Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Ao afeto.

24 de novembro de 2017 por Camila

São Paulo, 12 de Novembro de 1987.

‘(…) De repente ela estava bonita demais com aquele vestido vermelho a gente estava bonito junto e foi indo fácil e leve. (…) Leva tempo? Leva tempo. Problema é que o esquema de Sampa me vampiriza, não me deixa produzir como gostaria. Por isso é que tou aqui, né? Mas fico dividido: já ando com saudade grande daí, dos lugares, das pessoas, dos feelings, dos moods.’

(ABREU, Caio F.)

L., mon chéri;

São Paulo exalando cheiro de Dama da Noite pelas ruas do Brooklin – por onde perambulo trôpega e bêbada – só me faz sentir uma falta imensa de Brasília. Chamam isso de saudade, parece. Deve ser. Essa nostalgia dilacerante. Esse ‘querer mais’ impossibilitado por mil entraves mas que, bravo, sobrevive. Amar é um tipo de resistência, não é?

Um resistir corajoso a esses anos que nos separam mas que não nos permitiram esquecer. Quando tudo me exaure, encontro exílio em você e nas nossas memórias. Umas lembranças que descansam meu corpo cansado no seu sempre manso, sempre quente, sempre acolhimento, sempre sorriso, sempre sonho. Sua mão como que deixada por acaso sobre a minha barriga, os meus lábios repousando no seu pescoço e o cheiro da sua pele que é bálsamo para as feridas da minha alma.

Sei que por aí tudo segue um curso inexorável nas curvas de linhas retas e concreto suspenso. Tudo aquarelado, tudo abstrato em pinceladas incalculáveis no azul infalível do céu: Me vejo em ti. Te quero aqui. Me quero aí. Te quero em mim. Pode? Pode. A negação é a covardia de quem não sabe quase nada do amor e de quem não ousa perder-se no outro para conhecer a si mesmo.

Lembro do seu primeiro olhar para mim e só por isso me sinto irremediavelmente feliz. Eu andava  tão distraída e protegida pelo acaso da desordem das coisas, de vestido vermelho esvoaçante, e não tomei para mim as suas palavras enunciadas numa voz tão baixinha que parecia não querer existir. Mas queria. E existiu, depois, tão alta que ecoa nos meus cantos e nos meus hojes. Nos ontens, entretanto, ainda sinto todos os minutos de um querer bem que era irrevogável e dono de uma urgência sem desespero. Em toda Quarta-Feira uma flor, um bilhete, uma canção, a calmaria de despertar ao seu lado e um beijo irresponsável para me dizer que eu não tivesse pressa, que tudo estava bem e que a vida seguiria sem sobressaltos.

E seguiu, enquanto estive com você. Por aqui, já não digo. Às vezes me sinto esmagada pela horas ferozes e aceleradas dessa cidade, sabe? Não vejo o céu nem o pôr-do-sol horizontal e alaranjado da beira do Paranoá. Vejo somente muitas esquinas e pessoas que não coexistem, apenas caminham por universos inteiramente paralelos ao meu. O jeito de manter-me sã, penso, é inspirar esperança e entusiasmo pelas pequeninas coisas, mesmo quando me falta o ar nos pulmões. Sobreviver é necessário; mas viver é luxo, Meu Muito Querido. No que me pergunto: -Onde anda você com seus buquês de trevos e tortas de maçã para me alegrar? Você é o meu afeto mais bonito.

Quê mais? Conto: dia cinza, muita chuva e um frio que fez da solidão substantivo palpável. Me tranquei no apartamento, vesti roupas velhas e largas, o cabelo prendi num coque mais frouxo que as minhas certezas, os óculos embaçados, tomei litros de café, fumei muitos cigarros (sim, tudo hiperbólico e desmedido, exagerado e desproporcional: mandei a justa medida de Aristóteles às favas!), li Foucault, repensei a existência vã de muitas coisas e escrevi onze páginas no meu diário. Acredita? Sim, diário; aquele mesmo de capa rubra que você conhece e que escrevo de modo intermitente há anos. Pois bem, diz o filósofo que as escritas de si nos tornam mais racionais porque, através de reflexões, meditações e do digerir a leitura do outro, acalmamos as agitações do cérebro e da alma causadas pelas dispersões e ansiedades do futuro. Que regressar ao passado nos torna mais sábios. Será? Tento. Nunca fui dada ao estoicismo, mas, quem sabe? Vamos.

Por falar em muitos pretéritos, aliás, preciso confessar: me sinto inapelavelmente sua dans le tourbillon de ma vie, e mais ainda quando tropeço nos dias em que estivemos juntos. Tu me manques beaucoup, tu sais. Sabem até os que me vêem fazendo as mais ordinárias coisas a qualquer hora: esperando o pão de manhã cedinho, cantando no carro enquanto estou presa no trânsito, passando batom para disfarçar o vazio que agora fez morada na minha íris, conversando as conversas sem graça no elevador do trabalho, digitando entediada na máquina de escrever da redação claustrofóbica do jornal uma notícia qualquer que informe a piora no mundo, esperando os passos lentos do carteiro que me trazem suas respostas prolixas e românticas (não há amor maior que reconhecer a sua caligrafia no envelope pardo e amassado, mon cœur!), na impaciência da fila do supermercado e do banco no meio da tarde, nas matinês do Cine Belas Artes e nas noites de calçadas sujas da Avenida Paulista enquanto ando apressada fugindo de monstros comuns. O tempo passa, passa, e as coisas ficam; um permanecer intransitivo das escolhas que eu já nem lembro de ter feito.

Te beijo da cabeça aos pés e prestando especial atenção no seu piscar de olhos que me arrancam de mim e me levam até você numa saudade maior do que posso suportar,

M.

P.S.: Caso não tenha ficado tão claro quanto o brilho de todas as Estrelas do Oeste, je t’aime toujours.

Na bagunça da casa, o meu constante elogio ao afeto.
Na bagunça da casa, o meu constante elogio ao afeto.

 

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Romance Epistolar.

19 de novembro de 2017 por Camila

Brasília, 01 de Julho de 2018.

‘O que tem de ser, tem muita força. Ninguém precisa se assustar com a distância, os afastamentos que acontecem. Tudo volta! E voltam mais bonitas, mais maduras, voltam quando tem de voltar, voltam quando é pra ser. Acontece que entre o ainda-não-é-hora e nossa-hora-chegou, muita gente se perde. Não se perca, viu?’

(ABREU, Caio F.)

F., muito Querido;

Há dez anos passados chegaste na minha vida com uma tarefa tanto óbvia quanto insalubre: ensinar-me que o amor não precisa doer, que pode, à própria maneira, ser eco de gargalhadas contínuas e de um companheirismo que se reconhece no pouco alarde e no misterioso do silêncio.

A vida aconteceu, girou bem forte, rodopiou, bagunçou tudo e tratou de ser generosa conosco. Eu descobri o cheiro de Paris em pleno inverno e tu percorreste os múltiplos dos teus caminhos sem atalhos. Vivemos em mundos paralelos, amamos outras tantas histórias e encontros e, com máximo respeito à dimensão de todas elas, não erro em dizer que em todo esse compreender de tempo és tu, tem sido tu, e nunca deixaste de ser o homem que melhor soube me amar e a quem amei do melhor jeito, um cheio de leveza e sutileza na entrega.

De tal modo é o desenho abstrato do imprevisto nas danças do destino, que paro e penso na sorte do regresso e na coragem da nova chance que obriga, necessariamente, um alterar de rotinas. Do meu retorno à horizontes, planaltos, lagos, asas e alvoradas, das nossas convergências e completudes, das tuas cheganças balançando a chave de casa enquanto eu finjo dormir ansiosa na tua espera quando sobes apressado a escada para nosso quarto. No teu deitar ao meu lado, me puxas pra pertinho de ti e me dizes baixinho que nunca – nunca mesmo! – mais me vá embora. Que agora, no ímpar desse momento já conhecido, está estampada a felicidade singular da volta.

Vejo o manso do nosso presente e não me preocupo com o futuro. Está guardado, é possível, é real, é palpável e é reconhecível em tudo que queremos. Mas penso, com muita doçura e indisfarçável sorriso, nos nossos dias de ontens passada uma década de lonjuras: tu enxugavas as minhas lágrimas com as mangas do teu agasalho e me foste sempre abrigo, mesmo quando já não éramos mais um par e era por outro que eu chorava. Me levavas para a faculdade na secura das manhãs que me falhavam as forças e era eu o desamor tanto quanto me desarmavas e me fazias sorrir para além dos ânimos das minhas vontades nas noites úmidas. Eras meu consolo tantas vezes ao respeitar minhas más escolhas e nunca quebraste a tua promessa de não me perguntar o porquê das coisas que fugiam ao simples. Sabias entender meu segredo de erros viciados e talvez enxergaste antes de mim e esperaste sereno pela hora certa da pessoa certa. Ainda lembro bem todas as vezes nas quais fugi para o teu colo na tentativa de calar a polifonia esquizofrênica do mundo. Nunca mais nos beijamos depois das horas incertas do fim, mas sempre traçavas mapas com as pontas dos teus dedos nas palmas frias das minhas mãos, me contavas dos lugares para onde iríamos, esquentavas o meu nariz arrebitado de moça atrevida na tua barba, me acalmavas e me dizias que as coisas ficariam bem. Agora, finalmente, ficaram. Ao teu lado, para sempre, como não poderia deixar de ser.

Pelo capricho de quem nos rege e pela adorável entropia onipresente do universo: Tu e eu. Conjugados. E celebrando os nossos acertos.

Obrigada pelo teu amor. 

Sempre soubeste da grandeza que é viver na simplicidade de pão-de-queijo com filme em branco e preto ao cair da tarde enquanto nos amontoamos disformes no sofá.

Te quero bem todos os dias e me sei feliz pelo sublime da tua presença ao meu lado,

M.

‘¿Se pueden inventar verbos? Quiero decirte uno: yo te cielo, así mis alas se extienden enormes para amarte sin medida’. (KAHLO, F.).
‘¿Se pueden inventar verbos? Quiero decirte uno: yo te cielo, así mis alas se extienden enormes para amarte sin medida’. (KAHLO, F.).

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Diálogos da Invisibilidade XIV: Autoficção.

24 de outubro de 2017 por Camila

‘(…) Fica difícil fazer literatura tendo Gil como leitor. Ele lê para desvendar mistérios e faz perguntas capciosas, pensando que cada verso oculta sintomas, segredos biográficos. Não perdoa o hermetismo. Não se confessa os próprios sentimentos. Já Mary me lê toda como literatura pura, e não entende as referências diretas.’

(Ana C., ‘Rio de Janeiro, Agosto de 1979’).

Sentou-se debaixo da mangueira naquela noite meio fria e orvalhada. Num canto especial de sua infância, a mesa aonde comera bolos diversos e tomara chá com sua Tia por longas e (insuportavelmente) felizes tardes. Na casa que era pura memória, ela era agora a melancolia. E lembrou-se. Lembrou-se das noites em que tudo tinha dado certo entre os dois. Das noites cálidas de vinho, das bocas urgentes de beijos e palavras, dos cabelos emaranhados entre os dedos apressados, dos sorrisos cúmplices de muitos segredos e das gargalhadas que ainda ecoavam em seus ouvidos.

Achava, agora, que a isso dá-se o nome de saudade. Pensou que cortava esse sentimento a própria carne. Insistia, entretanto, que era melhor assim. A solidão parecia lhe cair bem. Mas eram nessas madrugadas que só ela podia escutar o barulho secreto e abafado dos seus silêncios e sentires. Que eram tantos e altos e ruidosos e latejantes e cheios de lonjuras muitas. Doía, às vezes, mas a vida era cheia de causa e conseqüência. Aprendeu a aceitar o quinhão do que lhe cabia. A isso, tão sem graça, chamava maturidade.

Falta. A falta que fazia o café partilhado, a segurança do abraço, a cama desforrada, os espaços outrora largos eram então diminutos por corpos ocupados, as digitais dos dedos sujos nas capas dos livros escolhidos e ligeiramente empoeirados, as cartas espalhadas pelos cômodos vivos do lar, e as certezas. Tantas, infinitas, nem se cabiam.

Engoliu a seco. Permitiu-se a brevidade da nostalgia. Agarrou-se às próprias pernas para se proteger da aspereza do tempo. Fechou os olhos bem de-va-gar-zi-nho. Tudo é tão efêmero, ressoou. Já nem me sei hoje do que fui ontem. Que será de mim em amanhãs? Serei?

De pés descalços, pisou o molhado do jardim prateado de lua e de sonho. Era uma mulher tão comum. Dessas que andam pela rua com o saco de pão quentinho das 18h, que esquecem das desimportâncias, que se encerram em si mesmas, que nutrem todo o tipo de desejo censurado, que deixam a louça suja na pia para os depois e que vêem a vida passar. Sendo dela parte ou exclusão. Era ele, também, nada raro. Desses que só querem um final feliz, que passam inconscientes por seus erros consistentes, que fazem o que precisa ser feito e que nunca está só. Mas se viam especiais, juntos. Talvez por suas combinações desconexas ou por seus pactos implícitos que não ousavam romper a calma do silêncio. Ou ainda pelo medo iminente da grandeza do mundo diante da pequenez dos seus dias. Eram possibilidades que, agora, já nenhuma conjugavam ser

Músicas não iam curar. O absurdo da poesia não ia cicatrizar. As frases de um filme existencialista também já não iam mais explicar coisa alguma. O ardor eloqüente de uma prosa bem escrita tampouco surtiria efeito. A arte ainda importa, mas ela já nem sabia para quê. Era uma insistência cega, uma teimosia já tão enraizada que deixou de gerar questionamentos. Era o sólido a que se prendia quando tudo em sua volta era a abstração imediata de uma sucessão de ocupações imensamente vazias. O zelo incorruptível que se cria diante dos amores avassaladores e o nada absoluto ressignificando uma ruptura.

Abandonou os pensamentos e suas incoerências. Encarou a escuridão da casa. Tropeçou na própria bagunça. Deitou – desastrada – no sofá e deixou que a televisão refletisse sobre o rosto pálido suas luzes dementes e pouco iluminadas. Teve uma pequena epifania e esqueceu-se dela num átimo de segundo. Não estava necessariamente inquieta, talvez padecesse do mal reverso; o excesso de quietude também é, a seu modo, desassossego.

De lua, dela, dele, de noite, de sonho, de si.
De lua, dela, dele, de noite, de sonho, de si.

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Samba de verão em primavera.

3 de outubro de 2016 por Camila

‘(…) Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que… Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.’

(ASSIS, M. In ‘Dom Casmurro’.).

Como em um botão de FF dos antigos videocassetes, adianto minha vida de dois anos e meio para cá; para hoje, para você, para mim, para esse futuro (do) presente: o Leão da Pandinha, o Panda da Leãozinho.

Com a força irresistível que você exerce sobre as minhas convicções mais absolutas, o meu eu lírico de observância e resignificâncias do ordinário da vida parece dialogar com o mais forte e racional de mim; o instintivo sem resguardos das mágoas de ontens rasos e livre de licenças poéticas e desculpas das mais variadas para cessar o medo da entrega, da mistura do meu mundo simétrico ao seu tão livre de ordem, da sua boca desenhada no meu corpo, dos seus dedos entrelaçados nos nós dos meus cabelos, do magnético do seu olhar impreciso e cerrado, das suas mãos que me abrem caminhos e cuidados e da sua alegria que revigora o meu espírito cansado de lutar contra um cinismo que parece persistir em zombar de todos os meus esforços em sentido reverso.

Na primeira vez que nos vimos você só falava a quem quisesse ouvir do verde do meu olhar sem saber que eu não tinha nem coragem de encarar o seu. Naquele rio castanho que me decifrava devagar entre silêncios intermitentes e o sorrir pueril, eu já sabia que perderia meu prumo nas correntezas contrárias. Ou que repousaria numa margem sempre tranqüila e acessível para sanar o tédio dos meus dias. Não tinha certezas irrevogáveis, mas as apostas eram altas e claras: como curiosa que sou e sempre pago mais do que devo (ou que posso!) para ver se me arrebento ou tiro a sorte grande, não fugi ao desafio e escolhi me perder na placidez da sua calma que é bálsamo e refúgio para as loucuras das minhas horas.

Setembro em flor, e eu olho para você e entendo porque nos vejo indissociáveis e inteiros a largos prazos. Percebo as suas cores, seu estilo rimado à liberdade, seu gosto de sol nos lábios, o cheiro do vento na sua pele e a certeza dos seus passos ornando meu sorriso. Penso que você me ensinou entre muitas lições a mais importante delas: as pessoas não precisam ser parecidas para se completarem, se assemelharem nos sentimentos e na definição do eterno fugaz da vida. O que eu vejo é o meu amor inteiro ganhando mais amplidão numa só pessoa. Cantarolo – e desafino! – Caê baixinho no seu ouvido (‘…arrastando meu olhar como um ímã.’) e me encolho no seu abraço apertado e quentinho, achando graça na gula da sua mirada e nos impropérios indecentes que você me dirige e que uma moça recatada se recusa a repetir; deixa que seja só para nós nos Dias Brancos do nosso próprio tempo.

Eu amo todas as coisas que você é e tudo aquilo que faz de você, você: eu amo o seu descomplicar.

Portanto, esse aqui é pra você. Porque você existe; sólido e – contrariando Shakespeare! –  sem se desmanchar no ar: pois então, por todas as noites em que você rugiu mais alto que a minha inquietude insone e me colocou no colo para dormir protegida em meio ao meu próprio tumulto de cafeína, palavras, narrativas, romances, dissertações e poesia. Porque foi você quem tirou os meus olhos das linhas tortas dos livros e os fez repousar no horizonte azul e inabalável do mar que por vezes nos cerca. E, sobretudo, porque foi você quem me soprou de volta à vida sem saber que meu corpo já era então uma carcassa de ossos de borboleta.

Obrigada por me fazer respirar.

'(...) O meu coração é o sol, pai de toda cor.'
‘(…) O meu coração é o sol, pai de toda cor.’

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Rascunhos de Outono IX: Xícara de café.

2 de maio de 2016 por Camila

‘She was almost in love with him. No, that’s impossible, she thought: either you are or you aren’t. Love’s the only thing in this world that is unequivocal. There are different kinds of love, certainly, but it’s a you-do or you-don’t proposition with them all. She was a person who, when confronted with an easy way out, always took the hard way. (…) There would be searching of hearts, fevers and frets, long looks at each other on the post office steps, and misery for everybody. (…) She set about restoring peace with honor.’

(LEE, H. In ‘Go Set A Watchman’.). 

Nós sempre dividíamos uma xícara de café depois do jantar. Assim, você deliberava, nenhum de nós perderia o sono por excesso de cafeína. Desde então, jamais consegui tomar mais do que a minha metade devida. Continuo acordada, mas a culpa não é do café. Talvez seja sua e da (re) impressão dos nossos velhos hábitos na minha vida.

Tenho pensado em como eram as coisas antes de você. Com alguma dificuldade, admito baixinho (ou berrando aos quatro cantos, depende do meu humor!) que tudo era seguramente mais leve e menos complicado. E tenho me sentido infinitamente melhor por saber que nem sempre andei em cacos, a passos Niilistas, espírito amedrontado, carne embrutecida ou como que quebrada displicentemente ao meio.

Mas ando. Ando até a padaria e faço festa com os carboidratos. Ando até a academia e descarrego a culpa. Ando pelas esquinas e ainda espero o meu sorriso. Ando até o empório e descubro que vinho faz milagres. Ando até a livraria e encontro os melhores e mais inteligentes amigos para me acompanhar nas horas lentas dos dias e no silêncio que é ruído na noite. Ando pelas ruas e só encontro a solidão. Ando em outros corpos e sinto o gosto do arrependimento misturado à saliva nos meus lábios. E ando encontrando soluções pros problemas que eu nem sabia que tinha.

Voltei a ouvir as bandas que você amava dizer que detestava mas que nunca tinha sequer ouvido. Agora enxergo também o azul do céu, o doce da rotina longe do caos existencial do outro, o belo que há no desconhecer, a liberdade que há em respirar, o caminhar isento da fragilidade das cascas de ovos, a coragem de deixar alguém entrar, a tranquilidade de saber que a mentira jamais se sobressairá à verdade, a possibilidade ampla de decidir sozinha sobre o meu destino, o prazer de ir desacompanhada ao cinema, a criação de novos laços nos minutos em que estou viva, o desassossego que me move além da minha zona de conforto, o descobrir de sutilezas e a paz que abafa gritos inertes e suspensos no ar.

Retorno a mim, pacata: ao meu ser que se mistura em tudo que toca, que compra girassóis, que pisa em nuvens, que engole o mundo, que tem preguiça da maldade, que se perde na imensidão da cidade, que abraça com o que pode, que lê nas entrelinhas, que acredita no impossível, que gosta da nostalgia do tempo, que se dedica ao observar das coisas, que toma banho de chuva e que se faz abrigo no regozijo que só a simplicidade traz.

Quando passa o pesar e a saudade vira ponto pacífico, concluo que foi um existir, esse nosso, talvez indevido ou injusto. Eu não tenho a forma da mulher perfeita pra você ou você a personalidade do homem que me faria feliz. Mas existimos, dentre e sobre todas as coisas, existimos. E cessamos. O fim não foi sereno, e nem poderia: afinal, não foi de um jeito fácil que você entrou na minha vida ou que permaneceu nela por quase uma década. Fiz, tenho certeza, a escolha mais acertada, mas por certa constância dolorida. E como latejava, Deus do Céu!, como latejava.

Você me pede notícias nesse ecoar de silêncios, sinais de fumaça, algum mínimo de contato, palavras ao vento ou coisa qualquer. Eu respondo hoje sem o cinismo que por algum tempo fez morada entre nós:

-Vou bem, obrigada.

De você, não levo ou trago mais nada. Nem lembrança e nem futuro. Nem mágoa e nem perdão. Nem entendimento e nem confusão. Nem amizade e nem indiferença.

Eu? Somente sou.

Você? Apenas era.

'(...) On any other day she would have stood barefoot on the wet grass listening to the mockingbirds' early service; she would have pondered over the meaninglessness of silent, austere beauty renewing itself with every sunrise and going ungazed at by half the world. She would have walked beneath yellow-ringed pines rising to a brilliant eastern sky, and her senses would have succumbed to the joy of the morning. It was waiting to receive her, but she neither looked nor listened. She had two minutes of peace before yesterday returned: nothing can kill the pleasure of one's first cigarette on a new morning. Jean Louise blew smoke carefully into the still air.' (LEE, H. In 'Go Set A Watchman'.).
‘(…) On any other day she would have stood barefoot on the wet grass listening to the mockingbirds’ early service; she would have pondered over the meaninglessness of silent, austere beauty renewing itself with every sunrise and going ungazed at by half the world. She would have walked beneath yellow-ringed pines rising to a brilliant eastern sky, and her senses would have succumbed to the joy of the morning. It was waiting to receive her, but she neither looked nor listened. She had two minutes of peace before yesterday returned: nothing can kill the pleasure of one’s first cigarette on a new morning. Jean Louise blew smoke carefully into the still air.’ (LEE, H. In ‘Go Set A Watchman’.).

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