Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Números.

21 de novembro de 2012 por Camila

Estou exausta de pautar a minha vida por números: o dia do mês, as horas marcadas, os kilos que ganho e as gramas que perco, a faixa do disco acústico no som do carro, a escassez dos meus acertos, o sapato que me aperta, o tamanho da calça jeans, as gotas do remédio, a quantidade de amigos, os sonhos esquecidos, os centavos, as vontades que surgem, as calorias, o contador de palavras do editor, a idade impiedosa que não tarda em chegar, o salário, a minha altura, os erros que cometi e os que ainda não tive tempo de fazer, o começo-meio-fim de cada coisa, as manias, o egoísmo do dividir sem se dar, os minutos famélicos do despertador, a quantidade de pessoas da fila que me furtam a vez, as ruas inertes, o atraso do outro, a velocidade limitada em dois dígitos, o quanto falta, o muito que tenho, a precisão de uma fita métrica, a desgraça de um tempo sem tempo de existir, a demora para que chegue o que se espera, o grau da febre, o tamanho do apartamento, as medidas assimétricas do corpo, o valor das grandes coisas, a mesquinharia do dia a dia, o enorme tédio de uma régua e as favas contadas…

Há algo inumerável e inquantificável nesta vida?

Porque é isso que eu quero.

As estrelas. O infinito. A água do mar. O amor de verdade. A estupidez. O perder de fôlego por muitos segundos que só uma gargalhada permite. A respiração profunda. Os eus. Os tus. Os dias de sol. As gotas da chuva. Os flocos da neve. As folhas secas. A primavera em flor. As histórias que teremos para contar. A soma de tudo que somos. O cheiro de casa. As sementes da melancia. O caminhar. O idílico. A íris da alma. As tardes em azul. A inspiração. A graça de estar. O suave. Os horizontes. Os banhos de lagoa. O vento que faz cafuné. O sublime. A preguiça besta da manhã. O fechar dos olhos. A beleza do sentir. O abraço que não finda. A poesia que há. O identificar com a arte de outra pessoa. O beijo ansiado. O perdão. A liberdade. A ambiguidade das lágrimas. A sensação de estar no lugar certo na hora certa. A busca. Saudades honestas. A leveza do esquecimento. As pontes entre nós. O conforto da própria pele. A rebeldia. O desapego. A pressa de ir e de vir. O reinventar. As urgências. A tenra infância. A batida incansável do coração. A imaginação. O ritmo da música que nos habita. O reconhecer. As escolhas. As curvas. As estradas. As contradições. A lucidez. Os livros na estante. A loucura inocente. Os filmes que contam de nós. As cores nos quadros. Sorrisos sinceros. O desbotar das fotografias. Os recomeços. As colheres de açúcar. As promessas que se cumprem. O encontro. A falta do exato. A calma. A lembrança. O novo. As nuvens. O meu tempo, porque ele é tudo que sou. 

E os números – vãos e efêmeros que são – não contam o tempo. Eles matam o tempo. Fazem da nossa principal matéria algo ordinário, comum e cotidiano. E o tempo é tudo que nos resta. É a nossa poesia viva. É o nosso pulso.

…Quero mais de tudo aquilo que que seja imensurável.

Que seja eterno, pois. Que seja mais justo com a imensidão que é a vida.

Que o contar seja somente de conto. E de canto.

Que encante!

Sublimando e brincando de abstrato.

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Quem sabe de mim sou eu.

20 de novembro de 2012 por Camila

‘Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, da quedas, dos medos, dos choros.’

(ABREU, Caio F.)

Das minhas compulsões, da voz rouca, do meu acordar descabelado e do meu adormecer emudecido. Das olheiras das noites insones. Da opacidade do olhar. Da bagunça interna e contrastante. Dos lençóis sujos de tanta limpeza. Da castidade amedrontada. Da recusa do dia. Da insegurança vaidosa. Da confrontação entre o que quero e o que posso, do sonho puro com a realidade bruta. Do muito que sobra e do pouco que me falta. Da proteção. Da vastidão. De estar trancada num mundo de possibilidades. E de não saber o que fazer. Do pavor que causa a farsa. Da autosabotagem. De ser carceireira da própria prisão. E do apego à fantasia.

Quem me vê sorrindo, não imagina os pensamentos exaustos que me escravizam e que me atravessam a mente em dó dissonante. É uma luta estar inteira. É convencer-me todos os dias que tudo ainda vale a pena. E que ainda há um sorriso para dar.  Há o inédito na próxima esquina.

Sou eu, também. Eu e o que Pessoa chama dos eus de mim.

Meu carro de rolimã, minha cara de romã e a tal inspiração de Rodin…

Tateio – ainda trôpega e de ressaca do porre de abstinência que ando tomando diariamente há anos – o que me alcançam as mãos em busca de papel para contar-lhes sobre as minhas urgências e minhas bebedeiras abstêmias. No guardanapo e de improviso irresponsável, falo depressa. Digo do que pareço não saber. Só que eu sei. E talvez eu não conte. Mas há aqui uma solidão insistente.

Sou eu um mundo que permite poucos, mas abraça muitos. Sou eu o próprio horror iminente de ser incompreendida, abandonada, difamada, desaparecida, ingrata. Subversiva, corajosa, imatura, arrogante. E burra. Mas não me arranquem as asas agora.

Abraço-me a minhas delícias e deixo para depois – por mais aluns minutos, talvez – as minhas dores. Tudo que eu sou.

Silencio. Respiro. Esqueço.

‘Que seja doce’, sussurro.

E apago a luz.

Agora sem fantasmas.

Só o cansaço de ser.

Múltiplos e plural.

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Um conto sem ponto.

8 de novembro de 2012 por Camila

Brasília, março de 2006: Conheci Ana na faculdade. Era pequenina, com traços delicados, sorriso acolhedor e capacidade intelectual gigantesca. Tímida e doce, pouco falava. Mas quando ousava pronunciar as sílabas que passeavam em sua mente, fazia a diferença.

Nunca fomos amigas, mas trocávamos sorrisos e simpatias pelos corredores ou quando tínhamos a sorte de cair na mesma sala. Ambas estávamos quase sempre com os rostos enfiados em livros recomendados por um professor ou um colega e os rápidos diálogos que tínhamos eram grandes trocas para uma e para outra.

Seríamos jornalistas.

Ela discorria sobre cultura e fotografia. Eu era apaixonada por cultura e fotografia, mas não fazia idéia de que caminho ia trilhar. Tinha uma vontade enorme de salvar o mundo, mas o plano elaborado me custava a sair do papel. Até mesmo porque ainda não existia em papel algum. Em comum, divagávamos.

Éramos também as nossas paixonites e admirações por colegas com a barba mal feita, nosso apreço pela vida acadêmica, a cumplicidade com aquele mestre querido, algumas implicâncias com uma ou outra asneira pronunciada em viva voz e sem nenhuma vergonha na sala por algum aluno desinteressado (e desinteressante!) e poucas certezas.

Por esses inexplicáveis caprichos do destino, fomos ao mesmo país dar segmento aos estudos que começaram naquele cerrado pouco efervescente e de horizontes infinitos. Ah, quase esqueço de comentar, mas nós duas também enxergávamos um potencial poético enorme naquela capital cheia de concreto já rachado. Ana fotografava. Eu escrevia. O mesmo tema. O mesmo tom.  A mesma linha. A mesma Asa. O mesmo Lago.  Se Ana escreveu, não tive a sorte de ler. Fotografei, mas não sei se ela viu.

Hoje paro para pensar e já fazem seis anos desde que fomos apresentadas pela risada dada na mesma hora. Não lembro se ríamos de alguém que falou alguma bobagem fenomenal. Mas Ana não era irônica. Eu, sempre. Acho que o sorriso trocado foi de simpatia ao primeiro olhar.

As redes sociais – que as vezes só espelham a solidão de cada um de nós – nos permitiram continuar com a troca de elogios e admirações mútuas. Se tornaram o meio e o canal da recomendação de livros e filmes e saudades daquele outro país peculiar. Nunca perdemos o diálogo pontuado pelo que é interessante e pouco efêmero, ainda bem. Ainda não somos amigas, mas mantemos uma relação bastante positiva.

Pois bem, há alguns dias Ana me surpreendeu com uma mensagem que é puro carinho e incentivo. Quem tenta escrever sabe o quanto é difícil se mostrar em palavras. Conhece exatamente a provável dor – e o delírio – de se desnudar da vaidade e mostrar-se tantas vezes frágil, indecisa, corruptível e incerta. Correr o risco de parecer idiota pode ser libertador, mas o preço a pagar é a quantidade de praga que você recebe pelo silêncio do anônimo. Há tempos andei me privando do talvez, mas hoje me mostro. Os pseudônimos não mais me escondem ou se transformam na proteção que eu tanto busco. Mas é abrindo mão de tudo isso que posso receber a resposta que me chega de almas como a de Ana,  que dão coragem para seguir nesta sangria de sanar angústias. E é para celebrar a vontade de ir adiante que transcrevo aqui trechos de um diálogo que me coloriu e me encantou pela gentileza, pela doçura e pela capacidade de se abrir com aquele velho sorriso perdido e pouco empoeirado nos corredores da universidade.

Marcela, descobri seu blog hoje. Tive que vir lhe escrever porque estou ‘passando mal com seus escritos. É como se suas palavras saíssem dos meus pensamentos – nem todas, mas uma maioria que me assusta. Estou passando por loucuras mentais que envolvem decisões – das quais, claro, não sei qual é a ‘certa’. Existe uma certa? Você escreve incrivelmente bem, adorei. Já pensou em publicar um livro? Eu seria sua leitora assídua, pelo menos uma fã você já tem. Rs Obrigada pela poesia dos teus devaneios… continue com o blog, por favor! Amei. Beijocas, 
Ana.

 

Aninha, vejamos… Como posso agradecer ou retribuir um carinho desses? Desses tão lindos que chegaram embrulhados pra presente em palavras tão generosas…? Minha querida, obrigada. 
Há tempos não escrevia nada que não anonimamente e tem sido importante esse retorno, esse exercício de esquecer da vaidade das minhas certezas e me desnudar reconhecendo minhas dúvidas. É muito bom receber esse afago, esse apoio e esse incentivo. Se por um lado fico feliz com este reconhecimento nas minhas linhas, por outro também sei – empiricamente! – o quanto essa fase é difícil.
Não sei se tem um caminho certo, mas esperança (e malemolência!) pra caminhar por ele não me falta…
 Cada dia é uma idéia, a última foi pedir demissão.
Hahahahahahahahhaa Uma vez mais, obrigada.
Estou extremamente envaidecida e orgulhosa com a sua mensagem.
Se eu puder ajudar, me diga. Cante comigo. Há melodia. Um beijo no coração, 
Marcela.

 

Marcela, não há o que agradecer, eu é que te agradeço! Pelas belas palavras, pela paz que transmite, pela poesia que vibra dos seus pensamentos. Obrigada por compartilhar isso, é lindo demais! As ideias são muitas, o mundo está cheio delas. Mas há poucas pessoas com coragem (por exemplo, de expor) – como você. Eu mesma sou muito medrosa, infelizmente. A vida agora está me dando fortes beliscões para eu encarar uma parada de frente, sem me esconder em comodismos ou desculpas esfarrapadas. Namoro há 4 anos, e há alguns meses já não estou mais feliz. Achei que fosse uma fase, mas não passou. Depois, como consequência (acho), comecei a me interessar por outro, o que não está nos planos de quem namora, certo? E agora, o que fazer? Como? Quando? rs… São tantas variáveis que até nem sei. Acho que pedir demissão estaria mais fácil – ou não! Rs Mas me conte, você pediu demissão mesmo? Está bem? Obrigada mais uma vez. Nosso contato virtual me alegra demais, demais. Beijos, 
Ana.

  

Lindo demais é receber uma resposta dessas. O resto é só vento. Escreva, Ana.
 Escreva anonimamente, mas escreva. Fiz isso por um tempo e é bom desapegar e queimar demônios. É uma liberdade fantástica escrever sem assinar. Vale a pena. Eu me demiti porque eu não estava mais feliz. 
E a gente precisa estar feliz, né? As coisas precisam ser possibilidades. Tudo precisa ser possibilidade todo o tempo.
E talvez isso lhe sirva como uma resposta pra guiar a direção da vida e ir pra onde você quer. Porque o que ela quer de nós, mesmo, é coragem. E eu sei que tem um coração que bate bravo por aí. A alegria é pura recíproca, me acredite.
E vá me contando dos próximos capítulos.
Como eu disse no texto que subi esses dias, me sinto como um pássaro livre por ter tomado uma decisão. Danei-me com outras variáveis e com a nostalgia dos outros caminhos que não escolhi. Simplifiquei.
 E respirei fundo. 
Não posso ter uma vida onde meu coração não esteja. Abraço apertado, menina.
 E voe. Marcela.

 

Ana, obrigada pela generosidade. Grata por você ser tão humana debaixo da superfície sempre serena que lhe reluz a tez. Vai ser sempre maravilhoso passar os olhos por estas linhas em todas as horas que eu duvidar. Você é, também, inspiração.

Um beijo e que a perturbação continue a nos mover entre centelhas de ansiedade como nos faz caminhar há tanto tempo,

Marcela.

E voe, Ana. Voe sim!

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Conhece-te a ti mesmo.

7 de novembro de 2012 por Camila

Tinha suas reservas, medos, inseguranças e anseios.

Sabia que seu estilo estava fora de moda e pouco agradava a maioria dos habitantes do século XXI, mas precisava ser verdadeira a si mesma e entregar-se somente àquilo que lhe dava vontade e parecia sincero.

Não gostava do que era mecânico e do fazer apenas por fazer. Não que achasse errado, apenas respeitava a decisão alheia e lhe parecia correto que assim fosse respeitada. Era mesmo terrível ter de se justificar continuamente àqueles que lhe condenavam por ser recatada, pudica ou puritana, quando ela sabia que não era nem uma coisa e nem outra e muito menos a outra…

Do jeito que se impunha, perdia muitos.

Mas ganhava respeito próprio e a paz de ouvir a própria consciência.

E achava que valia a pena esta troca.

Ela era o que era. E estava confortável na própria pele.

Também não se incomodava que parecesse tediosa aos olhos deles por  retrair alguns gestos. Ela sabia que era mesmo delicada e esperava sempre a mais do que a maioria das mulheres. Passara da idade de acreditar em príncipes encantados, mas ainda levava fé em homens interessantes que soubessem enxergar além do óbvio…

Tampouco levantava bandeiras castas, apenas tinha vivido experiências que lhe confirmaram que hoje ela era e agia exatamente da maneira que devia – e queria! – ser. Nada de traumas em acontecimentos passados, suas ações eram espelhos apenas do que sentia nos hojes que vivia.

Já ouvira que estava num pedestal alto de idealização e de lá precisava ser arrancada. E talvez estivesse mesmo, porém nunca teve medo de altura e ali não se importava de estar depois de refletir brevemente a respeito. Além do mais, estava resoluta a esperar por aqueles que lhe fossem compreender por inteira e não tinha nenhuma vontade de se dar aos que queriam apenas o efêmero e o superficial. Tinha preguiça da pressa e gostava mesmo de se descobrir e de se reconhecer em olhares.

Mais ainda, sua convicção repousava no inegável fato de que não há maior liberdade e desprendimento do que ser fiel ao que se acredita e se quer.  Permitia-se ser exatamente o que era e por isso podia sorrir jasmins ao mundo inteiro.

Queria mais.

Tinha desejos maiores.

E não se culpava por isso.

Liberdade é ser exatamente o que você é. Seja.

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Pássaro livre.

7 de novembro de 2012 por Camila

Há tempos não se sentia tão livre.

Naquela manhã de horas apressadas, tinha conseguido oralizar as palavras que pipocavam há dias em sua mente. Frases que já tinha treinado no espelho e com o silêncio com quem dividia cada cômodo da casa.  Mas agora, em viva voz, elas chegaram aos destinatários antes percorridos em pensamentos e não soaram em nada como em sua preparação.

Conseguiu, por fim, dizer o que queria:

Não posso ter uma vida onde meu coração não esteja. Não posso estar pela metade, não seria justo. Aprendi. E agora outros sonhos me despertam. Muito obrigada por tudo, mas agora eu preciso ir. Há outro caminho em outras esquinas e outros amores que me chamam de braços estendidos em busca das minhas mãos.

Não sabia o que esperar quando verbalizou calmamente as palavras, mas fora tão sincera que – inesperadamente – recebeu carinho e compreensão. Agora a alma era leve. Apenas em uma semana poderia viver as madrugadas pelas quais tinha se apaixonado em tempos tão tenros que eram quase irrecordáveis.

Gostava de bagunçar os minutos e ver o relógio refocilando na preguiça dos dias barulhentos. Seu ritmo era outro. E implorava pelo cheiro sereno das horas que antecediam o nascer do sol. Eram ali, nesses momentos, que melhor se via. Podia se desnudar da agitação do cotidiano e entregar-se às palavras que lhe preenchiam e nutriam uma parte tão importante de si. Ali era inteira e preocupava-se apenas com a poesia que queria viver e com a que já vivia.

Tinha tomado um passo importante e pela primeira vez não estava ansiosa com a liberdade dos dias longos, com a falta do preenchimento imediato dos meses, com o remanso da proximidade do verão e do sal na pele. Todas as coisas eram, enfim, possibilidades.

Pássaro livre, finalmente, – pensou bem baixinho.

E sorriu, puxou o cobertor e dormiu em paz.

Será que algum dia a gente pára de se perguntar isso e convive bem com a nostalgia dos outros caminhos que não escolhemos e do tempo que rejeitamos? Ah, dias de verão…

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