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Uma carta que pede perdão.

29 de novembro de 2017 por Camila

São Paulo, 05 de Maio de 1977.

‘(…) O meu corpo quer extensão, quer movimento, quer ziguezagues. (…) Na nebulosa da infância, a sensitiva já procurava bondade e beleza. Mas a bondade e a beleza são conceitos do homem. E a menina não encontrava a verdade e a beleza por onde procurava. Talvez porque já caminhasse fora dos conceitos humanos. Toda a vida eu quis dar. Dar até a anulação.’

(GALVÃO, P.)

T., dearest;

Sim, São Paulo. Ainda. Não sei porquê. Mas não duvido da fé. 1h45 da manhã de segunda-feira. Sem drama e, graças a Deus, sem dor. Pequenos surtos em silêncio. Solidão. Na ficção, tudo vai bem. Na vida real, acho, parece, todo mundo entediado, um bode só.

Nem sabes como os barulhos da cidade andam me irritando. É a hélice do meu ventilador conjugada aos latidos do cachorro louco que não me deixa dormir. E as buzinas, Deus do Céu!, as buzinas que não param, tão apressadas, carros cruzando à velocidade da luz. Para onde essas pessoas querem tanto ir? Que ânsia de vida e de tempo é essa?

Tergiverso. Pondero. Preciso chegar ao ponto da máxima honestidade: Mentira. Não é o mundo. Tu não me deixas dormir. A tua pele morta ainda retida à minha que pretende-se viva e lateja. Tuas lembranças emergentes, efervescentes e insubordinadas à minha vontade. A vista da tua caminhada em passos tímidos rumo ao avião da despedida me inquieta. Mais, me con-so-me. E ardo. Ateio-me fogo pela impossibilidade de uma Brasília em um passado que, de tão perfeito, é presente. Uma Brasília de nunca mais. Uma personagem da improbabilidade de um novo tempo. De um tempo de ontem, mas, novo. Um querer leve, porém, absurdo. Daí faço planos incoerentes de voltar. Vislumbro uma Asa Norte desregrada que não existe mais. E me recolho em resignação. Atino que é justamente essa nostalgia a única coisa fixa no meu universo de impermanências. 

Não obedeci ao Drummond. Não sosseguei o amor. Sou saudade. Sou estilhaços que cortam os pés de quem, descuidado, pisa. Sou fragmentos. Sou arestas congênitas inaparáveis. Sou a tua ausência na minha carne. Ando tão sensível, tão à flor, tão à tez. Tão ao toque. Por onde andas? Diz-me de ti, darling. Estás respirando? Sobreviveste à falta? Devoraste as cidades?

Levanto da cama em plenas ansiedades. Sabe-se quem do quê. Me pergunto até quando há de aguentar meu coração o não-sentir das coisas totais enquanto que suporta, conformista, os sentires um bocado vazios da rotina. Cínico, talvez. Faço um café, suspiro. Me ocupo de reorganizar a estante de livros, escrever cartas e diários, imaginar diálogos, conter o caos, preparar aulas, meditar a vida, conversar quietinha com Deus. Cadê aqueles horizontes? Ninguém responde o que ecôo.

Ainda lembro, vês, lembro sempre, daquele dia em que nos encontramos. Tão jovens, tão entregues. Saías da UnB em um andar incerto. De longe, ri. Imaginei que rumo tomarias no infinito dos corredores à tua frente. Derrubaste teus cadernos pelo chão e, sem graça, limpaste as lentes embaçadas dos teus óculos e sorriste. Disseste teu nome. Que sonoro soou, Thomás, doce. No que disse que era eu a Marcela naquela imensidão de rostos cansados a nossa volta. Muitos cafés e salas de cinema empoeiradas depois, um amor maior do que eu merecia. Tu, Thomás, ainda és. Sejas sempre.

Peço perdão por não te ter amado de repente; por não ter sufocado, por não ter perdido as rédeas nem as estribeiras da minha própria vida para viver a tua por ti. Perdoa-me por te ter amado apenas de maneira lenta e gradual, que assimila e sorve aos poucos, pensando durar vastidões impossíveis. Nessas noites, que chegam sorrateiras, penso que deveria ter ido contigo ao invés de ter ficado comigo mesma nos meus mil emaranhados de mim. Não importava muito o destino, somente a chegada.

Ias a Londres, não vais? Ou vais a Londres, não ias? Pois bem, conta-me. Compartilha da tua leveza que por aqui me doem as costas do peso do intangível e dos abismos que separam as minhas volições das minhas possibilidades. Não há porque escrever sobre isso, Sylvia Plath já o fez muito melhor do que eu jamais poderei fazê-lo. E já conheces bem essas distâncias adjacentes de quereres. Tuas gavetas vazias ainda suspendem o ar dos meus pulmões cada vez que abro nossos armários.

Que quero além de salvação? Que esperança é essa, pergunto, em oração, que não desiste? Ao contrário, que segue, incólume, opondo-se às realidades de uma São Paulo ácida e crua? Do que sou feita? De teimosia? Os quereres são brutos, Thomás. E não se concretizam, sabes. Me nego a enxergar o tamanho da frustração e pareço rasa aos meus próprios olhos. Me protejo. Me faço invisível. E grito calada. Não sou percebida. Me sinto esmagada.

Ainda assim, vês que paradoxo, tinha renegado ao olvido o quanto essa cidade pode ser inspiradora, apesar de me enlouquecer quase sempre. Me explico: Bairro da Aclimação, sábado vespertino, estou num prédio dos anos 1940 com um quê de Art Déco e absorta com a obra escrita de Pagu. Olho ao meu redor e acho que a coisa toda é uma outra forma de se dizer – bem baixinho, em sílabas e sorrindo – ‘pri-vi-lé-gio’. E deixo o sol entrar pelos vitrais, pelas frestas, por onde dá. Que é vida. Que é luz. Que ainda há poesia. Que há de haver mais em nós. Mando em anexo uma fotografia para que vislumbres a cena e me compreendas.

Reparaste? Não é bonito?

Pois então, deixa que entre a luz do sublime do mundo.

Daqui te beijo e te desejo um bem infalível para que acredites sempre mais em amanhãs. Deseja-me, então, uma paz enorme que viro, assim, remanso;

M.

Tardes de Agosto, fábrica de sóis, olhos de caleidoscópio, filtro de luz e você aqui dentro, inteiro.
Tardes de Maio, fábrica de sóis, olhos de caleidoscópio, filtro de luz e você aqui dentro, inteiro.


Ao afeto.

24 de novembro de 2017 por Camila

São Paulo, 12 de Novembro de 1987.

‘(…) De repente ela estava bonita demais com aquele vestido vermelho a gente estava bonito junto e foi indo fácil e leve. (…) Leva tempo? Leva tempo. Problema é que o esquema de Sampa me vampiriza, não me deixa produzir como gostaria. Por isso é que tou aqui, né? Mas fico dividido: já ando com saudade grande daí, dos lugares, das pessoas, dos feelings, dos moods.’

(ABREU, Caio F.)

L., mon chéri;

São Paulo exalando cheiro de Dama da Noite pelas ruas do Brooklin – por onde perambulo trôpega e bêbada – só me faz sentir uma falta imensa de Brasília. Chamam isso de saudade, parece. Deve ser. Essa nostalgia dilacerante. Esse ‘querer mais’ impossibilitado por mil entraves mas que, bravo, sobrevive. Amar é um tipo de resistência, não é?

Um resistir corajoso a esses anos que nos separam mas que não nos permitiram esquecer. Quando tudo me exaure, encontro exílio em você e nas nossas memórias. Umas lembranças que descansam meu corpo cansado no seu sempre manso, sempre quente, sempre acolhimento, sempre sorriso, sempre sonho. Sua mão como que deixada por acaso sobre a minha barriga, os meus lábios repousando no seu pescoço e o cheiro da sua pele que é bálsamo para as feridas da minha alma.

Sei que por aí tudo segue um curso inexorável nas curvas de linhas retas e concreto suspenso. Tudo aquarelado, tudo abstrato em pinceladas incalculáveis no azul infalível do céu: Me vejo em ti. Te quero aqui. Me quero aí. Te quero em mim. Pode? Pode. A negação é a covardia de quem não sabe quase nada do amor e de quem não ousa perder-se no outro para conhecer a si mesmo.

Lembro do seu primeiro olhar para mim e só por isso me sinto irremediavelmente feliz. Eu andava  tão distraída e protegida pelo acaso da desordem das coisas, de vestido vermelho esvoaçante, e não tomei para mim as suas palavras enunciadas numa voz tão baixinha que parecia não querer existir. Mas queria. E existiu, depois, tão alta que ecoa nos meus cantos e nos meus hojes. Nos ontens, entretanto, ainda sinto todos os minutos de um querer bem que era irrevogável e dono de uma urgência sem desespero. Em toda Quarta-Feira uma flor, um bilhete, uma canção, a calmaria de despertar ao seu lado e um beijo irresponsável para me dizer que eu não tivesse pressa, que tudo estava bem e que a vida seguiria sem sobressaltos.

E seguiu, enquanto estive com você. Por aqui, já não digo. Às vezes me sinto esmagada pela horas ferozes e aceleradas dessa cidade, sabe? Não vejo o céu nem o pôr-do-sol horizontal e alaranjado da beira do Paranoá. Vejo somente muitas esquinas e pessoas que não coexistem, apenas caminham por universos inteiramente paralelos ao meu. O jeito de manter-me sã, penso, é inspirar esperança e entusiasmo pelas pequeninas coisas, mesmo quando me falta o ar nos pulmões. Sobreviver é necessário; mas viver é luxo, Meu Muito Querido. No que me pergunto: -Onde anda você com seus buquês de trevos e tortas de maçã para me alegrar? Você é o meu afeto mais bonito.

Quê mais? Conto: dia cinza, muita chuva e um frio que fez da solidão substantivo palpável. Me tranquei no apartamento, vesti roupas velhas e largas, o cabelo prendi num coque mais frouxo que as minhas certezas, os óculos embaçados, tomei litros de café, fumei muitos cigarros (sim, tudo hiperbólico e desmedido, exagerado e desproporcional: mandei a justa medida de Aristóteles às favas!), li Foucault, repensei a existência vã de muitas coisas e escrevi onze páginas no meu diário. Acredita? Sim, diário; aquele mesmo de capa rubra que você conhece e que escrevo de modo intermitente há anos. Pois bem, diz o filósofo que as escritas de si nos tornam mais racionais porque, através de reflexões, meditações e do digerir a leitura do outro, acalmamos as agitações do cérebro e da alma causadas pelas dispersões e ansiedades do futuro. Que regressar ao passado nos torna mais sábios. Será? Tento. Nunca fui dada ao estoicismo, mas, quem sabe? Vamos.

Por falar em muitos pretéritos, aliás, preciso confessar: me sinto inapelavelmente sua dans le tourbillon de ma vie, e mais ainda quando tropeço nos dias em que estivemos juntos. Tu me manques beaucoup, tu sais. Sabem até os que me vêem fazendo as mais ordinárias coisas a qualquer hora: esperando o pão de manhã cedinho, cantando no carro enquanto estou presa no trânsito, passando batom para disfarçar o vazio que agora fez morada na minha íris, conversando as conversas sem graça no elevador do trabalho, digitando entediada na máquina de escrever da redação claustrofóbica do jornal uma notícia qualquer que informe a piora no mundo, esperando os passos lentos do carteiro que me trazem suas respostas prolixas e românticas (não há amor maior que reconhecer a sua caligrafia no envelope pardo e amassado, mon cœur!), na impaciência da fila do supermercado e do banco no meio da tarde, nas matinês do Cine Belas Artes e nas noites de calçadas sujas da Avenida Paulista enquanto ando apressada fugindo de monstros comuns. O tempo passa, passa, e as coisas ficam; um permanecer intransitivo das escolhas que eu já nem lembro de ter feito.

Te beijo da cabeça aos pés e prestando especial atenção no seu piscar de olhos que me arrancam de mim e me levam até você numa saudade maior do que posso suportar,

M.

P.S.: Caso não tenha ficado tão claro quanto o brilho de todas as Estrelas do Oeste, je t’aime toujours.

Na bagunça da casa, o meu constante elogio ao afeto.
Na bagunça da casa, o meu constante elogio ao afeto.

 


Romance Epistolar.

19 de novembro de 2017 por Camila

Brasília, 01 de Julho de 2018.

‘O que tem de ser, tem muita força. Ninguém precisa se assustar com a distância, os afastamentos que acontecem. Tudo volta! E voltam mais bonitas, mais maduras, voltam quando tem de voltar, voltam quando é pra ser. Acontece que entre o ainda-não-é-hora e nossa-hora-chegou, muita gente se perde. Não se perca, viu?’

(ABREU, Caio F.)

F., muito Querido;

Há dez anos passados chegaste na minha vida com uma tarefa tanto óbvia quanto insalubre: ensinar-me que o amor não precisa doer, que pode, à própria maneira, ser eco de gargalhadas contínuas e de um companheirismo que se reconhece no pouco alarde e no misterioso do silêncio.

A vida aconteceu, girou bem forte, rodopiou, bagunçou tudo e tratou de ser generosa conosco. Eu descobri o cheiro de Paris em pleno inverno e tu percorreste os múltiplos dos teus caminhos sem atalhos. Vivemos em mundos paralelos, amamos outras tantas histórias e encontros e, com máximo respeito à dimensão de todas elas, não erro em dizer que em todo esse compreender de tempo és tu, tem sido tu, e nunca deixaste de ser o homem que melhor soube me amar e a quem amei do melhor jeito, um cheio de leveza e sutileza na entrega.

De tal modo é o desenho abstrato do imprevisto nas danças do destino, que paro e penso na sorte do regresso e na coragem da nova chance que obriga, necessariamente, um alterar de rotinas. Do meu retorno à horizontes, planaltos, lagos, asas e alvoradas, das nossas convergências e completudes, das tuas cheganças balançando a chave de casa enquanto eu finjo dormir ansiosa na tua espera quando sobes apressado a escada para nosso quarto. No teu deitar ao meu lado, me puxas pra pertinho de ti e me dizes baixinho que nunca – nunca mesmo! – mais me vá embora. Que agora, no ímpar desse momento já conhecido, está estampada a felicidade singular da volta.

Vejo o manso do nosso presente e não me preocupo com o futuro. Está guardado, é possível, é real, é palpável e é reconhecível em tudo que queremos. Mas penso, com muita doçura e indisfarçável sorriso, nos nossos dias de ontens passada uma década de lonjuras: tu enxugavas as minhas lágrimas com as mangas do teu agasalho e me foste sempre abrigo, mesmo quando já não éramos mais um par e era por outro que eu chorava. Me levavas para a faculdade na secura das manhãs que me falhavam as forças e era eu o desamor tanto quanto me desarmavas e me fazias sorrir para além dos ânimos das minhas vontades nas noites úmidas. Eras meu consolo tantas vezes ao respeitar minhas más escolhas e nunca quebraste a tua promessa de não me perguntar o porquê das coisas que fugiam ao simples. Sabias entender meu segredo de erros viciados e talvez enxergaste antes de mim e esperaste sereno pela hora certa da pessoa certa. Ainda lembro bem todas as vezes nas quais fugi para o teu colo na tentativa de calar a polifonia esquizofrênica do mundo. Nunca mais nos beijamos depois das horas incertas do fim, mas sempre traçavas mapas com as pontas dos teus dedos nas palmas frias das minhas mãos, me contavas dos lugares para onde iríamos, esquentavas o meu nariz arrebitado de moça atrevida na tua barba, me acalmavas e me dizias que as coisas ficariam bem. Agora, finalmente, ficaram. Ao teu lado, para sempre, como não poderia deixar de ser.

Pelo capricho de quem nos rege e pela adorável entropia onipresente do universo: Tu e eu. Conjugados. E celebrando os nossos acertos.

Obrigada pelo teu amor. 

Sempre soubeste da grandeza que é viver na simplicidade de pão-de-queijo com filme em branco e preto ao cair da tarde enquanto nos amontoamos disformes no sofá.

Te quero bem todos os dias e me sei feliz pelo sublime da tua presença ao meu lado,

M.

‘¿Se pueden inventar verbos? Quiero decirte uno: yo te cielo, así mis alas se extienden enormes para amarte sin medida’. (KAHLO, F.).
‘¿Se pueden inventar verbos? Quiero decirte uno: yo te cielo, así mis alas se extienden enormes para amarte sin medida’. (KAHLO, F.).