Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Rascunhos de Outono IX: Xícara de café.

2 de maio de 2016 por Camila

‘She was almost in love with him. No, that’s impossible, she thought: either you are or you aren’t. Love’s the only thing in this world that is unequivocal. There are different kinds of love, certainly, but it’s a you-do or you-don’t proposition with them all. She was a person who, when confronted with an easy way out, always took the hard way. (…) There would be searching of hearts, fevers and frets, long looks at each other on the post office steps, and misery for everybody. (…) She set about restoring peace with honor.’

(LEE, H. In ‘Go Set A Watchman’.). 

Nós sempre dividíamos uma xícara de café depois do jantar. Assim, você deliberava, nenhum de nós perderia o sono por excesso de cafeína. Desde então, jamais consegui tomar mais do que a minha metade devida. Continuo acordada, mas a culpa não é do café. Talvez seja sua e da (re) impressão dos nossos velhos hábitos na minha vida.

Tenho pensado em como eram as coisas antes de você. Com alguma dificuldade, admito baixinho (ou berrando aos quatro cantos, depende do meu humor!) que tudo era seguramente mais leve e menos complicado. E tenho me sentido infinitamente melhor por saber que nem sempre andei em cacos, a passos Niilistas, espírito amedrontado, carne embrutecida ou como que quebrada displicentemente ao meio.

Mas ando. Ando até a padaria e faço festa com os carboidratos. Ando até a academia e descarrego a culpa. Ando pelas esquinas e ainda espero o meu sorriso. Ando até o empório e descubro que vinho faz milagres. Ando até a livraria e encontro os melhores e mais inteligentes amigos para me acompanhar nas horas lentas dos dias e no silêncio que é ruído na noite. Ando pelas ruas e só encontro a solidão. Ando em outros corpos e sinto o gosto do arrependimento misturado à saliva nos meus lábios. E ando encontrando soluções pros problemas que eu nem sabia que tinha.

Voltei a ouvir as bandas que você amava dizer que detestava mas que nunca tinha sequer ouvido. Agora enxergo também o azul do céu, o doce da rotina longe do caos existencial do outro, o belo que há no desconhecer, a liberdade que há em respirar, o caminhar isento da fragilidade das cascas de ovos, a coragem de deixar alguém entrar, a tranquilidade de saber que a mentira jamais se sobressairá à verdade, a possibilidade ampla de decidir sozinha sobre o meu destino, o prazer de ir desacompanhada ao cinema, a criação de novos laços nos minutos em que estou viva, o desassossego que me move além da minha zona de conforto, o descobrir de sutilezas e a paz que abafa gritos inertes e suspensos no ar.

Retorno a mim, pacata: ao meu ser que se mistura em tudo que toca, que compra girassóis, que pisa em nuvens, que engole o mundo, que tem preguiça da maldade, que se perde na imensidão da cidade, que abraça com o que pode, que lê nas entrelinhas, que acredita no impossível, que gosta da nostalgia do tempo, que se dedica ao observar das coisas, que toma banho de chuva e que se faz abrigo no regozijo que só a simplicidade traz.

Quando passa o pesar e a saudade vira ponto pacífico, concluo que foi um existir, esse nosso, talvez indevido ou injusto. Eu não tenho a forma da mulher perfeita pra você ou você a personalidade do homem que me faria feliz. Mas existimos, dentre e sobre todas as coisas, existimos. E cessamos. O fim não foi sereno, e nem poderia: afinal, não foi de um jeito fácil que você entrou na minha vida ou que permaneceu nela por quase uma década. Fiz, tenho certeza, a escolha mais acertada, mas por certa constância dolorida. E como latejava, Deus do Céu!, como latejava.

Você me pede notícias nesse ecoar de silêncios, sinais de fumaça, algum mínimo de contato, palavras ao vento ou coisa qualquer. Eu respondo hoje sem o cinismo que por algum tempo fez morada entre nós:

-Vou bem, obrigada.

De você, não levo ou trago mais nada. Nem lembrança e nem futuro. Nem mágoa e nem perdão. Nem entendimento e nem confusão. Nem amizade e nem indiferença.

Eu? Somente sou.

Você? Apenas era.

'(...) On any other day she would have stood barefoot on the wet grass listening to the mockingbirds' early service; she would have pondered over the meaninglessness of silent, austere beauty renewing itself with every sunrise and going ungazed at by half the world. She would have walked beneath yellow-ringed pines rising to a brilliant eastern sky, and her senses would have succumbed to the joy of the morning. It was waiting to receive her, but she neither looked nor listened. She had two minutes of peace before yesterday returned: nothing can kill the pleasure of one's first cigarette on a new morning. Jean Louise blew smoke carefully into the still air.' (LEE, H. In 'Go Set A Watchman'.).
‘(…) On any other day she would have stood barefoot on the wet grass listening to the mockingbirds’ early service; she would have pondered over the meaninglessness of silent, austere beauty renewing itself with every sunrise and going ungazed at by half the world. She would have walked beneath yellow-ringed pines rising to a brilliant eastern sky, and her senses would have succumbed to the joy of the morning. It was waiting to receive her, but she neither looked nor listened. She had two minutes of peace before yesterday returned: nothing can kill the pleasure of one’s first cigarette on a new morning. Jean Louise blew smoke carefully into the still air.’ (LEE, H. In ‘Go Set A Watchman’.).

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