Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Rascunhos de Outono IX: Sobre nós.

23 de abril de 2016 por Camila em Eu Conto!

‘(…) No, no, no, no! Come, let’s away to prison, we two alone will sing like birds i’ the cage: when thou dost ask me blessing, I’ll kneel down, and ask of thee forgiveness. So we’ll live, and pray, and sing, and tell old tales, and laugh at gilded butterflies, and hear poor rogues talk of court news; and we’ll talk with them too, who loses and who wins; who’s in, who’s out. And take upon’s the mystery of things, as if we were God’s spies: and we’ll wear out in a walled prison packs and sects of great ones that ebb and flow by the moon.’

(SHAKESPEARE, W. In ‘King Lear’: Act V, Scene 3.).

Na noite fria, me sento estrategicamente no banco de mármore branco justo abaixo da enorme figueira no meu jardim. Olho ao redor enquanto seguro uma caneca de chá: o vento faz bagunça, derruba e espalha folhas venenosas pelo chão. Sinto o suspiro da solidão cochichar aos meu ouvidos. Ignoro. Rememoro. E, de repente, tudo é verão outra vez.

O tempo passa por mim. Corre macio, eu nem noto. Se faz gentil: estamos juntos na cidade de leis próprias e pessoas que flanam entre a mediocridade e a magia. Lembro dos nossos pés na areia, da aflição nos meus dedinhos, dos seus beijos apressados cheios de presenças e urgências, do seu espírito oprimindo o meu que fugia para saltar mais alto, da tormenta do mar que é nosso horizonte inteiro, de tudo que você queria e eu neguei e de tudo que eu quis e você não soube como dar.

Desencontros. Perdidos em nós, cegos. A busca sigilosa por atalhos ou por caminhos na lama do fim. As estações mudam, as pessoas mudam. Você acha que eu estou suspensa num espaço inatingível aonde tudo permanece intacto. Digo que não. Agora tenho menos medo, sou mais eu. Endureci. Cresci. Percebo a ironia da vida e a crueldade do mundo. Mas o meu sorriso mole, inocente, torto e fácil me entrega: ainda tateio na cama enorme à procura dos seus braços que são – ainda, sei bem disso – meus também.

Na guerra fastidiosa entre a lonjura e o querer bem, vence o sentimento que rompe as barreiras (intransponíveis, dizem eles!) do silêncio. Entre o lugar que já conheço e me sei confortável e o desconhecido do mundo, me arrisco nas possibilidades fantásticas e impensáveis. O seu relógio é lento e resiliente: me espera nas entrelinhas dos dias e das coisas que existem com a inefável preguiça do ser.

Eles, ignorantes, me perguntam se não tenho medo de perdê-lo para sempre. Respondo que não se pode perder o que não se pode ter: gente é pássaro, pássaro voa pra tocar o azul, o azul é a alma e da alma não se demanda posse. Alma é etérea, tergiverso. Nesse Materialismo Dialético enigmático e impossível do nada ter e tudo me consumir, lembro de Caê cantando que ‘gente é pra brilhar’. E eu cantarolo depois dele a plenos pulmões, desafinada como me é de direito e de dever.

O que me chega em ruídos é o lamento de ver que quem era mágico escolhendo ser comum. Os meus olhos, encantados pelo extraordinário das coisas que sempre foram, eram desenhos de feitiços pelas linhas inexatas do seu corpo e pelo timbre da sua voz sempre grave ou agravada pela falta de esmero de algo e alguém qualquer com coisa alguma. Eu era borboleta pairando pertinho do seu nariz e soprando inadvertidamente algum tipo de leveza no bater das asas quase fatigadas. Hoje você é, me dizem por outros meios, a rotina lenta e absurda das conversas soberbas e conformadas, superficiais e ordinárias, vazias de conteúdo e cheias de vaidade, escassas de gente de verdade e repletas do fosco de quem o cerca.

Fico me perguntando o que fizeram os dias – aliado a ausência de nós – da sua figura. Sinto pena e alguma saudade da imagem que um dia guardei, mas fecho os olhos e aceito o fluir das mudanças como elas são. A existência vã e breve foi somada ao externo empobrecido das coisas (confirmando o que Sartre já sabia!) e precedeu a essência furta-cor que eu percebi, num dia qualquer e já longínquo, em você.

Encontro consolo em não querer querer: quero somente, pondero, ir além de tudo que promete ser amarra e exaustão.

Eu continuo febril, veja você, mesmo quando o cinismo quer me vencer pelo cansaço desse eterno querer.

'Está certo dizer que estrelas estão no olhar de alguém que o amor te elegeu pra amar. (…) Gente viva, brilhando estrelas na noite. Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz. Não, meu Nêgo, não traia nunca essa força, não: essa força que mora em seu coração. (…) No coração da mata gente quer prosseguir: quer durar, quer crescer, quer luzir. (…) Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor: se as estrelas são tantas, só mesmo o amor. (…) Gente espelho da vida, doce mistério.' (VELOSO, C.)
‘Está certo dizer que estrelas estão no olhar de alguém que o amor te elegeu pra amar. (…) Gente viva, brilhando estrelas na noite. Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz. Não, meu Nêgo, não traia nunca essa força, não: essa força que mora em seu coração. (…) No coração da mata gente quer prosseguir: quer durar, quer crescer, quer luzir. (…) Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor: se as estrelas são tantas, só mesmo o amor. (…) Gente espelho da vida, doce mistério.’ (VELOSO, C.)

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