Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


La sorpresa.

28 de novembro de 2012 por Camila

-¿Te acuerdas de mí?

-Sí, creo que para siempre.

Assim começou a retomada de um diálogo textual que a faria sonhar por dias e noites a fio. No sabes cuanta ilusión me haces, cariño – pensou. E, por supuesto, sorriu.

Ela sabia que jamais esqueceria dele. Mas não estava certa se ele lembraria dos olhos verdes de menina que tantas vezes aparentou ser mulher. E, talvez pela incerteza, optou por começar a troca de mensagens com aquela tímida e insegura pergunta.

Lembrou dos olhos nus e castanhos que lhe fitavam (e devoravam!) a alma quase inteira – havia um pedaço virgem e inexplorado que ela guardava para não se sabe quem – e de como ele sempre sabia o que dizer. E quando dizer. Como ele lhe aparentava o tempo todo ser um alguém que sabia, sobretudo, o que fazer. E quando fazer. Não era meramente circunstancial, galanteador ou oportunista, era tão e somente um homem que lhe parecia saber das coisas e dos mistérios desse mundo. Menos dela. Dela, ele pouco sabia. E mostrava o tempo todo o quanto queria conhecer. Ambos faziam-se inéditos em cada um dos rápidos encontros que tiveram.

E aqui abro um parêntese para falar desses encontros. Era quase paradoxal o que faziam com eles. Os minutos passavam rápido entre cada sorriso que trocavam, mas eles conseguiam fazer com que o tempo se arrastasse e quase morresse de preguiça de passar. Talvez o tempo torcesse por eles. Sabiam aproveitar o ligeiro com qualidade. Eram olhares que duravam o suficiente para serem lembrados com um quê de vontade pouco apropriada para a relação que outros estabeleceram para eles. Toques breves que se faziam inesquecíveis, ainda que logo os corpos fossem ocupar continentes distintos. Mas não havia desespero, rispidez, vaidades ou desassosêgo. Veja bem, era fantástico como eles não tinham pressa, mesmo diante do pouco tempo que lhes restava. Era como se soubessem que, sem esforços, um dia haveria de ser o que fosse. Conformados com o próprio destino, em parte porque já sabiam que seria doce.

Há muito não se falavam, mas hoje ela amanhecera com uma coisa muito próxima a saudade. E sentia isso por ele. Era uma vontade de proximidade permeada em calmaria que não sabia explicar o porquê de existir, mas estava ali. Era um chamado. E ele respondeu da maneira mais bonita que permite o bom senso de um desejo não-consumado. Ele viria a seu encontro nesse país distante ainda que não tivessem planejado juntos coisa alguma. Ele chegaria no primeiro mês do ano vindouro quando ela – embalada pelas memórias líquidas de um passado recente e pelo para siempre desse mesmo dia marcado na mensagem do celular – ousou:

-¿Quedamos una cena?

– Claro!!!!!! ¿¡Cómo no?!!!! Será un lujazo para mim.

Ela sorriu (de novo, ele sempre tinha esse efeito sobre ela). Sorriu e, mostrando todos os dentes, começou o contar de horas (agora sim!) apressado para chegada de um tempo em que o próprio tempo queria se arrastar. Em que o tempo queria mesmo era permanecer, queria ser, queria estar, queria ficar. Tudo em transitivo direto.

Ouviu Beatles, imaginou como seria, escolheu a roupa e entendeu Lorca. Tudo isso em átimos de segundos no estímulo de uma mente impiedosamente romântica e fértil.

‘Me he perdido muchas veces por el mar
 con el oído lleno de flores recién cortadas,
 con la lengua llena de amor y de agonía.

 Muchas veces me he perdido por el mar, 
como me pierdo en el corazón de algunos niños.’

Recitou com a língua entre os dentes o poema há muito decorado e teve certeza que neste coração não se perderia, porque ali havia acabado de achar um quinhão do sonho de paz.

Ele se despediu com a promessa indelével de chegar. E agora falando a língua dela:

– Te busco. Beijinhos!!!!!

Mas ele já havia encontrado.

E ela já sabia disso.

…Y que vaya bien.

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Então vem.

25 de novembro de 2012 por Camila

‘- Ela parece distante. Talvez seja porque está pensando em alguém.
– Em alguém do quadro?
– Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
– Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
– Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
– E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?’
(“O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” de Jean-Pierre Jeunet).

Não costumava ser muito precisa, mas hoje tinha guardado bem as horas. Eram 2h48 de uma madrugada de céu de chão de neve e Mick Jagger embalava sua solidão num dos melhores discos de rock – de todos os tempos, que fique claro – que já ouvira. Between the Buttons era mesmo uma obra prima e parecia servir ao próposito de fazer-lhe companhia naquelas horas imensas.

Já estava meio desgostosa com a vida ao se levantar para virar o lado do vinil e encher a taça de vinho tinto quando se viu surpresa com os caminhos que seus pensamentos a estavam levando. –Ele é só um moleque, lembrou. Mas era ele, com aquele ar despretensioso que ele sabia ostentar, que ela queria agora na vastidão daquele sofá para dois ocupado somente por um. Era ele com sua barba mal feita e mãos indecisas que ela sentia acariciar suas pernas no fechar dos olhos. Era com ele que ela queria dividir sorrisos entre músicas e emudecer completamente na contemplação daquele céu de nublagem tão ordinário que hoje lhe parecia especialmente belo. Eram deles os braços em que queria entrelaçar os seus e se aninhar num desejo latente de proteção. Era por ele que ela queria sentir a culpa de ter traído o regime e ter praticado excessos quando sentisse seus dedos incertos e inseguros passearem pela sua barriga e pela sua cintura. Era no ombro dele que queria queria repousar uma mente exausta, ainda que ele não entendesse e nem quisesse saber o porquê de tanto cansaço e complicação.

Não havia ponto comum entre essas almas e por isso gritou por ele. Urrou em silêncio numa tentativa vã de alcançá-lo e arrancá-lo da surdez de uma vida tão distante da dela. Acreditou com cada pulsar de seu corpo que talvez aquele gemido o pudesse trazer para junto de si. Como se pudesse fazê-lo viajar em latitudes e chegar naquele apartamento tão longe do dele naquela cidade enorme que alimentava solidões. Era quando queria que um grito iniciasse histórias ao invés de acabar com todas elas. Um gritar de começos entre desconhecidos que talvez pudessem combinar. Uma voz abafada que ansiava por encontros entre eles.

Recordou vividamente do dia em que se viram pela primeira vez. Ela discutia política com gente pouco interessante e manuseava uma edição especial de uma revista do Elvis quando ele entrou na sala que já lhe era sufocante. Ela fez que não o viu e seguiu no diálogo frenético e nada importante, mas secretamente ficou curiosa sobre a sua figura jovem, descomplicada e de lábios castanhos e promissores que comprimiam um cigarro displicentemente. Tinha um rosto particular –  não era necessariamente bonito e nem feio –  mas era tão ele que ela teve que disfarçar a alegria de um novo oxigênio na rotina daquele lugar tomado de um entra-e-sai de gente sem prazer. Ele também conteve a mirada direta, mas lhe dedicou alguns olhares em intenção.

Ele era de uma timidez tão pura que manteve escondido os sorrisos e, quando ousava exibi-los, o fazia modestamente. O sorriso torto lhe encantou, fez dela mulher o suficiente para perceber olhares furtivos e teve vontade de romper a ausência de palavras entre eles e perguntá-lo se tão novo já gostava de jazz ao perceber que ele tinha um trompete tatuado no antebraço. Ela até hoje não entendia aquela música. Talvez não pudesse sentir coisa alguma tão profundamente para perceber o belo e a dor que poderiam haver naquelas notas que existiam apenas pelo dom da perfeição e pela técnica. Em sua imaginação, quase respondeu a própria pergunta ao dizer que era uma garota muito mais do blues, mas continuou apenas discutindo as eleições em São Paulo e escutando teorias políticas absurdas sobre a democracia pós-moderna.

Parou por um segundo para observar que era mesmo incrível o choque do mundo que habitava dentro dela e o mundo real a quem lhe reservava frases feitas e muita preguiça. Falava nos rumos da social democracia depois do pleito eleitoral paulistano, mas, internamente, concluía que I fall in love too easily e quase podia dançar fora de compasso quando Chet Baker pronunciava certas verdades como ‘I fall in love too terribly hard for love to ever last. My heart should be well-schooled ‘cause I been fooled in the past…’

A simples presença dele refrescava aquela monotonia, mas ela precisava ir embora daquele lugar. Haviam outros sonhos naquelas esquinas, amigos em bares e outro cara a lhe esperar numa realidade na iminência de existir. Piscou os olhos como quem acorda de um sonho paralelo que dura alguns minutos, ouviu Trouble no tom enigmático de Elvis uma última vez, se despediu daquelas pessoas que não lhe comoviam em absoluto e pegou a bolsa já muito apressada.

Desceram juntos no elevador e compartilharam andares de mil vozes aonde todos falavam, menos ele.  Ele ficava apenas atento e de vez em quando se permitia ao resto de nós um sorriso. Daqueles tortos que a tinham encantado. Ela podia apenas supor a bagunça que era a vida daquele menino tatuado, fã de jazz e vivendo nessa cidade vertical tomada por tanta fuligem e buzinas que ensurdecem os ouvidos para a poesia que insiste em haver. Ah, mas se ele soubesse do caos ordenado que era a vida dela…

Esqueceu brevemente daquele dia. Ignorou outras lembranças que imploravam por existir. Sufocou a expectativa. Voltou para essa noite fria e de abraços partidos. Respirou desesperança. Trocou o vinil porque achou que agora era a vez do Sticky Fingers ilustrar aquele vazio. Manchou os dentes de vinho e sentiu aquele vinagre nada aveludado arder nos lábios ressecados. Suspirou um certo desdém. Esperou consciente pela ressaca do amanhecer. E balbuciou:

-Vem, menino.

A semiótica do sentir falta do que não se sabe. Mas se é.

P.S.: Acordou para escrever esse texto. Escreveu no celular. Perdeu todo. Recuperou-se da frustração. Sentou-se no sofá. Reescreveu-o. Não é mais o mesmo e nem tem a mesma alma, mas insistiu em fazer-se presente na urgência de existir contra todas as apostas. Enfim, ei-lo.

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Números.

21 de novembro de 2012 por Camila

Estou exausta de pautar a minha vida por números: o dia do mês, as horas marcadas, os kilos que ganho e as gramas que perco, a faixa do disco acústico no som do carro, a escassez dos meus acertos, o sapato que me aperta, o tamanho da calça jeans, as gotas do remédio, a quantidade de amigos, os sonhos esquecidos, os centavos, as vontades que surgem, as calorias, o contador de palavras do editor, a idade impiedosa que não tarda em chegar, o salário, a minha altura, os erros que cometi e os que ainda não tive tempo de fazer, o começo-meio-fim de cada coisa, as manias, o egoísmo do dividir sem se dar, os minutos famélicos do despertador, a quantidade de pessoas da fila que me furtam a vez, as ruas inertes, o atraso do outro, a velocidade limitada em dois dígitos, o quanto falta, o muito que tenho, a precisão de uma fita métrica, a desgraça de um tempo sem tempo de existir, a demora para que chegue o que se espera, o grau da febre, o tamanho do apartamento, as medidas assimétricas do corpo, o valor das grandes coisas, a mesquinharia do dia a dia, o enorme tédio de uma régua e as favas contadas…

Há algo inumerável e inquantificável nesta vida?

Porque é isso que eu quero.

As estrelas. O infinito. A água do mar. O amor de verdade. A estupidez. O perder de fôlego por muitos segundos que só uma gargalhada permite. A respiração profunda. Os eus. Os tus. Os dias de sol. As gotas da chuva. Os flocos da neve. As folhas secas. A primavera em flor. As histórias que teremos para contar. A soma de tudo que somos. O cheiro de casa. As sementes da melancia. O caminhar. O idílico. A íris da alma. As tardes em azul. A inspiração. A graça de estar. O suave. Os horizontes. Os banhos de lagoa. O vento que faz cafuné. O sublime. A preguiça besta da manhã. O fechar dos olhos. A beleza do sentir. O abraço que não finda. A poesia que há. O identificar com a arte de outra pessoa. O beijo ansiado. O perdão. A liberdade. A ambiguidade das lágrimas. A sensação de estar no lugar certo na hora certa. A busca. Saudades honestas. A leveza do esquecimento. As pontes entre nós. O conforto da própria pele. A rebeldia. O desapego. A pressa de ir e de vir. O reinventar. As urgências. A tenra infância. A batida incansável do coração. A imaginação. O ritmo da música que nos habita. O reconhecer. As escolhas. As curvas. As estradas. As contradições. A lucidez. Os livros na estante. A loucura inocente. Os filmes que contam de nós. As cores nos quadros. Sorrisos sinceros. O desbotar das fotografias. Os recomeços. As colheres de açúcar. As promessas que se cumprem. O encontro. A falta do exato. A calma. A lembrança. O novo. As nuvens. O meu tempo, porque ele é tudo que sou. 

E os números – vãos e efêmeros que são – não contam o tempo. Eles matam o tempo. Fazem da nossa principal matéria algo ordinário, comum e cotidiano. E o tempo é tudo que nos resta. É a nossa poesia viva. É o nosso pulso.

…Quero mais de tudo aquilo que que seja imensurável.

Que seja eterno, pois. Que seja mais justo com a imensidão que é a vida.

Que o contar seja somente de conto. E de canto.

Que encante!

Sublimando e brincando de abstrato.

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Quem sabe de mim sou eu.

20 de novembro de 2012 por Camila

‘Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, da quedas, dos medos, dos choros.’

(ABREU, Caio F.)

Das minhas compulsões, da voz rouca, do meu acordar descabelado e do meu adormecer emudecido. Das olheiras das noites insones. Da opacidade do olhar. Da bagunça interna e contrastante. Dos lençóis sujos de tanta limpeza. Da castidade amedrontada. Da recusa do dia. Da insegurança vaidosa. Da confrontação entre o que quero e o que posso, do sonho puro com a realidade bruta. Do muito que sobra e do pouco que me falta. Da proteção. Da vastidão. De estar trancada num mundo de possibilidades. E de não saber o que fazer. Do pavor que causa a farsa. Da autosabotagem. De ser carceireira da própria prisão. E do apego à fantasia.

Quem me vê sorrindo, não imagina os pensamentos exaustos que me escravizam e que me atravessam a mente em dó dissonante. É uma luta estar inteira. É convencer-me todos os dias que tudo ainda vale a pena. E que ainda há um sorriso para dar.  Há o inédito na próxima esquina.

Sou eu, também. Eu e o que Pessoa chama dos eus de mim.

Meu carro de rolimã, minha cara de romã e a tal inspiração de Rodin…

Tateio – ainda trôpega e de ressaca do porre de abstinência que ando tomando diariamente há anos – o que me alcançam as mãos em busca de papel para contar-lhes sobre as minhas urgências e minhas bebedeiras abstêmias. No guardanapo e de improviso irresponsável, falo depressa. Digo do que pareço não saber. Só que eu sei. E talvez eu não conte. Mas há aqui uma solidão insistente.

Sou eu um mundo que permite poucos, mas abraça muitos. Sou eu o próprio horror iminente de ser incompreendida, abandonada, difamada, desaparecida, ingrata. Subversiva, corajosa, imatura, arrogante. E burra. Mas não me arranquem as asas agora.

Abraço-me a minhas delícias e deixo para depois – por mais aluns minutos, talvez – as minhas dores. Tudo que eu sou.

Silencio. Respiro. Esqueço.

‘Que seja doce’, sussurro.

E apago a luz.

Agora sem fantasmas.

Só o cansaço de ser.

Múltiplos e plural.

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Um conto sem ponto.

8 de novembro de 2012 por Camila

Brasília, março de 2006: Conheci Ana na faculdade. Era pequenina, com traços delicados, sorriso acolhedor e capacidade intelectual gigantesca. Tímida e doce, pouco falava. Mas quando ousava pronunciar as sílabas que passeavam em sua mente, fazia a diferença.

Nunca fomos amigas, mas trocávamos sorrisos e simpatias pelos corredores ou quando tínhamos a sorte de cair na mesma sala. Ambas estávamos quase sempre com os rostos enfiados em livros recomendados por um professor ou um colega e os rápidos diálogos que tínhamos eram grandes trocas para uma e para outra.

Seríamos jornalistas.

Ela discorria sobre cultura e fotografia. Eu era apaixonada por cultura e fotografia, mas não fazia idéia de que caminho ia trilhar. Tinha uma vontade enorme de salvar o mundo, mas o plano elaborado me custava a sair do papel. Até mesmo porque ainda não existia em papel algum. Em comum, divagávamos.

Éramos também as nossas paixonites e admirações por colegas com a barba mal feita, nosso apreço pela vida acadêmica, a cumplicidade com aquele mestre querido, algumas implicâncias com uma ou outra asneira pronunciada em viva voz e sem nenhuma vergonha na sala por algum aluno desinteressado (e desinteressante!) e poucas certezas.

Por esses inexplicáveis caprichos do destino, fomos ao mesmo país dar segmento aos estudos que começaram naquele cerrado pouco efervescente e de horizontes infinitos. Ah, quase esqueço de comentar, mas nós duas também enxergávamos um potencial poético enorme naquela capital cheia de concreto já rachado. Ana fotografava. Eu escrevia. O mesmo tema. O mesmo tom.  A mesma linha. A mesma Asa. O mesmo Lago.  Se Ana escreveu, não tive a sorte de ler. Fotografei, mas não sei se ela viu.

Hoje paro para pensar e já fazem seis anos desde que fomos apresentadas pela risada dada na mesma hora. Não lembro se ríamos de alguém que falou alguma bobagem fenomenal. Mas Ana não era irônica. Eu, sempre. Acho que o sorriso trocado foi de simpatia ao primeiro olhar.

As redes sociais – que as vezes só espelham a solidão de cada um de nós – nos permitiram continuar com a troca de elogios e admirações mútuas. Se tornaram o meio e o canal da recomendação de livros e filmes e saudades daquele outro país peculiar. Nunca perdemos o diálogo pontuado pelo que é interessante e pouco efêmero, ainda bem. Ainda não somos amigas, mas mantemos uma relação bastante positiva.

Pois bem, há alguns dias Ana me surpreendeu com uma mensagem que é puro carinho e incentivo. Quem tenta escrever sabe o quanto é difícil se mostrar em palavras. Conhece exatamente a provável dor – e o delírio – de se desnudar da vaidade e mostrar-se tantas vezes frágil, indecisa, corruptível e incerta. Correr o risco de parecer idiota pode ser libertador, mas o preço a pagar é a quantidade de praga que você recebe pelo silêncio do anônimo. Há tempos andei me privando do talvez, mas hoje me mostro. Os pseudônimos não mais me escondem ou se transformam na proteção que eu tanto busco. Mas é abrindo mão de tudo isso que posso receber a resposta que me chega de almas como a de Ana,  que dão coragem para seguir nesta sangria de sanar angústias. E é para celebrar a vontade de ir adiante que transcrevo aqui trechos de um diálogo que me coloriu e me encantou pela gentileza, pela doçura e pela capacidade de se abrir com aquele velho sorriso perdido e pouco empoeirado nos corredores da universidade.

Marcela, descobri seu blog hoje. Tive que vir lhe escrever porque estou ‘passando mal com seus escritos. É como se suas palavras saíssem dos meus pensamentos – nem todas, mas uma maioria que me assusta. Estou passando por loucuras mentais que envolvem decisões – das quais, claro, não sei qual é a ‘certa’. Existe uma certa? Você escreve incrivelmente bem, adorei. Já pensou em publicar um livro? Eu seria sua leitora assídua, pelo menos uma fã você já tem. Rs Obrigada pela poesia dos teus devaneios… continue com o blog, por favor! Amei. Beijocas, 
Ana.

 

Aninha, vejamos… Como posso agradecer ou retribuir um carinho desses? Desses tão lindos que chegaram embrulhados pra presente em palavras tão generosas…? Minha querida, obrigada. 
Há tempos não escrevia nada que não anonimamente e tem sido importante esse retorno, esse exercício de esquecer da vaidade das minhas certezas e me desnudar reconhecendo minhas dúvidas. É muito bom receber esse afago, esse apoio e esse incentivo. Se por um lado fico feliz com este reconhecimento nas minhas linhas, por outro também sei – empiricamente! – o quanto essa fase é difícil.
Não sei se tem um caminho certo, mas esperança (e malemolência!) pra caminhar por ele não me falta…
 Cada dia é uma idéia, a última foi pedir demissão.
Hahahahahahahahhaa Uma vez mais, obrigada.
Estou extremamente envaidecida e orgulhosa com a sua mensagem.
Se eu puder ajudar, me diga. Cante comigo. Há melodia. Um beijo no coração, 
Marcela.

 

Marcela, não há o que agradecer, eu é que te agradeço! Pelas belas palavras, pela paz que transmite, pela poesia que vibra dos seus pensamentos. Obrigada por compartilhar isso, é lindo demais! As ideias são muitas, o mundo está cheio delas. Mas há poucas pessoas com coragem (por exemplo, de expor) – como você. Eu mesma sou muito medrosa, infelizmente. A vida agora está me dando fortes beliscões para eu encarar uma parada de frente, sem me esconder em comodismos ou desculpas esfarrapadas. Namoro há 4 anos, e há alguns meses já não estou mais feliz. Achei que fosse uma fase, mas não passou. Depois, como consequência (acho), comecei a me interessar por outro, o que não está nos planos de quem namora, certo? E agora, o que fazer? Como? Quando? rs… São tantas variáveis que até nem sei. Acho que pedir demissão estaria mais fácil – ou não! Rs Mas me conte, você pediu demissão mesmo? Está bem? Obrigada mais uma vez. Nosso contato virtual me alegra demais, demais. Beijos, 
Ana.

  

Lindo demais é receber uma resposta dessas. O resto é só vento. Escreva, Ana.
 Escreva anonimamente, mas escreva. Fiz isso por um tempo e é bom desapegar e queimar demônios. É uma liberdade fantástica escrever sem assinar. Vale a pena. Eu me demiti porque eu não estava mais feliz. 
E a gente precisa estar feliz, né? As coisas precisam ser possibilidades. Tudo precisa ser possibilidade todo o tempo.
E talvez isso lhe sirva como uma resposta pra guiar a direção da vida e ir pra onde você quer. Porque o que ela quer de nós, mesmo, é coragem. E eu sei que tem um coração que bate bravo por aí. A alegria é pura recíproca, me acredite.
E vá me contando dos próximos capítulos.
Como eu disse no texto que subi esses dias, me sinto como um pássaro livre por ter tomado uma decisão. Danei-me com outras variáveis e com a nostalgia dos outros caminhos que não escolhi. Simplifiquei.
 E respirei fundo. 
Não posso ter uma vida onde meu coração não esteja. Abraço apertado, menina.
 E voe. Marcela.

 

Ana, obrigada pela generosidade. Grata por você ser tão humana debaixo da superfície sempre serena que lhe reluz a tez. Vai ser sempre maravilhoso passar os olhos por estas linhas em todas as horas que eu duvidar. Você é, também, inspiração.

Um beijo e que a perturbação continue a nos mover entre centelhas de ansiedade como nos faz caminhar há tanto tempo,

Marcela.

E voe, Ana. Voe sim!

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