Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Contos de Verão XII: Carnaval incerto.

1 de fevereiro de 2016 por Camila

‘Nós: muita água já rolou aqui pra nós, nosso rio já entrou por alto mar e lá no fundo a gente sente o fim chegar. Nós: uma rosa que eu peguei na sua mão, tantas folhas de outono pelo chão, vem um vento balançando a nossa fé. É, insistimos em nadar contra a maré na esperança de voltar a um tempo bom que abençoe novas noites de verão. Nós sem querer parar, deixo o céu chorar: chuva irá lavar o coração.’

Às vezes eu tenho vontade – como nesta tarde de verão insólito – de mandar uma carta e perguntar se você acha que isso um dia vai passar. A ‘isso’ me refiro a esse nosso gostar recíproco e perturbador que assombra as novas pessoas das (e nas!) nossas vidas. A essa saudade do futuro que não tivemos, dos nossos corpos ardendo cheios de passado e desse imenso vazio que se fez presente. A essa intimidade louca que a gente silencia, mas que, quando fala mais alto que nós, faz parecer que foi ainda ontem que o seu olhar repousou em mim: Você ainda tão meu, eu ainda tão sua (e nem precisamos necessariamente conversar ou rememorar o amor para perceber isso, sabemos que prosear sobre a rotina do desassossego e flores amarelas é mais seguro para esse novo caminho).

Eu queria ter a certeza de que isso passa. De que vai passar para nós, também. Você não consegue me prometer e eu tampouco sei se conseguiria ouvir resposta contrária. Por enquanto, vou vivendo sem premissa de porquês e tentando bastar em mim tudo aquilo que era você: compro o pãozinho das 18h, tomo café amargo para acordar, masco chicletes que nem gosto até doer o meu maxilar, aprendo a me defender, acredito nas mentiras sobre as quais você me alertaria, vejo o meu time perder na televisão e atiro pra longe o controle remoto, finjo que não sou tão inocente o quanto me entrega o próprio sorriso, escuto canções que nos explicam, lavo os pratos que se acumulam na pia enquanto faço cara de nojinho e suspiro resignada, leio os maiores clássicos dos idiomas pós-modernos que você jamais tentou ler (e me pergunto se você já começou a se debruçar pelos 1903873 livros que dei de presente em datas significativas ou dias ordinários com dedicatórias de amor total ao seus sonhos), levo o carro na revisão e fico sem paciência com a conversa do mecânico, me irrito com a burocracia da cidade, xingo o cidadão que me cortou e não deu seta, declamo Neruda para as paredes, me encontro em outros mundos (e sinto uma nostalgia enorme dos seus!) e deixo que a minha alma mais leve finalmente me guie para as direções que me forcei a tomar.

Enquanto os dias se arrastam e exalam essa melancolia onipresente em tudo que vejo, fico querendo que alguma doença terminal aflija o meu corpo e o meu juízo para ter a desculpa de enfim perdoar você pelos seus erros de julgamento e péssimas escolhas e, desse jeito meio trágico, poder justificar a nossa volta nos meus últimos momentos de vida. Sinto uma saudade enorme da sua proteção nos meus dias de abandono e lembro como é difícil ser a mulher adulta e forte que não cede à tentações, ao calor, aos quereres urgentes e às paixões.

No hiato que nos invadiu, amei e fui amada por vários: todos eles melhores homens que você, mas – ironia do destino que me cospe a cara! – nenhum deles era você, e, portanto, não eram suficientemente bons para mim. O acaso me serve mil distrações e divertidos tropeços em lindas pedras, mas continuo procurando o seu rosto nas fotografias que não são suas. Fecho as portas e não consigo me compelir a cerrar as janelas, embora saiba que isto é o digno a se fazer. Tenho medo de me cortar com os meus próprios cacos e peço a Deus um abraço que coloque todos eles de volta no lugar. Ser inteira, depois de você, é desafio dos grandes: Olhar pro lado e não ver a sua sombra é andar descalça no asfalto do meio dia com o fogo em brasa queimando os meus pés outrora delicados.

Sei – através dos seus amigos e confidências indecorosas regadas a litros de álcool – que você anda por aí me procurando em outras línguas, em outros ritmos, em outras comparações, em outros temperamentos, em outros livros, em outros poemas, em outras arestas congênitas, em outras personalidades, em outras cadências, em outros discos e em outros carnavais em que você pensa ter me achado: Você não vai me encontrar porque eu nunca saí do meu lugar. Você não vai me esquecer em outros beijos tão falsos e pele tão fria porque a carne de nós é bruta em simbiose e a memória é flor que desabrocha em fina luz na alvorada de outros amanhãs.

Sou sua – concluo com certo enfado por não saber até quando em pequeninas doses de agonia – e tento me embebedar com o sono que não vem.

'Cartas de Amor - Monteiro Lobato'. (Foto: Laís V. Ribeiro).
‘Cartas de Amor – Monteiro Lobato’. (Foto: Laís V. Ribeiro).

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