Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Pride And Prejudice – Orgulho E Preconceito.

13 de março de 2016 por Camila em Entre Páginas

Continuando a minha seqüência de leitura da obra de Jane Austen, cheguei em ‘Pride And Prejudice’ (aqui no Brasil, ‘Orgulho E Preconceito’). Talvez seja este o romance mais conhecido da escritora inglesa e, sem dúvida, um dos mais amados de todos os tempos.

O livro já foi adaptado e transformado inúmeras vezes em filmes e minisséries, e serviu de inspiração para estórias mais modernas (como, por exemplo, ‘Bridget Jones’). Muitos se perguntam quais foram os ingredientes que, através da destreza das mãos de Austen, fizeram com que este clássico se tornasse insuperável e imbatível no imaginário das mulheres de todo o mundo e todas as gerações.

Pessoalmente, não é o meu favorito. Eu continuo gostando mais de ‘Sense And Sensibility’, mas entendo todas as razões que fazem de ‘Orgulho E Preconceito’ o preferido de muita gente: os diálogos rápidos, a espirituosidade de Lizzy Bennet, a ironia precisa e cortante de Mr. Bennet, a sensibilidade completamente doce e ingênua de Jane, o coração desgovernado de romantismo de Mr. Darcy e as reviravoltas e epifanias das tramas e personagens são, de fato, encantadoras.

Virei noites lendo e discutindo o livro no meu Book Club via WhatsApp. A reação de todas nós diante dos arroubos da paixão de Fitzwilliam Darcy é a mesma: corações derretidos, madrugadas de busca ansiosa para que tudo desse certo (de forma rápida, porque a alma já não aguentava tanto desencontro!) e uma e a oração fervorosa para que mais homens sejam assim (que pena que eles não leiam Jane Austen pra saber do quê que mulher gosta, viu?!). <3

Outra coisa que me fascinou no livro foi a força e a capacidade de raciocínio de Elizabeth Bennet. É claro que muitas vezes você simplesmente torce para que o final feliz chegue logo e que ela se entregue de uma vez sem pensar duas, mas o amor também há que maturar um pouco na lógica e na perspectiva das coisas, no apaixonar consciente e na confiança conquistada. Nem toda heroína agarra-se a alguém para ter salvo o seu mundo de imediato, algumas preferem ser mais honestas consigo e tentar entender o próprio coração antes de entregá-lo em bandeja de prata (mesmo que o pretendente seja tãããããão irresistível!).

Num mundo carente de homens gentis e cavalheiros, ficamos do lado de cá do livro gritando para Lizzy Bennet deixar de ser louca e pular logo no pescoço de Mr. Darcy com todos os sins que possa dizer na vida. Mas Elizabeth sabe quem é, o que quer e como quer: suas certezas não são descartáveis e ela não tem pressa por cara-metades quando já se sabe tão inteira e dona de si. A mocinha-indefesa-em-perigo-esperando-para-ser-salva não cabe aqui. Personificada em Elizabeth Bennet, a mocinha questiona e não permite que o que parece perfeito passe impune. Ela mostra que também tem valor apesar de todas as propensões contrárias e que decididamente há que se respeitar uma mulher, mesmo quando as palavras do amante tentam chegar aos ouvidos embebedadas da intenção única de amor. E que se Mr. Darcy quiser, vai ter que fazer melhor. #TeamLizzy #ElizabethBennetMeRepresenta

‘(…) He is the kind of man, indeed, to who I should never dare refuse anything, which he condescended to ask. I now give it to you, if you are resolved on having him. But let me advise you to think better of it. I know your disposition, Lizzy. I know that you could be neither happy nor respectable, unless you truly esteemed your husband; unless you looked up to him as a superior. Your lively talents would place you in the greatest danger in an unequal marriage. You could scarcely escape discredit and misery. My child, let me not have the grief of seeing you unable to respect your partner in life. You know not what you are about. (…) If this be the case, he deserves you. I could not have parted with you, my Lizzy, to anyone less worthy.’

Outro dia li em um Blog que todas as estórias de amor jamais escritas depois de ‘Orgulho E Preconceito’ se baseiam apenas nela e que todos os heróis são reencarnações modernas e pós-modernas de Mr. Darcy, porque ele é o amante ideal e o herói da vida de toda mulher. Fiquei pensando sobre isso e, embora seja inegável toda mudança que operou em seu próprio mundo para compreender os conceitos do que formam a personalidade do objeto de seu amor (e tentar abarcar-se a eles!), não sei se acredito tanto assim numa relação que faça você abrir mão do muito que você é e exija a presença de tantos ajustes, embora, na literatura, caiba tudo que justifique fazer de você alguém melhor para adequar-se ao amor-mais-que-perfeito pelo qual vale a pena lutar. Licença poética não tem nada a ver com realidade, né? 😉

É claro que todas nós queremos alguém que nos ajude a consertar aquilo que está quebrado em nossa vida sem que busque créditos por isso ou nos cobre posteriormente de forma vil como uma dívida. E é por isso que a gente suspira e sorri malemolentemente com grandes gestos heróicos do amor total, mas as pequenas coisas no dia a dia não são menos importantes. E é aí que eu me pergunto se, de repente, o amor da Emma com Mr. Knightley em ‘Emma’ não era muito mais real por ser menos passional e muito mais sólido, construído sem grandes gestos de arrebatamento idílico ou declarações prolixas, mas com muita conversa, críticas e crescimento mútuo ao longo de toda uma vida. Por causa desse tipo de conclusão e diálogos internos, cheguei neste artigo do Huffington Post e super recomendo a leitura.

O ponto é: sim, todas queremos um amor tão efusivo quando nos sabemos prontas para amar. Mas também merecemos um amor mais maduro que não nos coloque em pedestais e nos enxergue exatamente como somos (e somos infinitamente dignas de amor, mesmo com  os nossos inenarráveis e sem número de defeitos).

‘-How despicably have I acted!, she cried. -I who have prided myself on my discernment! I, who have valued myself on my abilities!, who have often disdained the generous candour of my sister, and gratified my vanity, in useless or blameable distrust. How humiliating is this discovery! Yet, how just a humiliation! Had I been in love, I could not have been more wretchedly blind. But vanity, not love, has been my folly. Pleased with the preference of one, and offended by the neglect of the other, on the very beginning of our acquaintance, I have courted prepossession and ignorance, and driven reason away, where either were concerned. Till this moment, I never knew myself.’

Jane Austen é constante em sua maestria no que se refere a criar personagens memoráveis pelos quais nutrimos uma enorme empatia, e com os quais dividimos angústias, circunstâncias e sentimentos. Talvez por isso eu tenha entrado nessa espiral insana de querer conversar com Lizzy Bennet (por achar que só ela me entenderia nisso ou naquilo outro. Ou seja, #TerapiaPraCamila, hahahahahaha). Na habilidade da escritora, também me perdi em situações, chorei por muitas outras e fiquei muito brava em algumas. Fiquei tensa, me apaixonei perdidamente, torci genuinamente para que o bem prevalecesse (como se estivesse observando a vida de amigos íntimos, hahahahaha!), postei um milhão de quotes e pensamentos no meu Facebook e no meu Instagram e ignorei solenemente o que eu precisava fazer no ‘mundo real’ apenas para me entregar à todas as sensações mágicas que só um livro muito bom pode nos dar. Também enlouqueci os meus amigos para que eles lessem esse livro de uma vez ao invés de se contentar em conhecer a estória apenas através de adaptações cinematográficas e televisivas.

Além da ajuda psiquiátrica que eu obviamente preciso depois da leitura de ‘Orgulho E Preconceito’, eu continuo insistindo que clássicos são clássicos por todos os motivos aqui presentes e que os fazem sobreviver aos anos caóticos que os sucederam e às mudanças contínuas de personalidade, prioridades, paixões e comportamento humanos.

Ler este livro foi uma delícia e eu acho que todo mundo deveria enfeitar a alma com finais felizes, com suspiros apaixonados, com a leveza que traz manter um coração puro (#TeamJaneBennet) e a crença de que ainda há algum Mr. Darcy por aí se a gente estiver preparada para recebê-lo (sim, com todos os seus orgulhos e preconceitos, mas também com todo o seu senso impenetrável de honra e a convicção de que caráter é o que devemos procurar em alguém com quem decidimos compartilhar a vida). A literatura, minha gente, ainda há de nos livrar desse cinismo que nos assola. <3

– Minha resenha no GoodReadshttps://www.goodreads.com/review/show/1458806409

– Interessou? Tem aqui: http://www.livrariacultura.com.br/p/pride-and-prejudice-45660

Do melhor tipo de domingo: o aconchegante. <3
Do melhor tipo de domingo: o aconchegante. <3

 

Bem assim, diz Mr. Darcy, me matando enquanto me faz sonhar e desnudando toda a minha carne e desfaçatez: '-In vain have I struggled. It will not do. My feelings will not be repressed. You must allow me to tell you how ardently I admire and love you.' Agora me digam, como é possível viver normalmente depois de ler um negócio desses? Jane Austen acaba comigo com esse tipo de gracinha. Literatura é coisa séria, irmão. Estou aqui com chuvinha nos olhos, engasgada com a sopa, um nó enorme no coração, as mãos amolecidas segurando o livro e xingando mentalmente até a quinquagésima geração da escritora.
Bem assim, diz Mr. Darcy, me matando enquanto me faz sonhar e desnudando toda a minha carne e desfaçatez: ‘-In vain have I struggled. It will not do. My feelings will not be repressed. You must allow me to tell you how ardently I admire and love you.’ Agora me digam, como é possível viver normalmente depois de ler um negócio desses? Jane Austen acaba comigo com esse tipo de gracinha. Literatura é coisa séria, irmão. Estou aqui com chuvinha nos olhos, engasgada com a sopa, um nó enorme no coração, as mãos amolecidas segurando o livro e xingando mentalmente até a quinquagésima geração da escritora.

 

Vamos lá concordar com Mr. Darcy de manhã bem cedo enquanto queimo a boca com café? Diz ele bem assim: 'Yes, vanity is a weakness indeed. But pride - where there is a real superiority of mind, pride will be always under good regulation.'
Vamos lá concordar com Mr. Darcy de manhã bem cedo enquanto queimo a boca com café? Diz ele desse jeitinho: ‘Yes, vanity is a weakness indeed. But pride – where there is a real superiority of mind, pride will be always under good regulation.’

 

Só tem olheira quem se apaixona por personagem fictício e decide que ficar lendo até às 7h15 da manhã é mais importante do que estar mentalmente presente em qualquer atividade que tenha que performar em dia útil. Se antes a minha síndrome era de Scarlett O'Hara, ela agora é oficialmente de Elizabeth Bennet. Meu Deus, era só o que me faltava. Jane Austen, você me paga. <3
Só tem olheira quem se apaixona por personagem fictício e decide que ficar lendo até às 7h15 da manhã é mais importante do que estar mentalmente presente em qualquer atividade que tenha que performar em dia útil. Se antes a minha síndrome era de Scarlett O’Hara, ela agora é oficialmente de Elizabeth Bennet. Meu Deus, era só o que me faltava. Jane Austen, você me paga. <3

 

…Enquanto isso, no WhatsApp. Não, nós não somos normais. ;)
…Enquanto isso, no WhatsApp. Não, nós não somos normais. ;)

 

Quem quer morrer lentamente com Jane Austen? Então vem bem bonitinho com a Tia Camila, bem assim: '(...) And parted in silence; on each side dissatisfied, though not to an equal degree, for in Darcy's breast there was a tolerable powerful feeling towards her, which soon procured her pardon, and directed all his anger against another.' É, amigo. Amor é pior que hormônio que é pior que vodka. Miss Austen já sabia, e por isso ela nos deu Mr. Darcy.
Quem quer morrer lentamente com Jane Austen? Então vem bem bonitinho com a Tia Camila, bem assim: ‘(…) And parted in silence; on each side dissatisfied, though not to an equal degree, for in Darcy’s breast there was a tolerable powerful feeling towards her, which soon procured her pardon, and directed all his anger against another.’ É, amigo: amor é pior que hormônio que é pior que vodka. Miss Austen já sabia, e por isso ela nos deu Mr. Darcy.

 

Aí está, mais uma vez, outra noite em claro e o meu coração todinho descrito em tinta negra, palavras estrangeiras, papel barato, rabiscos de grafite e post-its coloridos pra reler e relembrar muitas vezes aquilo que mais importa e que não se esquece.
Aí está, mais uma vez, outra noite em claro e o meu coração todinho descrito em tinta negra, palavras estrangeiras, papel barato, rabiscos de grafite e post-its coloridos pra reler e relembrar muitas vezes aquilo que mais importa e que não se esquece.

 

A ansiedade pelo final feliz me consumiu noites. A minha alma já não podia mais com desencontros.
A ansiedade pelo final feliz me consumiu noites. A minha alma já não podia mais com desencontros.

 

 


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