Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Daqui, de dentro.

3 de junho de 2018 por Camila

São Paulo, 05 de Agosto de 1977.

T.,

Era tão fácil sorrir contigo, Amor. Devo, então, agradecer pelos melhores outonos e pelos melhores invernos da minha vida.

Meus pés tocavam a grama áspera do Cerrado no auge da seca, me lembro. Mas, na verdade, não tocavam. Tocavam todo aquele desenho que tinhas traçado para mim, as linhas que se encontravam nas nossas mãos, os planos de alvoradas e horizontes, as horas de gargalhadas, as longitudes e latitudes do mundo, a comida quente que – por tua causa, claro! – não me queimava a boca, os livros que te dei com as minhas estrelas esboçadas nas notas de rodapé, os filmes em preto e branco que te fazia assistir ainda que me dormisse na metade, os teus passos subindo as escadas pro meu quarto madrugada adentro, o aconchego sereno do teu corpo que me protegia dos monstros que moram embaixo da cama a noite inteira, os teus mil bilhetes pela casa, as lembranças do teu amor suave e os desejos de permanência.

Fico pensando naquela do Guimarães nos pedindo coragem, sabes? Mas a verdade é que anda difícil sem ti e sem o ecoar das nossas risadas. Uma melancolia só, Thomás, que bom que não estás aqui para ver. Não que imagine que para ti esteja mais fácil – sei que a injustiça da saudade sufoca em todos os lados -, mas o sentir do sentidor gri-ta. E grita alto. E, não fosse meu o próprio grito, certamente me ensurdeceria a mim mesma. Não sei se tens aí contigo uma cópia de Grande Sertão: Veredas, então te transcrevo para que te recordes:

‘(…) O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada. O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. Viver é muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar estas coisas. Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.’

Ando espaçando e tentando me salvar por todos os lados. Fujo pra literatura, encontro na arte o meu abrigo. Percebo que assim melhor entendo o mundo. Ou me confundo mais ainda, mas ali há refúgio. Sento, suspiro. Tento manter os olhos abertos, mas há em mim um sono e um cansaço que às vezes ganham e me cerram as pálpebras. Há tanto, e há um nada enorme. Café, café, café, café, café, café. Só assim. À noite, insone, misturo a alma com chá de camomila e valeriana. Só assim, também. Pra não pirar. Pra não entrar no sonífero. Pra sobreviver ao frio e à solidão. Escrevo. E lembro de horas mais amáveis e pessoas mais minhas. Lembro de ti, sempre. Tua gentileza, teu cuidado. Espero que a vida esteja te tratando com todas as coisas lindas que mais mereces.

Comecei a fazer lista, te conto, das pequenas alegrias cotidianas. De novo, insisto, salvações e lucidez. Ao longo dessa semana, essas foram as que consegui enumerar, meio apressada, nas páginas da minha agenda: 1.Café quentinho a cada manhã. 2. Abstrair o trânsito a caminho do trabalho enquanto canto as boas canções do rádio. Hoje, por exemplo, teve especial do Chico Buarque. 3. As variedades de São Paulo, o mundo inteiro dentro dessa cidade. E, daí, ouvir na rua um milhão de sotaques e poder experimentar muitos temperos a cada almoço. 4. Máquina de escrever no-vi-nha. Me dei de presente. Tenho editado trabalhos lindos (à margem) e escrito o que é possível passar pela censura. Uma tristeza ainda vivermos sob este espectro, mas, por enquanto, sem maiores novidades. Só a esperança, teimosa. Pra frente, insistimos. 5. Reler as obras dos grandes. Para sossego imediato, sabes, gosto de organizar os meus livros e as minhas estantes. Acabei me jogando no sofá na tarde de domingo em companhia de Leão Tolstói. Há um prazer clandestino e subversivo em ler um russo nesses dias de Brasil. Afinal, já sabes que não precisamos olhar diretamente ao sol para enxergá-lo, não é? A Literatura está sempre certa. 6. Receber correspondências: nesta semana, os correios andaram generosos. Chegaram notícias tuas e dos amigos de Brasília. Amor em letras, caligrafias, garatujas, escritas, espaços. Nasceu o filho de L., ela está feliz. Graças a Deus. Chegou com saúde. 7. Férias planejadas: a perspectiva de uma viagem ao Nordeste no fim do ano. C. me convidou para ficar na casa de praia de seus parentes. Perder minha vista no horizonte azul me enche de paz. 8. Pão quentinho das 17h e sonho da padaria na esquina de casa. A formiga que há em mim come até que os dedos fiquem grudentos e depois sorri, como tivesse feito travessura de criança. 9. Uma fé imensa. 10. Um cigarro de pernas cruzadas, enquanto vejo a vida passar.

Sei que não há nada de extraordinário nessas coisas todas que ilustram minha lista, tão pequena quanto honesta. Mas entendi que ser feliz, é, talvez, olhar o ordinário com os olhos cheios de luz. Um olhar mais transversal para essas verdades abjetas do mundo. Uma certa evasão poética, uma capacidade de transgredir na fantasia, de projetar realidades diversas, de contraste entre o que é e o que gostaríamos que fosse. Então fazemos assim: me recolho nos teus abraços e fujo dos meus medos de vazios desse mundo descompensado e destoante do que tem aqui, dentro.

Preciso te contar, para que te alegres, que todos sentem enormes saudades de ti, Thomás. De tudo que representas. Do melhor de nós. Da tua coragem. E do teu amor por tudo que vemos, respiramos, vivemos e sentimos. Somos ainda.

Penso que tenha-se extraviado alguns dos meus escritos, e alguns dos teus. Tudo bem, tudo bem. Tomara que te chegue este. Para que saibas de mim. E saibas que não é fácil sem ti, mas sigo firme. Promessas de felicidade hão de cumprir-se, precisamos acreditar nisso e em todo o resto.

Te quero sempre (por) inteiro,

M.

Daqui, de dentro, de mim, de perto, de ti.
Daqui, de dentro, de mim, de perto, de ti.

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