Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Cheganças.

31 de agosto de 2013 por Camila

Para Victor, por tudo que você representa em mim.

Parecia-lhe que sempre havia uma certa mística permeando a ambiguidade das lágrimas vistas nos aeroportos: as da alegria eufórica e incontida das chegadas e as das iminentes e inadiáveis dores da partida. Ainda que haja volta, ponderava, o tempo não se permite calcular. E a sua passagem se torna sempre um mistério aos nossos olhos tão efêmeros. Em aeroportos, todo o decorrer dos segundos é fugaz.

Então esperou num caminhar nervoso e ansioso. Com as pernas, acompanhava os ponteiros do relógio. Ou olhava de relance para os indicativos digitais entre uma ou outra troca de palavra com estranhos que lhe pediam direções. Checou mais uma vez  o terminal, o portão, o vôo e as horas. Eram muitos números e quase todos eles, ainda que carregado de informações, lhe diziam muito pouco.

Prostrou-se na saída daquela porta de vidro desajeitada e meio suja. Suspirou, impaciente. Soprou a franja. E então a razão para existir naquele dia fez-se presente. O desembarque, por fim, lhes permitiria a ruptura de uma saudade.

Ele saiu daquela sala tediosa já com os braços abertos e os olhos emocionados de lágrimas de mar na cidade cinza. Abraçou-a forte, não como que sentindo a ausência dos sete anos passados, mas com a cumplicidade inquebrantável que só os anos de intensidade lhes haviam garantido.

Pausa.

Alguém mais desavisado pode pensar que conto sobre um amor romântico de encontros no meio de um mundo de desencontros. Mas falo mesmo é da amizade de duas almas que se acharam sem estarem perdidas.

Depois de minutos entrelaçados e perfeitamente acolhidos num entendimento mútuo e merecido, sentaram num bar improvisado como tantas vezes já fizeram antes. A trilha sonora, entretanto, já não era aquele punk rock juvenil que sempre tocava no carro dele naquelas noites de porres homéricos, mas o incessante barulho de pousos e decolagens. De promessas e partidas. De juras, quiçá, quebradas. Riram histericamente. Confidenciaram sobre essas intermitências estranhas da vida, da morte e de todas as outras coisas entre uma e a outra. E, em algum ponto e outro de um diálogo eloquente, seguiram surpresos e gratos ao destino que lhes havia permitido uma permanência na história de cada um. Os dias que chegariam, disseram um ao outro, eram cheios de dúvidas e inseguranças, mas algo dentro deles se tranquilizava por saber que se teriam. Eles acreditavam que num mundo que gira tão rápido, ter algo que ele chamou de ‘incondicional’ era uma preciosidade cabível apenas ao coração. Mas ela gostava de pensar que tinha um quê de alma por aí. Ela e suas explicações místicas. Ele e as excessões à racionalidade que abria somente para ela.

Falaram por cinco horas do que foi, do que poderia ter sido e do que talvez viria a ser num dia qualquer. Sentiram a nostalgia de um novo tempo. E, pela primeira vez, um certo medo do futuro. Mas voltaram ao pretérito perfeito e ela lhe fez saber o quanto ele era constante nela própria. O quanto ela lhe fizera seu desde a primeira vez em que o vira. O quanto eram vívidas e líquidas as suas lembranças de momentos vacilantes e cheios de poréns em que ele lhe apoiou com olhares silenciosos e com palavras imbuídas de desespero e disfarçadas de gritos pelo despertar de algo maior, de méritos, de discordâncias e de felicidades possíveis. O quanto era ele, também, uma lucidez pura, entorpecida e embriagada. E como eram sobreviventes de todas as estruturas que eles mesmo criaram. Ali, naquele momento, souberam que o que haviam construído era fino e que a distância travestida de tempo não ousou apagar. Sobre aquela amizade repousava a ação misericordiosa de memórias prodigiosas. E se entreolharam com essa certeza.

O momento da partida se aproximava e, com ele, o outro lado da lágrima. A ânsia de não poder parar o tempo. E o tempo – ele, de novo! – que já não cabe no tempo.

-Nós não temos uma música para chamar de nossa depois de tanto tempo de amizade, Vic.

-Fique tranquila, vou escrever uma em que cante a nossa história.

-Vai com Deus, meu velho amigo. E conserve pulsando esse coração bonito que me cabe.

-Eu amo você incondicionalmente. Obrigado pela sua amizade.

Um beijo na bochecha rosada e salgada de emoção da menina. Mais um abraço. Ela, agora, de ponta de pés.

E um ‘adeus’ que chegou subtraído de dor pela certeza palpável de que sempre iriam se encontrar mais uma vez. Fosse em fragmentos de anos ou em cada palavra escrita. Fosse pela força das lembranças ou pelas possibilidade de criar novas histórias.

Eles sabiam se esperar.

And so remember: 'not all those who wander are lost.'
And so remember: ‘not all those who wander are lost.’

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Contos de Verão III: Seu nome e o meu caminho.

31 de agosto de 2013 por Camila

‘¿Quién escribe tu nombre con letras de humo entre las estrellas del sur? Ah, déjame recordarte como eras entonces cuando aún no existías.’

(NERUDA, P.)

-Um dia, sei lá quando foi, eu percebi que a boca dele parecia um coração e os olhos dele tinham a cor de todos os mares da minha infância, e daí fiquei com vontade de beijá-lo, entende? Foi só isso. Sem amor, um certo pudor e quase nada de poesia. Tudo que é hoje veio somente do depois…

Aquele depois que trouxe em palavras claras e toques cuidadosos a projeção quase filmada em película. Um depois disfarçado de sorrisos furtivos. Um tempo do depois que quis existir através de olhares sedentos e desejos lascivos pela minha pele branca. O depois de amanhã entrelaçado na calma de que depois existiria e o cheiro dos meus cabelos. De que depois era hoje, esse entardecer quando o sol fosse quase amanhã.

Mas, foi naquele depois que todas as estradas pareceram mais longas na noite de expectativas em que tua boca beijou outra que não a minha.

-Um estrago por tão pouco. Tão pouquinho, quase nada. Sabe? Tudo drama meu, tudinho de mim. É quando ele consegue te fazer querer mansinho e, de repente, ao passo errado, fazer ruir uma construção tão frágil e pobrezinha: Um casebre que eu tinha construído para nós dois lááááá na beira da lagoa só pra ver o sol nascer e se pôr bem laranjinha. Você entende, né?

Me abracei a velha solidão de ilusões estilhaçadas, vesti um pijama desajeitado, arrumei os óculos que queria escorregar nariz abaixo por lágrimas quase doces, tentei ler um livro otimista de qualidade duvidosa e dormi ignorando o sol que brotava entre nuvens.

-Deixei o verão para mais tarde, sabe? Para uma outra vez, de novo. Preferi o frio artificial do ar condicionado que, junto ao meu coração que implorava por ser mais cínico, liguei no modo polar. Você entende, a gente tem que se proteger desses ladrões de amanhãs e semeadores de ilusão. Acho que todo mundo que já viveu alguma coisa de adolescência já passou por isso, digo, por esse desconstruir medonho.

Portanto, Querido Meu, adeus. Adeus e nunca mais beijos na nuca e na ponta da orelha quando vivíamos a idéia da despedida aonde já se sabia presente um novo encontro. Ou uma nova forma de se encontrar um no outro, velhos desconhecidos que somos.

Até nunca mais, mais uma vez. É duro me despedir de tudo aquilo que poderíamos ter sido se não fôssemos eu e você. E que fomos em mim, sem você.

Desencantos do talvez.

-A boca dele ainda é de coração, sabe? Mas, contrariando toda a lógica, não tem nenhum gosto de amor. Nenhumzinho. E os olhos dos mares da minha infância? Puro fingimento. Pura ressaca. Que nem aquela maluca lá, a Capitu, lembra?

A sua imagem quando você não existia era muito mais doce…

Mais uma vez o mesmo filme. Eu e você já nos esquecemos antes.
Mais uma vez o mesmo filme. Eu e você já nos esquecemos antes.

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Contos de Verão II: Do que não foi.

31 de agosto de 2013 por Camila

Ela se disse sincera desde o princípio: estava estava ali fugindo.

Fugindo de sensações, fugindo de histórias interrompidas e mal-acabadas, fugindo do que não existiu, fugindo de vontades e fugindo, sobretudo, de todas as fugas que habitavam nela e lhe corroíam em silêncio.

Insistiu que nem gostava daquele som e nem costumava se arrumar tanto assim para sair, mas foi. Foi porque fizera um pacto consigo mesma de rever os próprios conceitos e de deixá-los derreter sob o sol causticante daquele verão. Mais um verão de promessas que insistem em existir. Estava disposta a procurar a felicidade naquelas pílulas placebos e práticas. Naquilo que não tinha que dedicar horas pensando e nem lendo correntes filosóficas gregas. Aquela coisa de estar a procura do estoicismo perdido, sabe? Pois bem. Já sabia o que dizia Aristóteles e Zenão de Cítio em suas teses, mas queria agora o empirismo mais puro possível.

Foi vestida de mar, então. E deixou luzir o brilho que queria haver nos olhos.

Sentindo mais uma vez a pontada de não pertencer àquele lugar, de não saber como se portar ali e a inadequação irrestrita a tudo que dividia consigo aquele espaço, resolveu baixar a cabeça e se sentir patética por uns cinco segundos. E foi aí que viu aquele all star azul. Levantou mais um pouco o olhar e parou naquela bermuda jeans completamente desbotada, rasgada e despretenciosa. Já achando que nem tudo estava perdido, não deixou de notar que ele usava camisa de algodão. E sorria do jeito mais torto possível.

Havia uma possibilidade no meio de tudo aquilo que era tão pouco dela? Ele estaria perdido também? Ou estava fugindo das mesmas assombrações? Não, ele parecia sinceramente confortável. Ele simplesmente sabia o que fazer. E onde estava. E toda essa certeza a deixou curiosa ao ponto de seguí-lo com olhos gulosos por toda a noite. Mas sem que ele soubesse, é claro. E dentro da brincadeira das íris, viu que ele também a olhava inquieto. Provavelmente pensando quem era aquela que parecia tão em descompasso com o ambiente e o que ela fazia naquele lugar que pouco combinava com tantas tatuagens.

Quem era ela?

Quem era ele?

Quem poderiam ser um para o outro?

Por capricho do destino, nunca se souberam.

E jamais se pertenceram dentro de um mundo em desagravo.

Nunca dançaram juntos em ritmo algum. E ficou o gosto amargo do que poderia ter sido.

Só uma lembrança de não ter sido.
Só uma lembrança de não ter sido.

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Contos de Verão I: Do resto do verão que não vi.

31 de agosto de 2013 por Camila

‘Oh these little projections how they keep springing from me, 
I jump my ship as I take it personally.’

(MORISSETTE, A.)

 

…É tragicômico como – uma a uma – as rejeições vão somando-se a outras e começam a minar qualquer traço estrutural de uma autoconfiança que dilata os poros da alma pela vontade de existir.

Aí, como qualquer pateta solitário que divide o espaço com pelo menos 500 outras pessoas igualmente sozinhas em quase vida, você começa a questionar qual o seu problema e ignora por completo o fato de que na maioria das vezes as pessoas não funcionam na mesma sintonia ou que pode haver alguém na vida desse outro alguém. E põe-se a (como evitar?) fazer o check-list mental: o cabelo está em dia, a roupa está limpa, a maquiagem está intacta e o papo nunca deixou de ser interessante.

E sabe, é um esforço tremendo para não sucumbir a esta vontade enorme da autosabotagem de dizer que a culpa é sua. Dá-se início a outra check-list infinda – cuidadosamente escrita pela idéia do amor próprio – e você, finalmente, decide que ‘quem perde é ele.’ E as amigas ecoam em uníssono o clichê que precisa – peloamordedeus! – ser real.

Mas, bem de dentro, você ainda alimenta a frustração do que poderia ter sido se você fosse mais assim. Ou menos assim. Fica nutrindo eternas mágoas sobre mais uma possibilidade estilhaçada pelo peso de sabe-se-lá o quê. Sobre mais uma história interrompida pelo precoce não que sobrepujou o talvez e a expectativa de um tímido sim. Sobre a cansativa construção de fantasias e a demolição daquele pensamento que te fazia sorrir.

Você não está sozinha.

E o sentimento particular é compartido em silêncio com milhares de outras pessoas, mesmo na ausência da cumplicidade em perceber.

Seja. E deixe estar.

Amanhã é outra promessa, talvez até mesmo um dia de encontros daqueles que se perderam. É a tal da semiótica, quando nada é o que parece quase ser.

Mais amanhãs.
Mais amanhãs.

‘Oh these little rejections how they disappear quickly 
the moment I decide not to abandon me.’

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Casa.

2 de dezembro de 2012 por Camila

‘-Oye, Manuel, yo sé mucho de psicología, porque pasé más de un año entre lunáticos y terapeutas. He estado estudiando tu caso y lo que tú tienes es miedo – le anuncié.
-¿De qué? – Y sonrió.
-No sé, pero puedo averiguarlo. Deja que te explique, esto del orden y del territorio es una manifestación de neurosis. Mira el lío que has armado por unos miserables calzones; en cambio ni te inmutaste cuando un desconocido se llevó prestado tu equipo de música. Tú tratas de controlar todo, en especial tus emociones, para sentirte seguro, pero cualquier babieca sabe que no hay seguridad en este mundo, Manuel.
-Ya veo. Sigue…’
(ALLENDE, I.)

Você me pegou pelas mãos e disse ‘vem pro meu mundo’ de uma forma tão corajosa que não pude recusar. E era um lugar tão bonito, Benzinho. Passeamos despreocupados, sorrimos, dançamos, acabamos com a sede com gotas de chuva, já não tínhamos fome graças à bolinhos de céu e nos perdemos naquele infinito de muitos caminhos em que uma escolha não anulava uma outra possibilidade. E eu me senti por inteira num canto seu.

E me foi tão difícil convidá-lo para entrar e permitir que você fizesse parte do desbravar de terras áridas e apavoradas pela idéia de um novo abandono, sabe? Mas você foi forte e lutou pelo seu direito óbvio de pertencer a um mundo meu. Pouco manso, é bem verdade, mas inteiramente meu.

Quando dei por mim, você venceu pelo cansaço e, fazendo jus ao usucapião por justa causa, já tinha feito morada no último pedaço de terra fértil daquele sertão. E trouxe a alma do luar. Esboçou no rosto o semblante de quem tem paz. Pincelou estrelas e plantou flores de todas as cores e de pétalas suaves. Você disse que ali era bonito, também. E que só precisava de alguns cuidados. Seria como restaurar uma casa esquecida pelo tempo em que você acreditava piamente no valor e na beleza. E que chamaria de lar.

Consertou azulejos quebrados, lixou tintas descascadas, trocou telhas estilhaçadas, demoliu o que restava de ruínas, limpou o mofo deixado pelas infiltrações e reformou cada um dos cômodos. Fez tudo isso com o afinco dos que querem estar ali e com o suor de quem opta por insistir diante da desesperaça dos obstáculos. A cada construir, um pouco mais do crer. A cada erguer, um pouco mais do amor. E agora, Benzinho, me sou completa. Obrigada.

Hoje somos.

Somos mundos, somos promessas cumpridas, somos encontros, somos lugares, somos nós, somos lares.

Do amor de quem se sabe.
Da construção do amor de quem se sabe.

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