Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Amores serão sempre amáveis.

21 de março de 2016 por Camila

São Paulo, 9 de Agosto de 2006.

‘Sim, promessas fiz. Fiz projetos, pensei tanta coisa, e agora o coração me diz que só em teus braços, meu bem, eu ia ser feliz. Eu tenho esse amor para dar, o que é que eu vou fazer? Eu tentei esquecer e prometi apagar da minha vida este sonho, e vem o coração e diz que só em teus braços, amor, eu ia ser feliz. Que só em teus braços, amor.’

(GILBERTO, J.)

F.,

Não me apaixonei por você de maneira lenta e gradual. Eu já era sua quando o vi de longe, cruzando a esquina e completamente incógnito naquele bar sujinho e claustrofóbico. Seria impreciso dizer o tempo, mas quando dei por mim, já tinha me perdido em você.

Acho que tínhamos uns vinteepoucosanos quando você beijou a minha bochecha com a sua boca ébria, e os meus lábios já estavam completamente bêbados de cerveja barata quando eu balbuciei ‘menino doido’ ao vento. Eu nem sabia de mim, mas ouvi o mundo parando para nos sorrir e brindar ao encontro: escutei os nossos amigos entoando canções desafinadas e barulhos de mar e estrelas. Os meus cabelos emaranhados combinavam com os seus jeans surrados e a minha camiseta do Nirvana era parecida com a sua do The Who. Você era a cara do Julian Casablancas, enquanto eu fazia careta pra ‘banda-modinha-cópia-mal-feita-dos-Stones’, mas você era você, e o destino, caprichoso.

O hiato do tempo tão injusto e desigual pausou uma estória que nunca aconteceu mas que nunca foi apagada. Os anos passaram sem graça até que nos reencontramos de forma não-convencional (como tudo que sempre foi tão nosso): eu, sóbria. Você, sorrisos. A história estava escrita, e o nós não podia mais ser adiado. Fui, então, me perder na bagunça da sua vaidade e no seu amor inteiro.

A memória é vívida e prodigiosa: suas lágrimas molhando os meus seios e seu suor na minha boca naquela primeira noite em que dormimos juntos. O seu ‘eu amo você’, a sensação irremediável de realização, a certeza irrevogável que a vida inteira valia aquele momento, os seus dedos passeando pela minha barriga, as nossas conversas de madrugada, a mágica que era o nosso olhar, a sua adoração por mim, os contos mais bonitos de amor que eu escrevi, as nossas pernas entrelaçadas e os seus dentes nas sardas do meu ombro.

Em dias de amor total, houve também a ruptura: as teias e labirintos da vida foram confusões sobre as nossas cabeças. O sol de verão iluminou tudo de pior que havia em você. Eu já não tinha mais brilho. Você me consumia, eu o cuspia. O fogo ardia, mas o coração não aguentava mais um único suspiro. De companheiros, viramos rivais. De entusiasmo, nos tornamos cansaço. O fracasso das forças tornou nossas tentativas em miradas opacas e a desistência anunciou o que temíamos: a separação, o enfrentar em si de hojes sem a mão amiga do outro que era o abrir caminhos de amanhãs.

As noites eram febris e eu pensei que fosse morrer sem o seu corpo junto ao meu: o amor dos vinteepoucosanos sabe ser impiedoso como poucos. Em que mundo haveria de ser possível eu sem você e você sem mim? Você era oxigênio apaixonado para os meus pulmões fatigados do cinismo daqueles que não amam. Você era a recompensa dos que são castigados pelo marasmo dos dias.

Inacreditavelmente, eu sobrevivi. Em longas e imensas horas, a pilha de destruição que você deixou dentro de mim foi diminuindo e eu vi que era completa de novo. Mas você nunca foi anônimo e a sua voz nunca emudeceu. Você nunca foi desimportante, nunca foi qualquer um. Em todos os meus minutos de solidão conjunta com outro alguém ou acompanhada pela sua ausência, você me ensinou tanto sobre tudo em lições silenciosas. No espelho da minha mente, você era o empirismo explícito nos meus passos de pisar em ovos.

Você era paixão crua e desnuda, a minha maçã envenenada na mesa do professor: Com o seu egoísmo, eu aprendi a perdoar. Com as suas dúvidas, eu aprendi o valor da paciência. Com os seus olhos que prenunciavam tempestades castanhas, eu aprendi a sentir medo da chuva. Com os seus beijos, eu aprendi a me entregar. Com o seu toque, eu aprendi o que era ser completamente vulnerável a alguém. Com o seu sangue, eu aprendi o que era me queimar. Com os seus sonhos, eu aprendi o que era acreditar. Com a distorção da sua guitarra, eu aprendi o que era dilacerar de ciúmes e ver a lucidez se esvair de mim. Com os seus erros, eu aprendi o que era crueldade. Com a sua pele, eu aprendi a me misturar e ser menos minha. Com os seus berros, eu aprendi o que era saudade. Com o seu amor, eu aprendi a me fazer inteira. Com a sua dor, eu aprendi a ser mulher. Com a sua confiança, eu aprendi o que era cumplicidade. Com a sua aspereza, eu aprendi o que era verdade. Com a sua luz, eu aprendi a ser sombra. Com você, eu entendi a poesia exagerada e a miudez intransigente do morno. Com a sua inconstância, eu aprendi o vício em adrenalina. Com a sua teimosia, eu aprendi que sabia muito pouco sobre as coisas vis do mundo. Com a sua malícia, eu aprendi a traição da minha inocência. Com o seu tesão, eu aprendi o poder do meu corpo. Com o seu caos da entropia que rege o universo inteiro, eu aprendi o que era perder totalmente o controle.

Por anos, fui a mágoa escrita e a incompreensão de um amor subvertido. Esses dias, ao seu lado novamente, percebi que eu era mesmo gratidão e entendimento por todos os nossos ciclos ininterruptos. Resolvi que contar a minha vida e os meus processos para você – que me conhece de outros ‘lugares ancestrais’ nessa cidade pós-moderna que nos engole – era o sanar que eu precisava da loucura que me consumia por qualquer bobagem. Você, que me sabe de verdade no meu melhor e no meu pior. Você, que nunca esqueceu a data do meu aniversário (nem mesmo nos nossos anos apartados de palavras e contato!), mesmo quando vinha me desejar ‘Feliz Páscoa!’, naquele seu humor mordaz e tipicamente inglês. Você, me cantando Caetano baixinho e disperso enquanto dedilhava o violão para fazer a minha raiva por coisa qualquer passar (e gargalhava o seu sorriso irresistivelmente torto quando eu jogava o travesseiro na sua direção e o expulsava do quarto trancando a porta na casa que não era minha). Você, que me viu tão eu: que tinha me enxergado tão leoa quanto temor, tão frágil quanto forte. Que teve de mim os excessos bipolares, mas nunca o equilíbrio.

Com a pressa das semanas que passam se atropelando enquanto deliramos macios, você achou que seria uma boa idéia consertar o nosso passado e fazer de nós presente naquela noite de vinhos e confissões. Disse – com os mesmos olhinhos gulosos de outrora – que os nossos corpos já se conheciam tão bem quanto as nossas almas. Antes que as minhas convicções ultrapassadas o empurrasse para longe, você reavivou a velha mania de me roubar beijos ao me puxar pela nuca e me prender nos seus abraços. Você me calou com a sua boca uma vez mais. Engasguei. Perdi o fôlego. Depois, esfregando o meu nariz contra o seu e misturando a minha respiração com a sua, abaixei a cabeça e sorri em silêncio como da primeira vez (com você é tudo sempre como se fosse a primeira de todas as vezes que jamais cessam em se repetir).

Tudo o que reluz nessa Terra-De-Meu-Deus-Sem-Tamanho-E-Sem-Porquê sabe que não sou afeita à novas chances, mas com você danço o Samba da Volta. Porque – justifico a mim mesma enigmaticamente como a Bruta Flor de um querer – você é você e isso é ‘o começo e o fim de tudo’.

Paro e penso que, dos que vieram antes de você, eu já nem me recordo. E todos os que vieram depois foram somente isso: depois de você. De você, divisor das minhas visões de mundo em antes e pós-presença. Em você, suspensão de eras no espaço sideral que não me cabe enquanto a vida fingia passar e eu matava instantes imediatos buscando a sua pele em todos aqueles que eu não permitia que tocassem em mim o que eu fui para você: eles eram somente ruídos, enquanto você era a música inteira.

Obrigada por continuar me ensinando o valor da coragem de estar com quem nos enche de borboletas o estômago ulcerado e com quem muda tudo de lugar para reconstruir um tempo que nunca se perdeu.

Os anos nos devoram como goles sedentos por Milk Shakes na Avenida Paulista e finalmente entrego a verdade no meu sorriso mais bobo: eu realmente amo você de todas as formas que se pode amar alguém,

A.

'(...) You pierce my soul. I am half agony, half hope. (...) I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it eight years and a half ago. (...) I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. (...) For you alone I think and plan. - Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice, when they would be lost on others. (...) You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating in F.W..'
‘(…) You pierce my soul. I am half agony, half hope. (…) I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it eight years and a half ago. (…) I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. (…) For you alone I think and plan. – Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice, when they would be lost on others. (…) You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating in F.W..’ (AUSTEN, J. in ‘Persuasion’.).

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Rascunhos de Outono VIII: Vinte e cinco de fevereiro.

9 de março de 2016 por Camila

‘Must be strangely exciting to watch the stoic squirm. Must be somewhat heartening to watch shepherd meet shepherd.’

(MORISSETTE, A.)

Pois é, a estóica se contorce e oferece uma visão interessante a quem se faz platéia. Zenão de Cítio me julga com miradas de estátua grega e diz que não foi assim que me ensinou. Os Rolling Stones insistem em domar cavalos selvagens que me arrastam pra longe. Mulheres mais fortes me estendem as mãos e me afogam em abraços. George Harrison está convicto de que isso também vai passar. A minha torcida do ‘deixa pra lá’ é enorme e faz barulho quando eu quase ofereço a minha cabeça em bandeja de prata. Apresso o tempo para que chegue o dia do alívio e do encher os pulmões de oxigênio leve, que custa. Olho o calendário e descubro o porquê da tormenta inconsciente: 25 de Fevereiro de doismilequalquercoisa.

Na solidão contínua do 25 de Fevereiro que já dura 145 horas e que é puro temporal aonde vivo, vi por uma imagem cheia de reticências que o seu foi de azul e muito sol. E aí percebi – com o rosto molhado de nuvem e idéias – que depois de você, vai ser difícil que os vinteecincodefevereiros dos meus anos sejam dias comuns ou de amnésia seletiva na minha existência vã.

Os vinteecincodefevereiros se tornaram dias mágicos quando, há anos atrás, você entrou na minha vida, encheu a minha barriga de borboletas ao esvaziar simultaneamente o meu coração de angústia e decidiu por si que nós teríamos uma história ímpar pra contar a qualquer um que quisesse ouvir alguém falar de amor. Não foi fácil, digo, você não entrou em mim de uma maneira fácil: você chegou dilacerando as minhas certezas enquanto eu desligava o botão do seu cinismo ao estilhaçar a maldade arisca e incógnita nos seus olhinhos negros.

Enquanto a agonia me consumia feito fogo que lateja calado e eu ardia em chamas de memórias ao criar os piores diálogos que habitavam uma paisagem que não era eu, você se perdia em outros beijos (frios, mecânicos, vulgares e mentirosos, mas beijos) e construía novas lembranças. Chorei. Soluçando e com dor de estômago, pedi a Deus – bem baixinho, mas com fervor! – que você se extinguisse em mim como o silêncio nas multidões que – ainda, que ironia! – nos observam. Sei que você ainda sabe de mim e dos horizontes que me formam ao esmiuçar tudo o que sou. Sei o que sei de você, que eu sempre soube sabê-lo tão bem em tantas minúcias e defeitos.

Olho pros lados e vago em busca de distrações. Leio e não me concentro. Trabalho e jogo tudo para o alto. Dou a cara pro tapa e não abaixo a guarda. Tomo café e queimo a boca. Masco chicletes de hortelã e mordo a língua. Vou ao parque encher a boca de vinho e penso em ir ao cinema (que íamos tão pouco por ter muito sobre o que conversar e, obviamente, passar mais de 1h em silêncio não era natural para nós quando estávamos juntos): lembro que nos ocupávamos falando de paixões e Chuvas de Novembro, de projetos, de soluções, de novidades, do caos, da posição exata das sua mãos me puxando pelos quadris e despenteando os meus cabelos, da provocação dos elogios tão desbocados quanto deliciosos, da elocubração da vida que construíamos e da que gostaríamos de ter. Juntos sempre, e talvez oferecendo algum significado material e humano ao conceito surreal de ‘simbiose’. Toda a amplidão do tempo raro e incomum, pele em pele, até eu tropeçar nos seus pés que me seguiam pelos meus caminhos sempre tortos. E agora, nessas voltas apressadas que o mundo dá, morro de pena e melancolia quando você mesmo me diz que tudo o que você faz é ir a uma sala escura para assistir sucessos de bilheteria superficiais enquanto emudece em outras vidas fictícias e empobrece com o passar das horas ordinárias.

Contemporizo. Sinto sua falta. Sintonizo suas palavras e tenho medo de que você me procure e me peça pra voltar mais uma vez, porque não vou conseguir ser forte como na semana passada em que neguei sonoramente. Começo a me afogar em autocomiseração e pago o preço da dúvida. Repito que não posso voltar atrás nas decisões que eu tomei de ser grande. Componho cânticos e começo a entoar como se fossem Mantras sagrados de fortalezas e convencimentos. Preciso acreditar. Ignoro o meu nascimento plástico há trintaetrêsanosatrás. A tristeza quer fazer de mim morada intransponível e eu culpo o inferno astral, mas minhas mãos são mais rápidas na busca das armas e do esquecimento lento e periódico. Descubro, só por cinco minutinhos de perfeição, que ainda há mundo. E aí me vou.

Fujo. Milhas. Léguas. Kilômetros. Anos-Luz. Qualquer medida de tempo e espaço, desde que seja provisória e imediata. Vou pra cidade que sempre me foi cura para me perder nas esquinas que não há e, quando volto ao meu lugar claustrofóbico, me desespero mais uma vez ao encontrar a poeira vermelha daquele chão de verão nas barras das minhas calças jeans e nas solas dos meus sapatos que são o constatar preciso e inescrutável de que tudo se desmancha no concreto do asfalto, até mesmo nós (outrora tão cegos e eternos).

A poesia indefectível e abstrata da 109 Sul. Brasília não é tão concreta assim.
A poesia indefectível e abstrata da 109 Sul. Brasília não é tão concreta assim.

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Contos de Verão XII: Carnaval incerto.

1 de fevereiro de 2016 por Camila

‘Nós: muita água já rolou aqui pra nós, nosso rio já entrou por alto mar e lá no fundo a gente sente o fim chegar. Nós: uma rosa que eu peguei na sua mão, tantas folhas de outono pelo chão, vem um vento balançando a nossa fé. É, insistimos em nadar contra a maré na esperança de voltar a um tempo bom que abençoe novas noites de verão. Nós sem querer parar, deixo o céu chorar: chuva irá lavar o coração.’

Às vezes eu tenho vontade – como nesta tarde de verão insólito – de mandar uma carta e perguntar se você acha que isso um dia vai passar. A ‘isso’ me refiro a esse nosso gostar recíproco e perturbador que assombra as novas pessoas das (e nas!) nossas vidas. A essa saudade do futuro que não tivemos, dos nossos corpos ardendo cheios de passado e desse imenso vazio que se fez presente. A essa intimidade louca que a gente silencia, mas que, quando fala mais alto que nós, faz parecer que foi ainda ontem que o seu olhar repousou em mim: Você ainda tão meu, eu ainda tão sua (e nem precisamos necessariamente conversar ou rememorar o amor para perceber isso, sabemos que prosear sobre a rotina do desassossego e flores amarelas é mais seguro para esse novo caminho).

Eu queria ter a certeza de que isso passa. De que vai passar para nós, também. Você não consegue me prometer e eu tampouco sei se conseguiria ouvir resposta contrária. Por enquanto, vou vivendo sem premissa de porquês e tentando bastar em mim tudo aquilo que era você: compro o pãozinho das 18h, tomo café amargo para acordar, masco chicletes que nem gosto até doer o meu maxilar, aprendo a me defender, acredito nas mentiras sobre as quais você me alertaria, vejo o meu time perder na televisão e atiro pra longe o controle remoto, finjo que não sou tão inocente o quanto me entrega o próprio sorriso, escuto canções que nos explicam, lavo os pratos que se acumulam na pia enquanto faço cara de nojinho e suspiro resignada, leio os maiores clássicos dos idiomas pós-modernos que você jamais tentou ler (e me pergunto se você já começou a se debruçar pelos 1903873 livros que dei de presente em datas significativas ou dias ordinários com dedicatórias de amor total ao seus sonhos), levo o carro na revisão e fico sem paciência com a conversa do mecânico, me irrito com a burocracia da cidade, xingo o cidadão que me cortou e não deu seta, declamo Neruda para as paredes, me encontro em outros mundos (e sinto uma nostalgia enorme dos seus!) e deixo que a minha alma mais leve finalmente me guie para as direções que me forcei a tomar.

Enquanto os dias se arrastam e exalam essa melancolia onipresente em tudo que vejo, fico querendo que alguma doença terminal aflija o meu corpo e o meu juízo para ter a desculpa de enfim perdoar você pelos seus erros de julgamento e péssimas escolhas e, desse jeito meio trágico, poder justificar a nossa volta nos meus últimos momentos de vida. Sinto uma saudade enorme da sua proteção nos meus dias de abandono e lembro como é difícil ser a mulher adulta e forte que não cede à tentações, ao calor, aos quereres urgentes e às paixões.

No hiato que nos invadiu, amei e fui amada por vários: todos eles melhores homens que você, mas – ironia do destino que me cospe a cara! – nenhum deles era você, e, portanto, não eram suficientemente bons para mim. O acaso me serve mil distrações e divertidos tropeços em lindas pedras, mas continuo procurando o seu rosto nas fotografias que não são suas. Fecho as portas e não consigo me compelir a cerrar as janelas, embora saiba que isto é o digno a se fazer. Tenho medo de me cortar com os meus próprios cacos e peço a Deus um abraço que coloque todos eles de volta no lugar. Ser inteira, depois de você, é desafio dos grandes: Olhar pro lado e não ver a sua sombra é andar descalça no asfalto do meio dia com o fogo em brasa queimando os meus pés outrora delicados.

Sei – através dos seus amigos e confidências indecorosas regadas a litros de álcool – que você anda por aí me procurando em outras línguas, em outros ritmos, em outras comparações, em outros temperamentos, em outros livros, em outros poemas, em outras arestas congênitas, em outras personalidades, em outras cadências, em outros discos e em outros carnavais em que você pensa ter me achado: Você não vai me encontrar porque eu nunca saí do meu lugar. Você não vai me esquecer em outros beijos tão falsos e pele tão fria porque a carne de nós é bruta em simbiose e a memória é flor que desabrocha em fina luz na alvorada de outros amanhãs.

Sou sua – concluo com certo enfado por não saber até quando em pequeninas doses de agonia – e tento me embebedar com o sono que não vem.

'Cartas de Amor - Monteiro Lobato'. (Foto: Laís V. Ribeiro).
‘Cartas de Amor – Monteiro Lobato’. (Foto: Laís V. Ribeiro).

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Contos de Verão XI: Compromisso inadiável.

20 de janeiro de 2016 por Camila

‘Sometimes I’m terrified of my heart; of its constant hunger for whatever it is it wants. The way it stops and starts.’ 

(POE, E.A.)

Hoje fui até o restaurante chinês daquela rua onde costumávamos andar de mãos dadas e pedi um frango xadrez. Catei minuciosamente todos os pedaços de pimentão e, enquanto todos me julgavam em silêncio, pensei que só você me entenderia: entre o muito que sempre concordamos, sabíamos que pimentão era um desastre em qualquer circunstância e que cebola sim era tempero, assim como pipoca só é possível com queijo ralado e que não há a nós outro jeito que não juntos.

A noite me desperta, releio suas mensagens e, hesitante, já não sei se respondo o beijo que você me mandou por alguém ou se encerro o assunto em uma mudez atordoante. A dúvida me consome, mas não há propósito de que eu deva fazê-lo: nada positivo poderia resultar de um encontro que não o caos dos sentimentos amordaçados e o desejo que é tormenta na raiz. Queria te contar dos meus dias, mas não posso. Queria especificar a falta que você me faz, mas sufoco essa melancolia intrusa bem dentro de mim e vomito como me é de direito. Calo. Fecho os olhos. Respiro fundo. Controlo com a força do mármore frio o que é indomável, cruel e desregrado. Nada faz passar. Tudo arde, tudo é angústia: e, ainda assim, sei que é de mim o gosto perpétuo que habita a sua boca.

Imagino se você ainda segue emudecido os meus passos, se encontra meus olhos perdidos em cada esquina, se ainda lê os meus textos (e se os edita mentalmente, com todas as minhas crases indevidas – ou ausência delas! – e meus pronomes átonos mal alocados), se ainda me sente doer mansinho, se sabe da minha dificuldade em impor distância e de como eu morro a cada instante com as suas escolhas. E, sobretudo, como fraquejo com as minhas se formos fazer aqui em licença poética a justiça da mea culpa.

Já, já sei da certeza do seu amor enorme e que me engole desossada: me gritou o vento, os seus amigos, as ondas da Garça Torta, o seu sorriso atravessado no reconhecimento do meu olhar enviesado, a bebedeira do primeiro dia de um novo ano, o nosso silêncio amplo e irrestrito de perfeitos estranhos, o pôr-do-sol da Guaxuma e a ambiguidade das suas atitudes. Penso que quero ser maior do que me vejo e só aspiro a você felicidades e a mim o desapego. Tudo é confusão e espero impacientemente que o alívio substitua a dor da partida em vê-lo de (ao) longe: pulo de cabeça em mais distrações, em outros corpos, em novas intoxicações e em qualquer coisa que não tenha o toque embalsamado do seu cheiro no calor da sua saliva entre os meus dentes. Vou brincando de repor adições e correr menos riscos.

Toda viciada é estúpida mesmo quando tenta ser inteligente, e meu vício em adrenalina me deixa ligada em você no que parece um ciclo eterno. Fujo, desesperadamente: procuro curas, recomeços, explicações, mais um pedaço de ilusão, sua mão no meu quadril, meu medo inconseqüente, Gita, meditação e o ‘adeus’ que eu nunca te dei quando me desmanchei (feito tudo que é sólido!) no ar. Peço sinais que não chegam, prazeres efêmeros que em segundos me saciam, a minha vaidade cega feito faca amolada e o meu me perder nos meus próprios caminhos. ‘Sou forte’, repito a mim mesma em frente ao espelho – ao mesmo tempo em que passo batom carmim e embebedo meus lábios com vodka da pior qualidade! – quase que como um Mantra enquanto gargalho da sua convicção ao me rotular como ‘auto-suficiente’. Ah, se você soubesse; ah, se você ousasse divagar por essa trilha nas minhas curvas inexatas…

Você é querer sem poder: se corro pra você, desisto de mim e da mulher que eu gostaria de ser. Me recomponho enquanto me dilacero, me reinvento enquanto me destruo e lembro que o equilíbrio só é possível longe das paixões que nos implodem as vísceras e nos deixam na carne crua. Sei o quanto você gosta de me ver agonizar e me odeio por dar-lhe esta satisfação que, senão por mim, jamais existiria. Mais uma vez sou responsável por manter-me longe do que um dia foi lar, mas te amo feito bicho solto a vagar errante pelo mundo que é agora tão pequeno e claustrofóbico: estava certo quem um dia disse que corações são sim criaturas selvagens, pondero e reafirmo. E, por isso, não me culpo da insensatez que agora me tortura. Isso também vai passar, eu sei e repito para acreditar, como tantas coisas passarinho.

Escuto Sylvia Plath berrando aos meus ouvidos quase moucos e ao meu cérebro inapto: ‘Again, I feel the gulf between my desire and ambition and my naked abilities’, e digo a ela que eu também. Não há o que fazer com o prelúdio que já é premissa do fim. Ignoro minhas questões, acendo um cigarro e caminho com os pés descalços em pleno inverno.

Só por hoje, concluo, sou saudades. Amanhã, me prometo, volto a ser inteira.

Nos meus afluentes e amores pela cidade.
Liberdade: nos meus afluentes e amores pela cidade.

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Contos de Verão X: Ruas vazias.

7 de janeiro de 2016 por Camila

‘When I desire you a part of me is gone.’

(CARSON, A.)

– 

Abri a porta de casa toda atrapalhada, com dois mundos em cada uma das mãos, e, sem acender a luz da sala ou tirar a chave do lado de fora, larguei as compras na cozinha. Respirei e me considerei vitoriosa na batalha infindável contra o trânsito. Perdi o olhar por uns 10 segundos e lembrei que precisava fechar a porta e iluminar a vida.

Nessa prática cotidiana da pressa e do descuido, vi que alguns envelopes se amontoavam no chão da entrada. Meio que com preguiça da burocracia de cortar papéis e já prevendo que se tratava de contas, peguei e debrucei a vista sobre eles. Eu estava certa, contas, desimportâncias e cobranças indevidas. Quando já tinha me preparado para largar tudo sobre a mesa e ir tomar um banho para tirar a cidade de mim,  encontrei a sua letra incerta num envelope pardo e sem remetente. Meu coração congelou. Trêmula, abri. Você, melancólico, me dizia no verso da fotografia mais bonita que tínhamos:

‘O retrato de uma saudade. O gesto do sentir falta. E, ainda assim, poder dizer que sorri paz em dias azuis, submerso em carnavais de silêncios e eloqüências.’

Quando bem de mansinho eu chorei e enxuguei a face para continuar a me embebedar com as  suas palavras, vi que você parafraseou aquele artista que canta mais ou menos assim:

‘…Fechei os olhos, chamei saudade. Olhei pra dentro, tenho você lá longe, bem longe. Um rumor dos corações, quero você na minha utopia. (…) E o beijo que tu me destes vou levar lá longe, bem longe.’

Fecha aspas. Encerra o tempo. Encolhe o meu mundo. Encurta o meu ar. O golpe foi baixo e a saudade me devora de dentro pra fora e em todas as minhas dimensões: me perco num espaço de 30m2, escorrego pela parede, abraço a foto das nossas pernas entrelaçadas enquanto estou em queda livre em direção ao solo, lembro dos detalhes do seu rosto e quase morro nove meses depois de tê-lo visto pela última vez.

Desisto de qualquer plano envolvendo livro e sofá e aceito a dura realidade que a paz da minha casa, naquele momento, seria o meu fim. ‘A louca morreu de nostalgia’, diriam as más línguas. Não coloco as frutas na geladeira ou me preocupo com a validade do iogurte, e, sem pensar, pego a chave do carro e saio em disparada. Não, não telefono pra você. Emudeço o celular para não correr riscos, mas saio perturbada a sua procura pela cidade. Nos lugares em que íamos, aonde fomos tão felizes e gargalhamos no mesmo compasso: aonde você censurava o meu vestido, me roubava flores, me abraçava forte e levava o meu corpo bêbado embora. Éramos par, simbiose e querer. Você entendia os meus sorrisos e eu conhecia os seus sinais. Seus defeitos que eram o caos de nós não permeiam mais a lista de ‘contras’, mas dançam macios na minha compreensão de lembranças: tudo que o tempo assola parece menor e mais perto do perdoável (que não é de mim exercer).

Não posso precisar o porquê de ter dirigido por quase 3 horas nessa cidade de verão à sua procura, não sei o que esperava que acontecesse. E se eu encontrasse você? Nada – um nada imenso – aconteceria. Acho que eu queria, talvez, ver a sombra do seu sorriso ou os seus trejeitos contidos de longe em bares de esquina. Não pretendia bagunçar a sua vida, encher sua alma de ilusões, roubar os seus chicletes de hortelã ou sequer estacionar o carro para falar com você (o outro lado da calçada é sempre mais seguro): não suportaria a sua voz de brisa a me chamar pelo nome. O seu tom inconcebível a mastigar e a cuspir palavras irresponsáveis pedindo pra voltar faria sangrar os meus ouvidos, ainda que aumentasse as cores do meu próprio viver. Eu sei que um encontro de peles e uma troca suave e malemolente de olhares não seria saudável mas não é sempre que consigo – ao contrário do que você me acusa! – conter os meus impulsos. Às vezes sou eu mesma a personificação da carne tórrida e da falta desmedida.

Sem conseguir decidir se foi melhor assim ou não, resoluta voltei pro meu micro-apartamento e me entreguei à justa solidão. Inocente, mal sabia eu que o perigo maior que corri essa noite não era o de encontrar você distraído por aí, era o de deitar na minha cama e não ter o seu corpo quente me abraçando. Era sentir sua ausência latejando como nunca. ‘Lobinho’, eu lhe dizia pela sua temperatura sempre acalorada, e mandava você parar de ficar tão junto de mim porque eu estava morrendo de aflição. Você, claro, ignorava os meus avisos e ficava se aninhando ainda mais. Eu fingia irritação e sorria timidamente com a certeza de você tão meu.

Com os olhos enevoados de noite pálida, concluo que hoje já nem sei mais os motivos que determinaram nosso fim ao que soa como séculos atrás, mas sigo convicta de que era esse o caminho traçado pelo destino a ser percorrido por nós: obedeço ao imposto pela sina mítica-universal e, com uma foice de gume afiado e passos cambaleantes, sigo cortando você da minha vida sem esperar o seu respeito a essa decisão.

Às vezes eu acho que essa saudade há de virar uma constante e que não tem solução equacional exata ou própria: seu silêncio, tal qual as suas palavras, mudam meu eixo e irrompem na minha razão e nas minhas decisões sem volta.

A coisa mais difícil que eu já tive que fazer em vida foi ficar longe de você.

'There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too tough for him, I say, stay in there, I'm not going to let anybody see you. There's a bluebird in my heart that wants to get out but I pour whiskey on him and inhale cigarette smoke. (...) There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too tough for him, I say, stay down, do you want to mess me up? You want to screw up the works? (...) There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too clever, I only let him out at night sometimes when everybody's asleep. I say, I know that you're there, so don't be sad. Then I put him back, but he's singing a little in there, I haven't quite let him die and we sleep together like that with our secret pact and it's nice enough to make a man weep, but I don't weep, do you?'. (BUKOWSKI, C.)
‘There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too tough for him, I say, stay in there, I’m not going to let anybody see you. There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I pour whiskey on him and inhale cigarette smoke. (…) There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too tough for him, I say, stay down, do you want to mess me up? You want to screw up the works? (…) There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too clever, I only let him out at night sometimes when everybody’s asleep. I say, I know that you’re there, so don’t be sad. Then I put him back, but he’s singing a little in there, I haven’t quite let him die and we sleep together like that with our secret pact and it’s nice enough to make a man weep, but I don’t weep, do you?’. (BUKOWSKI, C.)

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