Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Contos de Verão III: Seu nome e o meu caminho.

31 de agosto de 2013 por Camila

‘¿Quién escribe tu nombre con letras de humo entre las estrellas del sur? Ah, déjame recordarte como eras entonces cuando aún no existías.’

(NERUDA, P.)

-Um dia, sei lá quando foi, eu percebi que a boca dele parecia um coração e os olhos dele tinham a cor de todos os mares da minha infância, e daí fiquei com vontade de beijá-lo, entende? Foi só isso. Sem amor, um certo pudor e quase nada de poesia. Tudo que é hoje veio somente do depois…

Aquele depois que trouxe em palavras claras e toques cuidadosos a projeção quase filmada em película. Um depois disfarçado de sorrisos furtivos. Um tempo do depois que quis existir através de olhares sedentos e desejos lascivos pela minha pele branca. O depois de amanhã entrelaçado na calma de que depois existiria e o cheiro dos meus cabelos. De que depois era hoje, esse entardecer quando o sol fosse quase amanhã.

Mas, foi naquele depois que todas as estradas pareceram mais longas na noite de expectativas em que tua boca beijou outra que não a minha.

-Um estrago por tão pouco. Tão pouquinho, quase nada. Sabe? Tudo drama meu, tudinho de mim. É quando ele consegue te fazer querer mansinho e, de repente, ao passo errado, fazer ruir uma construção tão frágil e pobrezinha: Um casebre que eu tinha construído para nós dois lááááá na beira da lagoa só pra ver o sol nascer e se pôr bem laranjinha. Você entende, né?

Me abracei a velha solidão de ilusões estilhaçadas, vesti um pijama desajeitado, arrumei os óculos que queria escorregar nariz abaixo por lágrimas quase doces, tentei ler um livro otimista de qualidade duvidosa e dormi ignorando o sol que brotava entre nuvens.

-Deixei o verão para mais tarde, sabe? Para uma outra vez, de novo. Preferi o frio artificial do ar condicionado que, junto ao meu coração que implorava por ser mais cínico, liguei no modo polar. Você entende, a gente tem que se proteger desses ladrões de amanhãs e semeadores de ilusão. Acho que todo mundo que já viveu alguma coisa de adolescência já passou por isso, digo, por esse desconstruir medonho.

Portanto, Querido Meu, adeus. Adeus e nunca mais beijos na nuca e na ponta da orelha quando vivíamos a idéia da despedida aonde já se sabia presente um novo encontro. Ou uma nova forma de se encontrar um no outro, velhos desconhecidos que somos.

Até nunca mais, mais uma vez. É duro me despedir de tudo aquilo que poderíamos ter sido se não fôssemos eu e você. E que fomos em mim, sem você.

Desencantos do talvez.

-A boca dele ainda é de coração, sabe? Mas, contrariando toda a lógica, não tem nenhum gosto de amor. Nenhumzinho. E os olhos dos mares da minha infância? Puro fingimento. Pura ressaca. Que nem aquela maluca lá, a Capitu, lembra?

A sua imagem quando você não existia era muito mais doce…

Mais uma vez o mesmo filme. Eu e você já nos esquecemos antes.
Mais uma vez o mesmo filme. Eu e você já nos esquecemos antes.

Deixe um comentário

Contos de Verão II: Do que não foi.

31 de agosto de 2013 por Camila

Ela se disse sincera desde o princípio: estava estava ali fugindo.

Fugindo de sensações, fugindo de histórias interrompidas e mal-acabadas, fugindo do que não existiu, fugindo de vontades e fugindo, sobretudo, de todas as fugas que habitavam nela e lhe corroíam em silêncio.

Insistiu que nem gostava daquele som e nem costumava se arrumar tanto assim para sair, mas foi. Foi porque fizera um pacto consigo mesma de rever os próprios conceitos e de deixá-los derreter sob o sol causticante daquele verão. Mais um verão de promessas que insistem em existir. Estava disposta a procurar a felicidade naquelas pílulas placebos e práticas. Naquilo que não tinha que dedicar horas pensando e nem lendo correntes filosóficas gregas. Aquela coisa de estar a procura do estoicismo perdido, sabe? Pois bem. Já sabia o que dizia Aristóteles e Zenão de Cítio em suas teses, mas queria agora o empirismo mais puro possível.

Foi vestida de mar, então. E deixou luzir o brilho que queria haver nos olhos.

Sentindo mais uma vez a pontada de não pertencer àquele lugar, de não saber como se portar ali e a inadequação irrestrita a tudo que dividia consigo aquele espaço, resolveu baixar a cabeça e se sentir patética por uns cinco segundos. E foi aí que viu aquele all star azul. Levantou mais um pouco o olhar e parou naquela bermuda jeans completamente desbotada, rasgada e despretenciosa. Já achando que nem tudo estava perdido, não deixou de notar que ele usava camisa de algodão. E sorria do jeito mais torto possível.

Havia uma possibilidade no meio de tudo aquilo que era tão pouco dela? Ele estaria perdido também? Ou estava fugindo das mesmas assombrações? Não, ele parecia sinceramente confortável. Ele simplesmente sabia o que fazer. E onde estava. E toda essa certeza a deixou curiosa ao ponto de seguí-lo com olhos gulosos por toda a noite. Mas sem que ele soubesse, é claro. E dentro da brincadeira das íris, viu que ele também a olhava inquieto. Provavelmente pensando quem era aquela que parecia tão em descompasso com o ambiente e o que ela fazia naquele lugar que pouco combinava com tantas tatuagens.

Quem era ela?

Quem era ele?

Quem poderiam ser um para o outro?

Por capricho do destino, nunca se souberam.

E jamais se pertenceram dentro de um mundo em desagravo.

Nunca dançaram juntos em ritmo algum. E ficou o gosto amargo do que poderia ter sido.

Só uma lembrança de não ter sido.
Só uma lembrança de não ter sido.

Deixe um comentário

Contos de Verão I: Do resto do verão que não vi.

31 de agosto de 2013 por Camila

‘Oh these little projections how they keep springing from me, 
I jump my ship as I take it personally.’

(MORISSETTE, A.)

 

…É tragicômico como – uma a uma – as rejeições vão somando-se a outras e começam a minar qualquer traço estrutural de uma autoconfiança que dilata os poros da alma pela vontade de existir.

Aí, como qualquer pateta solitário que divide o espaço com pelo menos 500 outras pessoas igualmente sozinhas em quase vida, você começa a questionar qual o seu problema e ignora por completo o fato de que na maioria das vezes as pessoas não funcionam na mesma sintonia ou que pode haver alguém na vida desse outro alguém. E põe-se a (como evitar?) fazer o check-list mental: o cabelo está em dia, a roupa está limpa, a maquiagem está intacta e o papo nunca deixou de ser interessante.

E sabe, é um esforço tremendo para não sucumbir a esta vontade enorme da autosabotagem de dizer que a culpa é sua. Dá-se início a outra check-list infinda – cuidadosamente escrita pela idéia do amor próprio – e você, finalmente, decide que ‘quem perde é ele.’ E as amigas ecoam em uníssono o clichê que precisa – peloamordedeus! – ser real.

Mas, bem de dentro, você ainda alimenta a frustração do que poderia ter sido se você fosse mais assim. Ou menos assim. Fica nutrindo eternas mágoas sobre mais uma possibilidade estilhaçada pelo peso de sabe-se-lá o quê. Sobre mais uma história interrompida pelo precoce não que sobrepujou o talvez e a expectativa de um tímido sim. Sobre a cansativa construção de fantasias e a demolição daquele pensamento que te fazia sorrir.

Você não está sozinha.

E o sentimento particular é compartido em silêncio com milhares de outras pessoas, mesmo na ausência da cumplicidade em perceber.

Seja. E deixe estar.

Amanhã é outra promessa, talvez até mesmo um dia de encontros daqueles que se perderam. É a tal da semiótica, quando nada é o que parece quase ser.

Mais amanhãs.
Mais amanhãs.

‘Oh these little rejections how they disappear quickly 
the moment I decide not to abandon me.’

Deixe um comentário

Casa.

2 de dezembro de 2012 por Camila

‘-Oye, Manuel, yo sé mucho de psicología, porque pasé más de un año entre lunáticos y terapeutas. He estado estudiando tu caso y lo que tú tienes es miedo – le anuncié.
-¿De qué? – Y sonrió.
-No sé, pero puedo averiguarlo. Deja que te explique, esto del orden y del territorio es una manifestación de neurosis. Mira el lío que has armado por unos miserables calzones; en cambio ni te inmutaste cuando un desconocido se llevó prestado tu equipo de música. Tú tratas de controlar todo, en especial tus emociones, para sentirte seguro, pero cualquier babieca sabe que no hay seguridad en este mundo, Manuel.
-Ya veo. Sigue…’
(ALLENDE, I.)

Você me pegou pelas mãos e disse ‘vem pro meu mundo’ de uma forma tão corajosa que não pude recusar. E era um lugar tão bonito, Benzinho. Passeamos despreocupados, sorrimos, dançamos, acabamos com a sede com gotas de chuva, já não tínhamos fome graças à bolinhos de céu e nos perdemos naquele infinito de muitos caminhos em que uma escolha não anulava uma outra possibilidade. E eu me senti por inteira num canto seu.

E me foi tão difícil convidá-lo para entrar e permitir que você fizesse parte do desbravar de terras áridas e apavoradas pela idéia de um novo abandono, sabe? Mas você foi forte e lutou pelo seu direito óbvio de pertencer a um mundo meu. Pouco manso, é bem verdade, mas inteiramente meu.

Quando dei por mim, você venceu pelo cansaço e, fazendo jus ao usucapião por justa causa, já tinha feito morada no último pedaço de terra fértil daquele sertão. E trouxe a alma do luar. Esboçou no rosto o semblante de quem tem paz. Pincelou estrelas e plantou flores de todas as cores e de pétalas suaves. Você disse que ali era bonito, também. E que só precisava de alguns cuidados. Seria como restaurar uma casa esquecida pelo tempo em que você acreditava piamente no valor e na beleza. E que chamaria de lar.

Consertou azulejos quebrados, lixou tintas descascadas, trocou telhas estilhaçadas, demoliu o que restava de ruínas, limpou o mofo deixado pelas infiltrações e reformou cada um dos cômodos. Fez tudo isso com o afinco dos que querem estar ali e com o suor de quem opta por insistir diante da desesperaça dos obstáculos. A cada construir, um pouco mais do crer. A cada erguer, um pouco mais do amor. E agora, Benzinho, me sou completa. Obrigada.

Hoje somos.

Somos mundos, somos promessas cumpridas, somos encontros, somos lugares, somos nós, somos lares.

Do amor de quem se sabe.
Da construção do amor de quem se sabe.

Deixe um comentário

Por um triz.

28 de novembro de 2012 por Camila

E, naquela noite, morri de vontade de te dizer: -Você me inspira.

Ia falar assim, displicente e irresponsavelmente. Depois ia sorrir um sorriso malemolente só pra bagunçar aquilo que já há em ti. Mas mordi a língua. O caminho a ser seguido depois dessas palavras era perigoso demais. E já não havia mais pernas para seguir, tardes de preguiça para esperar, brisas para semear, expectativas para cultivar, certezas insólitas para formular e o verão inteiro para beber…

Eu precisava subir naquele avião sem olhar para trás, porque olhar e ver ali a sua cara de menino bobo era muita tentação pra uma alma que tinha que ir ainda que quisesse ficar. Quase pedi a Deus para que você não me abraçasse ou segurasse as minhas mãos com aquele seu jeito de romântico incorrigível, mas orar por isso seria crueldade demais com a gente e com a delicadeza toda de ti pra mim.

Saiba, meu bem, você vai sempre dançar muito suave na minha memória e habitar as lembranças daqueles dias amarelos muito bem vividos sob guarda-sóis multicoloridos. Ainda vou lhe procurar no caos do meu querer quando eu der xilique para que alguém me tire a areia dos pés sob pena de morrer de agonia dos grãozinhos entre os meus dedos e unhas meticulosamente pintadas de vermelho. O seu samba vai ecoar quando eu pensar que alguém acha a minha pele bonita e gargalhou da minha proposta de ficar pink néon (vítima da moda, ora ora!) nos dias infinitos de sal e de praia. Seu beijo com gosto de abacaxi há de conservar o doce da minha boca já desgastada pelo superficial das palavras vazias. E vou sorrir calada quando atestar para mim mesma que sim, o seu cafuné era mesmo melhor que o do vento, mesmo quando eu disse inúmeras vezes que não só para me divertir com a provocação ao ver surgir a rivalidade com o abstrato na sua testa. Agradeço pelas estrelas que você caçou e me deu em tantas noites de leveza, elas estão na bolsa que carrego comigo todos os dias contra o tédio absoluto da rotina. Desculpa por ter atrapalhado seu violão tão concentrado em lirismos com meus pedidos insistentes para que você abrisse a lata de leite moça na urgência indizível do brigadeiro pós-amor. Prometo que, em nossos amanhãs que querem existir, escutarei os seus apelos poéticos para desligar o meu celular que não pára de tocar e rompe a ânsia de nós dois. O medo da abstinência de você é tão grande que deliro (imagine só!) até mesmo ao concordar com a idéia de não mais ficar de mau humor quando você me despertar tão cedinho pra te acompanhar ao mar e jogar naquela prancha o teu corpo que conhece tão bem as curvas do meu. Nos teus abraços despreocupados e nos teus beijos tão entregues, menino, eu encontrei tudo aquilo que acreditei ter perdido.

Ouve as ondas? Pois então, desde longe elas embalam tudo que fomos e a vontade bem mansinha que repousa no querer que ainda há. Acho que é a sensação ilustrada daquela saudade azul que a gente achava que ia sentir quando chegasse a hora que quisemos repelir. Mas fizemos um pacto pela não-melancolia e pelo bem-estar absoluto de cada coração e, por isso, bravos como somos, seguiremos. Ainda há poesia. E haverá. Nós sempre teremos os horizontes, mas, veja bem, só quero dizer que a sua música composta e o calor de ti me fazem uma falta desgraçada neste inverno desafinado e sem propósito nenhum de existir.

Suas notas, meu querido, são as minhas também.

E, quando você me perguntar de novo, eu agora vou saber responder (sem pensar em demasia!) que prefiro mesmo é ser feliz. Já que razão – assim, razão mesmo – eu nunca vou ter. Nem mesmo por um triz.

Guardando o sol para cada chuva que há.

Deixe um comentário