Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Diálogos da Invisibilidade XIV: Autoficção.

24 de outubro de 2017 por Camila

‘(…) Fica difícil fazer literatura tendo Gil como leitor. Ele lê para desvendar mistérios e faz perguntas capciosas, pensando que cada verso oculta sintomas, segredos biográficos. Não perdoa o hermetismo. Não se confessa os próprios sentimentos. Já Mary me lê toda como literatura pura, e não entende as referências diretas.’

(Ana C., ‘Rio de Janeiro, Agosto de 1979’).

Sentou-se debaixo da mangueira naquela noite meio fria e orvalhada. Num canto especial de sua infância, a mesa aonde comera bolos diversos e tomara chá com sua Tia por longas e (insuportavelmente) felizes tardes. Na casa que era pura memória, ela era agora a melancolia. E lembrou-se. Lembrou-se das noites em que tudo tinha dado certo entre os dois. Das noites cálidas de vinho, das bocas urgentes de beijos e palavras, dos cabelos emaranhados entre os dedos apressados, dos sorrisos cúmplices de muitos segredos e das gargalhadas que ainda ecoavam em seus ouvidos.

Achava, agora, que a isso dá-se o nome de saudade. Pensou que cortava esse sentimento a própria carne. Insistia, entretanto, que era melhor assim. A solidão parecia lhe cair bem. Mas eram nessas madrugadas que só ela podia escutar o barulho secreto e abafado dos seus silêncios e sentires. Que eram tantos e altos e ruidosos e latejantes e cheios de lonjuras muitas. Doía, às vezes, mas a vida era cheia de causa e conseqüência. Aprendeu a aceitar o quinhão do que lhe cabia. A isso, tão sem graça, chamava maturidade.

Falta. A falta que fazia o café partilhado, a segurança do abraço, a cama desforrada, os espaços outrora largos eram então diminutos por corpos ocupados, as digitais dos dedos sujos nas capas dos livros escolhidos e ligeiramente empoeirados, as cartas espalhadas pelos cômodos vivos do lar, e as certezas. Tantas, infinitas, nem se cabiam.

Engoliu a seco. Permitiu-se a brevidade da nostalgia. Agarrou-se às próprias pernas para se proteger da aspereza do tempo. Fechou os olhos bem de-va-gar-zi-nho. Tudo é tão efêmero, ressoou. Já nem me sei hoje do que fui ontem. Que será de mim em amanhãs? Serei?

De pés descalços, pisou o molhado do jardim prateado de lua e de sonho. Era uma mulher tão comum. Dessas que andam pela rua com o saco de pão quentinho das 18h, que esquecem das desimportâncias, que se encerram em si mesmas, que nutrem todo o tipo de desejo censurado, que deixam a louça suja na pia para os depois e que vêem a vida passar. Sendo dela parte ou exclusão. Era ele, também, nada raro. Desses que só querem um final feliz, que passam inconscientes por seus erros consistentes, que fazem o que precisa ser feito e que nunca está só. Mas se viam especiais, juntos. Talvez por suas combinações desconexas ou por seus pactos implícitos que não ousavam romper a calma do silêncio. Ou ainda pelo medo iminente da grandeza do mundo diante da pequenez dos seus dias. Eram possibilidades que, agora, já nenhuma conjugavam ser

Músicas não iam curar. O absurdo da poesia não ia cicatrizar. As frases de um filme existencialista também já não iam mais explicar coisa alguma. O ardor eloqüente de uma prosa bem escrita tampouco surtiria efeito. A arte ainda importa, mas ela já nem sabia para quê. Era uma insistência cega, uma teimosia já tão enraizada que deixou de gerar questionamentos. Era o sólido a que se prendia quando tudo em sua volta era a abstração imediata de uma sucessão de ocupações imensamente vazias. O zelo incorruptível que se cria diante dos amores avassaladores e o nada absoluto ressignificando uma ruptura.

Abandonou os pensamentos e suas incoerências. Encarou a escuridão da casa. Tropeçou na própria bagunça. Deitou – desastrada – no sofá e deixou que a televisão refletisse sobre o rosto pálido suas luzes dementes e pouco iluminadas. Teve uma pequena epifania e esqueceu-se dela num átimo de segundo. Não estava necessariamente inquieta, talvez padecesse do mal reverso; o excesso de quietude também é, a seu modo, desassossego.

De lua, dela, dele, de noite, de sonho, de si.
De lua, dela, dele, de noite, de sonho, de si.

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Samba de verão em primavera.

3 de outubro de 2016 por Camila

‘(…) Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que… Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.’

(ASSIS, M. In ‘Dom Casmurro’.).

Como em um botão de FF dos antigos videocassetes, adianto minha vida de dois anos e meio para cá; para hoje, para você, para mim, para esse futuro (do) presente: o Leão da Pandinha, o Panda da Leãozinho.

Com a força irresistível que você exerce sobre as minhas convicções mais absolutas, o meu eu lírico de observância e resignificâncias do ordinário da vida parece dialogar com o mais forte e racional de mim; o instintivo sem resguardos das mágoas de ontens rasos e livre de licenças poéticas e desculpas das mais variadas para cessar o medo da entrega, da mistura do meu mundo simétrico ao seu tão livre de ordem, da sua boca desenhada no meu corpo, dos seus dedos entrelaçados nos nós dos meus cabelos, do magnético do seu olhar impreciso e cerrado, das suas mãos que me abrem caminhos e cuidados e da sua alegria que revigora o meu espírito cansado de lutar contra um cinismo que parece persistir em zombar de todos os meus esforços em sentido reverso.

Na primeira vez que nos vimos você só falava a quem quisesse ouvir do verde do meu olhar sem saber que eu não tinha nem coragem de encarar o seu. Naquele rio castanho que me decifrava devagar entre silêncios intermitentes e o sorrir pueril, eu já sabia que perderia meu prumo nas correntezas contrárias. Ou que repousaria numa margem sempre tranqüila e acessível para sanar o tédio dos meus dias. Não tinha certezas irrevogáveis, mas as apostas eram altas e claras: como curiosa que sou e sempre pago mais do que devo (ou que posso!) para ver se me arrebento ou tiro a sorte grande, não fugi ao desafio e escolhi me perder na placidez da sua calma que é bálsamo e refúgio para as loucuras das minhas horas.

Setembro em flor, e eu olho para você e entendo porque nos vejo indissociáveis e inteiros a largos prazos. Percebo as suas cores, seu estilo rimado à liberdade, seu gosto de sol nos lábios, o cheiro do vento na sua pele e a certeza dos seus passos ornando meu sorriso. Penso que você me ensinou entre muitas lições a mais importante delas: as pessoas não precisam ser parecidas para se completarem, se assemelharem nos sentimentos e na definição do eterno fugaz da vida. O que eu vejo é o meu amor inteiro ganhando mais amplidão numa só pessoa. Cantarolo – e desafino! – Caê baixinho no seu ouvido (‘…arrastando meu olhar como um ímã.’) e me encolho no seu abraço apertado e quentinho, achando graça na gula da sua mirada e nos impropérios indecentes que você me dirige e que uma moça recatada se recusa a repetir; deixa que seja só para nós nos Dias Brancos do nosso próprio tempo.

Eu amo todas as coisas que você é e tudo aquilo que faz de você, você: eu amo o seu descomplicar.

Portanto, esse aqui é pra você. Porque você existe; sólido e – contrariando Shakespeare! –  sem se desmanchar no ar: pois então, por todas as noites em que você rugiu mais alto que a minha inquietude insone e me colocou no colo para dormir protegida em meio ao meu próprio tumulto de cafeína, palavras, narrativas, romances, dissertações e poesia. Porque foi você quem tirou os meus olhos das linhas tortas dos livros e os fez repousar no horizonte azul e inabalável do mar que por vezes nos cerca. E, sobretudo, porque foi você quem me soprou de volta à vida sem saber que meu corpo já era então uma carcassa de ossos de borboleta.

Obrigada por me fazer respirar.

'(...) O meu coração é o sol, pai de toda cor.'
‘(…) O meu coração é o sol, pai de toda cor.’

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Rascunhos de Outono IX: Xícara de café.

2 de maio de 2016 por Camila

‘She was almost in love with him. No, that’s impossible, she thought: either you are or you aren’t. Love’s the only thing in this world that is unequivocal. There are different kinds of love, certainly, but it’s a you-do or you-don’t proposition with them all. She was a person who, when confronted with an easy way out, always took the hard way. (…) There would be searching of hearts, fevers and frets, long looks at each other on the post office steps, and misery for everybody. (…) She set about restoring peace with honor.’

(LEE, H. In ‘Go Set A Watchman’.). 

Nós sempre dividíamos uma xícara de café depois do jantar. Assim, você deliberava, nenhum de nós perderia o sono por excesso de cafeína. Desde então, jamais consegui tomar mais do que a minha metade devida. Continuo acordada, mas a culpa não é do café. Talvez seja sua e da (re) impressão dos nossos velhos hábitos na minha vida.

Tenho pensado em como eram as coisas antes de você. Com alguma dificuldade, admito baixinho (ou berrando aos quatro cantos, depende do meu humor!) que tudo era seguramente mais leve e menos complicado. E tenho me sentido infinitamente melhor por saber que nem sempre andei em cacos, a passos Niilistas, espírito amedrontado, carne embrutecida ou como que quebrada displicentemente ao meio.

Mas ando. Ando até a padaria e faço festa com os carboidratos. Ando até a academia e descarrego a culpa. Ando pelas esquinas e ainda espero o meu sorriso. Ando até o empório e descubro que vinho faz milagres. Ando até a livraria e encontro os melhores e mais inteligentes amigos para me acompanhar nas horas lentas dos dias e no silêncio que é ruído na noite. Ando pelas ruas e só encontro a solidão. Ando em outros corpos e sinto o gosto do arrependimento misturado à saliva nos meus lábios. E ando encontrando soluções pros problemas que eu nem sabia que tinha.

Voltei a ouvir as bandas que você amava dizer que detestava mas que nunca tinha sequer ouvido. Agora enxergo também o azul do céu, o doce da rotina longe do caos existencial do outro, o belo que há no desconhecer, a liberdade que há em respirar, o caminhar isento da fragilidade das cascas de ovos, a coragem de deixar alguém entrar, a tranquilidade de saber que a mentira jamais se sobressairá à verdade, a possibilidade ampla de decidir sozinha sobre o meu destino, o prazer de ir desacompanhada ao cinema, a criação de novos laços nos minutos em que estou viva, o desassossego que me move além da minha zona de conforto, o descobrir de sutilezas e a paz que abafa gritos inertes e suspensos no ar.

Retorno a mim, pacata: ao meu ser que se mistura em tudo que toca, que compra girassóis, que pisa em nuvens, que engole o mundo, que tem preguiça da maldade, que se perde na imensidão da cidade, que abraça com o que pode, que lê nas entrelinhas, que acredita no impossível, que gosta da nostalgia do tempo, que se dedica ao observar das coisas, que toma banho de chuva e que se faz abrigo no regozijo que só a simplicidade traz.

Quando passa o pesar e a saudade vira ponto pacífico, concluo que foi um existir, esse nosso, talvez indevido ou injusto. Eu não tenho a forma da mulher perfeita pra você ou você a personalidade do homem que me faria feliz. Mas existimos, dentre e sobre todas as coisas, existimos. E cessamos. O fim não foi sereno, e nem poderia: afinal, não foi de um jeito fácil que você entrou na minha vida ou que permaneceu nela por quase uma década. Fiz, tenho certeza, a escolha mais acertada, mas por certa constância dolorida. E como latejava, Deus do Céu!, como latejava.

Você me pede notícias nesse ecoar de silêncios, sinais de fumaça, algum mínimo de contato, palavras ao vento ou coisa qualquer. Eu respondo hoje sem o cinismo que por algum tempo fez morada entre nós:

-Vou bem, obrigada.

De você, não levo ou trago mais nada. Nem lembrança e nem futuro. Nem mágoa e nem perdão. Nem entendimento e nem confusão. Nem amizade e nem indiferença.

Eu? Somente sou.

Você? Apenas era.

'(...) On any other day she would have stood barefoot on the wet grass listening to the mockingbirds' early service; she would have pondered over the meaninglessness of silent, austere beauty renewing itself with every sunrise and going ungazed at by half the world. She would have walked beneath yellow-ringed pines rising to a brilliant eastern sky, and her senses would have succumbed to the joy of the morning. It was waiting to receive her, but she neither looked nor listened. She had two minutes of peace before yesterday returned: nothing can kill the pleasure of one's first cigarette on a new morning. Jean Louise blew smoke carefully into the still air.' (LEE, H. In 'Go Set A Watchman'.).
‘(…) On any other day she would have stood barefoot on the wet grass listening to the mockingbirds’ early service; she would have pondered over the meaninglessness of silent, austere beauty renewing itself with every sunrise and going ungazed at by half the world. She would have walked beneath yellow-ringed pines rising to a brilliant eastern sky, and her senses would have succumbed to the joy of the morning. It was waiting to receive her, but she neither looked nor listened. She had two minutes of peace before yesterday returned: nothing can kill the pleasure of one’s first cigarette on a new morning. Jean Louise blew smoke carefully into the still air.’ (LEE, H. In ‘Go Set A Watchman’.).

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Rascunhos de Outono IX: Sobre nós.

23 de abril de 2016 por Camila

‘(…) No, no, no, no! Come, let’s away to prison, we two alone will sing like birds i’ the cage: when thou dost ask me blessing, I’ll kneel down, and ask of thee forgiveness. So we’ll live, and pray, and sing, and tell old tales, and laugh at gilded butterflies, and hear poor rogues talk of court news; and we’ll talk with them too, who loses and who wins; who’s in, who’s out. And take upon’s the mystery of things, as if we were God’s spies: and we’ll wear out in a walled prison packs and sects of great ones that ebb and flow by the moon.’

(SHAKESPEARE, W. In ‘King Lear’: Act V, Scene 3.).

Na noite fria, me sento estrategicamente no banco de mármore branco justo abaixo da enorme figueira no meu jardim. Olho ao redor enquanto seguro uma caneca de chá: o vento faz bagunça, derruba e espalha folhas venenosas pelo chão. Sinto o suspiro da solidão cochichar aos meu ouvidos. Ignoro. Rememoro. E, de repente, tudo é verão outra vez.

O tempo passa por mim. Corre macio, eu nem noto. Se faz gentil: estamos juntos na cidade de leis próprias e pessoas que flanam entre a mediocridade e a magia. Lembro dos nossos pés na areia, da aflição nos meus dedinhos, dos seus beijos apressados cheios de presenças e urgências, do seu espírito oprimindo o meu que fugia para saltar mais alto, da tormenta do mar que é nosso horizonte inteiro, de tudo que você queria e eu neguei e de tudo que eu quis e você não soube como dar.

Desencontros. Perdidos em nós, cegos. A busca sigilosa por atalhos ou por caminhos na lama do fim. As estações mudam, as pessoas mudam. Você acha que eu estou suspensa num espaço inatingível aonde tudo permanece intacto. Digo que não. Agora tenho menos medo, sou mais eu. Endureci. Cresci. Percebo a ironia da vida e a crueldade do mundo. Mas o meu sorriso mole, inocente, torto e fácil me entrega: ainda tateio na cama enorme à procura dos seus braços que são – ainda, sei bem disso – meus também.

Na guerra fastidiosa entre a lonjura e o querer bem, vence o sentimento que rompe as barreiras (intransponíveis, dizem eles!) do silêncio. Entre o lugar que já conheço e me sei confortável e o desconhecido do mundo, me arrisco nas possibilidades fantásticas e impensáveis. O seu relógio é lento e resiliente: me espera nas entrelinhas dos dias e das coisas que existem com a inefável preguiça do ser.

Eles, ignorantes, me perguntam se não tenho medo de perdê-lo para sempre. Respondo que não se pode perder o que não se pode ter: gente é pássaro, pássaro voa pra tocar o azul, o azul é a alma e da alma não se demanda posse. Alma é etérea, tergiverso. Nesse Materialismo Dialético enigmático e impossível do nada ter e tudo me consumir, lembro de Caê cantando que ‘gente é pra brilhar’. E eu cantarolo depois dele a plenos pulmões, desafinada como me é de direito e de dever.

O que me chega em ruídos é o lamento de ver que quem era mágico escolhendo ser comum. Os meus olhos, encantados pelo extraordinário das coisas que sempre foram, eram desenhos de feitiços pelas linhas inexatas do seu corpo e pelo timbre da sua voz sempre grave ou agravada pela falta de esmero de algo e alguém qualquer com coisa alguma. Eu era borboleta pairando pertinho do seu nariz e soprando inadvertidamente algum tipo de leveza no bater das asas quase fatigadas. Hoje você é, me dizem por outros meios, a rotina lenta e absurda das conversas soberbas e conformadas, superficiais e ordinárias, vazias de conteúdo e cheias de vaidade, escassas de gente de verdade e repletas do fosco de quem o cerca.

Fico me perguntando o que fizeram os dias – aliado a ausência de nós – da sua figura. Sinto pena e alguma saudade da imagem que um dia guardei, mas fecho os olhos e aceito o fluir das mudanças como elas são. A existência vã e breve foi somada ao externo empobrecido das coisas (confirmando o que Sartre já sabia!) e precedeu a essência furta-cor que eu percebi, num dia qualquer e já longínquo, em você.

Encontro consolo em não querer querer: quero somente, pondero, ir além de tudo que promete ser amarra e exaustão.

Eu continuo febril, veja você, mesmo quando o cinismo quer me vencer pelo cansaço desse eterno querer.

'Está certo dizer que estrelas estão no olhar de alguém que o amor te elegeu pra amar. (…) Gente viva, brilhando estrelas na noite. Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz. Não, meu Nêgo, não traia nunca essa força, não: essa força que mora em seu coração. (…) No coração da mata gente quer prosseguir: quer durar, quer crescer, quer luzir. (…) Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor: se as estrelas são tantas, só mesmo o amor. (…) Gente espelho da vida, doce mistério.' (VELOSO, C.)
‘Está certo dizer que estrelas estão no olhar de alguém que o amor te elegeu pra amar. (…) Gente viva, brilhando estrelas na noite. Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz. Não, meu Nêgo, não traia nunca essa força, não: essa força que mora em seu coração. (…) No coração da mata gente quer prosseguir: quer durar, quer crescer, quer luzir. (…) Gente espelho de estrelas, reflexo do esplendor: se as estrelas são tantas, só mesmo o amor. (…) Gente espelho da vida, doce mistério.’ (VELOSO, C.)

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Contos de Verão XIII: A morada.

10 de abril de 2016 por Camila

‘You’ve got to give a little, take a little and let your poor heart break a little: that’s the story of, that’s the glory of love. (…) As long as there’s the two of us, we’ve got the world and all its charms. And when the world is through with us, we’ve got each other’s arms.’

(HILL, B.)

Cinco. Cinco foi o número total de pessoas que me perguntaram de (e sobre!) você nesse fim de semana. Nas minhas contas – e tendo em vista que já não estamos juntos há anos -, bastante gente. Se elas soubessem o efeito que o som do seu nome causa em mim, não teriam ousado sequer balbuciar. Nem tampouco ecoariam suas convicções a nosso respeito: que lindo casal fazíamos, o quão era evidente a sua felicidade ao meu lado, a paz e a tranqüilidade que passaram a fazer parte de você depois de mim, maldades diversas sobre a sua atual situação, o estado de bem que viam você quando estava comigo e, por fim, o quanto soava óbvio a todos que nós nos completávamos.

Pois é. Eu tive que ouvir tudo isso enquanto batia vodka com melancolia e frutas tropicais e entornava a dose em goles sedentos e cavalares. Só parava com a gula alcóolica para amarelar o sorriso, fingir satisfação, disfarçar a nostalgia e responder sem graça: -É, nós não estamos mais juntos. Terminamos há algum tempo já. As pessoas não escondiam o choque e, virando a cabeça de lado, tocavam o meu ombro desnudo e sardento. Eu me enchia de espíritos e replicava: -Está tudo bem, nós dois estamos bem. Tentei dançar para sentir menos saudade e, ao fechar os olhos na busca de um transe musical, via apenas o seu rosto fazendo as expressões mais bobas, taradas, bravas e ciumentas da história enquanto o meu vestido subia acima dos joelhos e a minha cintura girava. Sua língua roçando os seus lábios, você me puxando pelas mãos e dizendo: -Meu Amor, já chega de dança. E de vodka também. Vamos pra casa ver filme e ficar de conchinha? Eu ria da sua cara e respondia que você não era bom em ocultar o seu ‘zelo’. Negava com os dedos, fazia bico e cantarolava que ia dançar até a minha franja grudar na testa e a minha nuca molhasse de suor. Num gesto já automatizado dado o número de repetições que isso acontecia por noite, você suspirava em tom audível, erguia os braços pro ar e se resignava com um mau humor já confortável. Mas você era resiliente porque sabia ser o dono do monopólio da minha felicidade incontestável naqueles dias azuis.

A fantasia persistiu intermitente até o caminhar para casa. Estava intoxicada de você, uma vez mais, e tão longe do alcance das suas mãos. Sonhei com a sua figura durante o percurso sádico de uma noite inteira: você comigo, você sem mim, nós juntos, nós sem nós, a continuidade da sua vida, o seguimento da minha, as possibilidades infinitas de um futuro que não houve e o quão pouco sentido faz essa separação forjada num desejo contínuo de mudança. A minha carne ainda arde, reconheço baixinho. Acordava todo o tempo, e, depois de beber água apressadamente na contenção infantil dos prejuízos de uma ressaca iminente, sempre voltava ao mesmo sonho. Você estava lá (e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo!) me deixando sem fôlego e sem opção. Eu só queria a bênção de uma pausa nesses delírios oníricos, mas até a sua voz era palpável e acordei buscando você numa cama que não era exatamente a minha.

O despertar trouxe consigo uma vontade enorme de pegar o telefone, dizer todos os meus sins, me perder no seu corpo e correr para os seus braços que me protegem e me curam. Dizer que vai dar tudo certo, dessa vez. Que eu vou tentar de novo porque acho que esse encontro vale a pena. Que eu vou ceder ao seu charme de domingo como quem adia a dieta para a segunda-feira. Que agora não farei ouvidos moucos aos seus apelos insistentes. Que nós vamos casar, ter filhos e cachorros e morar na praia. Que eu vou fazer Brigadeiro pra você às 2h da manhã se você fizer pipoca pra mim no mesmo horário. Que os meus olhos serão novamente os seus guias. Que as minhas vontades hão de ser, mais uma vez, as suas alegrias. Que as nossas gargalhadas uníssonas serão músicas para quem sabe ouvir melodia desafinada. Que eu não vou mais respirar a tormenta da dúvida. Que eu vou repousar – serena – no seu peito e no lar que você construiu para nós.

Com qual das batidas do seu coração você me faz entender melhor a vida?

Você é a minha morada.

'Y cuando te busco no hay sitio en donde no estés.' <3
‘Y cuando te busco no hay sitio en donde no estés.’ <3

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