Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Laços (d)e Nós.

31 de julho de 2015 por Camila

‘Fala pra ele que ele é um sonho bom, que mudou o tom da tua vida comprida. Fala pra ele do disco do Tom Jobim, do seu apelido e de mim. (…) Fala pra ele que a vida é um balão, pra cuidar do seu coração.’

(ROSA, C.)

Posso dizer com alguma alegria que sonhei com você. E sabe, como de sutileza e saudade é feita a vida, posso dizer que isso foi suficiente.

Foi o tal sonhar de uma dimensão precisa, quero dizer, para alimentar a esperança de que um dia seja possível e justa a sua chegada. Para me ajudar a atravessar o enorme deserto que preenchem dias sem sentido, noites de solidão e tardes sem poesia. Fico aqui a sua espera, mas agora com uma partícula de alegria de que chegará o momento em que você se fará incuravelmente presente.

Não sei como estarei vestida, se nos meus surrados jeans ou no meu vestido curto. Não sei se a maquiagem estará conferindo alguma dignidade ao meu rosto pálido ou se as olheiras me serão óbvias e de impossível camuflagem. Não sei se a minha boca terá gosto de café puro e amargo ou vodka com cigarro, mas você se sentirá imensamente feliz em beijá-la. Não sei se minha pele estará ressecada pelos carinhos do inverno ou colorida pelo sol do verão, se as pétalas de leveza da primavera deslizarão sobre os meus ombros ou se a confusão do outono estará onipresente em meu coração. Não sei se estarei cansada pela rotina que me engole ou se sorrindo lírios por quem passe debaixo da minha janela quando eu acordar com gosto de caqui. Não sei se serei a melancolia descrita de um soneto ou o contágio de contentamento de um samba. Não sei se serei riscos ou aconchego, aventura ou mansidão. Não sei se serei o medo do sim ou não ou talvez, de hoje ou ontens ou amanhãs. Não sei se serei a burguesia burocrática do romance inglês ou o atirar-se do penhasco de olhos fechados reservado aos de coragem de sangue e poema francês. Não sei se serei balde de pipoca no sofá de sábado a noite ou petisco no bar de má reputação da esquina, vinho barato ou cerveja de degustação. Não sei se serei a que adora os amigos ou a que precisa estar só 24h de cada dia, a que vive pelo trabalho ou a que está de saco cheio de tudo. Não sei se serei a que considera algo além ou a que é incapaz de enxergar um palmo diante do nariz. Não sei se serei a esperta e atenta ou a que é tão facilmente enganada pelas pedras em que tropeça. Não sei se serei aquela a quem o amor desconhece fronteiras ou aquela que sabe calar o sentir. Não sei se saberei lhe dar o espaço que tanto me é preciso ou se lhe sufocarei com tanta ternura e delicadeza desesperadas. Não sei se serei a feminista que troca o pneu ou a que liga chorando porque o mundo-lhe-foi-injusto-e-esse-hoje-nunca-acaba. Não sei se lhe serei o desafio da compreensão ou a selvageria irrestrita do querer. Não sei se terei paciência pra discutir filosofia ou política ou se simplesmente serei lacônica e monossilábica nas minhas respostas tristemente previsíveis. Não sei se terei tido o cuidado de passar perfume antes de sair de casa na manhã azul ou se terei o cheiro da cidade em mim, nas minhas veias e na minha alma inteira. Não sei se serei carne por inteiro ou se saberei sublimar meu desejo. Não sei se serei uma mirada confiante ou se desviarei esses mesmos olhos pelos quatro cantos da parede para não enxergar o que você tanto procura com o lilás do seu olhar. Não sei se serei desperdício ou praticidade, Carnaval ou amor eterno, Nouvelle Vague ou Existencialismo alemão, Renoir ou Van Gogh, Lenin ou Giddens, Beatles ou Stones, gramática ou dislexia, sangue latino ou crença nórdica, alma desvairada a correr mundos ou o criar de raízes na verticalidade das cidades, desilusão ou construção, horizontes ou negação, lucidez ou desatino, divagação por mundos atemporais submersos ou precisão no existir concreto, prova irrefutável ou dúvida consistente, pássaro livre ou paixão em chamas, mensagens de celular bastante concisas ou ligação interurbana prolixa, irresponsabilidade dos arroubos da juventude ou seriedade e cinismo adulto, dever ou ruptura, a vida inteira numa mochila ou casa com jardim e cerca branca.

Quem de mim será o eu de nós? Não sei. Mas sei que há você, um dia, e haverá (Deus, por favor!) alguma certeza de mim. E sei que continuará havendo eu, ainda que nesse arrastar de existir no ultimato das horas até que chegue você: Seremos, então, nós de infinitos laços inquebrantáveis de cetim e sedas mil que enfeitarão os fios de cabelo das nossas filhas.

#PoemeSe
#PoemeSe

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Diálogos da Invisibilidade XIII: C’est Paris.

26 de julho de 2015 por Camila

‘Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente.’

(CLAUDEL, C.)

É apenas terça-feira e eu misturo minhas lágrimas aos goles espaçados de vinho: sinto, como Camille C., a tormenta da ausência de coisa alguma e que jamais haverá nome.

Não, não é de você. Não, também é a recusa do ser da nostalgia de um hoje construído a passos largos, de passados que não são os meus, das possibilidades do amanhã: Sim, eu tenho tudo e não sei o que me falta. Sou parte indissociável do tudo, e tudo me pertence sem estar nas minhas mãos.

Penso em Paris e na minha alma vendida. Desperdiço a vida bêbada em São Paulo quando deveria andar aos tropeços na beira do Seine com uma garrafa de vinho tinto nas mãos, sem prestar atenção em nada e ir sentindo tudo. Penso na poesia que não foi gritada, nas madrugadas que não me perdi pelo Louvre, no cigarro que não fumei nas ruas vazias e nos cinco Euros que não paguei naquele café claustrofóbico em Notre Dame. Penso em fugas, na queda da Bastilha e nas batatas fritas que comi em horas incertas. Penso em Marie Antoinette decapitada pelos revolucionários, penso na cobertura do Crème Brûlée sendo quebrada em mil pedaços, na sabedoria de Truffaut e na vida ordinária que tenho levado. Penso no amor sublimado de Simone de Beauvoir em detrimento da filosofia Sartriana e penso – Deus do Céu, quanto tempo gasto em pensar! – nas escolhas erradas e nas imprecisões que deram certo. Penso em labirintos de mim, no caos da capital organizada vista do alto da Tour Eiffel, nas chamas da liberdade do Arc De Triomphe e na histeria de Bardot.

Não quero ninguém, não quero você. Quero um apartamento de um quarto meio sujo e bagunçado (só pra desafiar o meu TOC), quero aprender a andar de metrô em Montamartre,  quero ser alguém famélico como Hemingway num café parisiense qualquer dentre milhares de outros cafés parisienses quaisquer e depois chamar o nada de banquete (…e deixar o cigarro ir fazendo aquela cinza enorme sem nem pensar em cinzeiro), quero gostar de sanduíche de padaria, quero assumir um tom blasè pela banalidade do mundo, quero desapegar da preocupação com as rugas do meu rosto balzaquiano, quero me perder num quadro de Renoir, quero flanar pela irresponsabilidade histórica dos becos e das vielas, quero um filho que faça tudo certo, quero o silêncio de um coração que pulsa afobado, quero a porta do inferno, o consolo dos Céus e quero a distância das certezas das dúvidas da vida.

Cruzo as pernas, desafio o frio e neutralizo as nuvens que me invadem: não quero coisa alguma que seja a longo prazo. Quero apenas o fim do semestre, quero comprar tempo sem culpa, quero falar francês sem erros de conjugação, quero a rispidez das palavras com sotaque de R gutural exagerado, quero a inspiração de ser-me livre e quero, mais que tudo, flanar sem querer nada. Quero o grandíssimo luxo de estar sozinha em Paris e perambulando por Saint-Germain-des-Prés sendo dona somente de mim, sem histórias e sem obrigações de futuros perfeitos e subjuntivos.

Quero becos, quero vielas, quero qualidade duvidosa, quero o charme vagabundo e quero a alegria da solidão destemida. Quero a pureza do Sacré Coeur, o fôlego que me foi tomado nas escadarias de qualquer ponto mais alto da cidade, a decadência dos moinhos vermelhos, a preguiça do joie de vivre e a (falsa) auto-suficiência da mulher francesa.

Quero me encontrar no desatino de um saltimbanco, no olhar desviado de um transeunte apressado, nos equívocos de quem não sabe dar direções e no desespero dos mortais por mais um dia passado.

Quero tudo isso e quase nada até que eu possa somente cometer o enorme e desvairado desregramento de ser. Ser seja lá quem eu deva ser: Apenas – e incansavelmente! – ser até que evapore e vire garoa fina anunciando o inverno injusto que devora a primavera de abril que o cego jamais pôde ver.

...La distance d'un rêve.
…La distance d’un rêve.

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Diálogos da Invisibilidade XII: Madrugada.

25 de julho de 2015 por Camila

‘Hold on to the thread: The currents will shift, glide me towards you. Know something’s left, and we’re all allowed to dream of the next (oh, the next!) time we touch. You don’t have to stray the oceans away: Waves roll in my thoughts, hold tight the ring. The sea will rise, please stand by the shore (oh, oh, oh, I will be)… I will be there once more.’

(VEDDER, E.)

Sobre a Nostalgia, Parte I:

Então eu olhei pra você e me deu uma saudade enorme. De outros tempos, eu acho.

Você, descabelado, cantarolava Pearl Jam e fazia meu coração voltar a minha adolescência, à todas aquelas promessas inconseqüentes e aos vinhos baratos nas calçadas pobremente iluminadas. A um tempo quando outro cara segurava as minhas mãos tímidas e você só observava. Nós, dentro daquele estúdio abafado e afônicos, tentando transformar o sentir em palavras, as revoltas em concreto, o coração em frangalhos. De quando tudo tudo era premissa e simplesmente complicado demais.

Velhos conhecidos que éramos das esquinas que nunca andamos, do cigarro que nunca dividimos, dos amigos em comum com os quais nunca compartilhamos história (ok, estórias) e a vida que nunca conjugamos.

Então eu olhei – de novo – para você e só senti saudades.

*

Sobre a Melancolia, Parte II:

Escrevendo descuidada e sem compromisso estas linhas platônicas e fúteis e improváveis, lembro novamente das noites vívidas em que tinha o batom vermelho borrando os meus lábios, as lágrimas teimosas molhando meu rosto, a manga da sua blusa enxugando os meus olhos e tudo aquilo ia virando poesia em mim, poemas sobre nós que nunca houvera.

Cercada pelos meus amigos lindos, loucos, músicos, boêmios de toda estirpe e artistas cheios de alma naquelas ruas sujas com cheiro de mar: Vida, eu ansiava pela vida. Eu queria sentir tudo aquilo como se tudo me pertencesse sem a responsabilidade de que tudo fosse meu. Eu queria ter – eu queria ser! – tempo e espaço para correr entre as paredes, desbravar o mundo inteiro, tropeçar em mil corpos errantes e beber da fonte inesgotável das certezas absolutamente incertas. Éramos incógnitas matemáticas de soluções inexatas, inexoráveis, incongruentes e inverossímeis.

Coragem, eu tinha coragem.

*

Sobre a Solidão, Parte III:

Depois que olhei pra você e senti todos aqueles momentos merecedores de uma breve saudade, eu olhei pra mim (com olhos enevoados) e me senti tão só: Eu enxerguei ao meu ao redor e estava todo ele numa construção contínua de ruínas, numa solidez indomável de pedaços, numa fé inabalável de que jamais teria ou seria aquilo que eu ainda nem sabia o que queria.

Eu não tinha palavras ou com quem conversar, eu apenas vivia compassivamente as histórias contadas, os amores inesquecivelmente passados, as páginas de livros há séculos escritos, a compulsão Niilista da impossibilidade, a fugacidade dos segundos, os caminhos perdidos, as frustrações de um silêncio eloquente, a plausibilidade da mudez, a ausência da salvação, o medo das más notícias, a tremulação da carne, as oportunidades desperdiçadas. Uma pausa e um parêntese: Nestas noites vazias eu me sentia um desperdício completo em toda a sua totalidade de âmbitos.

Na solidão embora tudo pareça palpável (e implacável, digo!), nada é digerido.

*

Sobre a Expectativa, Parte IV:

Agora a madrugada fez de si quase manhã, e, depois de horas de solidão e desejos abstratos de nada, vou viver meu dia numa noite em Tóquio com a única pessoa que me faz sentir menos saudades e mais porvires: Menos ontens inacabados e mais amanhãs possíveis.

A luz dos olhos dele enchem de ser a minha vida fastidiosa e aborrecida, como que descrito em romance: ‘His face was like a mirror for all my imaginings.’ Sim, eu sinto um enorme alívio por saber que ele existe em mim e que nós flanaremos pela imensidão alcançável e percorrível que é o universo inteiro. Ele então me expande, ele rompe as minhas fronteiras óbvias, ele está sempre além para me mostrar horizontes. Sim, nós ainda vamos ser errantes de um mundo sem esquinas e despido de nostalgias, melancolias, solidões: Seremos, então, expectativas realizadas.

Somos – eu e ele – o absurdo de um reencontro inevitável adiado apenas pela mesquinhez arrastada do dia a dia. Vamos – nós dois – escalar cansados o Monte Fuji apenas pela contemplação incomensurável do pôr-do-sol na Terra do Sol Nascente. E então, eu olharei diretamente para a mirada mágica da minha escolha mais acertada, e, sem que desvie meus olhos daquele imenso significado, eu terei o mínimo de certezas sem o fulgor trôpego das incoerências ou a maledicência dos ‘se’ e demais conjunções do hábito da auto-sabotagem.  

Porque, entenda-me bem, há amor com o qual se pague todas as madrugadas que demoram dias  (e noites!) demais para virar manhãs.

*

Pescando ilusões do meu próprio tempo.
Pescando ilusões e estrelas e noites e oceanos e idéias do meu próprio tempo.

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Olhos de Caleidoscópio.

12 de junho de 2015 por Camila

‘Des yeux qui font baisser les miens, un rire qui se perd sur sa bouche: Voilà le portrait sans retouche de l’homme auquel j’appartiens. Quand il me prend dans ses bras il me parle tout bas: -Je vois la vie en rose. Il me dit des mots d’amour, des mots de tous les jours, et ça me fait quelque chose. Il est entré dans mon coeur une part de bonheur dont je connais la cause. C’est lui pour moi, moi pour lui dans la vie, il me l’a dit, l’a juré, pour la vie. Et dès que je l’aperçois alors je sens en moi mon coeur qui bat. Des nuits d’amour à plus finir, un grand bonheur qui prend sa place. Des ennuis des chagrins s’effacent: Heureux, heureux à mourir…’

(PIAF,  E.)

Era tão bonito ver o mundo com os olhos cor de violeta do Bernardo: Eu não entendia direito a sua música, mas conhecia as curvas do seu corpo, dançava no mesmo ritmo e admirava os prismas que habitavam as luas do seu olhar.

Eu me apaixonei num dia que seria só mais um dia se ele não tivesse feito todo especial quando chegou assanhado e atrasado pra aula de francês: As lentes dos óculos estavam repletas de digitais e gotas de chuva, a camisa toda amassada, a barba por fazer e ele andava sem jeito e sem porquê. Parecia não saber de onde vinha ou para onde iria, mas a sua voz tinha um tom irresistivelmente calmo (e eu sempre achei – livre de qualquer tentativa de explicação – que boas pessoas tendem a falar baixo) e o jeito franco que pronunciava as palavras foi a melhor coisa que eu ouvi em muito tempo.

Naquela pequena Alliance Française do Brooklin incrustada no caos da zona sul paulistana, sentei sozinha numa mesa de canto – era a nova aluna da turma, imagine só! – com um café na mão e um livro na outra no intervalo entre as aulas. Ele pediu para sentar. Levantei o olhar. Corei. Disse que sim e depois disso já não sabia o que fazer. Deveria falar? Deveria voltar a ler aquele romance de qualidade questionável? Deveria dizer-lhe um ‘boa noite’ clichê e preguiçoso? Deveria, por fim, queimar a boca com o café quente e fazer disto uma desculpa para o meu silêncio e para a minha negação diante daquele mar de novas possibilidades que era o Bernardo? Eu era boa em me auto-sabotar – levava uma vida inteira de prática! -, mas ele era tão lindo e tão leve que, sublimando a minha dúvida a nada além de meros átomos, sorriu e falou qualquer coisa que me fez sorrir com ele. Sorrir para ele. Sorrir sem medo, sem jogos ou disfarces. Sorrir com naturalidade. Sorrir com uma insensatez só possível a quem não tem nada a perder e um universo inteiro de horizontes a ganhar. Sim, eu sorri.

Casamos pouco tempo depois. Ele tinha certezas, enquanto eu apenas cultivava solidões. Escolhi o vestido branco mais bonito que achei, me vesti de alma, enchi a cabeça (e as mãos!) de flores e, do altar, ele me esperava e me sussurrava baixinho: -Linda. Você está linda. Juramos amor sem a prepotência e a amargura do ‘para sempre’, recebemos bênçãos pelas nossas escolhas, juntamos as idéias e fomos percorrer o espaço-tempo da nossa vida e da existência que nos pertence por inteiro: Gostávamos – sim, gostávamos muito! – de pensar que o mundo era grande, parecia impedir que morrêssemos por claustrofobia.

Fomos morar na Holanda e, bravos sobreviventes que éramos da imensidão indeterminada do frio, ele me dava carinho e aconchego. Ele enchia a minha barriga de stroopwafels e de borboletas, me fazia chá ao cair da tarde e me trazia girassóis e tulipas roubadas do jardim do vizinho (que jamais fora mais verde que o nosso). Ele dava nós nos meus cabelos hermeticamente trançados, samba pro meu poema ordinário, direcionamento pros meus passos ora perdidos, oxigênio e esperança para os meus pulmões, bagunça pro meu metodismo e arte para minha vida outrora tão comum.

Atravessamos oceanos, dançamos valsas, falamos sobre os Beatles e Truffaut, quase explodimos de tantas cañas y pinchos na Espanha (o Bernardo adora cerveja!) e de amor em Paris. Andamos de mãos dadas pelas ruas limpas e gélidas de Reykjavík, fomos mascarados ao baile de Carnaval em Veneza, perdemos os olhos pelos tetos vermelhos de Copenhagen e decidimos que bom mesmo é andar até gastar a sola do sapato. Mais que isso, fazíamos piqueniques sobre toalhas xadrez em Bruxelas regados a vinho e respeitávamos os silêncios das nossas leituras vespertinas sem constrangimentos ou carências.

Bernardo é mansidão como o choque das cores e formas do caleidoscópio mágico que ganhei na minha infância e que hoje mora entre os livros da minha estante. O meu homem é singular assim: Sem medo e sem desgosto, sem dor e sem fim. É o homem dos meus sonhos e, paradoxalmente, eu encontrei em meio a realidade – que sempre me fora tão confusa e profunda em mistérios tão tolos e superficiais! – do mundo absurdo e pós-moderno.

E é nesse instante-já (que me habita de memórias e me toma de emoção, eu sei!) que se faz urgente a minha necessidade de declarar amor. Porque – sobretudo – há amor.

Olhos de um mundo mágico, amor em cor.
Olhos de um mundo mágico, amor em cor.

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Rascunhos de Outono VII: Tardes de junho.

1 de maio de 2015 por Camila

Brasília, 20 de junho de 2007.

G.,

Pois bem, hoje é Quinta-Feira. São mais ou menos 210 dias sem você. Dentre muitas outras, algumas considerações: voltei à pipoca de microondas, ao banho gelado, à insônia irrestrita, aos dias vazios, à gente sem graça, à arte abstrata, ao choro no chão da cozinha, à cidade concreta, à ruína de sonhos, aos copos de cerveja sem celebração, à solidão dilacerante do ser e, sobretudo, à ruptura do íntimo.

Faço planos a curto prazo porque não sei se terei paciência para lidar com o arrastar das horas e o atraso do futuro, que nunca chega. Tudo demora: O esquecer demora, o desligar-se do outro demora, o abandonar de corpos demora, o gosto amargo nos lábios demora, o secar das lágrimas demora, a esperança de que você mude de idéia e resolva chegar demora (a passar).

Você era você, e perto desse aforismo que trata de atestar o óbvio, lhe digo quase que vulgarmente: os outros são apenas os outros e o resto do mundo me enche de preguiça, indiferença e desinteresse. A garrafa vazia de café me frustra, o espaço desocupado me inquieta, o colchão parece grande demais e os livros não me contam histórias bonitas. Aliás, ninguém tem me contado coisas bonitas. Abro um parêntese para criar uma teoria tola e infundada, mas  seria  impressão minha ou estamos todos de ressaca do sentir?

Lembro dos nossos dias de faculdade e quase cesso nesse meu existir patético: Eu tão virgem enquanto tentava salvar o mundo com as teorias Marxistas-Leninistas e você proclamando poesia com os pulmões plenos de oxigênio e os olhos cheios de paixão. Você falava em Caio Fernando Abreu, Bukowski, Kerouac, Ana C., Nietzsche, Marçal Aquino, Ginsberg, no alter ego de Fante e nos livros que mais tarde iriam mesmo mudar a minha vida (como você, dono dos meus dias vindouros, já previra). Na direção de Truffaut, Godard, Bertolucci, Pasolini, Tornatore, Fellini, Glauber Rocha e Scorsese. Eu só sabia discorrer sobre política e sociologia enquanto você insistia que nossas únicas salvações possíveis eram a literatura e o cinema. Eu temia escrever sobre sentimentos, e você só me lançava uma mirada como quem olha o desperdício em um silêncio constrangedor.

Uma noite, depois de uma longa reunião do Diretório Estudantil, você me esperava e me chamou para sair ao me ver deixando a sala. Fomos a um boteco sujo, andando entre afastados e a vontade de segurar a mão do outro, como que perdidos entre possibilidades. Você começava a profetizar aquela mesma ladainha de que a literatura era o que ia nos salvar dessa loucura que é a vida, então eu acendia meu cigarro, tragava longamente e pensava se era mesmo tão relevante assim sentir alguma coisa por alguém ou pela idéia de amar. Se era mais urgente e mais merecedor da minha atenção do que a fome dos povos, as injustiças dos homens, a propriedade desigual e as pestes que assolam a humanidade. Sorria de canto de boca pra você e, já meio trôpega de tanta vodka, soprava a fumaça na sua cara enquanto você me mandava vestir a jaqueta por cima da minha blusa do Che Guevara, já que estava frio e não era bom arriscar uma gripe. Eu achava que você era uma gracinha com todas as suas idéias de amor, suas olheiras, sua barba mal feita, seus óculos que iam escorregando até o seu nariz e seu descaso pelo materialismo dialético (que me era tão vital!), mas você era do sentir e eu queria ir lutar. Um dia, eventualmente, você me convenceu e o céu foi mais azul.

Sinto saudades: Uma saudade enorme (e que me engole!) de você me abraçando na cozinha enquanto eu fazia brigadeiro, de você me acordando para pedir um abraço, de olhar para janela enquanto esperava a sua chegança, do barulho da sua máquina de escrever, do seu pé quentinho entrelaçado ao meu na bagunça que era a nossa cama, de você levando o cachorro para passear, de você me fotografando com o olhar com seus ângulos tão especiais, de você me roubando sorrisos, de você enchendo a minha taça de vinho tinto (‘você fica tão linda bêbada, Meu Amor!’), de quando você me beijava em luz e cor, de você saindo de casa precisamente às 18h para comprar pão quentinho na padaria da esquina, de você me acordando no sofá para levar para cama quando eu adormecia com a cara enfiada nos livros, de você me pedindo filhos, de você limpando os meus óculos de grau, das suas mãos sujas de tinta, da sua leveza, do seu lirismo, de você tirando a minha franja do rosto enquanto eu dançava e suava, de você tocando violão, de você me fazendo sua sem me exigir o apartar do mundo, do seu cheirinho de mar que nunca foi perdido em meio ao caos da cidade, de você sendo livre ao meu lado e, mais que tudo, de você existindo comigo. Nas minhas memórias mais doces, somos dois e estamos da nossa casa olhando a rua que passa sem porquê, sem premissa, sem prelúdio e sem samba.

Quando eu caí de cara (e me ralei inteira!) no cimento do mundo real e comecei a aceitar que Maquiavel era quem sabia mesmo das coisas, você me salvou do cinismo ao me dar a antologia do Neruda e o vinil do Chico Buarque. E eu vi, naquele valioso e deslumbrante instante, que você tinha razão desde os muitos outros anos anteriores quando perdi o meu coração para você: Só mesmo a arte pode salvar esse mundo que tem seu charme de caso perdido. O único importar é do que sentimos e do que fazemos em relação a isso. Eu sinto e eu me importo.

Ouço Crosby, Stills, Nash & Young e concluo: Hoje, 210 dias depois de você, eu sou só melancolia. E espero que você seja só vida.

Te quero sempre bem, meu querido.

M.

Do café frio, da letra trêmula, do abandono das coisas e da saudade latejante.
Do café frio, da letra trêmula, do abandono das coisas e da saudade latejante.

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