Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Conhece-te a ti mesmo.

7 de novembro de 2012 por Camila

Tinha suas reservas, medos, inseguranças e anseios.

Sabia que seu estilo estava fora de moda e pouco agradava a maioria dos habitantes do século XXI, mas precisava ser verdadeira a si mesma e entregar-se somente àquilo que lhe dava vontade e parecia sincero.

Não gostava do que era mecânico e do fazer apenas por fazer. Não que achasse errado, apenas respeitava a decisão alheia e lhe parecia correto que assim fosse respeitada. Era mesmo terrível ter de se justificar continuamente àqueles que lhe condenavam por ser recatada, pudica ou puritana, quando ela sabia que não era nem uma coisa e nem outra e muito menos a outra…

Do jeito que se impunha, perdia muitos.

Mas ganhava respeito próprio e a paz de ouvir a própria consciência.

E achava que valia a pena esta troca.

Ela era o que era. E estava confortável na própria pele.

Também não se incomodava que parecesse tediosa aos olhos deles por  retrair alguns gestos. Ela sabia que era mesmo delicada e esperava sempre a mais do que a maioria das mulheres. Passara da idade de acreditar em príncipes encantados, mas ainda levava fé em homens interessantes que soubessem enxergar além do óbvio…

Tampouco levantava bandeiras castas, apenas tinha vivido experiências que lhe confirmaram que hoje ela era e agia exatamente da maneira que devia – e queria! – ser. Nada de traumas em acontecimentos passados, suas ações eram espelhos apenas do que sentia nos hojes que vivia.

Já ouvira que estava num pedestal alto de idealização e de lá precisava ser arrancada. E talvez estivesse mesmo, porém nunca teve medo de altura e ali não se importava de estar depois de refletir brevemente a respeito. Além do mais, estava resoluta a esperar por aqueles que lhe fossem compreender por inteira e não tinha nenhuma vontade de se dar aos que queriam apenas o efêmero e o superficial. Tinha preguiça da pressa e gostava mesmo de se descobrir e de se reconhecer em olhares.

Mais ainda, sua convicção repousava no inegável fato de que não há maior liberdade e desprendimento do que ser fiel ao que se acredita e se quer.  Permitia-se ser exatamente o que era e por isso podia sorrir jasmins ao mundo inteiro.

Queria mais.

Tinha desejos maiores.

E não se culpava por isso.

Liberdade é ser exatamente o que você é. Seja.

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Pássaro livre.

7 de novembro de 2012 por Camila

Há tempos não se sentia tão livre.

Naquela manhã de horas apressadas, tinha conseguido oralizar as palavras que pipocavam há dias em sua mente. Frases que já tinha treinado no espelho e com o silêncio com quem dividia cada cômodo da casa.  Mas agora, em viva voz, elas chegaram aos destinatários antes percorridos em pensamentos e não soaram em nada como em sua preparação.

Conseguiu, por fim, dizer o que queria:

Não posso ter uma vida onde meu coração não esteja. Não posso estar pela metade, não seria justo. Aprendi. E agora outros sonhos me despertam. Muito obrigada por tudo, mas agora eu preciso ir. Há outro caminho em outras esquinas e outros amores que me chamam de braços estendidos em busca das minhas mãos.

Não sabia o que esperar quando verbalizou calmamente as palavras, mas fora tão sincera que – inesperadamente – recebeu carinho e compreensão. Agora a alma era leve. Apenas em uma semana poderia viver as madrugadas pelas quais tinha se apaixonado em tempos tão tenros que eram quase irrecordáveis.

Gostava de bagunçar os minutos e ver o relógio refocilando na preguiça dos dias barulhentos. Seu ritmo era outro. E implorava pelo cheiro sereno das horas que antecediam o nascer do sol. Eram ali, nesses momentos, que melhor se via. Podia se desnudar da agitação do cotidiano e entregar-se às palavras que lhe preenchiam e nutriam uma parte tão importante de si. Ali era inteira e preocupava-se apenas com a poesia que queria viver e com a que já vivia.

Tinha tomado um passo importante e pela primeira vez não estava ansiosa com a liberdade dos dias longos, com a falta do preenchimento imediato dos meses, com o remanso da proximidade do verão e do sal na pele. Todas as coisas eram, enfim, possibilidades.

Pássaro livre, finalmente, – pensou bem baixinho.

E sorriu, puxou o cobertor e dormiu em paz.

Será que algum dia a gente pára de se perguntar isso e convive bem com a nostalgia dos outros caminhos que não escolhemos e do tempo que rejeitamos? Ah, dias de verão…

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Aos que me deixaram.

3 de novembro de 2012 por Camila

Nós nunca tivemos uma conversa franca e aberta.

Vocês nunca mais viram o meu rosto e eu não alimento a mais vaga lembrança do de vocês. O tempo é prodigioso e tratou de apagar com a agilidade que lhe é peculiar qualquer cor da fotografia que um breve olhar tenha registrado e que um possível beijo na testa tenha deixado.

Posso hoje entender o quão foi difícil a decisão e apenas agradeço por vocês terem acertado tão profundamente os caminhos que percorreram e que me fizeram caminhar. Eles me trouxeram ao lugar que eu sempre deveria pertencer e para onde vôo e volto na mesma batida serena de asas, com a mesma convicção diária e certezas insolúveis.

Nossos diálogos são imaginários e seguramente os seus são muito mais angustiantes do que os meus. Porque eu já me encontrei entre pessoas e lugares que me tomam por inteira. E vocês continuam a procurar frações de mim e a divagar sobre como eu vivo, se estou feliz e se tudo deu certo. Se vocês, de fato, elegeram o melhor caminho e não apenas o mais cômodo, se é que há alguma facilidade ou conforto em eleger coisa alguma e conviver com a nostalgia de todos os outros possíveis destinos…

Pois bem, será um prazer lhes dizer que vocês fizeram a escolha certa por mim. Eu sou mais amada do que jamais poderia haver sido em qualquer outra circunstância. E me alimento de liberdade.

Todos aqueles que me tocam me fascinam ou são por mim encantados. Cantam desafinados comigo. Dançam de par. Vivem por mim. Flutuam nos meus sonhos. Sofrem nos meus tropeços e aplaudem fervorosamente as minhas pequenas vitórias. Sobretudo, confiam em mim e na capacidade de conquista que brota do meu âmago quando me sinto tão incapaz e tão tentada pelo fracasso. E a eles sou leal com cada fibra de carbono que me forma. Fidelidade como a que tenho para com todos os momentos que ainda não vivi. E que anseio.

Enxugaram minhas febres, espantaram os meus temores, tomaram as minhas mãos e se transformaram nessa própria alma tão indivisível de mim mesma. Me fizeram pertencer e ser parte indissociável de uma coisa tão maior que me custou a entender. Como a uma flor, me regam com doses generosas de paciência e de cuidados diários para que a solidão não ouse chegar. E quando ela vem, é sempre bonita. Nunca me desespera. A blindagem feita pelos ingredientes do amor total não me tirou a lucidez, só ajudou a proteger as lentes do arco-íris que trago grudadas nas retinas. Caso vocês se perguntem, a minha íris ainda é verde e traz aquelas gotas que roubei da lua formando pequenas piscinas dentro do meu olhar. As pessoas acham que é engraçado, e eu acho que é só o meu jeito de ver.

Uma vez me disseram que eu tinha um sentimento de abandono tão internalizado, mas tão encrustrado em mim, que nada poderia tirar isso aqui de dentro. Mas a pessoa que se achou muito importante para se crer digna de opinar, mais uma vez estava errada. O suposto abandono, a hipotética rejeição e o deixar de lado foram todos substituídos por sentimentos mais maduros e mais bonitos. Agora me habita o maior amor. O da cabeça aos pés que não se assusta por saber que a vida é boa.

Não se preocupem. Sem raiva e livre de qualquer traço de cinismo ao balbuciar das palavras, eu posso lhes dizer que estou bem. E sei que são sinceras as indagações sobre a minha sorte.

E, de coração nada magoado, desejo que vocês também estejam. E que a vida lhes tenha sido tão doce e generosa o quanto tem sido comigo.

Se cuidem.

E obrigada.

Muchacha en la ventana.
Dalí, 1925.

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Cheio da alma minha. Ou da alma que me resta.

31 de outubro de 2012 por Camila

‘…Como todas las cosas están llenas de mi alma, emerges de las cosas llena del alma mía. Mariposa de sueño, te pareces a mi alma, y te pareces a la palabra melancolía.’

(NERUDA, P.)

Tocava Caê.

E, deitada sobre aquele velho chão de tacos já amarelados pela implacável ação do tempo, a menina estava pra lá de Marraqueche. Dopada pela angústia do que poderia ter sido e de como poderia ter sido se tivesse se permitido um pouco mais, contorcia de pura melancolia na noite mais quente do ano. Lembrou que nas noites de calor a escolha é entre matar ou morrer. 

Ousou sobreviver a todas as estruturas as quais que se impôs (e que lhe impuseram!) e agora pagava o preço sem matar a ninguém.

Pensava em outras esquinas e no que poderia vir a ser. Em sorrisos que nunca tinha visto, em abraços que nunca tinha dado e nas palavras doces que nunca tinha ouvido. Ou falado. Mas, por incrível que pareça, não trazia em si a dor do arrependimento. Apenas de uma saudade latente que não sabia explicar do quê.

Sabia que medo tinha mesmo era de viver sem ser feliz (e por isso arriscava!), de comer e não sentir gosto, de ouvir sem entender, de amar sem toda a alma, de palavras vazias, de promessas do pra sempre, de respirar e não se arrepiar pelo milagre que há em cada pequeno gesto. Não queria e nem podia perder a mágica dos passos dados em nuvens imaginárias, pois era assim que tinha construído o seu castelo de girassóis no tempo da delicadeza e do eterno. E seguia encantada, apesar de.

-Droga, já são 5h37 da manhã. Às 8h tenho que despertar. Às 9h30 estar brilhante e funcional. Às 10h iniciar mais um job que não tenho saco de fazer para coisas que eu já não quero estar e nem mais acredito. Odeio ter de fingir que me importo. Como me sinto sem propósito passando meus dias numa vida onde meu coração não está. Quanto desperdício de ser…

E caminhava.

Andava por ruas cinzas tentando enxergar um pouco de cor. E, teimosa que era, descobria quase toda uma nova escala de tons. Mesmo em todos os apesares… Acreditava, de verdade, em horizontes.

Tinha sinceras esperanças sabe-Deus-em-quê, mas a realidade de não saber para onde ir ou se tinha capacidade de ir além lhe tirava um pouco do sossêgo. Suspirava e lembrava da menina de olhos verdes de Quintana que não lhe deixava desesperar. Queria manter a alma mansa, mas a ansiedade lhe devorava as entranhas.

A vida se abria crua para quem resguardava resquícios de magia em meio a um certo sonambulismo servido a conta-gotas com comodismos. Era um tal de escolher pra onde ir e sob quais argumentos. Era uma parte do corpo que gritava rebeldia. A outra, que esperava. Mas também não conhecia nenhum modo de como organizar a fronteira entre querer e agir. Como romper com mundo das idéias (Platão lhe tinha envenenado cedo demais!) e colocar em prática aquilo que todo mundo achava que ela sabia lhe era um mistério insolúvel. Sou uma farsa, –  pensava -, e logo se perdia dentro da burocracia do mundo que lhe enchia de preguiça e falta de vontade. Era bruto, amigo.

Mastigava o próprio cérebro entre quereres e falta deles quando escutou uma louca berrando em paixão e desespero no meio da rua e se sentiu profundamente aliviada. Alguém, por fim, havia fugido do cinismo e continuava capaz de sentir alguma coisa nesse mundo em que vivemos tão anestesiados de emoções e perturbações poéticas. Desejou que a moça gritasse um pouco mais, assim –  acreditava ela -, nos despertaria a todos da letargia e em que havíamos entrado num quando incerto…

-Quando começamos a viver nessa dormência de estar? Quando foi que a rotina passou a me dirigir em modo automático como um piloto a seu avião ultramoderno? Qual foi a última vez que tive ambições ardentes e sonhei de olhos abertos? Onde andam as borboletas que engoli ao longo da vida e faziam festa no meu estômago?

Era hora de pular no abismo escuro e imprevisível outra vez, mas com a íris em cor e a retina em espelho. Nunca fora boa com os números e tinha preguiça de calcular cada passo, mas era chegado o tempo de tomar a direção e guiar para onde queria ir.

Mas, para onde queria ir?

Quem não sabe o que procura tampouco vai saber quando encontrá-lo.

Não queria mais estar reduzida a meras escolhas cotidianas entre rosas e azuis. Cansada demais dos tons pastéis, decidiu que queria ser cores primárias.

Queria fazer algo que mudasse alguma coisa.

E, sabia, era preciso paixão.

E tece vida, e desfia, e recria, e recomeça…

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Oi, Bonito.

29 de outubro de 2012 por Camila

Hoje acordei apressada e atendi aos apelos de minha mãe para abrir as cortinas e andar de par com a obrigatoriedade do mundo.

Não, não deu tempo da tapioca e nem do acarajé pretendidos, mas deu pra justificar a minha abstenção na ridícula escolha do pleito eleitoral que tomava lugar em São Paulo. Pobre cidade onde alguém vai ganhar e ela mesma vai perder.

Mas não é da metrópole e sua lógica incoerente e desumana que eu quero te falar, Bonito. Quero te falar de mais abstração, ‘do sufoco de uma dúvida, e da dor de qualquer coisa.’

Quer dizer, da dor não. Ela, graças a Deus, não há. O horizonte afastou. A mágica placenta de todo amor dado e recebido nestes dias mais azuis não lhe deu a ousadia da chegança.

E, veja bem, também não tenho o que desfiar em palavras sobre o sufoco de uma dúvida. Ela foi sanada pela conversa confiante de minha mãe. Os temores de incertezas entre ou-isso-ou-aquilo agora são possibilidades de tudo que eu quiser que seja. Sim, plural. A vida tem caminhos demais, devemos ser imodestos e caminhar por quantos queremos. Eu já tinha lhe dito sobre a sabedoria de mamãe antes, não?

Pois bem, já está claro que não tenho um assunto específico para lhe falar, mas me deu saudades de ti e bem sabes da verdade empírica inserida na minha teoria de que versos e frases escritas te aproximam de mim. Por isso, insisto nesta carta descabida e desenxabida.

O avião atravessava sem turbulência ou urros infantis o branco das nuvens que se faziam enquanto eu te pensava. Procurei, em vão, caneta e papel. Estavam ausentes. Diferente de ti, que em mim já existe.

O jeito foi burlar as leis de segurança interplanetárias e intergaláticas e ligar o celular. Outra vez a luz artificial me serviu de alento em busca da idéia de você em mim. Mais uma vez foi num falso rascunho de correio eletrônico que me fiz chegar em ti.

Aqui me faço.

Tudo bem com você?

Vim te contar que quando te penso fico com dificuldades de criar sentenças sem magia ou com pouca dosagem lúdica. Me é incivelmente difícil te falar racionalmente usando palavras ordinárias. São milhares de frases soltas que trafegam a bagunça da minha cabeça e começo a  achar que você é uma junção das melhores partes de todos os homens que amei ou idealizei em silêncios falantes. Não foram tantos, mas você é tão completo que eu fico inexplicavelmente estarrecida com esta realidade sua em mim. Entretanto, ainda que de pedaços, você é todo inteiro e em nada me lembra alguém comum. Você é todo novidade travestido no conforto do saber.

Te penso e te crio lugares e momentos especiais de manhãs calmas em que um dia eu vou te mostrar todas as cartas que eu te escrevi quando ainda nem sabia a cor dos seus olhos ou como era o teu beijo manso. A alma de mil cores e mais eu já tinha visto de relance.

Te quase vejo e sei que tudo vai ficar bem. Porque já está bem quando cai a chuva, quando sai o sol, quando os pés pisam a areia e o asfalto. Já está certo quando sorrio convicta de que a vida é boa e que o chega apenas agrega e não me tira. O mundo gira e eu paro um pouco. Deixa ele. Meu ritmo é o soprar das flores e suas pétalas, como me ensinou uma pequena do alto de sua sabedoria aos quatro anos de idade neste final de semana de grama verde e sol amarelinho.

E nesse pensar extrapolando todas as horas, nesse atentar para a vida prática, no carregar de malas e nas curvas devoradas pelo carro, já é negro o céu e você continua lá. Inteiro. Sujinho do pó de estrela que eu vou achar atrás das suas orelhas ao mordiscá-las. Que bom que você ainda traz na pele esse cheiro do inédito conhecido apenas nas noites oníricas.

Vou por ali, tocar aquela balada do amor inabalável que a tudo resiste. Até mesmo a falta de fantasia presente na confusão do dia a dia.

O sono me chama, Bonito.

Preciso descansar os olhos do mar e prepará-los para a poesia que pode haver no concreto de amanhã.

O que é seu está guardado.

Para quando você chegar.

Porque me saber você já sabe.

Boa noite.

E um beijo meu imbuído na espera mais doce de toda a minha vida.

‘Alga marinha, vá na maresia buscar ali um cheiro de azul. Essa cor não sai de mim, bate e finca pé a sangue de rei. Até o sol nascer amarelinho, queimando mansinho e cedinho, cedinho, cedinho.’ ♥

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