Aqui, um pouquinho das palavras dos outros por onde passeio e me encanto. Muitos dos livros mais importantes da minha vida não estarão aqui presentes, porque esse é um projeto de novos. O que será encontrado neste lugar? Hojes. Toda sugestão é bem-vinda: É preciso um constante repasse das coisas belas.


Romance Epistolar.

19 de novembro de 2017 por Camila em Eu Conto!

Brasília, 01 de Julho de 2018.

‘O que tem de ser, tem muita força. Ninguém precisa se assustar com a distância, os afastamentos que acontecem. Tudo volta! E voltam mais bonitas, mais maduras, voltam quando tem de voltar, voltam quando é pra ser. Acontece que entre o ainda-não-é-hora e nossa-hora-chegou, muita gente se perde. Não se perca, viu?’

(ABREU, Caio F.)

F., muito Querido;

Há dez anos passados chegaste na minha vida com uma tarefa tanto óbvia quanto insalubre: ensinar-me que o amor não precisa doer, que pode, à própria maneira, ser eco de gargalhadas contínuas e de um companheirismo que se reconhece no pouco alarde e no misterioso do silêncio.

A vida aconteceu, girou bem forte, rodopiou, bagunçou tudo e tratou de ser generosa conosco. Eu descobri o cheiro de Paris em pleno inverno e tu percorreste os múltiplos dos teus caminhos sem atalhos. Vivemos em mundos paralelos, amamos outras tantas histórias e encontros e, com máximo respeito à dimensão de todas elas, não erro em dizer que em todo esse compreender de tempo és tu, tem sido tu, e nunca deixaste de ser o homem que melhor soube me amar e a quem amei do melhor jeito, um cheio de leveza e sutileza na entrega.

De tal modo é o desenho abstrato do imprevisto nas danças do destino, que paro e penso na sorte do regresso e na coragem da nova chance que obriga, necessariamente, um alterar de rotinas. Do meu retorno à horizontes, planaltos, lagos, asas e alvoradas, das nossas convergências e completudes, das tuas cheganças balançando a chave de casa enquanto eu finjo dormir ansiosa na tua espera quando sobes apressado a escada para nosso quarto. No teu deitar ao meu lado, me puxas pra pertinho de ti e me dizes baixinho que nunca – nunca mesmo! – mais me vá embora. Que agora, no ímpar desse momento já conhecido, está estampada a felicidade singular da volta.

Vejo o manso do nosso presente e não me preocupo com o futuro. Está guardado, é possível, é real, é palpável e é reconhecível em tudo que queremos. Mas penso, com muita doçura e indisfarçável sorriso, nos nossos dias de ontens passada uma década de lonjuras: tu enxugavas as minhas lágrimas com as mangas do teu agasalho e me foste sempre abrigo, mesmo quando já não éramos mais um par e era por outro que eu chorava. Me levavas para a faculdade na secura das manhãs que me falhavam as forças e era eu o desamor tanto quanto me desarmavas e me fazias sorrir para além dos ânimos das minhas vontades nas noites úmidas. Eras meu consolo tantas vezes ao respeitar minhas más escolhas e nunca quebraste a tua promessa de não me perguntar o porquê das coisas que fugiam ao simples. Sabias entender meu segredo de erros viciados e talvez enxergaste antes de mim e esperaste sereno pela hora certa da pessoa certa. Ainda lembro bem todas as vezes nas quais fugi para o teu colo na tentativa de calar a polifonia esquizofrênica do mundo. Nunca mais nos beijamos depois das horas incertas do fim, mas sempre traçavas mapas com as pontas dos teus dedos nas palmas frias das minhas mãos, me contavas dos lugares para onde iríamos, esquentavas o meu nariz arrebitado de moça atrevida na tua barba, me acalmavas e me dizias que as coisas ficariam bem. Agora, finalmente, ficaram. Ao teu lado, para sempre, como não poderia deixar de ser.

Pelo capricho de quem nos rege e pela adorável entropia onipresente do universo: Tu e eu. Conjugados. E celebrando os nossos acertos.

Obrigada pelo teu amor. 

Sempre soubeste da grandeza que é viver na simplicidade de pão-de-queijo com filme em branco e preto ao cair da tarde enquanto nos amontoamos disformes no sofá.

Te quero bem todos os dias e me sei feliz pelo sublime da tua presença ao meu lado,

M.

‘¿Se pueden inventar verbos? Quiero decirte uno: yo te cielo, así mis alas se extienden enormes para amarte sin medida’. (KAHLO, F.).
‘¿Se pueden inventar verbos? Quiero decirte uno: yo te cielo, así mis alas se extienden enormes para amarte sin medida’. (KAHLO, F.).

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