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Amores serão sempre amáveis.

21 de março de 2016 por Camila

São Paulo, 9 de Agosto de 2006.

‘Sim, promessas fiz. Fiz projetos, pensei tanta coisa, e agora o coração me diz que só em teus braços, meu bem, eu ia ser feliz. Eu tenho esse amor para dar, o que é que eu vou fazer? Eu tentei esquecer e prometi apagar da minha vida este sonho, e vem o coração e diz que só em teus braços, amor, eu ia ser feliz. Que só em teus braços, amor.’

(GILBERTO, J.)

F.,

Não me apaixonei por você de maneira lenta e gradual. Eu já era sua quando o vi de longe, cruzando a esquina e completamente incógnito naquele bar sujinho e claustrofóbico. Seria impreciso dizer o tempo, mas quando dei por mim, já tinha me perdido em você.

Acho que tínhamos uns vinteepoucosanos quando você beijou a minha bochecha com a sua boca ébria, e os meus lábios já estavam completamente bêbados de cerveja barata quando eu balbuciei ‘menino doido’ ao vento. Eu nem sabia de mim, mas ouvi o mundo parando para nos sorrir e brindar ao encontro: escutei os nossos amigos entoando canções desafinadas e barulhos de mar e estrelas. Os meus cabelos emaranhados combinavam com os seus jeans surrados e a minha camiseta do Nirvana era parecida com a sua do The Who. Você era a cara do Julian Casablancas, enquanto eu fazia careta pra ‘banda-modinha-cópia-mal-feita-dos-Stones’, mas você era você, e o destino, caprichoso.

O hiato do tempo tão injusto e desigual pausou uma estória que nunca aconteceu mas que nunca foi apagada. Os anos passaram sem graça até que nos reencontramos de forma não-convencional (como tudo que sempre foi tão nosso): eu, sóbria. Você, sorrisos. A história estava escrita, e o nós não podia mais ser adiado. Fui, então, me perder na bagunça da sua vaidade e no seu amor inteiro.

A memória é vívida e prodigiosa: suas lágrimas molhando os meus seios e seu suor na minha boca naquela primeira noite em que dormimos juntos. O seu ‘eu amo você’, a sensação irremediável de realização, a certeza irrevogável que a vida inteira valia aquele momento, os seus dedos passeando pela minha barriga, as nossas conversas de madrugada, a mágica que era o nosso olhar, a sua adoração por mim, os contos mais bonitos de amor que eu escrevi, as nossas pernas entrelaçadas e os seus dentes nas sardas do meu ombro.

Em dias de amor total, houve também a ruptura: as teias e labirintos da vida foram confusões sobre as nossas cabeças. O sol de verão iluminou tudo de pior que havia em você. Eu já não tinha mais brilho. Você me consumia, eu o cuspia. O fogo ardia, mas o coração não aguentava mais um único suspiro. De companheiros, viramos rivais. De entusiasmo, nos tornamos cansaço. O fracasso das forças tornou nossas tentativas em miradas opacas e a desistência anunciou o que temíamos: a separação, o enfrentar em si de hojes sem a mão amiga do outro que era o abrir caminhos de amanhãs.

As noites eram febris e eu pensei que fosse morrer sem o seu corpo junto ao meu: o amor dos vinteepoucosanos sabe ser impiedoso como poucos. Em que mundo haveria de ser possível eu sem você e você sem mim? Você era oxigênio apaixonado para os meus pulmões fatigados do cinismo daqueles que não amam. Você era a recompensa dos que são castigados pelo marasmo dos dias.

Inacreditavelmente, eu sobrevivi. Em longas e imensas horas, a pilha de destruição que você deixou dentro de mim foi diminuindo e eu vi que era completa de novo. Mas você nunca foi anônimo e a sua voz nunca emudeceu. Você nunca foi desimportante, nunca foi qualquer um. Em todos os meus minutos de solidão conjunta com outro alguém ou acompanhada pela sua ausência, você me ensinou tanto sobre tudo em lições silenciosas. No espelho da minha mente, você era o empirismo explícito nos meus passos de pisar em ovos.

Você era paixão crua e desnuda, a minha maçã envenenada na mesa do professor: Com o seu egoísmo, eu aprendi a perdoar. Com as suas dúvidas, eu aprendi o valor da paciência. Com os seus olhos que prenunciavam tempestades castanhas, eu aprendi a sentir medo da chuva. Com os seus beijos, eu aprendi a me entregar. Com o seu toque, eu aprendi o que era ser completamente vulnerável a alguém. Com o seu sangue, eu aprendi o que era me queimar. Com os seus sonhos, eu aprendi o que era acreditar. Com a distorção da sua guitarra, eu aprendi o que era dilacerar de ciúmes e ver a lucidez se esvair de mim. Com os seus erros, eu aprendi o que era crueldade. Com a sua pele, eu aprendi a me misturar e ser menos minha. Com os seus berros, eu aprendi o que era saudade. Com o seu amor, eu aprendi a me fazer inteira. Com a sua dor, eu aprendi a ser mulher. Com a sua confiança, eu aprendi o que era cumplicidade. Com a sua aspereza, eu aprendi o que era verdade. Com a sua luz, eu aprendi a ser sombra. Com você, eu entendi a poesia exagerada e a miudez intransigente do morno. Com a sua inconstância, eu aprendi o vício em adrenalina. Com a sua teimosia, eu aprendi que sabia muito pouco sobre as coisas vis do mundo. Com a sua malícia, eu aprendi a traição da minha inocência. Com o seu tesão, eu aprendi o poder do meu corpo. Com o seu caos da entropia que rege o universo inteiro, eu aprendi o que era perder totalmente o controle.

Por anos, fui a mágoa escrita e a incompreensão de um amor subvertido. Esses dias, ao seu lado novamente, percebi que eu era mesmo gratidão e entendimento por todos os nossos ciclos ininterruptos. Resolvi que contar a minha vida e os meus processos para você – que me conhece de outros ‘lugares ancestrais’ nessa cidade pós-moderna que nos engole – era o sanar que eu precisava da loucura que me consumia por qualquer bobagem. Você, que me sabe de verdade no meu melhor e no meu pior. Você, que nunca esqueceu a data do meu aniversário (nem mesmo nos nossos anos apartados de palavras e contato!), mesmo quando vinha me desejar ‘Feliz Páscoa!’, naquele seu humor mordaz e tipicamente inglês. Você, me cantando Caetano baixinho e disperso enquanto dedilhava o violão para fazer a minha raiva por coisa qualquer passar (e gargalhava o seu sorriso irresistivelmente torto quando eu jogava o travesseiro na sua direção e o expulsava do quarto trancando a porta na casa que não era minha). Você, que me viu tão eu: que tinha me enxergado tão leoa quanto temor, tão frágil quanto forte. Que teve de mim os excessos bipolares, mas nunca o equilíbrio.

Com a pressa das semanas que passam se atropelando enquanto deliramos macios, você achou que seria uma boa idéia consertar o nosso passado e fazer de nós presente naquela noite de vinhos e confissões. Disse – com os mesmos olhinhos gulosos de outrora – que os nossos corpos já se conheciam tão bem quanto as nossas almas. Antes que as minhas convicções ultrapassadas o empurrasse para longe, você reavivou a velha mania de me roubar beijos ao me puxar pela nuca e me prender nos seus abraços. Você me calou com a sua boca uma vez mais. Engasguei. Perdi o fôlego. Depois, esfregando o meu nariz contra o seu e misturando a minha respiração com a sua, abaixei a cabeça e sorri em silêncio como da primeira vez (com você é tudo sempre como se fosse a primeira de todas as vezes que jamais cessam em se repetir).

Tudo o que reluz nessa Terra-De-Meu-Deus-Sem-Tamanho-E-Sem-Porquê sabe que não sou afeita à novas chances, mas com você danço o Samba da Volta. Porque – justifico a mim mesma enigmaticamente como a Bruta Flor de um querer – você é você e isso é ‘o começo e o fim de tudo’.

Paro e penso que, dos que vieram antes de você, eu já nem me recordo. E todos os que vieram depois foram somente isso: depois de você. De você, divisor das minhas visões de mundo em antes e pós-presença. Em você, suspensão de eras no espaço sideral que não me cabe enquanto a vida fingia passar e eu matava instantes imediatos buscando a sua pele em todos aqueles que eu não permitia que tocassem em mim o que eu fui para você: eles eram somente ruídos, enquanto você era a música inteira.

Obrigada por continuar me ensinando o valor da coragem de estar com quem nos enche de borboletas o estômago ulcerado e com quem muda tudo de lugar para reconstruir um tempo que nunca se perdeu.

Os anos nos devoram como goles sedentos por Milk Shakes na Avenida Paulista e finalmente entrego a verdade no meu sorriso mais bobo: eu realmente amo você de todas as formas que se pode amar alguém,

A.

'(...) You pierce my soul. I am half agony, half hope. (...) I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it eight years and a half ago. (...) I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. (...) For you alone I think and plan. - Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice, when they would be lost on others. (...) You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating in F.W..'
‘(…) You pierce my soul. I am half agony, half hope. (…) I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it eight years and a half ago. (…) I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. (…) For you alone I think and plan. – Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice, when they would be lost on others. (…) You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating in F.W..’ (AUSTEN, J. in ‘Persuasion’.).


Pride And Prejudice – Orgulho E Preconceito.

13 de março de 2016 por Camila

Continuando a minha seqüência de leitura da obra de Jane Austen, cheguei em ‘Pride And Prejudice’ (aqui no Brasil, ‘Orgulho E Preconceito’). Talvez seja este o romance mais conhecido da escritora inglesa e, sem dúvida, um dos mais amados de todos os tempos.

O livro já foi adaptado e transformado inúmeras vezes em filmes e minisséries, e serviu de inspiração para estórias mais modernas (como, por exemplo, ‘Bridget Jones’). Muitos se perguntam quais foram os ingredientes que, através da destreza das mãos de Austen, fizeram com que este clássico se tornasse insuperável e imbatível no imaginário das mulheres de todo o mundo e todas as gerações.

Pessoalmente, não é o meu favorito. Eu continuo gostando mais de ‘Sense And Sensibility’, mas entendo todas as razões que fazem de ‘Orgulho E Preconceito’ o preferido de muita gente: os diálogos rápidos, a espirituosidade de Lizzy Bennet, a ironia precisa e cortante de Mr. Bennet, a sensibilidade completamente doce e ingênua de Jane, o coração desgovernado de romantismo de Mr. Darcy e as reviravoltas e epifanias das tramas e personagens são, de fato, encantadoras.

Virei noites lendo e discutindo o livro no meu Book Club via WhatsApp. A reação de todas nós diante dos arroubos da paixão de Fitzwilliam Darcy é a mesma: corações derretidos, madrugadas de busca ansiosa para que tudo desse certo (de forma rápida, porque a alma já não aguentava tanto desencontro!) e uma e a oração fervorosa para que mais homens sejam assim (que pena que eles não leiam Jane Austen pra saber do quê que mulher gosta, viu?!). <3

Outra coisa que me fascinou no livro foi a força e a capacidade de raciocínio de Elizabeth Bennet. É claro que muitas vezes você simplesmente torce para que o final feliz chegue logo e que ela se entregue de uma vez sem pensar duas, mas o amor também há que maturar um pouco na lógica e na perspectiva das coisas, no apaixonar consciente e na confiança conquistada. Nem toda heroína agarra-se a alguém para ter salvo o seu mundo de imediato, algumas preferem ser mais honestas consigo e tentar entender o próprio coração antes de entregá-lo em bandeja de prata (mesmo que o pretendente seja tãããããão irresistível!).

Num mundo carente de homens gentis e cavalheiros, ficamos do lado de cá do livro gritando para Lizzy Bennet deixar de ser louca e pular logo no pescoço de Mr. Darcy com todos os sins que possa dizer na vida. Mas Elizabeth sabe quem é, o que quer e como quer: suas certezas não são descartáveis e ela não tem pressa por cara-metades quando já se sabe tão inteira e dona de si. A mocinha-indefesa-em-perigo-esperando-para-ser-salva não cabe aqui. Personificada em Elizabeth Bennet, a mocinha questiona e não permite que o que parece perfeito passe impune. Ela mostra que também tem valor apesar de todas as propensões contrárias e que decididamente há que se respeitar uma mulher, mesmo quando as palavras do amante tentam chegar aos ouvidos embebedadas da intenção única de amor. E que se Mr. Darcy quiser, vai ter que fazer melhor. #TeamLizzy #ElizabethBennetMeRepresenta

‘(…) He is the kind of man, indeed, to who I should never dare refuse anything, which he condescended to ask. I now give it to you, if you are resolved on having him. But let me advise you to think better of it. I know your disposition, Lizzy. I know that you could be neither happy nor respectable, unless you truly esteemed your husband; unless you looked up to him as a superior. Your lively talents would place you in the greatest danger in an unequal marriage. You could scarcely escape discredit and misery. My child, let me not have the grief of seeing you unable to respect your partner in life. You know not what you are about. (…) If this be the case, he deserves you. I could not have parted with you, my Lizzy, to anyone less worthy.’

Outro dia li em um Blog que todas as estórias de amor jamais escritas depois de ‘Orgulho E Preconceito’ se baseiam apenas nela e que todos os heróis são reencarnações modernas e pós-modernas de Mr. Darcy, porque ele é o amante ideal e o herói da vida de toda mulher. Fiquei pensando sobre isso e, embora seja inegável toda mudança que operou em seu próprio mundo para compreender os conceitos do que formam a personalidade do objeto de seu amor (e tentar abarcar-se a eles!), não sei se acredito tanto assim numa relação que faça você abrir mão do muito que você é e exija a presença de tantos ajustes, embora, na literatura, caiba tudo que justifique fazer de você alguém melhor para adequar-se ao amor-mais-que-perfeito pelo qual vale a pena lutar. Licença poética não tem nada a ver com realidade, né? 😉

É claro que todas nós queremos alguém que nos ajude a consertar aquilo que está quebrado em nossa vida sem que busque créditos por isso ou nos cobre posteriormente de forma vil como uma dívida. E é por isso que a gente suspira e sorri malemolentemente com grandes gestos heróicos do amor total, mas as pequenas coisas no dia a dia não são menos importantes. E é aí que eu me pergunto se, de repente, o amor da Emma com Mr. Knightley em ‘Emma’ não era muito mais real por ser menos passional e muito mais sólido, construído sem grandes gestos de arrebatamento idílico ou declarações prolixas, mas com muita conversa, críticas e crescimento mútuo ao longo de toda uma vida. Por causa desse tipo de conclusão e diálogos internos, cheguei neste artigo do Huffington Post e super recomendo a leitura.

O ponto é: sim, todas queremos um amor tão efusivo quando nos sabemos prontas para amar. Mas também merecemos um amor mais maduro que não nos coloque em pedestais e nos enxergue exatamente como somos (e somos infinitamente dignas de amor, mesmo com  os nossos inenarráveis e sem número de defeitos).

‘-How despicably have I acted!, she cried. -I who have prided myself on my discernment! I, who have valued myself on my abilities!, who have often disdained the generous candour of my sister, and gratified my vanity, in useless or blameable distrust. How humiliating is this discovery! Yet, how just a humiliation! Had I been in love, I could not have been more wretchedly blind. But vanity, not love, has been my folly. Pleased with the preference of one, and offended by the neglect of the other, on the very beginning of our acquaintance, I have courted prepossession and ignorance, and driven reason away, where either were concerned. Till this moment, I never knew myself.’

Jane Austen é constante em sua maestria no que se refere a criar personagens memoráveis pelos quais nutrimos uma enorme empatia, e com os quais dividimos angústias, circunstâncias e sentimentos. Talvez por isso eu tenha entrado nessa espiral insana de querer conversar com Lizzy Bennet (por achar que só ela me entenderia nisso ou naquilo outro. Ou seja, #TerapiaPraCamila, hahahahahaha). Na habilidade da escritora, também me perdi em situações, chorei por muitas outras e fiquei muito brava em algumas. Fiquei tensa, me apaixonei perdidamente, torci genuinamente para que o bem prevalecesse (como se estivesse observando a vida de amigos íntimos, hahahahaha!), postei um milhão de quotes e pensamentos no meu Facebook e no meu Instagram e ignorei solenemente o que eu precisava fazer no ‘mundo real’ apenas para me entregar à todas as sensações mágicas que só um livro muito bom pode nos dar. Também enlouqueci os meus amigos para que eles lessem esse livro de uma vez ao invés de se contentar em conhecer a estória apenas através de adaptações cinematográficas e televisivas.

Além da ajuda psiquiátrica que eu obviamente preciso depois da leitura de ‘Orgulho E Preconceito’, eu continuo insistindo que clássicos são clássicos por todos os motivos aqui presentes e que os fazem sobreviver aos anos caóticos que os sucederam e às mudanças contínuas de personalidade, prioridades, paixões e comportamento humanos.

Ler este livro foi uma delícia e eu acho que todo mundo deveria enfeitar a alma com finais felizes, com suspiros apaixonados, com a leveza que traz manter um coração puro (#TeamJaneBennet) e a crença de que ainda há algum Mr. Darcy por aí se a gente estiver preparada para recebê-lo (sim, com todos os seus orgulhos e preconceitos, mas também com todo o seu senso impenetrável de honra e a convicção de que caráter é o que devemos procurar em alguém com quem decidimos compartilhar a vida). A literatura, minha gente, ainda há de nos livrar desse cinismo que nos assola. <3

– Minha resenha no GoodReadshttps://www.goodreads.com/review/show/1458806409

– Interessou? Tem aqui: http://www.livrariacultura.com.br/p/pride-and-prejudice-45660

Do melhor tipo de domingo: o aconchegante. <3
Do melhor tipo de domingo: o aconchegante. <3

 

Bem assim, diz Mr. Darcy, me matando enquanto me faz sonhar e desnudando toda a minha carne e desfaçatez: '-In vain have I struggled. It will not do. My feelings will not be repressed. You must allow me to tell you how ardently I admire and love you.' Agora me digam, como é possível viver normalmente depois de ler um negócio desses? Jane Austen acaba comigo com esse tipo de gracinha. Literatura é coisa séria, irmão. Estou aqui com chuvinha nos olhos, engasgada com a sopa, um nó enorme no coração, as mãos amolecidas segurando o livro e xingando mentalmente até a quinquagésima geração da escritora.
Bem assim, diz Mr. Darcy, me matando enquanto me faz sonhar e desnudando toda a minha carne e desfaçatez: ‘-In vain have I struggled. It will not do. My feelings will not be repressed. You must allow me to tell you how ardently I admire and love you.’ Agora me digam, como é possível viver normalmente depois de ler um negócio desses? Jane Austen acaba comigo com esse tipo de gracinha. Literatura é coisa séria, irmão. Estou aqui com chuvinha nos olhos, engasgada com a sopa, um nó enorme no coração, as mãos amolecidas segurando o livro e xingando mentalmente até a quinquagésima geração da escritora.

 

Vamos lá concordar com Mr. Darcy de manhã bem cedo enquanto queimo a boca com café? Diz ele bem assim: 'Yes, vanity is a weakness indeed. But pride - where there is a real superiority of mind, pride will be always under good regulation.'
Vamos lá concordar com Mr. Darcy de manhã bem cedo enquanto queimo a boca com café? Diz ele desse jeitinho: ‘Yes, vanity is a weakness indeed. But pride – where there is a real superiority of mind, pride will be always under good regulation.’

 

Só tem olheira quem se apaixona por personagem fictício e decide que ficar lendo até às 7h15 da manhã é mais importante do que estar mentalmente presente em qualquer atividade que tenha que performar em dia útil. Se antes a minha síndrome era de Scarlett O'Hara, ela agora é oficialmente de Elizabeth Bennet. Meu Deus, era só o que me faltava. Jane Austen, você me paga. <3
Só tem olheira quem se apaixona por personagem fictício e decide que ficar lendo até às 7h15 da manhã é mais importante do que estar mentalmente presente em qualquer atividade que tenha que performar em dia útil. Se antes a minha síndrome era de Scarlett O’Hara, ela agora é oficialmente de Elizabeth Bennet. Meu Deus, era só o que me faltava. Jane Austen, você me paga. <3

 

…Enquanto isso, no WhatsApp. Não, nós não somos normais. ;)
…Enquanto isso, no WhatsApp. Não, nós não somos normais. ;)

 

Quem quer morrer lentamente com Jane Austen? Então vem bem bonitinho com a Tia Camila, bem assim: '(...) And parted in silence; on each side dissatisfied, though not to an equal degree, for in Darcy's breast there was a tolerable powerful feeling towards her, which soon procured her pardon, and directed all his anger against another.' É, amigo. Amor é pior que hormônio que é pior que vodka. Miss Austen já sabia, e por isso ela nos deu Mr. Darcy.
Quem quer morrer lentamente com Jane Austen? Então vem bem bonitinho com a Tia Camila, bem assim: ‘(…) And parted in silence; on each side dissatisfied, though not to an equal degree, for in Darcy’s breast there was a tolerable powerful feeling towards her, which soon procured her pardon, and directed all his anger against another.’ É, amigo: amor é pior que hormônio que é pior que vodka. Miss Austen já sabia, e por isso ela nos deu Mr. Darcy.

 

Aí está, mais uma vez, outra noite em claro e o meu coração todinho descrito em tinta negra, palavras estrangeiras, papel barato, rabiscos de grafite e post-its coloridos pra reler e relembrar muitas vezes aquilo que mais importa e que não se esquece.
Aí está, mais uma vez, outra noite em claro e o meu coração todinho descrito em tinta negra, palavras estrangeiras, papel barato, rabiscos de grafite e post-its coloridos pra reler e relembrar muitas vezes aquilo que mais importa e que não se esquece.

 

A ansiedade pelo final feliz me consumiu noites. A minha alma já não podia mais com desencontros.
A ansiedade pelo final feliz me consumiu noites. A minha alma já não podia mais com desencontros.

 

 


Emma – Emma.

11 de março de 2016 por Camila

Estão lembrados da seqüência que eu tinha decidido ler a obra de Jane Austen? Mudei de idéia. Pulei de ‘Sense And Sensibility’ para ‘Emma’  (aqui no Brasil, também ‘Emma’) ao passear o olhar meio que sem querer pela primeira página do livro.

Quando Jane (#MelhorAmigaPraSempre!) publicou ‘Emma’ lááááá em 1815, ela disse que a heroína do seu novo romance seria alguém que ninguém, além da própria autora, iria simpatizar. Não sei se eu concordo com a Jane ou se dou um credito à Emma: ela, de fato, pode ser bem chatinha com a sua falta de noção ou incapacidade de enxergar um palmo diante do nariz, mas o coração dela está no lugar certo e não está carregado de más intenções. Ao contrário, ela tropeça em si própria nas suas tentativas de acerto.

Emma é humana – bastante humana -, embora tente a todo custo parecer divina. Ajuda a quem lhe chega da maneira que sabe e acredita ser a mais correta, porém, o desconhecimento das necessidades de uma realidade distinta dos privilégios que a cercam lhe provoca uma certa falta de empatia. Entretanto, ao perceber que erra, não mede esforços para consertar as situações resultantes dos seus comportamentos inadequados.

Ela demora para entender a lógica das coisas que fogem ao que conhece de mundo e constantemente precisa ser chamada de volta à razão pelas pessoas que possuem – por idade ou experiência – melhor senso que ela. Mas, de forma alguma, é má. Talvez ela peque aqui ou ali por ter demasiada convicção na sua forma de enxergar o funcionamento das coisas, mas por isso eu jamais a culparei (#GarotasTeimosasMeRepresentam). Suas epifanias e mea culpas são de cortar o coração de quem lê e você aprende a perdoá-la quando entende suas motivações.

‘(…) Emma’s eyes were instantly withdrawn; and she sat silently meditating in a fixed attitude, for a few minutes. A few minutes were sufficient for making her acquainted with her own heart. A mind like hers, once opening to suspicion, made rapid progress; she touched, she admitted, she acknowledged the whole truth. (…) It darted through her with the speed of an arrow that Mr. Knightley must marry no one but herself! Her own conduct, as well as her own heart, was before her in the same few minutes. She saw it all with a clearness which had never blessed her before. (…) To understand, thoroughly understand her own heart, was the first endeavour. To that point went every leisure moment (…), and every moment of involuntary absence of mind.’

Brincar com a vida e o destino das pessoas é um jogo perigoso, mas Emma o faz pela vontade quase que ingênua de ver o amor prevalecer em pares que considera perfeitos (acontece que o amor, que ironia!, é de tudo o mais imperfeito). E mais, ela acha que isso jamais acontecerá com ela por mera escolha e vive devotada aos caprichos de seu pai. Ela se vê plenamente satisfeita com o mundo que a cerca e não acha que se sentirá mais completa com marido e filhos. Lembre-se que estamos aqui falando do Século XIX, e essa auto-suficiência da Emma realmente me encantou.

‘…I have not a fault to find with her person. I think her all you describe. I love to look at her; and I will add this praise, that I do not think her personally vain. Considering how very handsome she is, she appears to be little occupied with it; her vanity lies another way. (…) I have a very sincere interest in Emma. (…) There is an anxiety, a curiosity in what one feels for Emma. I wonder what will become of her. (…) She always declares she will never marry, which, of course, means just nothing at all. But I have no idea that she has yet ever seen a man she cared for. It would not be a bad thing for her to be very much in love with a proper object. I should like to see Emma in love, and in some doubt of a return; it would do her good. But there is nobody hereabouts to attach her; and she goes so seldom from home.’

Eu me rendi ao estilo da autora desde a leitura do primeiro livro. Já falei pra vocês da riqueza nas construções dos personagens e de como isso me encanta porque nos dá a possibilidade de nos reconhecermos em cada um deles, por coisas e momentos diferentes.

Ainda que eu tenha demorado um pouco pra pegar o embalo com ‘Emma’, o livro é –  obviamente –  escrito com maestria: aqui a estória não foi diferente, e o meu está completamente rabiscado com mil anotações, pensamentos soltos, post-its e idéias.

Num ou noutro capítulo, contudo, me peguei um pouco entediada e extremamente irritada com Mr. Woodhouse, Miss Bates, Mr. e Mrs. Elton (sim, ao ponto de rolar os olhos e suspirar de enfado todas as vezes em que eles apareciam. Claro que a autora os usa sabiamente e consegue, a partir deles, construir uma crítica bem-humorada à sociedade a qual pertencia e aos costumes muitas vezes bizarros que por ela eram cultivados).

Grandes obras, sabemos, não são formadas somente por personagens agradáveis e momentos de clímax intensos (é preciso saber conduzir o leitor até ali, caso contrário, por mais que ele chegue, tudo será pouco para quem não acompanha as minúcias das relações): literatura boa de verdade – dessas eternas mesmo! – é ‘apenas’ um punhado de páginas soltas que estão sendo costuradas por figuras humanas capazes de roubar o nosso fôlego e os nossos corações, fazendo com que a nossa alma sonhe e divague através das suas nuanças, traços peculiares, personalidades, estórias, hábitos, pensamentos, comportamentos e ânimos. E isso, lhes digo, está presente aqui como mágica. Tal qual Cartola de Mágico, a caneta da autora inglesa não decepciona.

Sim, você vai se ver – mais uma vez, Jane Austen dos meus pecados! – nesses protagonistas. Você vai – sim, de novo! – se identificar com eles por tudo de humano que está ali impresso (a ‘Rainha da Literatura Inglesa’ trazia em si a incrível habilidade de observar o modus operandi e os sentimentos de cada um de nós!).

E sim, por fim, esteja preparada para morrer – muitíssimo! – de amor por Mr. Knightley (sobretudo no que se refere a sua decência e integridade!), pela imaginação espirituosa e pelas epifanias da Emma. Porque sim, nós agora já sabemos que ninguém consegue escrever heroínas e amantes como Jane Austen conseguia.

Definitivamente, é um ótimo livro para mantê-la acompanhada da melhor forma possível no conforto de um chá de domingo ou para aplacar a correria da mente durante uma semana atribulada: apenas respire e flane pela singularidade dessa autora, que é sempre merecedora do seu tempo e que supera, com seu talento único e atemporal, a pressa do mundo.

– Minha resenha no GoodReads: https://www.goodreads.com/review/show/1422653537

– Interessou? Tem aqui: http://www.livrariacultura.com.br/p/emma-45687

As melhores escolhas de domingo! Não sei vocês, mas café, frio, sofá e livro estão nos meus Top 10.
As melhores escolhas de domingo! Não sei vocês, mas café, frio, sofá e livro estão nos meus Top 10.

 

Porque nada pode ser melhor do que um tempo livre para desacelerar a sua mente e acalmar o seu cérebro cansado entre dias tão ocupados. Obrigada, Deus.
Porque nada pode ser melhor do que um tempo livre para desacelerar a sua mente e acalmar o seu cérebro cansado entre dias tão ocupados. Obrigada, Deus.

 

Quando você decide que passar a noite em claro é mais importante do que estar mentalmente presente em algum dia útil. Sou dessas.
Quando você decide que passar a noite em claro é mais importante do que estar mentalmente presente em algum dia útil. Sou dessas.

 

Ok, eu desisto de mim mesma! Neste momento, em que Mr. Knightley se declara à Emma, estou GRITANDO e suspirando. Perturbada, vagando pela casa com o livro na mão enquanto tento recuperar meu fôlego parando a leitura. E xingando a Jane Austen, eloquentemente. AHHHHHH! Miss Austen DESTRUIU o meu cérebro. Eu deveria ficar longe dessa mulher, Meu Deus! '...If I loved you less, I might be able to talk about it more.'
‘…If I loved you less, I might be able to talk about it more.': ok, eu desisto de mim mesma! Neste momento, em que Mr. Knightley se declara à Emma, eu estava GRITANDO e suspirando. Perturbada, vagando pela casa com o livro na mão enquanto tentava recuperar meu fôlego parando a leitura. E xingando a Jane Austen, eloquentemente. AHHHHHH! Miss Austen DESTRUIU o meu cérebro. Eu deveria ficar longe dessa mulher, Meu Deus!

 

Melhor companhia para fins de tarde de inverno. <3
Melhor companhia para fins de tarde de inverno. <3


Rascunhos de Outono VIII: Vinte e cinco de fevereiro.

9 de março de 2016 por Camila

‘Must be strangely exciting to watch the stoic squirm. Must be somewhat heartening to watch shepherd meet shepherd.’

(MORISSETTE, A.)

Pois é, a estóica se contorce e oferece uma visão interessante a quem se faz platéia. Zenão de Cítio me julga com miradas de estátua grega e diz que não foi assim que me ensinou. Os Rolling Stones insistem em domar cavalos selvagens que me arrastam pra longe. Mulheres mais fortes me estendem as mãos e me afogam em abraços. George Harrison está convicto de que isso também vai passar. A minha torcida do ‘deixa pra lá’ é enorme e faz barulho quando eu quase ofereço a minha cabeça em bandeja de prata. Apresso o tempo para que chegue o dia do alívio e do encher os pulmões de oxigênio leve, que custa. Olho o calendário e descubro o porquê da tormenta inconsciente: 25 de Fevereiro de doismilequalquercoisa.

Na solidão contínua do 25 de Fevereiro que já dura 145 horas e que é puro temporal aonde vivo, vi por uma imagem cheia de reticências que o seu foi de azul e muito sol. E aí percebi – com o rosto molhado de nuvem e idéias – que depois de você, vai ser difícil que os vinteecincodefevereiros dos meus anos sejam dias comuns ou de amnésia seletiva na minha existência vã.

Os vinteecincodefevereiros se tornaram dias mágicos quando, há anos atrás, você entrou na minha vida, encheu a minha barriga de borboletas ao esvaziar simultaneamente o meu coração de angústia e decidiu por si que nós teríamos uma história ímpar pra contar a qualquer um que quisesse ouvir alguém falar de amor. Não foi fácil, digo, você não entrou em mim de uma maneira fácil: você chegou dilacerando as minhas certezas enquanto eu desligava o botão do seu cinismo ao estilhaçar a maldade arisca e incógnita nos seus olhinhos negros.

Enquanto a agonia me consumia feito fogo que lateja calado e eu ardia em chamas de memórias ao criar os piores diálogos que habitavam uma paisagem que não era eu, você se perdia em outros beijos (frios, mecânicos, vulgares e mentirosos, mas beijos) e construía novas lembranças. Chorei. Soluçando e com dor de estômago, pedi a Deus – bem baixinho, mas com fervor! – que você se extinguisse em mim como o silêncio nas multidões que – ainda, que ironia! – nos observam. Sei que você ainda sabe de mim e dos horizontes que me formam ao esmiuçar tudo o que sou. Sei o que sei de você, que eu sempre soube sabê-lo tão bem em tantas minúcias e defeitos.

Olho pros lados e vago em busca de distrações. Leio e não me concentro. Trabalho e jogo tudo para o alto. Dou a cara pro tapa e não abaixo a guarda. Tomo café e queimo a boca. Masco chicletes de hortelã e mordo a língua. Vou ao parque encher a boca de vinho e penso em ir ao cinema (que íamos tão pouco por ter muito sobre o que conversar e, obviamente, passar mais de 1h em silêncio não era natural para nós quando estávamos juntos): lembro que nos ocupávamos falando de paixões e Chuvas de Novembro, de projetos, de soluções, de novidades, do caos, da posição exata das sua mãos me puxando pelos quadris e despenteando os meus cabelos, da provocação dos elogios tão desbocados quanto deliciosos, da elocubração da vida que construíamos e da que gostaríamos de ter. Juntos sempre, e talvez oferecendo algum significado material e humano ao conceito surreal de ‘simbiose’. Toda a amplidão do tempo raro e incomum, pele em pele, até eu tropeçar nos seus pés que me seguiam pelos meus caminhos sempre tortos. E agora, nessas voltas apressadas que o mundo dá, morro de pena e melancolia quando você mesmo me diz que tudo o que você faz é ir a uma sala escura para assistir sucessos de bilheteria superficiais enquanto emudece em outras vidas fictícias e empobrece com o passar das horas ordinárias.

Contemporizo. Sinto sua falta. Sintonizo suas palavras e tenho medo de que você me procure e me peça pra voltar mais uma vez, porque não vou conseguir ser forte como na semana passada em que neguei sonoramente. Começo a me afogar em autocomiseração e pago o preço da dúvida. Repito que não posso voltar atrás nas decisões que eu tomei de ser grande. Componho cânticos e começo a entoar como se fossem Mantras sagrados de fortalezas e convencimentos. Preciso acreditar. Ignoro o meu nascimento plástico há trintaetrêsanosatrás. A tristeza quer fazer de mim morada intransponível e eu culpo o inferno astral, mas minhas mãos são mais rápidas na busca das armas e do esquecimento lento e periódico. Descubro, só por cinco minutinhos de perfeição, que ainda há mundo. E aí me vou.

Fujo. Milhas. Léguas. Kilômetros. Anos-Luz. Qualquer medida de tempo e espaço, desde que seja provisória e imediata. Vou pra cidade que sempre me foi cura para me perder nas esquinas que não há e, quando volto ao meu lugar claustrofóbico, me desespero mais uma vez ao encontrar a poeira vermelha daquele chão de verão nas barras das minhas calças jeans e nas solas dos meus sapatos que são o constatar preciso e inescrutável de que tudo se desmancha no concreto do asfalto, até mesmo nós (outrora tão cegos e eternos).

A poesia indefectível e abstrata da 109 Sul. Brasília não é tão concreta assim.
A poesia indefectível e abstrata da 109 Sul. Brasília não é tão concreta assim.


Sense And Sensibility – Razão E Sensibilidade.

3 de março de 2016 por Camila

Vocês estão lembrados sobre uma promoção generosa da Livraria Cultura numa certa tarde de ócio num domingo qualquer que falei por aqui?

Então, foi lá que eu consegui comprar (quase!) toda a obra da Jane Austen, bem como outros clássicos da literatura inglesa que têm ocupado deliciosamente o meu tempo.

É incrível perceber como grandes escritores conseguem sobreviver às mudanças do mundo, talvez por que apesar de o mundo estar em constante movimento, o ser humano pouco foi alterado em intenções ou sentimentos. Talvez hoje sejamos mais cínicos, embora as motivações sejam – surpreendentemente! – as mesmas (mas essa é apenas uma teoria condescendente).

Jane Austen consegue captar esses traços demasiadamente humanos e transformá-los nas características dos seus imortais personagens. Você nem sempre vai se afeiçoar a todos eles, mas vai entender o valor de cada um a seu tempo e se apaixonar perdidamente pela habilidade da escritora nas suas construções.

Quando comprei a obra da inglesa, conversei com alguns fãs e cada um me indicou uma seqüência pela qual eu deveria lê-la. Escutei todas elas e os motivos sobre os quais eu deveria seguir essa ou aquela sugestão, mas optei por fazer diferente. Como queria estudá-la como romancista, decidi ler os livros pela ordem cronológica em que foram escritos, assim eu poderia entender o amadurecimento de Austen como escritora e alguns dos motivos da sua atemporalidade e imortalidade.

Desse modo, comecei por ‘Sense And Sensibility’ (aqui no Brasil, ‘Razão E Sensibilidade’). Levou um pouco de tempo, no começo, para me habituar com o ritmo da narrativa. Estava acostumada a livros que acontecem rápido, com uma linguagem mais direta e com uma riqueza de detalhes exposta de um jeito distinto. Mas há que se levar em conta que este é um livro publicado em 1811 na Inglaterra da Regência, aonde as pessoas se comportavam e falavam de maneira completamente diferentes de nós. E é aí que eu volto a minha teoria: o mundo mudou, mas as motivações humanas não tanto.

Não é uma leitura fácil, embora seja maravilhosa e tenha me mudado como pessoa em um ou outro grau. É um livro que faz com que você questione suas posturas, o absoluto das suas certezas, seus julgamentos ora impróprios e injustos, sua capacidade de entender o outro pela circunstância das situações, sua resiliência, sua força e sua coragem para derrubar antigas resoluções e partir para recomeços.

Você vai se perguntar como um livro tão antigo pode fazer isso com você, tão moderna (o): você vai chorar, você vai ‘virar a casaca’ o tempo inteiro (#TeamElinor x #TeamMarianne), você vai se desesperar, você vai morrer de ódio dos sentimentos alheios tão menores, você vai ficar com a respiração acelerada por pura ansiedade, você vai perder o sono e virar noites lendo e você vai amar cada palavrinha dos escritos de Jane Austen.

Eu sou incapaz de reproduzir todas as quotes que eu gostaria, porque o meu livro está completamente rabiscado com anotações (e lembranças!) e cheio de post-its, além do que, ia virar spoiler. Mas o que reitero é que clássicos são clássicos por um milhão de motivos, e Jane Austen colocou aqui todos os ingredientes para se certificar de que esse seria um livro que sobreviveria à mundos posteriores ao seu.

Já indiquei este título a um milhão de pessoas e nunca consegui expressar exatamente o porquê de ter mexido tanto comigo de uma maneira muito própria e profunda. Li em tardes de calor, dias de tédio, noites eternas e afogando minha boca em litros de café e de chá: não canso de me repetir ao propagar aos quatro ventos a genialidade de Jane Austen na criação de personagens tão complexos e tão cada um de nós. Sim, não duvide, você está ali. Ora em um ora em outro. E eu, que sempre passei a vida sendo tão Marianne, tenho aprendido com os meus erros e passos incertos o valor de ser mais Elinor.

Enquanto você estiver lendo, eu recomendo que você tenha um pouco de paciência com a diferença da linguagem e abrace todas as mudanças, porque é um livro muito – MUITO! – bonito, muito delicado, muito cuidadoso, muito forte, com reviravoltas que assustam quando você acha que navega em mares tranqüilos, e, por fim, vai fazer com que você se pergunte se é melhor ter juízo ou se é melhor ser puro sentimento quando você não consegue ser os dois ao mesmo tempo (lembre-se, somos apenas humanos).

Não é que tudo dá certo no final o mais importante ou as estórias de amor que são o pano de fundo desse clássico que faz com que esse seja um dos meus livros preferidos de todos os tempos, mas o fato de Jane Austen ter nos ensinado a sermos heroínas da nossa própria história e estarmos dispostas a repensar as nossas atitudes e convicções mais íntimas para abraçar a nossa felicidade.

‘(…) Marianne Dashwood was born to an extraordinary fate. She was born to discover the falsehood of her own opinions, and to counteract, by her conduct, her most favourite maxims’. 

E você aí achando que literatura é só passatempo, né? Tolinho.

– Minha resenha no GoodReads: https://www.goodreads.com/review/show/1334979941

– Interessou? Tem aqui: http://www.livrariacultura.com.br/p/sense-and-sensibility-45675

Enchendo a cestinha e tomando um café na Livraria Cultura. <3
Enchendo a cestinha e tomando um café na Livraria Cultura. <3

 

Tardes de chá e livros pra essa velhotinha que eu sou. ;)
Tardes de chá e livros pra essa velhotinha que eu sou. ;)

 

Lutando contra a Entropia que rege o universo e tentando controlar o caos que tomava a minha cama: livros, diários, anotações, canetas e post-its.
Lutando contra a Entropia que rege o universo e tentando controlar o caos que tomava a minha cama: livros, diários, anotações, canetas e post-its.

 

Suspiros na padoca! <3
Suspiros na padoca! <3

 

Quando você se apaixona tanto assim por um livro, não há o que fazer se não começar a colecionar edições. ;)
Quando você se apaixona tanto assim por um livro, não há o que fazer se não começar a colecionar edições. ;)