Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Cartão Postal.

8 de maio de 2018 por Camila

Manhã brasileira e ensolarada, Julho de 1983.

M.,

Beijar-te de novo foi como voltar para casa depois de uma longa viagem. Tudo pareceu certo. ‘Eu te amo todas as manhãs’, me dizias, entre lágrimas e sorrisos. Mas o tempo sempre nos foi indelicado, e, ao cair da tarde, tudo mudava de lugar. É um tal de não querer, mas querer sempre. Fomos, nós dois, desencontro. Uma distância impercorrível. Desenlace. Dissoluto. Descartáveis.

Entretanto, desperto perturbada com a tua presença onírica e castanha, e posso sentir o cheiro de mar, a areia áspera sob meus pés, as nossas roupas brancas fluídas e cheias de paz contra o vento, os teus dentes perfeitamente alinhados e cravados nas sardas da minha pele enquanto me encaras e a sombra entrecortada de luzes dos comungóis do corredor – infinito – aonde estávamos no meu sonho.

Perturbada, sim. O beijo não parecia refletir o hiato de onze anos de separação. Tudo estava em seu lugar. Perturbada, ainda. Não te amo todas as horas, mas os teus olhos morenos – abertos ou fechados – me fazem refém de um beijo que colocou tudo em seu lugar outra vez. A minha bagunça nossa. Não te quero, mas quero. Eu também te amo em todas as manhãs, às tardes já não sei. À noite não é questão de amor, mas de silêncio. O teu corpo conhece o meu. O meu corpo conhece o teu. E conhecer não é mistério, é magia. É encontro. É enlaçar. É insolúvel. É permanente.

Perturbada, continuo. Não aceito que sejas a minha chave. Não quero. Des-quero. Mas é manhã. E pelas manhãs, há sempre esse amor que me ensinaste a sentir. Um para sempre sem intenção, um para sempre que renego. Um para sempre que flana, próximo, insistente. Afasto. Perco. Mas é manhã e a tarde custa a chegar. A noite é infinito. É manhã azul, repito, entre a incoerência e a resignação. Logo passa. Não passa. O tempo é lento e zomba das minhas aflições imperdoáveis. Fica. Ele fica. Tu ficas. Ficamos. O para sempre é rejunte dos pedaços de amor inabaláveis que viraram estilhaços no passado. Um para sempre de momentos. Um para sempre imperfeito. É só manhã, recordo bem baixinho. Rezo pela chegada apressada, porém mais mansa da tarde.

Perturbada, sigo. Teus beijos com gosto de rios e mares, de invasões, absurdos e barbaridades, de indecência e obstinação. Teus beijos que me cegam e confundem, que me desarmam e desatinam. Teus beijos, meus tumultos. Teus beijos, bruscos, meus inimigos.

Mas é manhã. Ainda.

E pelas manhãs, eu te amo sempre.

Te beijo, então, outra vez, devagar e urgentemente,

M.

P.S.: Guarda com carinho esse cartão postal que te chega como manhã de verão no cinza da tua vida. Eterna duração, eternas palavras. Eternidades fugazes. Manhãs ensolaradas. Já viste, já sabes, quanto sentimento cabe em pequenos pedaços de papel. São as horas da manhã – insanas e condensadas – que pedem para existir uns minutos mais de um tempo que já não é teu. A tarde caiu. 

Sol nascente.
Sol nascente.

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