Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Diálogos da Invisibilidade IV: Caçando luas.

9 de setembro de 2013 por Camila

‘Assim, na América, quando o sol se põe, eu me sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey, e consigo sentir toda aquela terra crua e rude se derramando numa única, inacreditável e elevada vastidão, até a costa oeste, e a estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando naquela imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças
 devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e você não sabe que Deus é a Ursa Maior? A estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria, reluzindo pela última vez antes da chegada da noite completa, que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia, e ninguém, ninguém sabe o que vai 
acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice.’

(KEROUAC, J.)

Não, eu não me levantei do sofá pra ver o eclipse. Nem a chuva de meteoros. Nem o arco-íris depois da tempestade. E muito menos Vênus grudada na Lua. Vênus? Por sinal, a Vênus é uma louca que, nessa proximidade da regente das emoções humanas, causa uma hecatombe nos corações. E, anos depois, esses estragos ainda ecoam nesse músculo involuntário e senhor de almas.

-Não vi nada a olhos nus, mas vi fotos de todos esses fenômenos (palavra que sempre me meteu um medo enorme, diga-se de passagem), fique sabendo. Acho tão bonita a escuridão do céu, sabe? Aquele momento em que as estrelas mais próximas não mais se acanham e se fazem visíveis, mostram para nós uma luz multicor e a gente fica brincando de impossível ao contá-las ou a procurar a constelação que é talvez de onde viemos cada um. Quem sabe um dia seja para lá que voltemos, né? Mamãe sempre me disse que viramos estrela quando fugimos ao alcance dos olhos terrenos. Ela nunca falou de paraíso e nem de inferno, fala sempre do cosmos e de tudo que ali parece tão secreto. Já te disse que queria ser astronauta quando era pequena? Imagina, ficar por ali flanando entre poeiras, escorregando nos anéis de Saturno (ele sempre me pareceu muito bravo, veja bem!) e fugindo desesperadamente dos buracos-negros (socorro!) e cometas desgovernados. Quem sabe fazer um ou outro amigo de três olhos, dois narizes e cinco bocas. Talvez esses verdinhos-azulados entendam melhor das coisas do que nós, não é? Quem era mesmo que pedia ajuda a eles? Acho que era o Raul, mas minha memória já não é mais tão prodigiosa quanto foi na minha infância.

Foto é menos real? Menos real que o quê? Que o céu repartido e rabiscado pelos prédios de São Paulo? Desculpe, mas eu não sei como enxergar coisa alguma num céu loteado em centímetros cúbicos pelas alturas absurdas dessas construções verticais. Mais horizontes e menos fronteiras entre nós e o céu, por favor!

Nem todo mistério é passível de ser visto. Mas nem todo mistério é fundamentalmente secreto: Ainda que nada óbvio, é possível ser sentido se você se fechar para tudo que é menor.

E eu? Eu sinto tudo em mim e sinto tudo de tamanhos diferentes, é por isso que às vezes nem eu posso comigo mesma. É justinho por isso que tanto sou desproporcional, descabida, desequilibrada e deslocada. Tudo que sinto é em ebulição demais. Toda a regência dos astros. Toda a influência das marés. Todas as fases da lua. Todos os desejos de Netuno. Todos os cochichos das brisas. Todas as gotas de chuva. Toda entrega. Todos os hormônios. Toda a imprevisibilidade. Toda negação. Toda vontade. Todo destempero. Todo do outro. Todo você.

A astróloga já me mandou tomar cuidado com o que quero. Com as minhas tendências. Com os meus vícios. Com os meus exageros. Com meus devaneios. Com a profundidade desnecessária que aplico ao comum. Com a poesia que nunca parece cegar meus olhos. Com a rejeição à normalidade e à padronização do mundo homogeinezado e genérico. Com a ruptura completa e violenta aos vínculos rasos de gente vazia. Com a luxúria, a profanidade, a ira, a gula…

Sou uma pisciana louca (olha o pleonasmo, garota!) e desregrada que anda morrendo de medo do tolhimento e da proibição que leva ao cinismo compulsório. Uma romântica que anda convivendo com a antítese de frear impulsos e conquistar coisinhas burguesas. Uma amante há anos dos silêncios das madrugadas e das solidões encontradas nas esquinas da minha casa, do meu corpo e das diferenças do mundo. Uma companheira eloqüente dos amigos de muitas vidas, das conversas sinceras, das discussões passionais e dos diálogos inaudíveis a quem não pode reconhecer a mágica que há na sintonia. Uma insensata tão consciente que anda procurando por onde perdeu muitos dos seus pedaços (você viu algum deles por aí?). Uma desastrada que troca os pés pelas mãos e anda tropeçando pelas pausas de mil compassos de um tempo qualquer. Uma crente em lealdade vagando num mundo perdido em competições vãs, mesquinhas e vaidosas. Uma desmedida que faz mais do que pode e menos do que deve. Uma descompensada que não sabe quando e nem como alguma coisa será, por fim, suficiente. Uma sonhadora que acha que o que realmente importa não tem preço, mas que paga caro por cada hedonismo que insiste em cometer. Uma insana de paixões incontroláveis, indizíveis e que se apagam mais rápido que a centelha de uma vela que quer brilhar no meio de furacões (-falta o elemento terra no seu mapa astral, é por isso -, me disse a dona que conversa com estrelas.) Um espírito livre que sempre quer ficar, mas que vai embora sem nenhum aviso claro ou festa de despedida. Uma completa irresponsável com as coisas supérfluas e apegos pequenos. Uma errante que pula no abismo de olhos abertos pra poder contar depois como foi fantástica a experiência da vida.

Por onde anda a minha estrela do Oeste, afinal?

Kerouac, seu velho safado, me responda.

'Me preguto si las estrellas se iluminan con el fin de que algún día cada uno pueda encontrar la suya.'
‘Me pregunto si las estrellas se iluminan con el fin de que algún día, cada uno pueda encontrar la suya.’ (El Principito)

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Diálogos da Invisibilidade III: Do por vir.

8 de setembro de 2013 por Camila

‘I wanted those waters to be blue. And they were not. They were the nighttime waters, and how I suffered then straining to remember the seas that a young man’s untutored senses had taken for granted, that an undisciplined memory had let slip away for eternity. The Mediterranean was black, black off the coast of Italy, black off the coast of Greece, black always black when in the small cold hours before dawn. (…) What can the damned really say to the damned? I never stepped ashore at Piraeus. Yet in my mind I roamed the Acropolis at Athens, watching the moon rise through the open roof of the Parthenon, measuring my height by the grandeur of those columns, walking the streets of those Greeks who died at Marathon, listening to the sound of wind in the ancient olives. (…) And yet nothing turned me from our quest and nothing could turn me, but over and over, committed as I was, I pondered the great risk of our questions, the risk of any question that is truthfully asked; for the answer must carry an incalculable price, a tragic danger.’

(RICE, A.)

Entrou apressada no Starbucks, sentou-se sozinha com um livro nas mãos e comeu um cinnamon roll quase se engasgando. Fugia da garoa e do cinza do céu. Enquanto a fome ia embora em parcelas de mordidas agora lentas, ela fechou os olhos e re-ilustrou mentalmente algumas das cenas daquele verão de promessas esquecidas. O drink de limão limpava a garganta do açúcar e as memórias obsoletas pareciam ainda mais frias e distantes.

Porque a chuva inspira tanta poesia e solidão? Porque aquele sentimento tão comum de melancolia ao olhar o mar salgado e nublado que vi naquela tarde de ressaca? Porque esse maremoto travestido de calma? Porque o eterno quebrar e desconstruir? Porque castelos viram ruínas com forças mínimas de pressão? Que segredos vão e voltam nestas ondas? Quantos amores se afogaram? Para onde vão as pessoas quando nossos olhos não as alcançam mais? E porque tornou tão cinzento um verde que era vivo? – indagou.

E não conseguiu ignorar as perguntas que se sucederam a estas e outras mais. Não eram necessariamente perturbações filosóficas e literárias que mudariam o mundo, eram apenas questões ilusórias e sem respostas repetidas por vezes e mais vezes em cada história dos outros, em cada violência, em cada ruptura, em cada abandono, em todo o amor. E ela nunca lidou bem com a falta de respostas para suas milhares de perguntas. Era incômodo viver sem saber. Parecia simplesmente insensato e um desperdício refocilar na ignorância de todas as coisas que lhe tangiam. E eram muitas as coisas que pertenciam ao seu universo de plurais. E foram muitas as pessoas que fizeram abrigo por ali. E tudo isso era parte do que ela era. Ou ela era inteira.

Fez cara de nojo ao recordar da maresia em seu cabelo e lembrou do profundo desespero que lhe causava a areia molhada entre seus dedos dos pés. Agradeceu por estar longe da umidade, do sal e já devidamente calçada com as velhas sapatilhas vermelhas que pisavam livre de graciosidade o concreto bruto que era a sua realidade.

Mas se era isso a vida, então que fosse possível encontrar formas mais doces de viver. E que fosse sempre novidade se insistisse em ser a mesma. No fim das contas, ela tinha uma certeza inabalável que as coisas iam dar certo. Porque tudo existia para funcionar, afinal. Funcionaria. E pronto. Me contem uma coisa bonita de vocês que eu garanto o meu final feliz, pensou.

Afastou a exaustão dos mil pensamentos recorrentes, deixou-se molhar pelas gotinhas leves, suspirou profundamente, sorriu com a sutileza que traz o sossego, abriu o guarda-chuva resignada pelo medo da pneumonia e caminhou sem rumo, mas segura de que a cada passo chegaria mais perto de um lugar seu.

'To unpathed waters, undreamed shores.' (SHAKESPEARE, W.)
‘To unpathed waters, undreamed shores.’ (SHAKESPEARE, W.)

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Contos de Verão IV: Matheus.

8 de setembro de 2013 por Camila

Para quando você existir.

Matheus: É assim que você vai se chamar. É assim que eu imaginei você.

Chegando abruptamente com todas as suas certezas, as suas arrogâncias, os seus acertos. E os seus eventuais erros, ainda que você tenha sido terminantemente proibido de cometê-los sucessivamente. Invadindo a minha vida com o seu jeito seguro de quem tem a mais brilhante das mentes que ocupa espaços de mundos tão comuns, com a idéia de você me perturbando no meio do meu banho ou emaranhando meus cabelos tão longos.

Sendo meu Édipo tão sério e ostentando o seu sorriso torto, quase desaprovando tudo aquilo que fiz durante meu dia por ser tão abstrato e distante de resultados a curto prazo. Mas aplaudindo em silêncio todos os meus desafios e horizontes criados. Falando – de vez em quando, é bem verdade – que inveja o meu poder de desconstruir e recomeçar: Reconstruir castelos e demolir o ordinário dos dias que levam ao tédio e à dor.

Zombando da minha moral e de uma suposta pureza que trago em mim, mas respeitando cada centímetro da formação do meu ser e do povo que chamo de meu. Compartilhando cada sonho, desenhando com perfeição um futuro em nós, planejando com cuidado como realizar cada uma das minhas vontades de menina mimada e de mulher imprevisível para que eu nunca queira ir embora e acabe- perdida-por-aí-com-essa-minha-cabeça-avoada e perguntando preocupado: ‘Já pensou você sem mim? Quem ia te cuidar pra te colocar os pés no chão quando sua cabeça passeia entre nuvens?’. Sendo uma força da natureza que me rompe barreiras e me obriga a ir além, porque sendo nós, sou eu também você e você também sou eu. Somos partes. E somos todos por completo de todas as formas que se pode ser dois sendo um.

Espantando-se com toda a minha capacidade diária de surpreendê-lo com minha irrevogável mania de acreditar em tudo e em fadas, que se choca tão fortemente com a sua visão nada fantasiosa e muito prática de mundo. Falando pela décima quinta vez que aquela moça não é mais apropriada pra você. Que eu sim sou (im) perfeita pra você. E que se você sendo cético como é pode perceber isso, como pode que isso ecoe na minha ignorância e passe descrente nos meus misticismos?

Ouvindo atentamente quando digo bem séria como se fosse falar alguma coisa realmente importante: ‘Pensa numa pessoa que gosta de você… Eu gosto tanto de vocêzinho.’ E, fechando os olhos quase satisfeito, me abraça tão forte que quase me quebra os ossinhos da costela e do pescoço, deixando a marca dos dedos na minha pele e rindo quando eu te acuso dessa violência abominável e irreparável.

Morrendo de ciúmes dos amores que já foram meus, mas sabendo que só com a liberdade que você me dá eu posso realmente ser feliz. E que, no meio de tantos outros amores, eu te amei muito mais. Olhando para mim como uma criança olha para um presente de aniversário ainda embrulhado. Sendo mistério em mim. E eu em você. Ainda que eu te conheça como a mim e você me saiba como a si.

Abaixando o som que eu deixei ligado a plenos pulmões (você fica me aterrorizando dizendo que estou enlouquecendo os vizinhos e que eles vão nos processar, mas daí me acalmo quando lembro que você é mesmo um gênio com essas coisas todas de processo e que ninguém vai me defender tão bem perante um juiz) quando chega em casa e reclamando da minha lista musical que não faz o menor sentido, embora seja tão apurada e você goste um tanto assim.

Rindo da minha eterna cara de gringa que não consegue deixar a tez em cor nem mesmo no verão, e aí eu te lembro que mesmo assim você insistiu em mim no meio daquele lugar barulhento e tão cheio de outras pessoas bronzeadas e possibilidades em pleno janeiro.

Sentando confortável ao meu lado, com cheiro de roupa limpa e de sonho realizado, e tendo paciência pra assistir Jules et Jim comigo, mesmo quando eu choro naquela mesma cena repetidas vezes.

Oganizando nossa rotina que eu desordeno inteiramente com meus horários incompreensíveis para trabalhar, comer, dormir e acordar, mas secretamente adorando a minha atemporalidade e o meu desprezo por tantas coisas concretas que compõem o seu mundo que tanto te cansa. Eu, a rainha do modo soneca do celular. Você, o horror à procrastinação. Nós, a hora certa depois de pessoas desastrosamente erradas.

Tendo uma certeza quase amedrontadora que eu sou mesmo sua e feita quase que sob medida pra você porque sou eu que consigo te livrar da cretinice, da mediocridade, da imbecilidade e da mesmice da gente que você é obrigado a conviver.

Falando eloqüentemente e com pouca paixão sobre coisas que eu nem tento entender de um universo que me enfada (e que também não te inspira sentimentos nobres), mas sendo eu capaz de um conhecimento profundo do que você é, do que você quer, do que você precisa. Aliviado por saber que é no meu colo que você cabe e é no meu corpo que você se encontra.

Fazendo as contas das viagens, dos jantares, dos bens. Porque, você sabe, nem que a minha vida dependesse disso, eu saberia calcular 10% de coisa alguma ou como declarar meu Imposto de Renda, coisa que você faz meticulosamente bem só para que eu te adore ainda mais e efusivamente te chame de ‘meu herói’ como uma donzela de outros tempos em apuros na burocracia do mundo moderno. Mas você continua perdendo a conta dos beijos, do tempo do abraço e do amor que nos deixou tão juntinhos nesse frio todo dessa cidade maluca que é parte inseparável de uma terra de ninguém.

Sendo feliz com o que somos, com a nossa paz, com o nosso canto. Romantizando o que me cabe de parcela, mesmo que não entenda muito bem porquê o faz e justifica que é para meramente ‘evitar a fadiga’ da minha histeria freudiana.

Gostando de me ver brava, mas me trazendo muffins de banana com chocolate e uma hortênsia azul de corte quando estou de TPM. Beijando minha testa, me abraçando e dizendo pela milésima vez que eu não estou gorda e que sou linda mesmo que eu não acredite nisso. Por mais bonitinha que eu fique de mau humor, você costuma dizer que tem amor a vida e que a sua impaciência com hormônios e estética reversa em hipótese alguma supera o seu instinto de autopreservação. Foi a sua sabedoria que me conquistou, enfim, já te disse isso.

Sendo meu equilíbrio e meu paralelo, quando eu te sou linhas curvas.

Esperando que eu adivinhe o que você quer ou porque quase me odiou por cinco segundos durante as nossas brigas, mas nunca me deixando esquecer que nenhum dos dois está autorizado a ir embora ou a desistir enquanto amor houver.

Indo dormir em outro quarto porque eu tenho um jeito especial de ser insuportável quando quero e voltando por decisão própria (embora eu engasgue em apelos mentais) pra nossa cama porque já se acostumou mesmo com a minha chatice e está quase imune a ela.

Ficando irritadíssimo com a minha intolerância ao seu orgulho ferido e a sua vaidade simplesmente porque eu te vejo além da máscara que você veste quando sai de casa. E que, justinho por isso, eu te vejo maior e melhor.

Envergonhando-se por ser acostumado a todo tipo de convicção, mas tendo naquela noite o rosto carregado por uma dúvida imensa se eu casaria com você quando você colocou aquela aliança linda de brilhantes que era um sonho de consumo no meu dedo e que me remetia àquela-cena-de-um-dos-meus-filmes-preferidos-com-a-mulher mais-elegante-de-todos-os-tempos-comendo-croissant-na-vitrine da mesma loja que você comprou. Pensei por meio segundo que nunca o havia tomado como um homem que dá atenção a detalhes tão singelos e que podem ser facilmente batidos, e, nesse instante me vi injusta como nunca antes. Eu estava com as unhas tão mal feitas que quase nem te dei a mão, mas emudecida e com lágrimas nos olhos que me afogavam com a sorte de ter encontrado o meu homem, te disse um sim apaixonado com todos os meus órgãos e defeitos. E não acreditei no tamanho da sua coragem e nem nas notas diferentes que ouvi em Wonderful tonight’ naqueles momentos de múltiplas nuanças de um tempo que parou e virou para sempre. Um eterno 20h40 na Rua Amauri. Hoje posso te confessar que ao mesmo tempo em que enxerguei, deixei de perceber todos os outros rostos daquele restaurante que você me levou quando fez público o seu amor e prestei atenção só no seu, que estava mais lindo do que todos os dias em que te achei tão lindo. Vi somentem os seus olhos de menino que eu nem sabia que eram tão meus assim, mas que agora eu sei.

Para mim, os livros do Neruda. Para você, o que para mim são códigos. Para nós, discussões interessantes sobre teoria política (denominador comum de dois) por intermináveis horas na escuridão da noite e quase sempre regadas à taças de vinho que você sabe escolher tão bem entre garrafas que me parecem – sinceramente – todas iguais. Você me acha sã no meio de toda minha loucura e eu bagunço o seu cabelo, amasso o seu terno, faço piada da sua gravata e tiro os seus óculos só pra te provocar e pra te provar que eu te amo de todos os jeitos. Eu, teimosa. E você incapaz de cessar um argumento, dizendo que o não-recuar é coisa da sua profissão e que foi treinado para ser assim. Nós não temos razão de nada, mas sabemos conviver com a ilusão de sermos coerentes num lugar de insensatos.

Matheus: É assim, em três sílabas, que você vai se chamar porque foi assim que eu te quis. É assim que eu djavaneio e toco seu nome para poder falar de amor. É assim que eu te pronuncio como se estivesse falando no sincretismo de um amor em si e sem dó. É assim que eu vou querer te levar para conhecer os meus e te colocar dentro de casa e da vida. É assim que você vai ser porque foi assim que eu idealizei que fosse em você a história que eu escrevi para mim. Porque foi, sobretudo, assim que eu escolhi você e que te batizei um ser (im) perfeito em mim.

'...Se você soubesse como eu gosto de suas cheganças, você chegaria correndo todo dia.' (BUARQUE, C.)
‘…Se você soubesse como eu gosto de suas cheganças, você chegaria correndo todo dia.’ (BUARQUE, C.)

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Quarta-feira.

2 de setembro de 2013 por Camila

-Éramos tão felizes, não? Acho que fomos felizes desde a noite em que eu te vi pela primeira vez. Tão linda de vestido vermelho esvoaçante, cheia de certezas e sorrisos largos no meio daquele festival tão sujo de rock’n’roll e daquela gente tão estranha… E você hoje sabe o quanto eu te persegui pela cidade quando você desviou de mim sem nem saber que eu estava ali. E foi tudo tão fácil, amar você, eu digo. Você facilitou tanto pra mim querer te pedir em casamento meses depois quando estávamos completamente bêbados naquelas colinas irlandesas. Você me fez acordar sabendo do que eu nunca soube antes sobre todas aquelas coisas de depois do arco-íris que você cantava e que existia naqueles filmes esquisitos em preto e branco que você gostava tanto.

-Sim, sempre fomos felizes. E casar com você foi a melhor escolha que eu fiz. Você foi uma grande escolha. O grande acerto na minha vida até hoje. E eu não sei o que aconteceu. Eu acho que a gente se perdeu da gente. Acabou a nossa sintonia com o nosso tempo. É tão triste que talvez tenhamos tomado atalhos de comodidades pelos caminhos misteriosos que é o coração de cada um, né?

-Eu te amo tanto. Isso tem que ser suficiente, não pode que haja nada maior que isso a pesar em decisões. Você é tão leve. Será que a gente não pode se buscar de novo? Se a gente tentar, talvez a gente se encontre nos muitos caminhos possíveis. Você não acha que a gente vale a pena? Por toda a comida quente que eu sopro antes de deixar você comer para que não queime a boca nessa sua sempre pressa de terminar logo o que está fazendo para pular numa velocidade estonteante para a próxima atividade. Por aquela madrugada que você nem se sabia minha e que ficou chorando no meu colo por causa daquele seu ex tão complicado. Você já era para mim desde ali. Você sempre foi para mim. Porque sou eu que entendo que você, sendo tão tolerante, nunca soube ser paciente. Porque sou eu que sorrio convicto do que somos quando te escuto falar sobre quão fabuloso Nietzsche é ao despertar. Porque sou eu que adormeço cantando Everlong pra você e com você tão desafinada insistindo em cantar junto aos meus ouvidos musicalmente tão críticos. Porque sou eu que te abraço a noite inteira sem te incomodar enquanto dormimos. Porque é o meu All Star tão velho e tão batido que combina perfeitamente com as suas sapatilhas impecáveis. E sou eu que não rio dessa sua obsessão pelo Elvis e por esse seu túnel do tempo imaginário que te leva de volta aos anos 50 e eu tenho que ir lá e te trazer para o mundo de wi-fis, bluetooths e QR Codes em que vivemos. Porque sou eu que não morro de medo de andar de passageiro enquanto você dirige descompensada. E sou eu que morro de medo enquanto dirijo e tenho que te puxar pela cintura porque você bota a cara pra fora da janela e fica berrando uma canção qualquer ao vento, sua doida.

-Eu sempre vou achar que a gente vale a pena por tudo isso e pelo buquê de trevos que você me deu enquanto eu sonhava acordada com a sorte que eu tenho mesmo em tantos tropeços. Eu vou me importar da mesma maneira como me importei quando você me beijou e disse que me amava com sete dias de namoro. Você sabe que você me assustou. Eu só nunca te disse que você me fez acreditar em mágica, em final feliz e na possibilidade de amar e ser amada ao mesmo tempo. E eu acredito até hoje por sua causa. Acredito por estarmos aqui tentando consertar uma coisa da melhor maneira que podemos ao invés de jogá-la fora sem meias palavras e luvas de pelica, mesmo trombando no inseguro e tateando no escuro. Acredito porque você me convenceu que quando a gente se beijava e ria ao mesmo tempo, o mundo inteiro sentia inveja de nós porque tínhamos conseguido nos encontrar entre almas errantes. E, sobretudo, porque éramos felizes. Mas veja o tempo verbal que usamos pra falar do que somos. A gente continua merecendo muito mais do que aquilo que podemos nos dar agora. E, droga, pára com isso, você tá me fazendo chorar e, sabe, eu realmente não quero que seja em dor porque nós nunca existimos em dor. Sempre fomos cura de saudade e da crueldade do mundo…

-Mas… Onde foi que erramos? Quando o tudo deixou de ser suficiente? Você já tinha deixado pra trás essa onda errada de achar que não merece ser feliz e toda essa autosabotagem adolescente. Me fala? Foi por falta de beijo na testa e torta de maçã durante a TPM? Foi ataque de insatisfação crônica e desconstrução de alicerces? O caos pelo caos?

-Eu não sei. Mas eu preciso de um tempo. Eu preciso ir embora. E eu não estou falando isso pra ser nenhuma filhadaputa, mas, eu ainda te amo muito. Só que eu tenho que ir pra qualquer outro lugar que não seja agora, que não seja aqui.

-Agora que já descobrimos que não somos perfeitos, podemos voltar a ser feliz?

Pronto. Foi aí, neste instante, que ele soube que a batalha estava vencida. Ela ia embora, ele sabia. Mas ela nunca ia esquecer da força do que ele disse por último. Ele não sabia que isso ecoaria por tantos anos na cabeça dela, mas as palavras eram despretensiosamente inesquecíveis. Foi exatamente o que estava genialmente escrito no bilhete mal cuidado em uma folha amassada de caderno que ele mandou por debaixo da porta para ela depois da primeira e única briga dos dois. Mas ele era grande em pequenos gestos. E a nota tão breve e assinada pelo apelido que se chamavam veio acompanhada por delicados vasos de todas as cores de Violeta que ele tinha conseguido comprar do vendedor no meio da rua e equilibrar até chegar no apartamento dela. Ela riu baixinho quando lembrou que ele só sabia o que era uma Violeta por causa dela e de suas manias esquisitas. Ele dizia que, como todas as outras garotas que ele conhecia preferiam rosas, então a maioria dos homens tratava qualquer outra flor como um mistério e mal sabiam se era de comer ou de enfeitar. Mas, por causa dela e pela diferença que era ela aos olhos dele, ele descobriu a existência de Orquídeas, Hortências, Angélicas e, como não poderia deixar de ser, Amor-Perfeito.

Ela baixou a cabeça, suspirou e deixou escapar uma lágrima que se perdeu num sorriso. E ali, do encontro daquele paradoxo, renasceu a certeza que um dia quase partiu de dentro dela. E, por fim, ela lembrou que só ele pode transformar um dia ordinário como todas as quartas-feiras em toda Quarta-Feira De Dia Especial Do Primeiro Beijo dos dois. E comemorar com ela como se fosse novidade. E daí tudo perdeu a importância e a urgência era outra.

Ela então não quis mais ir e nunca mais foi.

E eles são.

'Arrastando o meu olhar como um ímã...'
‘Arrastando o meu olhar como um ímã…’

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Diálogos da Invisibilidade II: Recaídas.

2 de setembro de 2013 por Camila

‘…Te preguntaba sobre esa estrella mientras tu manjo dibujaba el aire, y te ibas conmigo después. Dormí conmigo hasta que me sueñes, te besé la espalda para que te acuerdes que somos uno los dos.’

Ele levou a minha camisa dos Beatles embora depois de uma noite mal dormida na minha cama em um amanhecer preguiçoso e sem perspectivas. Tudo bem, eu sempre preferi os Rolling Stones mesmo, pensei. Mas daí a devolvê-la em um par de dias com lembranças, resquícios de pele, olhar pidão e cheiro do que somos já é muito desaforo… Bati a porta. Já vai tarde, cretino. Sentei no chão e chorei até quase odiá-lo pela sucessão interminável de seus erros e a ter pena de mim mesma e do que eu quero. Comiseração e auto indulgência estragam todo o trabalho que tenho em me convencer diária e exaustivamente de que foi-mesmo-melhor-assim.

De rir juntos. É disso que mais sinto falta, mas ele nem sabe. É essa a memória que mais me perturba, sou só humana e ele tão lindo com aquele jeito atrapalhado de ser e amar. É justinho esse o futuro que mais me apavora: O de nunca mais encontrar alguém que me faça rir até fechar os olhos, até a barriga doer, até o ar faltar, até a bochecha queimar, até perder o medo da entrega completa e da vulnerabilidade. …É de quando ríamos juntos que sinto mais saudades, idiota. Você com seus personagens e vozes dubladas para acabar com a minha fome e o stress do meu dia, eu com o meu gosto peculiar por piadas que não fariam rir a mais ninguém. Porque você me levou isso? Porque me deixou traços tão sérios nos lábios? Porque o siso? Porque esse meu novo cinismo engole minha gargalhada que era tão inocente? Entender não adianta, nada vai mudar em nós. Não precisa responder, canalha. Você não é mais o você de mim. Você não tem mais o direito de consertar o meu dia e nem a minha vida. Fugi das elocubrações e levantei do sofá para tomar um banho e me livrar de mais reminiscências de sua alma, de seu corpo, de seu suor, de seu hálito de vinho, de sua saudade sufocante e de seu coração caótico. Ele, ele, ele, ele… Tudo era dele e para ele retornarás. Não!

Depois dele os meus domingos são claras manhãs, a minha semana é de rotina e o meu sábado é dia de escolher a solidão do pijama de flanela ao invés dos barulhos, dos convites, dos mais-do-mesmo, dos amigos de ocasião e de toda a gente errante noite a fora que não se parece em nada com ele e nem carrega a mesma graça em ser. Padecer dessa eterna ressaca sentimental é sua culpa, imbecil. Me dê de volta minha capacidade de acreditar em alguém além da vaidade e da insegurança, mais aquém dessa bagunça emocional e dessa ignorância sobre o sentir.

A água quente escorre e dessa vez sim, o odeio. É ódio, de-fi-ni-ti-va-men-te, só pode ser! Odeio que ele me manipule a dizer sempre sim, a ser sempre dele, a me fazer derreter inteira em sua boca, a não me deixar ir embora quando sabe que eu preciso, a me deixar saber que ele (incontestavelmente) conhece cada centímetro do meu corpo melhor que eu mesma, a me pedir pra ficar pra sempre com flores, mãos e gentilezas. Eu não vou voltar, amor meu. Eu não sou mais a sua de você. Agora é tempo de ser a minha de mim. Eu te quero muito, eu vou sempre te querer muito. Mas eu não posso mais com tudo aquilo que você representa, com esse me invadir de mundos, com esse seu amor por mim tão de verdade e cheio de falhas, com o transbordar desavisado dos arroubos românticos, com a delicadeza vinda do arrependimento e com a constância da indecisão. Não, irrevogavelmente, eu nunca mais vou deixá-lo me ver só mais um pouquinho, nem mesmo pra entregar a camiseta. O pouquinho desarruma a cama, a cabeça, o juramento, o nunca mais e a decisão.

Desato os mil nós do meu cabelo molhado e me convenço de ter a certeza absoluta que às vezes a inteligência emocional precisa prevalecer sobre tanto querer, sobre o tanto que somos – digo – que fomos, ele e eu. Sobre o tanto qualquer que sejamos. Você não deveria jamais ter me devolvido essa maldita camisa, palhaço. Nunca me trouxe o vinil dos Mutantes nem o livro do José Agripino de Paula, porque fez questão desse trapo de pano que já está até desbotado? Há anos compramos essa camiseta juntos naquela viagem que fizemos a Londres, eu sei, eu também me lembro que eu escolhi a do Rubber Soul e você a do Revolver logo depois que cruzamos a Abbey Road de mãos dadas e sorrisos postos. Ahhhhh, eu te amo. Sai de mim. Sério, me deixa. Nenhuma palavra foi dita em viva voz.

Pensamentos desordenados, quereres atravessados, mágoas do maior amor do mundo, vontades superficialmente controladas, histórias vividas e quase que brutalmente rompidas, lágrimas fundidas a sorrisos e milhares de outras singularidades minha e dele não serão suficientes para me fazer acreditar em promessas de dias azuis de comerciais de margarina ou em roteiro hollywoodiano de comédia romântica. Eu sempre fui uma garota muito mais dada ao existencialismo de Truffaut e da Nouvelle Vague, enfim. Concluí. Tudo em silêncio.

Chá amargo na caneca de porcelana e a inevitável compreensão de que isso tudo me mete medo com tanta grandeza. De que vivemos, eu e ele, a balada do amor sem fim cheio de nãos e sins e tudo que há entre essas possíveis concessões. Um amor igual a tantos outros em tantas partes, mas esse era dele e era meu. Um sentir tão doído e amordaçado que habita um espaço que já não cabe um nosso e subjugado a existir num tempo débil em refazer o desfeito, em tomar de volta a flecha lançada ou emudecer cada ouvido a palavra dita e desdita. Mas era incapaz, este tempo, também de apagar o muito que sobrou, a aspereza da barba dele na minha tez, o toque profundo e o entender mútuo em silêncio. Eu ainda não tinha esquecido o porque de tanto tê-lo amado. E eu sabia que, quando ele me olhava, ele também não tinha esquecido de porque ficamos juntos tanto tempo e muito menos das razões que fizeram ele cruzar a cidade e ficar na minha porta com uma camiseta velha na mão me esperando chegar pra dizer que todo o resto era menos importante. E que ele se importava. Que iria sempre se importar com a garota que era dele e dele somente. Você quer que eu te prometa um final feliz quando eu nem sei se eu te posso prometer um dia de sol, meu amor. Eu não posso mais. Aqui chove muito. Que o que ele sentia era mesmo uma adoração tão grande que ele não conseguia dormir e que, num impulso, agarrou a camiseta que jogou no fundo do armário pra abafar a coisa qualquer e dirigiu o mais rápido que pôde mesmo sabendo que eu ainda demoraria algumas horas para chegar em casa porque ele conhecia meus passos incertos e retornáveis ao mesmo lugar de onde saía já que eu sempre esquecia alguma coisa em algum lugar e isso justificava todos os meus atrasos com tamanha excelência que ele era mesmo capaz de aceitar um ritmo só meu. A minha urgência em dizer sim era tão grande que me quase sufocou. Escuta, você não quer entrar pra tomar um vinho e fazer as coisas ficarem bem por pelo menos alguns minutos por nós? Sei lá, brincar de placebo, doses homeopáticas de paliativos, o desapego lento. Tentar aceitar que alguma coisa não foi partida com tantos abraços? Me dói muito, também. Mas você sabe que eu não posso. E nem você pode mais. É saudade e talvez até um pouco mais, mas, seja como for, não podemos. Dói tanto, eu sei. Silenciosamente e entre olhares emudecidos, a chave parecia saber o que fazer sozinha quando destrancou a porta apesar de uma mão tão insegura girar o trinco.

Por você, por mim, por nós, acabou para sempre.

Mas amanhã é outro dia e a promessa de pra sempre sempre acaba. E eu sei que ele também sabe que é nessa finitude dúbia e frágil que renascem muitas vezes as recaídas, as taças de vinho, o amor inacabado, as noites mal dormidas e a mania que ele tem de atacar a minha gaveta de camisas-limpas-de-todas-as-bandas-que-a gente-costumava-ouvir e usar uma delas na hora de ir embora da minha casa em todo amanhecer preguiçoso e sem perspectivas quando ele finge que vai aceitar a minha decisão de ficarmos longe um do outro.

Sério mesmo, essa foi a última vez e acabou pra sempre.

I love you, I love you.
I love you, I love you.

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