Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Contos de Verão XIII: A morada.

10 de abril de 2016 por Camila em Eu Conto!

‘You’ve got to give a little, take a little and let your poor heart break a little: that’s the story of, that’s the glory of love. (…) As long as there’s the two of us, we’ve got the world and all its charms. And when the world is through with us, we’ve got each other’s arms.’

(HILL, B.)

Cinco. Cinco foi o número total de pessoas que me perguntaram de (e sobre!) você nesse fim de semana. Nas minhas contas – e tendo em vista que já não estamos juntos há anos -, bastante gente. Se elas soubessem o efeito que o som do seu nome causa em mim, não teriam ousado sequer balbuciar. Nem tampouco ecoariam suas convicções a nosso respeito: que lindo casal fazíamos, o quão era evidente a sua felicidade ao meu lado, a paz e a tranqüilidade que passaram a fazer parte de você depois de mim, maldades diversas sobre a sua atual situação, o estado de bem que viam você quando estava comigo e, por fim, o quanto soava óbvio a todos que nós nos completávamos.

Pois é. Eu tive que ouvir tudo isso enquanto batia vodka com melancolia e frutas tropicais e entornava a dose em goles sedentos e cavalares. Só parava com a gula alcóolica para amarelar o sorriso, fingir satisfação, disfarçar a nostalgia e responder sem graça: -É, nós não estamos mais juntos. Terminamos há algum tempo já. As pessoas não escondiam o choque e, virando a cabeça de lado, tocavam o meu ombro desnudo e sardento. Eu me enchia de espíritos e replicava: -Está tudo bem, nós dois estamos bem. Tentei dançar para sentir menos saudade e, ao fechar os olhos na busca de um transe musical, via apenas o seu rosto fazendo as expressões mais bobas, taradas, bravas e ciumentas da história enquanto o meu vestido subia acima dos joelhos e a minha cintura girava. Sua língua roçando os seus lábios, você me puxando pelas mãos e dizendo: -Meu Amor, já chega de dança. E de vodka também. Vamos pra casa ver filme e ficar de conchinha? Eu ria da sua cara e respondia que você não era bom em ocultar o seu ‘zelo’. Negava com os dedos, fazia bico e cantarolava que ia dançar até a minha franja grudar na testa e a minha nuca molhasse de suor. Num gesto já automatizado dado o número de repetições que isso acontecia por noite, você suspirava em tom audível, erguia os braços pro ar e se resignava com um mau humor já confortável. Mas você era resiliente porque sabia ser o dono do monopólio da minha felicidade incontestável naqueles dias azuis.

A fantasia persistiu intermitente até o caminhar para casa. Estava intoxicada de você, uma vez mais, e tão longe do alcance das suas mãos. Sonhei com a sua figura durante o percurso sádico de uma noite inteira: você comigo, você sem mim, nós juntos, nós sem nós, a continuidade da sua vida, o seguimento da minha, as possibilidades infinitas de um futuro que não houve e o quão pouco sentido faz essa separação forjada num desejo contínuo de mudança. A minha carne ainda arde, reconheço baixinho. Acordava todo o tempo, e, depois de beber água apressadamente na contenção infantil dos prejuízos de uma ressaca iminente, sempre voltava ao mesmo sonho. Você estava lá (e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo!) me deixando sem fôlego e sem opção. Eu só queria a bênção de uma pausa nesses delírios oníricos, mas até a sua voz era palpável e acordei buscando você numa cama que não era exatamente a minha.

O despertar trouxe consigo uma vontade enorme de pegar o telefone, dizer todos os meus sins, me perder no seu corpo e correr para os seus braços que me protegem e me curam. Dizer que vai dar tudo certo, dessa vez. Que eu vou tentar de novo porque acho que esse encontro vale a pena. Que eu vou ceder ao seu charme de domingo como quem adia a dieta para a segunda-feira. Que agora não farei ouvidos moucos aos seus apelos insistentes. Que nós vamos casar, ter filhos e cachorros e morar na praia. Que eu vou fazer Brigadeiro pra você às 2h da manhã se você fizer pipoca pra mim no mesmo horário. Que os meus olhos serão novamente os seus guias. Que as minhas vontades hão de ser, mais uma vez, as suas alegrias. Que as nossas gargalhadas uníssonas serão músicas para quem sabe ouvir melodia desafinada. Que eu não vou mais respirar a tormenta da dúvida. Que eu vou repousar – serena – no seu peito e no lar que você construiu para nós.

Com qual das batidas do seu coração você me faz entender melhor a vida?

Você é a minha morada.

'Y cuando te busco no hay sitio en donde no estés.' <3
‘Y cuando te busco no hay sitio en donde no estés.’ <3

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