Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Um conto sem ponto.

8 de novembro de 2012 por Camila

Brasília, março de 2006: Conheci Ana na faculdade. Era pequenina, com traços delicados, sorriso acolhedor e capacidade intelectual gigantesca. Tímida e doce, pouco falava. Mas quando ousava pronunciar as sílabas que passeavam em sua mente, fazia a diferença.

Nunca fomos amigas, mas trocávamos sorrisos e simpatias pelos corredores ou quando tínhamos a sorte de cair na mesma sala. Ambas estávamos quase sempre com os rostos enfiados em livros recomendados por um professor ou um colega e os rápidos diálogos que tínhamos eram grandes trocas para uma e para outra.

Seríamos jornalistas.

Ela discorria sobre cultura e fotografia. Eu era apaixonada por cultura e fotografia, mas não fazia idéia de que caminho ia trilhar. Tinha uma vontade enorme de salvar o mundo, mas o plano elaborado me custava a sair do papel. Até mesmo porque ainda não existia em papel algum. Em comum, divagávamos.

Éramos também as nossas paixonites e admirações por colegas com a barba mal feita, nosso apreço pela vida acadêmica, a cumplicidade com aquele mestre querido, algumas implicâncias com uma ou outra asneira pronunciada em viva voz e sem nenhuma vergonha na sala por algum aluno desinteressado (e desinteressante!) e poucas certezas.

Por esses inexplicáveis caprichos do destino, fomos ao mesmo país dar segmento aos estudos que começaram naquele cerrado pouco efervescente e de horizontes infinitos. Ah, quase esqueço de comentar, mas nós duas também enxergávamos um potencial poético enorme naquela capital cheia de concreto já rachado. Ana fotografava. Eu escrevia. O mesmo tema. O mesmo tom.  A mesma linha. A mesma Asa. O mesmo Lago.  Se Ana escreveu, não tive a sorte de ler. Fotografei, mas não sei se ela viu.

Hoje paro para pensar e já fazem seis anos desde que fomos apresentadas pela risada dada na mesma hora. Não lembro se ríamos de alguém que falou alguma bobagem fenomenal. Mas Ana não era irônica. Eu, sempre. Acho que o sorriso trocado foi de simpatia ao primeiro olhar.

As redes sociais – que as vezes só espelham a solidão de cada um de nós – nos permitiram continuar com a troca de elogios e admirações mútuas. Se tornaram o meio e o canal da recomendação de livros e filmes e saudades daquele outro país peculiar. Nunca perdemos o diálogo pontuado pelo que é interessante e pouco efêmero, ainda bem. Ainda não somos amigas, mas mantemos uma relação bastante positiva.

Pois bem, há alguns dias Ana me surpreendeu com uma mensagem que é puro carinho e incentivo. Quem tenta escrever sabe o quanto é difícil se mostrar em palavras. Conhece exatamente a provável dor – e o delírio – de se desnudar da vaidade e mostrar-se tantas vezes frágil, indecisa, corruptível e incerta. Correr o risco de parecer idiota pode ser libertador, mas o preço a pagar é a quantidade de praga que você recebe pelo silêncio do anônimo. Há tempos andei me privando do talvez, mas hoje me mostro. Os pseudônimos não mais me escondem ou se transformam na proteção que eu tanto busco. Mas é abrindo mão de tudo isso que posso receber a resposta que me chega de almas como a de Ana,  que dão coragem para seguir nesta sangria de sanar angústias. E é para celebrar a vontade de ir adiante que transcrevo aqui trechos de um diálogo que me coloriu e me encantou pela gentileza, pela doçura e pela capacidade de se abrir com aquele velho sorriso perdido e pouco empoeirado nos corredores da universidade.

Marcela, descobri seu blog hoje. Tive que vir lhe escrever porque estou ‘passando mal com seus escritos. É como se suas palavras saíssem dos meus pensamentos – nem todas, mas uma maioria que me assusta. Estou passando por loucuras mentais que envolvem decisões – das quais, claro, não sei qual é a ‘certa’. Existe uma certa? Você escreve incrivelmente bem, adorei. Já pensou em publicar um livro? Eu seria sua leitora assídua, pelo menos uma fã você já tem. Rs Obrigada pela poesia dos teus devaneios… continue com o blog, por favor! Amei. Beijocas, 
Ana.

 

Aninha, vejamos… Como posso agradecer ou retribuir um carinho desses? Desses tão lindos que chegaram embrulhados pra presente em palavras tão generosas…? Minha querida, obrigada. 
Há tempos não escrevia nada que não anonimamente e tem sido importante esse retorno, esse exercício de esquecer da vaidade das minhas certezas e me desnudar reconhecendo minhas dúvidas. É muito bom receber esse afago, esse apoio e esse incentivo. Se por um lado fico feliz com este reconhecimento nas minhas linhas, por outro também sei – empiricamente! – o quanto essa fase é difícil.
Não sei se tem um caminho certo, mas esperança (e malemolência!) pra caminhar por ele não me falta…
 Cada dia é uma idéia, a última foi pedir demissão.
Hahahahahahahahhaa Uma vez mais, obrigada.
Estou extremamente envaidecida e orgulhosa com a sua mensagem.
Se eu puder ajudar, me diga. Cante comigo. Há melodia. Um beijo no coração, 
Marcela.

 

Marcela, não há o que agradecer, eu é que te agradeço! Pelas belas palavras, pela paz que transmite, pela poesia que vibra dos seus pensamentos. Obrigada por compartilhar isso, é lindo demais! As ideias são muitas, o mundo está cheio delas. Mas há poucas pessoas com coragem (por exemplo, de expor) – como você. Eu mesma sou muito medrosa, infelizmente. A vida agora está me dando fortes beliscões para eu encarar uma parada de frente, sem me esconder em comodismos ou desculpas esfarrapadas. Namoro há 4 anos, e há alguns meses já não estou mais feliz. Achei que fosse uma fase, mas não passou. Depois, como consequência (acho), comecei a me interessar por outro, o que não está nos planos de quem namora, certo? E agora, o que fazer? Como? Quando? rs… São tantas variáveis que até nem sei. Acho que pedir demissão estaria mais fácil – ou não! Rs Mas me conte, você pediu demissão mesmo? Está bem? Obrigada mais uma vez. Nosso contato virtual me alegra demais, demais. Beijos, 
Ana.

  

Lindo demais é receber uma resposta dessas. O resto é só vento. Escreva, Ana.
 Escreva anonimamente, mas escreva. Fiz isso por um tempo e é bom desapegar e queimar demônios. É uma liberdade fantástica escrever sem assinar. Vale a pena. Eu me demiti porque eu não estava mais feliz. 
E a gente precisa estar feliz, né? As coisas precisam ser possibilidades. Tudo precisa ser possibilidade todo o tempo.
E talvez isso lhe sirva como uma resposta pra guiar a direção da vida e ir pra onde você quer. Porque o que ela quer de nós, mesmo, é coragem. E eu sei que tem um coração que bate bravo por aí. A alegria é pura recíproca, me acredite.
E vá me contando dos próximos capítulos.
Como eu disse no texto que subi esses dias, me sinto como um pássaro livre por ter tomado uma decisão. Danei-me com outras variáveis e com a nostalgia dos outros caminhos que não escolhi. Simplifiquei.
 E respirei fundo. 
Não posso ter uma vida onde meu coração não esteja. Abraço apertado, menina.
 E voe. Marcela.

 

Ana, obrigada pela generosidade. Grata por você ser tão humana debaixo da superfície sempre serena que lhe reluz a tez. Vai ser sempre maravilhoso passar os olhos por estas linhas em todas as horas que eu duvidar. Você é, também, inspiração.

Um beijo e que a perturbação continue a nos mover entre centelhas de ansiedade como nos faz caminhar há tanto tempo,

Marcela.

E voe, Ana. Voe sim!

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Conhece-te a ti mesmo.

7 de novembro de 2012 por Camila

Tinha suas reservas, medos, inseguranças e anseios.

Sabia que seu estilo estava fora de moda e pouco agradava a maioria dos habitantes do século XXI, mas precisava ser verdadeira a si mesma e entregar-se somente àquilo que lhe dava vontade e parecia sincero.

Não gostava do que era mecânico e do fazer apenas por fazer. Não que achasse errado, apenas respeitava a decisão alheia e lhe parecia correto que assim fosse respeitada. Era mesmo terrível ter de se justificar continuamente àqueles que lhe condenavam por ser recatada, pudica ou puritana, quando ela sabia que não era nem uma coisa e nem outra e muito menos a outra…

Do jeito que se impunha, perdia muitos.

Mas ganhava respeito próprio e a paz de ouvir a própria consciência.

E achava que valia a pena esta troca.

Ela era o que era. E estava confortável na própria pele.

Também não se incomodava que parecesse tediosa aos olhos deles por  retrair alguns gestos. Ela sabia que era mesmo delicada e esperava sempre a mais do que a maioria das mulheres. Passara da idade de acreditar em príncipes encantados, mas ainda levava fé em homens interessantes que soubessem enxergar além do óbvio…

Tampouco levantava bandeiras castas, apenas tinha vivido experiências que lhe confirmaram que hoje ela era e agia exatamente da maneira que devia – e queria! – ser. Nada de traumas em acontecimentos passados, suas ações eram espelhos apenas do que sentia nos hojes que vivia.

Já ouvira que estava num pedestal alto de idealização e de lá precisava ser arrancada. E talvez estivesse mesmo, porém nunca teve medo de altura e ali não se importava de estar depois de refletir brevemente a respeito. Além do mais, estava resoluta a esperar por aqueles que lhe fossem compreender por inteira e não tinha nenhuma vontade de se dar aos que queriam apenas o efêmero e o superficial. Tinha preguiça da pressa e gostava mesmo de se descobrir e de se reconhecer em olhares.

Mais ainda, sua convicção repousava no inegável fato de que não há maior liberdade e desprendimento do que ser fiel ao que se acredita e se quer.  Permitia-se ser exatamente o que era e por isso podia sorrir jasmins ao mundo inteiro.

Queria mais.

Tinha desejos maiores.

E não se culpava por isso.

Liberdade é ser exatamente o que você é. Seja.

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Pássaro livre.

7 de novembro de 2012 por Camila

Há tempos não se sentia tão livre.

Naquela manhã de horas apressadas, tinha conseguido oralizar as palavras que pipocavam há dias em sua mente. Frases que já tinha treinado no espelho e com o silêncio com quem dividia cada cômodo da casa.  Mas agora, em viva voz, elas chegaram aos destinatários antes percorridos em pensamentos e não soaram em nada como em sua preparação.

Conseguiu, por fim, dizer o que queria:

Não posso ter uma vida onde meu coração não esteja. Não posso estar pela metade, não seria justo. Aprendi. E agora outros sonhos me despertam. Muito obrigada por tudo, mas agora eu preciso ir. Há outro caminho em outras esquinas e outros amores que me chamam de braços estendidos em busca das minhas mãos.

Não sabia o que esperar quando verbalizou calmamente as palavras, mas fora tão sincera que – inesperadamente – recebeu carinho e compreensão. Agora a alma era leve. Apenas em uma semana poderia viver as madrugadas pelas quais tinha se apaixonado em tempos tão tenros que eram quase irrecordáveis.

Gostava de bagunçar os minutos e ver o relógio refocilando na preguiça dos dias barulhentos. Seu ritmo era outro. E implorava pelo cheiro sereno das horas que antecediam o nascer do sol. Eram ali, nesses momentos, que melhor se via. Podia se desnudar da agitação do cotidiano e entregar-se às palavras que lhe preenchiam e nutriam uma parte tão importante de si. Ali era inteira e preocupava-se apenas com a poesia que queria viver e com a que já vivia.

Tinha tomado um passo importante e pela primeira vez não estava ansiosa com a liberdade dos dias longos, com a falta do preenchimento imediato dos meses, com o remanso da proximidade do verão e do sal na pele. Todas as coisas eram, enfim, possibilidades.

Pássaro livre, finalmente, – pensou bem baixinho.

E sorriu, puxou o cobertor e dormiu em paz.

Será que algum dia a gente pára de se perguntar isso e convive bem com a nostalgia dos outros caminhos que não escolhemos e do tempo que rejeitamos? Ah, dias de verão…

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Aos que me deixaram.

3 de novembro de 2012 por Camila

Nós nunca tivemos uma conversa franca e aberta.

Vocês nunca mais viram o meu rosto e eu não alimento a mais vaga lembrança do de vocês. O tempo é prodigioso e tratou de apagar com a agilidade que lhe é peculiar qualquer cor da fotografia que um breve olhar tenha registrado e que um possível beijo na testa tenha deixado.

Posso hoje entender o quão foi difícil a decisão e apenas agradeço por vocês terem acertado tão profundamente os caminhos que percorreram e que me fizeram caminhar. Eles me trouxeram ao lugar que eu sempre deveria pertencer e para onde vôo e volto na mesma batida serena de asas, com a mesma convicção diária e certezas insolúveis.

Nossos diálogos são imaginários e seguramente os seus são muito mais angustiantes do que os meus. Porque eu já me encontrei entre pessoas e lugares que me tomam por inteira. E vocês continuam a procurar frações de mim e a divagar sobre como eu vivo, se estou feliz e se tudo deu certo. Se vocês, de fato, elegeram o melhor caminho e não apenas o mais cômodo, se é que há alguma facilidade ou conforto em eleger coisa alguma e conviver com a nostalgia de todos os outros possíveis destinos…

Pois bem, será um prazer lhes dizer que vocês fizeram a escolha certa por mim. Eu sou mais amada do que jamais poderia haver sido em qualquer outra circunstância. E me alimento de liberdade.

Todos aqueles que me tocam me fascinam ou são por mim encantados. Cantam desafinados comigo. Dançam de par. Vivem por mim. Flutuam nos meus sonhos. Sofrem nos meus tropeços e aplaudem fervorosamente as minhas pequenas vitórias. Sobretudo, confiam em mim e na capacidade de conquista que brota do meu âmago quando me sinto tão incapaz e tão tentada pelo fracasso. E a eles sou leal com cada fibra de carbono que me forma. Fidelidade como a que tenho para com todos os momentos que ainda não vivi. E que anseio.

Enxugaram minhas febres, espantaram os meus temores, tomaram as minhas mãos e se transformaram nessa própria alma tão indivisível de mim mesma. Me fizeram pertencer e ser parte indissociável de uma coisa tão maior que me custou a entender. Como a uma flor, me regam com doses generosas de paciência e de cuidados diários para que a solidão não ouse chegar. E quando ela vem, é sempre bonita. Nunca me desespera. A blindagem feita pelos ingredientes do amor total não me tirou a lucidez, só ajudou a proteger as lentes do arco-íris que trago grudadas nas retinas. Caso vocês se perguntem, a minha íris ainda é verde e traz aquelas gotas que roubei da lua formando pequenas piscinas dentro do meu olhar. As pessoas acham que é engraçado, e eu acho que é só o meu jeito de ver.

Uma vez me disseram que eu tinha um sentimento de abandono tão internalizado, mas tão encrustrado em mim, que nada poderia tirar isso aqui de dentro. Mas a pessoa que se achou muito importante para se crer digna de opinar, mais uma vez estava errada. O suposto abandono, a hipotética rejeição e o deixar de lado foram todos substituídos por sentimentos mais maduros e mais bonitos. Agora me habita o maior amor. O da cabeça aos pés que não se assusta por saber que a vida é boa.

Não se preocupem. Sem raiva e livre de qualquer traço de cinismo ao balbuciar das palavras, eu posso lhes dizer que estou bem. E sei que são sinceras as indagações sobre a minha sorte.

E, de coração nada magoado, desejo que vocês também estejam. E que a vida lhes tenha sido tão doce e generosa o quanto tem sido comigo.

Se cuidem.

E obrigada.

Muchacha en la ventana.
Dalí, 1925.

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Cheio da alma minha. Ou da alma que me resta.

31 de outubro de 2012 por Camila

‘…Como todas las cosas están llenas de mi alma, emerges de las cosas llena del alma mía. Mariposa de sueño, te pareces a mi alma, y te pareces a la palabra melancolía.’

(NERUDA, P.)

Tocava Caê.

E, deitada sobre aquele velho chão de tacos já amarelados pela implacável ação do tempo, a menina estava pra lá de Marraqueche. Dopada pela angústia do que poderia ter sido e de como poderia ter sido se tivesse se permitido um pouco mais, contorcia de pura melancolia na noite mais quente do ano. Lembrou que nas noites de calor a escolha é entre matar ou morrer. 

Ousou sobreviver a todas as estruturas as quais que se impôs (e que lhe impuseram!) e agora pagava o preço sem matar a ninguém.

Pensava em outras esquinas e no que poderia vir a ser. Em sorrisos que nunca tinha visto, em abraços que nunca tinha dado e nas palavras doces que nunca tinha ouvido. Ou falado. Mas, por incrível que pareça, não trazia em si a dor do arrependimento. Apenas de uma saudade latente que não sabia explicar do quê.

Sabia que medo tinha mesmo era de viver sem ser feliz (e por isso arriscava!), de comer e não sentir gosto, de ouvir sem entender, de amar sem toda a alma, de palavras vazias, de promessas do pra sempre, de respirar e não se arrepiar pelo milagre que há em cada pequeno gesto. Não queria e nem podia perder a mágica dos passos dados em nuvens imaginárias, pois era assim que tinha construído o seu castelo de girassóis no tempo da delicadeza e do eterno. E seguia encantada, apesar de.

-Droga, já são 5h37 da manhã. Às 8h tenho que despertar. Às 9h30 estar brilhante e funcional. Às 10h iniciar mais um job que não tenho saco de fazer para coisas que eu já não quero estar e nem mais acredito. Odeio ter de fingir que me importo. Como me sinto sem propósito passando meus dias numa vida onde meu coração não está. Quanto desperdício de ser…

E caminhava.

Andava por ruas cinzas tentando enxergar um pouco de cor. E, teimosa que era, descobria quase toda uma nova escala de tons. Mesmo em todos os apesares… Acreditava, de verdade, em horizontes.

Tinha sinceras esperanças sabe-Deus-em-quê, mas a realidade de não saber para onde ir ou se tinha capacidade de ir além lhe tirava um pouco do sossêgo. Suspirava e lembrava da menina de olhos verdes de Quintana que não lhe deixava desesperar. Queria manter a alma mansa, mas a ansiedade lhe devorava as entranhas.

A vida se abria crua para quem resguardava resquícios de magia em meio a um certo sonambulismo servido a conta-gotas com comodismos. Era um tal de escolher pra onde ir e sob quais argumentos. Era uma parte do corpo que gritava rebeldia. A outra, que esperava. Mas também não conhecia nenhum modo de como organizar a fronteira entre querer e agir. Como romper com mundo das idéias (Platão lhe tinha envenenado cedo demais!) e colocar em prática aquilo que todo mundo achava que ela sabia lhe era um mistério insolúvel. Sou uma farsa, –  pensava -, e logo se perdia dentro da burocracia do mundo que lhe enchia de preguiça e falta de vontade. Era bruto, amigo.

Mastigava o próprio cérebro entre quereres e falta deles quando escutou uma louca berrando em paixão e desespero no meio da rua e se sentiu profundamente aliviada. Alguém, por fim, havia fugido do cinismo e continuava capaz de sentir alguma coisa nesse mundo em que vivemos tão anestesiados de emoções e perturbações poéticas. Desejou que a moça gritasse um pouco mais, assim –  acreditava ela -, nos despertaria a todos da letargia e em que havíamos entrado num quando incerto…

-Quando começamos a viver nessa dormência de estar? Quando foi que a rotina passou a me dirigir em modo automático como um piloto a seu avião ultramoderno? Qual foi a última vez que tive ambições ardentes e sonhei de olhos abertos? Onde andam as borboletas que engoli ao longo da vida e faziam festa no meu estômago?

Era hora de pular no abismo escuro e imprevisível outra vez, mas com a íris em cor e a retina em espelho. Nunca fora boa com os números e tinha preguiça de calcular cada passo, mas era chegado o tempo de tomar a direção e guiar para onde queria ir.

Mas, para onde queria ir?

Quem não sabe o que procura tampouco vai saber quando encontrá-lo.

Não queria mais estar reduzida a meras escolhas cotidianas entre rosas e azuis. Cansada demais dos tons pastéis, decidiu que queria ser cores primárias.

Queria fazer algo que mudasse alguma coisa.

E, sabia, era preciso paixão.

E tece vida, e desfia, e recria, e recomeça…

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