Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Amores serão sempre amáveis.

21 de março de 2016 por Camila em Eu Conto!

São Paulo, 9 de Agosto de 2006.

‘Sim, promessas fiz. Fiz projetos, pensei tanta coisa, e agora o coração me diz que só em teus braços, meu bem, eu ia ser feliz. Eu tenho esse amor para dar, o que é que eu vou fazer? Eu tentei esquecer e prometi apagar da minha vida este sonho, e vem o coração e diz que só em teus braços, amor, eu ia ser feliz. Que só em teus braços, amor.’

(GILBERTO, J.)

F.,

Não me apaixonei por você de maneira lenta e gradual. Eu já era sua quando o vi de longe, cruzando a esquina e completamente incógnito naquele bar sujinho e claustrofóbico. Seria impreciso dizer o tempo, mas quando dei por mim, já tinha me perdido em você.

Acho que tínhamos uns vinteepoucosanos quando você beijou a minha bochecha com a sua boca ébria, e os meus lábios já estavam completamente bêbados de cerveja barata quando eu balbuciei ‘menino doido’ ao vento. Eu nem sabia de mim, mas ouvi o mundo parando para nos sorrir e brindar ao encontro: escutei os nossos amigos entoando canções desafinadas e barulhos de mar e estrelas. Os meus cabelos emaranhados combinavam com os seus jeans surrados e a minha camiseta do Nirvana era parecida com a sua do The Who. Você era a cara do Julian Casablancas, enquanto eu fazia careta pra ‘banda-modinha-cópia-mal-feita-dos-Stones’, mas você era você, e o destino, caprichoso.

O hiato do tempo tão injusto e desigual pausou uma estória que nunca aconteceu mas que nunca foi apagada. Os anos passaram sem graça até que nos reencontramos de forma não-convencional (como tudo que sempre foi tão nosso): eu, sóbria. Você, sorrisos. A história estava escrita, e o nós não podia mais ser adiado. Fui, então, me perder na bagunça da sua vaidade e no seu amor inteiro.

A memória é vívida e prodigiosa: suas lágrimas molhando os meus seios e seu suor na minha boca naquela primeira noite em que dormimos juntos. O seu ‘eu amo você’, a sensação irremediável de realização, a certeza irrevogável que a vida inteira valia aquele momento, os seus dedos passeando pela minha barriga, as nossas conversas de madrugada, a mágica que era o nosso olhar, a sua adoração por mim, os contos mais bonitos de amor que eu escrevi, as nossas pernas entrelaçadas e os seus dentes nas sardas do meu ombro.

Em dias de amor total, houve também a ruptura: as teias e labirintos da vida foram confusões sobre as nossas cabeças. O sol de verão iluminou tudo de pior que havia em você. Eu já não tinha mais brilho. Você me consumia, eu o cuspia. O fogo ardia, mas o coração não aguentava mais um único suspiro. De companheiros, viramos rivais. De entusiasmo, nos tornamos cansaço. O fracasso das forças tornou nossas tentativas em miradas opacas e a desistência anunciou o que temíamos: a separação, o enfrentar em si de hojes sem a mão amiga do outro que era o abrir caminhos de amanhãs.

As noites eram febris e eu pensei que fosse morrer sem o seu corpo junto ao meu: o amor dos vinteepoucosanos sabe ser impiedoso como poucos. Em que mundo haveria de ser possível eu sem você e você sem mim? Você era oxigênio apaixonado para os meus pulmões fatigados do cinismo daqueles que não amam. Você era a recompensa dos que são castigados pelo marasmo dos dias.

Inacreditavelmente, eu sobrevivi. Em longas e imensas horas, a pilha de destruição que você deixou dentro de mim foi diminuindo e eu vi que era completa de novo. Mas você nunca foi anônimo e a sua voz nunca emudeceu. Você nunca foi desimportante, nunca foi qualquer um. Em todos os meus minutos de solidão conjunta com outro alguém ou acompanhada pela sua ausência, você me ensinou tanto sobre tudo em lições silenciosas. No espelho da minha mente, você era o empirismo explícito nos meus passos de pisar em ovos.

Você era paixão crua e desnuda, a minha maçã envenenada na mesa do professor: Com o seu egoísmo, eu aprendi a perdoar. Com as suas dúvidas, eu aprendi o valor da paciência. Com os seus olhos que prenunciavam tempestades castanhas, eu aprendi a sentir medo da chuva. Com os seus beijos, eu aprendi a me entregar. Com o seu toque, eu aprendi o que era ser completamente vulnerável a alguém. Com o seu sangue, eu aprendi o que era me queimar. Com os seus sonhos, eu aprendi o que era acreditar. Com a distorção da sua guitarra, eu aprendi o que era dilacerar de ciúmes e ver a lucidez se esvair de mim. Com os seus erros, eu aprendi o que era crueldade. Com a sua pele, eu aprendi a me misturar e ser menos minha. Com os seus berros, eu aprendi o que era saudade. Com o seu amor, eu aprendi a me fazer inteira. Com a sua dor, eu aprendi a ser mulher. Com a sua confiança, eu aprendi o que era cumplicidade. Com a sua aspereza, eu aprendi o que era verdade. Com a sua luz, eu aprendi a ser sombra. Com você, eu entendi a poesia exagerada e a miudez intransigente do morno. Com a sua inconstância, eu aprendi o vício em adrenalina. Com a sua teimosia, eu aprendi que sabia muito pouco sobre as coisas vis do mundo. Com a sua malícia, eu aprendi a traição da minha inocência. Com o seu tesão, eu aprendi o poder do meu corpo. Com o seu caos da entropia que rege o universo inteiro, eu aprendi o que era perder totalmente o controle.

Por anos, fui a mágoa escrita e a incompreensão de um amor subvertido. Esses dias, ao seu lado novamente, percebi que eu era mesmo gratidão e entendimento por todos os nossos ciclos ininterruptos. Resolvi que contar a minha vida e os meus processos para você – que me conhece de outros ‘lugares ancestrais’ nessa cidade pós-moderna que nos engole – era o sanar que eu precisava da loucura que me consumia por qualquer bobagem. Você, que me sabe de verdade no meu melhor e no meu pior. Você, que nunca esqueceu a data do meu aniversário (nem mesmo nos nossos anos apartados de palavras e contato!), mesmo quando vinha me desejar ‘Feliz Páscoa!’, naquele seu humor mordaz e tipicamente inglês. Você, me cantando Caetano baixinho e disperso enquanto dedilhava o violão para fazer a minha raiva por coisa qualquer passar (e gargalhava o seu sorriso irresistivelmente torto quando eu jogava o travesseiro na sua direção e o expulsava do quarto trancando a porta na casa que não era minha). Você, que me viu tão eu: que tinha me enxergado tão leoa quanto temor, tão frágil quanto forte. Que teve de mim os excessos bipolares, mas nunca o equilíbrio.

Com a pressa das semanas que passam se atropelando enquanto deliramos macios, você achou que seria uma boa idéia consertar o nosso passado e fazer de nós presente naquela noite de vinhos e confissões. Disse – com os mesmos olhinhos gulosos de outrora – que os nossos corpos já se conheciam tão bem quanto as nossas almas. Antes que as minhas convicções ultrapassadas o empurrasse para longe, você reavivou a velha mania de me roubar beijos ao me puxar pela nuca e me prender nos seus abraços. Você me calou com a sua boca uma vez mais. Engasguei. Perdi o fôlego. Depois, esfregando o meu nariz contra o seu e misturando a minha respiração com a sua, abaixei a cabeça e sorri em silêncio como da primeira vez (com você é tudo sempre como se fosse a primeira de todas as vezes que jamais cessam em se repetir).

Tudo o que reluz nessa Terra-De-Meu-Deus-Sem-Tamanho-E-Sem-Porquê sabe que não sou afeita à novas chances, mas com você danço o Samba da Volta. Porque – justifico a mim mesma enigmaticamente como a Bruta Flor de um querer – você é você e isso é ‘o começo e o fim de tudo’.

Paro e penso que, dos que vieram antes de você, eu já nem me recordo. E todos os que vieram depois foram somente isso: depois de você. De você, divisor das minhas visões de mundo em antes e pós-presença. Em você, suspensão de eras no espaço sideral que não me cabe enquanto a vida fingia passar e eu matava instantes imediatos buscando a sua pele em todos aqueles que eu não permitia que tocassem em mim o que eu fui para você: eles eram somente ruídos, enquanto você era a música inteira.

Obrigada por continuar me ensinando o valor da coragem de estar com quem nos enche de borboletas o estômago ulcerado e com quem muda tudo de lugar para reconstruir um tempo que nunca se perdeu.

Os anos nos devoram como goles sedentos por Milk Shakes na Avenida Paulista e finalmente entrego a verdade no meu sorriso mais bobo: eu realmente amo você de todas as formas que se pode amar alguém,

A.

'(...) You pierce my soul. I am half agony, half hope. (...) I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it eight years and a half ago. (...) I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. (...) For you alone I think and plan. - Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice, when they would be lost on others. (...) You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating in F.W..'
‘(…) You pierce my soul. I am half agony, half hope. (…) I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it eight years and a half ago. (…) I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. (…) For you alone I think and plan. – Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice, when they would be lost on others. (…) You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating in F.W..’ (AUSTEN, J. in ‘Persuasion’.).

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