto ao ponto se há tanto talento de narrativa a se mostrar?

Eu lembro que na review que fiz lá no GoodReads assim que terminei de ler, eu já reclamava que seria muito difícil tentar fazer uma resenha objetiva sobre este livro, porque eu falava dele apaixonadamente para pessoas diferentes e em conversas aleatórias. Os trechos são de fato encantadores, Lestat é um personagem riquíssimo e eu me pergunto se escrevê-lo não foi o jeito que Anne encontrou de premiar seus leitores depois de termos aguentado o mimimimimi interminável de Louis por páginas a fio em ‘Interview With The Vampire’.

O meu livro está todo rabiscado e cheio de post-its espalhados pelas páginas. Pretendo voltar muitas vezes em suas passagens para refletir e entender um pouco mais a nossa própria natureza e as descobertas que tanto buscamos. Não é um livro que se leia de maneira desprendida, e eu me permiti morrer de amores pelos inputs da escritora. É um livro que eu recomendo, sem dúvida.

Estou tomando um fôlego enquanto exploro Jane Austen e seus clássicos para seguir com as ‘Crônicas Vampirescas’ de Mrs. Rice.

O próximo?

Queen Of The Damned’. 

Volto para contar.

– Minha resenha no GoodReads: https://www.goodreads.com/review/show/1308074679

– Interessou? Tem aqui: http://www.saraiva.com.br/index.php/the-vampire-lestat-389286.html

 

Tardes de sábado de leitura, gula, questionamento e reflexão.
Tardes de sábado de leitura, gula, questionamento e reflexão.

 

Domingos de atenção difusa e emaranhados na cama.
Domingos de atenção difusa e emaranhados na cama.

 

Esperando o carro sair da revisão e um arco-íris no papel! <3
Esperando o carro sair da revisão e um arco-íris no papel! <3

 

Penso que pijama, dias frios, livro, sofá e preguiça combinam maravilhosamente bem.
Penso que pijama, dias frios, livro, sofá e preguiça combinam maravilhosamente bem.


Contos de Verão XII: Carnaval incerto.

1 de fevereiro de 2016 por Camila

‘Nós: muita água já rolou aqui pra nós, nosso rio já entrou por alto mar e lá no fundo a gente sente o fim chegar. Nós: uma rosa que eu peguei na sua mão, tantas folhas de outono pelo chão, vem um vento balançando a nossa fé. É, insistimos em nadar contra a maré na esperança de voltar a um tempo bom que abençoe novas noites de verão. Nós sem querer parar, deixo o céu chorar: chuva irá lavar o coração.’

Às vezes eu tenho vontade – como nesta tarde de verão insólito – de mandar uma carta e perguntar se você acha que isso um dia vai passar. A ‘isso’ me refiro a esse nosso gostar recíproco e perturbador que assombra as novas pessoas das (e nas!) nossas vidas. A essa saudade do futuro que não tivemos, dos nossos corpos ardendo cheios de passado e desse imenso vazio que se fez presente. A essa intimidade louca que a gente silencia, mas que, quando fala mais alto que nós, faz parecer que foi ainda ontem que o seu olhar repousou em mim: Você ainda tão meu, eu ainda tão sua (e nem precisamos necessariamente conversar ou rememorar o amor para perceber isso, sabemos que prosear sobre a rotina do desassossego e flores amarelas é mais seguro para esse novo caminho).

Eu queria ter a certeza de que isso passa. De que vai passar para nós, também. Você não consegue me prometer e eu tampouco sei se conseguiria ouvir resposta contrária. Por enquanto, vou vivendo sem premissa de porquês e tentando bastar em mim tudo aquilo que era você: compro o pãozinho das 18h, tomo café amargo para acordar, masco chicletes que nem gosto até doer o meu maxilar, aprendo a me defender, acredito nas mentiras sobre as quais você me alertaria, vejo o meu time perder na televisão e atiro pra longe o controle remoto, finjo que não sou tão inocente o quanto me entrega o próprio sorriso, escuto canções que nos explicam, lavo os pratos que se acumulam na pia enquanto faço cara de nojinho e suspiro resignada, leio os maiores clássicos dos idiomas pós-modernos que você jamais tentou ler (e me pergunto se você já começou a se debruçar pelos 1903873 livros que dei de presente em datas significativas ou dias ordinários com dedicatórias de amor total ao seus sonhos), levo o carro na revisão e fico sem paciência com a conversa do mecânico, me irrito com a burocracia da cidade, xingo o cidadão que me cortou e não deu seta, declamo Neruda para as paredes, me encontro em outros mundos (e sinto uma nostalgia enorme dos seus!) e deixo que a minha alma mais leve finalmente me guie para as direções que me forcei a tomar.

Enquanto os dias se arrastam e exalam essa melancolia onipresente em tudo que vejo, fico querendo que alguma doença terminal aflija o meu corpo e o meu juízo para ter a desculpa de enfim perdoar você pelos seus erros de julgamento e péssimas escolhas e, desse jeito meio trágico, poder justificar a nossa volta nos meus últimos momentos de vida. Sinto uma saudade enorme da sua proteção nos meus dias de abandono e lembro como é difícil ser a mulher adulta e forte que não cede à tentações, ao calor, aos quereres urgentes e às paixões.

No hiato que nos invadiu, amei e fui amada por vários: todos eles melhores homens que você, mas – ironia do destino que me cospe a cara! – nenhum deles era você, e, portanto, não eram suficientemente bons para mim. O acaso me serve mil distrações e divertidos tropeços em lindas pedras, mas continuo procurando o seu rosto nas fotografias que não são suas. Fecho as portas e não consigo me compelir a cerrar as janelas, embora saiba que isto é o digno a se fazer. Tenho medo de me cortar com os meus próprios cacos e peço a Deus um abraço que coloque todos eles de volta no lugar. Ser inteira, depois de você, é desafio dos grandes: Olhar pro lado e não ver a sua sombra é andar descalça no asfalto do meio dia com o fogo em brasa queimando os meus pés outrora delicados.

Sei – através dos seus amigos e confidências indecorosas regadas a litros de álcool – que você anda por aí me procurando em outras línguas, em outros ritmos, em outras comparações, em outros temperamentos, em outros livros, em outros poemas, em outras arestas congênitas, em outras personalidades, em outras cadências, em outros discos e em outros carnavais em que você pensa ter me achado: Você não vai me encontrar porque eu nunca saí do meu lugar. Você não vai me esquecer em outros beijos tão falsos e pele tão fria porque a carne de nós é bruta em simbiose e a memória é flor que desabrocha em fina luz na alvorada de outros amanhãs.

Sou sua – concluo com certo enfado por não saber até quando em pequeninas doses de agonia – e tento me embebedar com o sono que não vem.

'Cartas de Amor - Monteiro Lobato'. (Foto: Laís V. Ribeiro).
‘Cartas de Amor – Monteiro Lobato’. (Foto: Laís V. Ribeiro).