Arquivos

(des)Lugares.

12 de dezembro de 2017 por Camila

São Paulo, 03 de Julho de 1977.

‘(…) Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos. É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. (…) Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância. Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. (…) É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento. (…) Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível.’

(CAMPOS, Paulo M.)

T., Amado;

Com alegria recebi a tua carta. Que bom que perdeste o medo de Virginia Woolf. Já vais perceber como a escrita dela aumenta e amplia a gente. Desconserta. Desinquieta o que resolvemos automatizar. Incomoda o que, covardemente, quisemos calar. Coisas que fazem as grandes, sabes. Talvez era esse o teu receio? O desassossego do que falsamente estancamos. Andar com Clarissa D. por Londres deve ser, assim, su-bli-me. Precisas me contar mais, conheces o insaciável do meu imaginar. Se queres, te indico umas leituras mais aonde a cidade é quase personagem. Aliás, é.

Por aqui, São Paulinho, tenho tentado reparar no singelo dos dias e nas sutilezas universais. Nas flores que brotam desafiando o concreto e os amanhãs intempestivos. No que resiste. No que renasce, incessante e cheio de fé. No bonito do subverter a ordem implícita das coisas em desordem. No caminhar pulsante dos transeuntes da Avenida Paulista. No vão do MASP (censurado, sempre censurado). No milagre de sentar para tomar um café, cruzar as pernas, perder a vista no vertical da cidade e lembrar do quanto te gosto. Respirar para não pirar com esses dias, com esse governo, com esses tempos de insanidade coletiva, com esse Brasil de desesperança e muita miséria. Um desmundo, Thomás, um desmundo só. Tanta feiúra e tanta fuligem, nem acreditarias.

Eu gosto dos meus silêncios, sabes. Dos meus infinitos, dos meus particulares. Dos meus muitos, dos meus excessos, das minhas hipérboles, dos meus exageros. Dos meus sinônimos. Encontrei um sebo outro dia aqui perto de casa. Bom, até; escaparam com alguma habilidade do pente fino e ignorante dos militares. As melhores coisas, podes prever, escondidas nos fundos das estantes. Comprei uns livros de contos da Lygia Fagundes Telles; indecentes de tão lindos, te digo. Às vezes me arrancam o fôlego, mas de uma maneira bonita. Tento te mandar algo, nem que seja transcrito, para encher com a minha alma um pouco dos teus dias.

Falaste em Caetano na última carta que recebi de ti. Já ouviste o disco novo? ‘Bicho’, chama-se. Uma coisa de divina e maravilhosa. Deito no chão, com a cara pra cima, ouvindo, e cantando junto. Desafinada, claro, sabes. Vez em quando me distraio com os barulhos da agulha no vinil, mas depois retorno para refletir sobre a poesia estrondosa desse moço. Um pouco como naquele texto do Paulo Mendes Campos, te recordas? ‘Ser Brotinho’, te mando – pelo sim, pelo não -, em epígrafe. Lemos juntos, acho, naquela antologia de crônicas dos anos 60 que compramos na viagem ao Rio de Janeiro. Que anos, que anos! Te quero sempre tão perto e me machuca essa impossibilidade dissonante das distâncias. Tenho um sem número de coisas que quero te contar, pensar junto à ti, os filmes para vermos, as leituras para discutirmos, o teu violão, o lençol que me roubavas. O amor é coisa séria, concluo, mesmo que o nosso tenha sido sempre ecoado de risos.

Então fico assim. Tomo um gole de vinho chileno, vejo as gotas traçando seus desenhos pela taça, engulo devagar, e perco, consciente, a noção do tempo. O espaço também se dissolve, líquido, e, com isso, a cidade vai se tornando pequena e claustrofóbica. Já não caibo na minha sala, enquanto que a cama continua parecendo grande demais, imensa demais. Teus lugares são inocupáveis, dear.

Outro dia quase fujo. Só não sabia para onde. Antes era um costume tão meu rumar para a tua casa, para o teu quarto bagunçado, e descansar no teu sofá que cheirava à fumaça dos teus cigarros enquanto ouvia o teu digitar furioso e melódico na máquina de escrever quando te punhas sentado displicente na mesa de jantar. Depois, impreterivelmente, reclamavas de dores nas costas. Agora já nem sei. Não há refúgios, só solidões.

O ordinário me mata e me descolore aos poucos, dearest. Ainda não aprendi a lidar com o conformismo preguiçoso das coisas. Tudo parece um labirinto de tédio e desamor, apesar dos meus esforços remando em sentido contrário nessas águas que, de tão rasas, ferem feito lâminas. Cortam no profundo de mim. É uma luta, darling, e torço para que estejas vendo mais horizontes do que eu. Que a Inglaterra te seja gentil, te mate a sede de chá (ou de vodka!) e que nunca coisa alguma te baste. Bonito é o teu espírito de rebeldia e a tua recusa ao óbvio.

Sei que seremos sempre abrigos. Sempre retornos. Sempre revoltas. Sempre recomeços. Sempre indissociáveis nas nossas danças. Pares. Inabaláveis. E só por isso me sinto inteira, tua, viva, em cores, possível. Uma vez mais, só por hoje.

Beijo-te, então. E te contemplo, também. Te brindo. Te amo. Te sorrio. Todos os dias;

M.

P.S.: Já foste a Oxford? Que tal? Não te esqueces do que combinamos.

Te escrevo dos meus sempres.
Te escrevo dos meus sempres.


Junhos.

6 de dezembro de 2017 por Camila

London London, 15 de Junho de 1977.

‘(…) E no passo arrastado dos homens-sanduíche; nas fanfarras; nos realejos; no triunfo e no frêmito e no insólito e intenso zumbido de algum aeroplano no alto estava o que ela amava; a vida; Londres; este momento de junho. Pois eram meados de junho. (…) Era junho. (…) Pois podiam ter ficado separados durante centenas de anos, ela e Peter (…) mas de repente ocorria-lhe: Se ele estivesse comigo agora o que diria? – certos dias, certas paisagens traziam-no de volta, serenamente, sem a antiga amargura; o que talvez fosse a recompensa por ter querido bem às pessoas; elas vinham de volta no meio do St Jame’s Park, numa bonita manhã – realmente vinham. Mas Peter – por mais bonito que fosse o dia, e as árvores e a grama, e a menina de cor-de-rosa – Peter nunca via nada disso tudo. (…) E ela desperdiçava a sua piedade. (…) E, contudo, para ela, a vida era absolutamente absorvente; tudo isso; os táxis passando; e não diria de Peter, não diria de si mesma, sou isso, sou aquilo. (…) Mas todo mundo se lembrava; o que ela amava era isto, aqui, agora, à sua frente. (…) Mas que, de algum modo, nas ruas de Londres, no fluxo e refluxo das coisas, aqui e ali, ela sobreviveria, Peter sobreviveria, viveriam um no outro, ela fazendo parte, estava certa disso, das árvores de sua casa; daquela casa lá, tão feia, toda feita de remendos, como era; parte de pessoas que nunca chegara a conhecer; estendida como uma névoa por entre as pessoas que ela conhecia bem, que a ergueriam nos seus ramos como ela tinha visto as árvores fazerem com a névoa, mas que se estenderia para cada vez mais longe, a sua vida, ela própria. Mas com que sonhava enquanto olhava a vitrine da Hatchard’s? O que estava tentando recuperar? Qual imagem de branca aurora no campo?’. 

(WOOLF, V.)

M., Meu (sempre) Amor;

Junho chegou. Finalmente está aqui. Uma nova face de Londres surge. Uma desconhecida. Desconhecida como a vida de Clarissa Dalloway que começo, neste instante-já, a conhecer. Tinhas razão; era mesmo preciso perder o medo de Virginia Woolf. Todas as horas penso em ti e nos teus fluxos de consciência que aceleram os meus. As tuas idéias. O teu amor. Não sabes a falta que me fazes: teu sorriso engasgado na tua gargalhada, tua voz desafinada cantando Caetano às alturas, teu tropeçar nas bagunças da casa e tua boca de café nas horas confusas do despertar (os meus, confesso, andam mais amargos a cada manhã).

Tua fé me emociona. Estás certa, é preciso mesmo agarrar os amanhãs para suportar as provações e marasmo dos hojes. Entretanto, te digo, ainda adoro as tuas certezas em eternos e infinitos. No que me pergunto: estás bem? Que é de ti? Sentes saudades tão grandes quanto as minhas? Tudo plural neste mundo singular que és tu? Escreve-me. Londres, te conto, é de um azul irregular. Ou talvez eu que teime neste azul, que é tão teu, para romantizar o cinza que vejo realmente.

Fui a Camden Town na inexatidão desses dias. Acho que gostarias, lá é cheio de muita arte e muita vida, igual a ti nessa tua poesia de ver o mundo e de encantar as coisas mornas. Olhei para cima e deixei o sol arder nos meus olhos, bem fundo nas minhas retinas. Nas cores, vi o teu olhar de caleidoscópio. Que vontade de beijar as tuas pestanas e sentir o teu nariz na minha barba descuidada. Penso nos teus beijos serenos, mansos, lentos e igualmente apaixonados e posso quase, então, te ver dançando pelas calçadas largas por onde caminha essa gente contida. Uma gente, Amor, que cabe em quadrados. E então te ouço na mais sonora das risadas a maravilhar quem anda por aí, gris, se desperdiçando. Como quem vem e vai e não repara no que encontra nesses passos trocados da vida, que mistura tudo e recomeça mais uma vez.

Estive também em Barcelona. Na tua Barcelona, teu eterno estado de espírito. Afundei os pés na areia. Perdi as vistas mar adentro. Recitei Lorca, baixinho, para mim e para ti somente. Palavras ao vento. Ouviste? Passeei, livre – tão livre, Meu Amor! – pelas Ramblas. Fiquei pensando que é disso que se precisa. É quase nada, mas é tudo ao mesmo tempo.

Para celebrar a chegada de um verão que parecia impossível, cantarolo e dedilho no meu violão – oportunamente, aliás -, uma das canções do ‘Qualquer Coisa’, aquele disco ensolarado do Caê, cheio de brisa e de Brasil. 1975 foi um dia destes, parece, ainda te sinto – alegre feito bater de asas de borboleta – na pontinha dos meus dedos: 

‘A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça. A tua presença pelos olhos, boca, narinas e orelhas. A tua presença paralisa meu momento em que tudo começa. A tua presença desintegra e atualiza a minha presença. A tua presença envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas. (…) A tua presença transborda pelas portas e pelas janelas. A tua presença silencia os automóveis e as motocicletas. A tua presença se espalha no campo derrubando as cercas. A tua presença é tudo que se come, tudo que se reza. A tua presença coagula o jorro da noite sangrenta. A tua presença é a coisa mais bonita em toda a natureza. A tua presença mantém sempre teso o arco da promessa.’

Essa cidade não tem fim, Marcela, Querida. Me debruço na janela e percebo: meus olhos não enxergam dimensões. Não percebem, também, distâncias: estás aqui, insisto. Comigo. Viva nos meus porquês, e, sabes, nas minhas entranhas. No reflexo de luzes sobre o Tâmisa, no Thomás embriagado, nas esperanças nutridas, nas imensidões das bibliotecas públicas que adorarias, nas cores acastanhadas do outono, no bem que persiste, na música que me toca, nos meus inícios, nas minhas coragens, no mais bonito da vida e nos meus dias futuros. É preciso crer no porvir.

As notícias que me chegam do Brasil me retratam enormes incertezas. Um medo. Uma instabilidade generalizada. Um absurdo. Um erro descomunal. Mais censura. Mais negações. Mais desse pânico e dessas coisas todas que me fazem acreditar que cruzar o Atlântico era a opção mais coerente pela vida e pela urgência de estar vivo. Ainda lembro do meu rosto sendo procurado em cartazes pelos corredores da UnB, a marginalização das minhas idéias, o terror que assolava o meu país, a minha cidade, as minhas salas, os meus estares, a minha tortura. Geisel fechando o Congresso. As instituições democráticas completamente falidas, esfaceladas, roubadas, emudecidas, enganadas. A arbitrariedade. A barbárie. Só não achei que fosse trote pelo Dia da Mentira porque não era nem de longe engraçado. O povo amordaçado; sem sonho, sem voz, sem nada. Tens melhores novidades para me dizer? Uma flor ao fim do cano da espingarda protestando contra esses tempos de chumbo? E como estão H., D., C., R., J., A., L. e os nossos companheiros?

Não se desenha, no meu horizonte, ainda, uma volta. E, no entanto, fecho os olhos e vejo as estrelas, o jardim da casa, as nuvens, o orvalho, o verde e os amigos de Brasília em abraços e cheganças. Sinto a seca de setembro, a margem do Paranoá, as liberdades das Asas, os planos cartesianos e a arte Niemeyer nas curvas que não se findam, que seguem, que são. Nos entrelaçados do tempo, nos Eixos, no amarelo dos Ipês e nos caprichos da minha memória entorpecida de vodka e do dilacerar da saudade.

Vens? Concretiza-me. Estão aqui os teus lugares. Sinto tua falta de uma maneira que não me surpreende, mas que me incomoda imensamente. Parte da minha vida, da minha história, de quem sou e de como me sei repousa em ti. Muito do que eu acredito, carregas nas levezas da tua alma. Não te esqueças de quem és nesse descompasso. Não te percas nesse tumulto, nesses ruídos, nesses vazios, nessa insanidade, nessa pressa paulistana.

Preciso te ver sorrir;

T.

P.S.: Se não te bastou a epígrafe da carta para que creias na minha leitura, te envio uma polaroide para que vejas ilustrado os desafios literários das tuas recomendações. Também o meu lembrete para a tua alma alegre: que te recordes das tuas horas de desmelancolia, do teu amor à vida, do teu maravilhamento com o simples do mundo e com o que sonhavas enquanto estavas parada em frente às vitrines. E o meu sempre cumprimento das promessas que te faço.

Junhos ensolarados, 1977.
Junhos ensolarados, 1977.