Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Marcela.

22 de outubro de 2012 por Camila

‘…Ela fica sublime quando escreve, começou o romance dizendo que em dezembro a cidade cheira a pêssego. Imagine, pêssego. Dezembro é tempo de pêssego, está certo, às vezes a gente encontra as carroças de frutas nas esquinas com o cheiro de pomar em redor mas concluir daí que a cidade inteira fica perfumada, já é sublimar demais. Dedicou a história a Guevara com um pensamento importantíssimo sobre a vida e a morte, tudo em latim. Imagine se entra latim no esquema guevariano. Ou entra? E se ele gostava de latim. Eu não gosto? Nas horas nobres, deitava no chão, cruzava as mãos debaixo da cabeça e ficava olhando as nuvens e latinando, a morte combina muito com latim. Não tem coisa que combine tanto com latim como a morte. Mas aceitar que esta cidade cheira a pêssego, exorbita. ¿Qué ciudad será esa? ele perguntaria na maior perplexidade. ¿Tercer Mundo? Terceiro Mundo. ¿Y huele a durazno? Na opinião de Lia de Melo Schultz, cheira. Ele então fecharia os olhos onde eram os olhos e sorriria um sorriso onde era a boca.’

(TELLES, Lygia F.)

Ela tinha cara de manhãs ensolaradas de domingo. E, provavelmente, cheiro de quem come pêssego no mar. Tinha, também, jeito de quem sabe que a vida é boa. Levava girassóis nos cabelos e borboletas na barriga. Os olhos de puro caleidoscópio permitiam ao mundo perceber que a alma era azulzinha com nuanças de lilás e violeta, embora parecesse – dependendo da luz – com a furta-cor que Quintana descobriu.

E, por falar em Mário, lia poetas brasileiros, estruturalistas franceses, revolucionários russos e escritores hispanohablantes em geral. Dizia que havia amor e razão em quase tudo. E aonde menos se suspeitava.

Agora – menina abstrata que era – estava apaixonada por uma idéia!

Sim, uma idéia!

A ansiedade que aquarelava borbulhante em superfície serena e calma ainda não lhe permitia ilustrar muito bem o núcleo da fantasia, mas o conceito estava lá e lhe consumia as entranhas feito os espíritos  mais interessantes devoravam as estradas e as escolhas.

Tentava traduzir o que o grão da idéia lhe enviava em ondas místicas e pouco usuais.

O ritmo era baixinho, mas ficava horas a fio em silêncio tentando ouvir aquilo que lhe parecia a mais absoluta das verdades.

Estaria a menina apaixonada pela idéia de ser feliz? Ora, estaria agora ignorando todos os apelos de cautela que os outros gentilmente lhe cederam quando ousou expressar que acreditava – mesmo! – nesse sublime sentimento?

Mas gostava de encarar. A possibilidade que semeava em si não tinha forma, razão e nem porque. Não dizia a que veio, mas claramente tinha um motivo. Proclamar o fim do cinismo e da desesperança, talvez?

Ela sabia que não precisava tomar cuidado com o que trazia no coração. Sabia que a idéia, o novo objeto da sua afeição, tinha em si nada mais que a capacidade dos que ousam acreditar.

Era pura rebeldia e desafiava a dormência de estar diária com pinceladas de imaginação e poesia.  O vento entortava, mas ela seguia. Por vezes até cambaleante – bamba como o próprio samba – porém, sobretudo, caminhava pelas velhas ruas de paralelepípedos cobertas de flores e convicções.

Que errante era essa menina!

E sabia – desconhecendo o porque e por pura intuição – que os verdadeiros corajosos eram aqueles que se permitiam a jornada sem tentar prever o seu final.

‘…Infinitamente. Eu poderia ficar repetindo infinitamente infinitamente. Uma simples palavra que se estende por rios, montes, vales infinitamente compridos como os braços de Deus.’

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Se você não existisse, eu teria que te inventar.

20 de outubro de 2012 por Camila

Hoje, mais uma vez presa no trânsito bicolor de São Paulo – aonde o vermelho das luzes do freio se funde ao cinza onipresente -, senti uma vontade enorme de te escrever. De lhe falar. A você, que já existe no mundo, mas ainda não conhece a minha vida.

Senti uma vontade quase atônita de confessar que quando eu me encantar, você estará dançando. Completamente absorto num transe livre, que nem naquela canção da menina outrora traída e neurótica que desgrenhava rock’n’roll por aí.

Gosto de te imaginar no meio das mil atribulações cotidianas. Gosto de te desenhar e te quase tocar. De ter certeza dos sorrisos que você provocará. De criar situações. De ficar pensando em quais músicas do Chico serão as notas da nossa – e as nossas! – história, se as de amores tão profundamente amados, ou se as da mágoa que transborda um coração.  Fico pensando se vou ter ciúmes e inseguranças ou se vai ser tanta certeza na minha alma que outro sentimento não caberá. Só sei que não vou morrer de tédio e nem de dúvida.

Sabe, antes de você chegar tanta coisa me aconteceu. Eu era só esperança e amor. Eu era só querer. Eu dançava como se ninguém estivesse olhando. Eu tropeçava e apenas gargalhava, seguindo adiante. Aí outras pessoas aconteceram, outro mundo surgiu. O cinismo flertou comigo, mas a vontade de me manter pura foi mais forte. Fechei as portas de mim para tantos universos simplesmente porque eu sabia que aquela não era a hora de abrir. Fiquei com medo de secar, de apodrecer. Estava perigosamente atraída pelo mundo dos que se negam. Aí Vinícius me despertou mais uma vez. Não era aquele o meu lugar. Comecei a brincar de você pra manter aquilo que há de bonito em mim.

Não tenho ansiedade pela sua chegada. Eu sei que ela vai acontecer. Sei com a mesma convicção que tenho que todos os dias o céu pode ter a cor que eu quiser e as nuvens as formas que eu modelar.

Fico pensando baixinho se você saberá cozinhar, se a gente vai alternar a escolha das músicas no domingo, se você sabe tocar violão, se sente cócegas nos pés, se ri comigo até o ar faltar, se mexe no cabelo do jeito mais sexy possível (e que só eu sei disso!), se vai me deixar dormir até as primeiras horas da tarde, se vamos tirar par ou ímpar na hora de decidir o filme, se os nossos gostos são complementares, se os silêncios não se farão estranhos – sempre necessários e compreensíveis – e se o seu pensamento calado não vai me deixar completamente insegura. Se já lemos os mesmos autores e achamos geniais os mesmos trechos dos livros. Se você é só abstração, mas se vai saber lidar com o mundo burocrático dos pneus furados e documentos timbrados para a minha mente tão exausta dos números.

Aí eu já acho que não sei de nada e cada cair das horas é uma surpresa contigo. De me tirar o fôlego e de me ensinar que conviver não é mesmo tão difícil e massacrante. Que o amor sobrevive às tardes de calor sufocantes e ao meu desejo lacônico de ficar sozinha por algumas horas ou dias. E que eu saiba também lhe respeitar e lhe doar esses momentos sem doer em nada meu coração.

Com você não será, já é. E você nem chegou. Mas eu já lhe tenho quase todo. E não estou idealizando, estou sentindo. O sentir que sempre me foi palpável e passou a me ser um estranho. Mas que agora voltou. Sabe-se lá se foi porque você existe em algum universo que está mais perto, talvez, do meu. E chegando.

Esse texto mudou nos átimos de segundos em que senti saudades de você no trânsito. Nos momentos em que, parada, quis lhe gritar. E se transformou em outra coisa quando estacionei e ali permaneci, largada no banco do meu carro com Bob Dylan aos meus ouvidos. E no escuro mudo, você ressurgiu. Na luz artificial da tela do computador. No ato de ignorar pela primeira vez o papel e a caneta. Na pluralidade de opções, na virgindade da expectativa.

Fico indagando pro meu lado bom como você é. Se tem o olhar icônico do Elvis, talvez? Se tem a febre de Marlon Brandon gritando por sua Stella em ‘A streetcar named desire’. Se fica incrivelmente irresistível de jeans e camiseta branca. Se vai gostar de ficar deitado no chão comigo, com a cara pra cima e só existindo. Se os seus dedos estão sujos de tinta, mas ainda não consigo enxergar se é de caneta ou se é acrílica. Se tem a barriguinha da boêmia e do chopp pra combinar com a minha, cheia de borboletas. Se leva no rosto os traços dos dias a fio criando e ocupado demais para pensar na barba que insiste em crescer. Na alma, já sei que leva as marcas da vida. E eu quero saber lidar com isso sem posses e dores. Quero que sejam somente as delícias de conhecer o outro e suportar o passado. Quero ser mulher feita quando você chegar. E quero ser tudo, menos vaidade.

Saber que o seu olhar é de admiração e reconhecimento pela garota que você escolheu para ser a sua dentre todas as outras garotas especiais que existem. E ela nem é a mais perfeita, a mais bonita, a mais inteligente ou a mais interessante, mas ela tem aquele brilho de estrelas e de raios de sol nos olhos. Poder lhe cantar baladas de amores com a voz desafinada que Deus me deu. Saber que vou lhe apertar forte as mãos nas cenas mais lindas do cinema. Te contar do meu dia, do bem que eu deixei de fazer, e das injustiças que eu sofri. Despejar uma verborragia sobre a melancolia de mim, ganhar um beijo na testa e ouvir que vai ficar tudo bem quando você se levantar, colocar Our House’ pra tocar, me tirar para dançar e fazer tudo parecer ter sentido de novo. Correr para o seu abraço e saber que nossas direções e caminhos nem sempre serão as mesmas, mas que ainda assim, vai valer a pena. Sem desassossego e sendo pura paixão.

Eu já sei que você não pode vencer o mundo com as duas mãos amarradas nas costas. Mas mesmo assim eu vou acreditar nisso quando repousar, noite após noite, em teu peito.

Sei, inclusive, que você vai saber aceitar minha alma cigana, completamente preenchida de momentos fugazes e eternidades inexplicáveis.

O meu abraço sincero e demorado nos amigos também não vai lhe ofender porque você já sabe que meu amor é difuso, mas completamente leal. E, sobretudo, tenho certeza que, dentro de si mesmo, você já sabe que beijos roubados são essenciais. Ah, e beijos na chuva também.

E sabe, menino, talvez haja dores. E eu acho que a gente vai saber lidar com elas antes que elas nos quebrem as asas. Porque, nessas linhas e nessa vida, tudo é possível. Pássaros livres, lembra?

Eu só sei que serei apaixonada por você. E fica combinado que você vai ter que morrer de tesão por mim, irrevogavelmente.

É, se você não existisse, eu teria mesmo que te inventar. E, sendo Cecília, te reiventar muitas vezes. Quase todos os dias.

Obrigada pelo seu amor.

Aqui pertinho.
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