Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Rascunhos de Outono VI: Carta de Carnaval.

29 de abril de 2015 por Camila

Oslo, 9 de janeiro de 1973.

Amado T.,

Pois permita que diga-lhe algo sem muita brevidade ou cerimônia: Eu sinto muita pena de nós, muita pena por nós. Do que poderíamos ter sido, do que fomos, do que jamais seremos. Sinto pena pela não-aceitação plena e mútua do que é o outro e seu mundo, pelas cicatrizes nas almas ambíguas, pelos pesos das escolhas, pelas idéias adjacentes e paralelas, pelas consequências atribuídas a toda ação irresponsável e impensada.

T., querido  – tão doce querido – meu!, eu sinto tanta… pena. Que teríamos sido nós se não fôssemos nós mesmos? Desate. Que poderia o mundo ter feito de nós se os laços fossem em outras circunstâncias? Grite, meu bem, ‘grite poesias que eu ouvirei’. Mas esse seu silêncio eloquente e frustrante em nada ajuda: Digo-lhe aqui (e sem testemunhas deste tempo escasso), que este seu silêncio – veja você – é tão somente torpe e vil, é insone e injusto.

Onde estão os seus passos nos meus caminhos incertos e suas observações nas minhas gramáticas disléxicas? Onde está aquela xícara de café que você me trazia e eu esquecia até esfriar? Onde estão as notas das primeiras canções entoadas tão e sobretudo em desafino novíssimo e pós-moderno com gargalhadas contornadas nas silhuetas dos lábios e na rouquidão das vozes? Onde estão as promessas, foram entornadas displicentemente ao longo de todo este solo herege? E as páginas dos livros, rasgadas? Vês? Me olhas de viés e já te sei: Me queres em dias de muitos e longos aindas, mas insistes em ludibriar-me sobre isso e qualquer outra coisa que me alcance. Porque me enganas em desamor delineado em tons tão menores do que és ou de como enxergo?

Dias amorfos, noites que não cessam em existir, mil coisas para te contar desta terra de sagas  míticas muito poco conhecidas e desbravadas, e nada que seja relevante. Nada, um nada de proporções desmedidas e ignoradas. Desculpas vazias para buscá-lo nas minhas lembranças, na linha do telefonema distante, no telegrama que me chega com assunto vazio (e saudade óbvia e sobreposta!, você não tem jeito e não se disfarça, ainda que cale!) e na sua rispidez que resplandece emergida nas palavras sem cuidado com as quais me responde em cartas quando perde a paciência com as minhas próprias confusões. Estás tentando secar a fonte do que sente, eu sei de tudo aquilo que me explicas, eu estou aí também neste mesmo processo de finais fragmentados e adiados. Manda-me calar a boca e sequer finge arrepender-se de tê-lo feito: É mentira, noto, já não suportas a minha voz mas temes a minha mudez subseqüente e inédita.

Já sabes então que meu sangue é de carnaval e agora -, precisamente neste instante que me cerca e quase morre, e às vésperas de me reinventar em pleno fevereiro de renascimento – nesta cidade tão fria e tão pura não se pode encontrar a malícia de sorrisos bêbados, ritmos frenéticos ou confetes pelo chão. Sofro as lojuras de ti (e por ti, Amor tão meu!), os reflexos da saudade e o absolutismo esmagador das certezas de que algo já não é e par não há. Cambaleio pelas ruas sem destino e convivo com a nostalgia das marchinhas de outrora, relativizando todo o toque que me chega e toda a possibilidade tátil (que anulo com a eficiência alemã impecavelmente mordaz e a pontualidade britânica que vivem aos trancos neste coração vadio e latino que me pulsa). Você ficaria orgulhoso, acredite. Você acusaria secamente ad infinitum aos meus ouvidos que estas são as minhas escolhas e, portanto, mereço a culpa que recai inteiramente sobre mim sem divisores ou dividendos: O débito do tempo de nós que foi perdido é meu, já sei. Nada é simples e tudo que é efêmero padece de para sempre. O tempo me assusta e sua passagem tenta me embrutecer, mas o cinismo niilista do em nada crer jamais me caiu bem.

O caso é que eu te amo. Eu te amo sem fôlego e sem freios.

E beijo-te solenemente em Adeus com um espírito que queima ao som de um vulgar ‘até logo’,

A.

P.S.: Eu tinha toda a intenção do mundo de começar e terminar essa carta com a aposição exata dos pronomes oblíquos átonos somente depois dos verbos para que não lhe doessem aos olhos as minhas grosserias morfológicas ou sintáticas. Como vês – e já me sabes – evaporei as idéias e relutei contra os fatos. Comi verdades e pari as palavras como lhe pude e da única maneira que sei: Em voz ativa – e muito viva, ardendo em brasa e por vezes fagulha! –  e em mil pronomes desordenados e mal alocados, ainda que não menos diretos e extremamente pessoais.

P.S. do P.S.: Que sepas pues que te quiero, cariño. Y mañana te seguiré queriendo mientras me vaya a Barcelona de puta madre a ver si por fin se me quita la tristeza de los ojos llenos de mundo y se me levanta el ánimo… Guardate este bezaso apalabrado que en algún día de esperanza te lo regalo en la boca y en todo tu cuerpo delgado y reconfortante. No te olvides que a esta niña mala le gustan las travesuras y jamás ha podido con su propria alma.

Parti (-me) (em) mundos.
Parti (-me) (em) mundos.

Deixe um comentário

Rascunhos de Outono V: Desossada.

28 de abril de 2015 por Camila

‘…Then the gate springs open again and there are beautiful silks and powerful horses riding against the sky. Such sadness: everything trying to break through into blossom. Every day should be a miracle instead of a machination. In my hand rests the last bluebird: The shades roar like lions and the walls rattle, dance around my head. Then her eyes look at me, love breaks my bones and I laugh.’

(BUKOWSKI, C.)

‘Love…breaks…my…bones…and…I…laugh.': Bukowski lhe ecoava incessantemente na escassez que era o seu próprio juízo de uma mente oca e ela repetia as palavras e sílabas com malemolência e com um certo desdém de quem acabara de aprender algo novo mas que fingia saber há muito: Escondia a surpresa diante do óbvio e mentia não ser a inocência em pura – porém não menos bruta – flor.

‘Love…breaks…my…bones…and…I…laugh.’: Quase que como embevecida, ficou transtornada. Como era simples, como era frágil, como era previsível, como era exagerada. Das paixões criadas, dos amores sacudidos. Como era  – em carne sangrando e ferida aberta, digo – intensidade submarina versada em mergulhos de cabeça em pessoas rasas. Quebrou o pescoço, era dormência sem mansidão. Era invalidez verbalizada: E ria, a louca. E gargalhava livre de pudor, a pobre desossada.

‘Love…breaks…my…bones…and…I…laugh.’: Repetia enquanto a água lhe escorria escaldante pelos ombros alvos e pelas sardas de seu rosto. Parecia, por fim, ter encontrado todas as respostas cujas ausências tanto lhe atormentaram ao longo dos anos. Observava as gotas deslizando pelo vidro da porta que lhe encarcerava em vapor (quem sabe não formariam algum desenho ou obra prima abstrata?) e repetia – sílaba a sílaba – como se ainda pudesse descobrir alguma outra luz no fim do túnel da sua própria confusão apenas pelo excesso de repetições e ecos da mesma frase. Quem sabe ali não havia mais verdades disfarçadas ou estilhaços de ilusão necessária? Bukowski sabia das coisas, lhe interrompia a intermitente ignorância e lhe vomitava tudo que era morno. E Bukowski, mais que tudo, lhe cuspia a cara: -Como pode não saber disso ainda, sua tola? Você ri. Você ri quando o amor lhe quebra os ossos… Imaginou-se bêbada com o Poeta e Velho e Safado num diálogo de quem não sabe nem quem é e muito menos pra onde vai. Numa conversa desconexa de mil botas batidas regadas a litros de Bourbon e ausência de razão.

‘Love…breaks…my…bones…and…I…laugh.’: Sentiu o amargo do álcool envelhecido em tonel de carvalho lhe entorpecer a língua e repetiu mais uma vez – lenta e dolorosamente – a sua grande e absoluta e novíssima verdade universal. Chegava a ser patético: o amor lhe quebrava os ossos de um corpo inteiro que sustentava uma vida e ela sorria desvairada e desgraçadamente.

...Enquanto cavalos selvagens cortam os céus.
…Enquanto cavalos selvagens cortam os céus.

Deixe um comentário

Rascunhos de Outono IV: Enquanto você falava.

20 de março de 2015 por Camila

‘Then it came to me like crashing thunder, like death and destruction. I got up from the counter and walked away in fear, walking fast down the boardwalk, passing people who seemed strange and ghostly: the world seemed a myth, a transparent plane, and all things upon it were here for only a little while; all of us, Bandini, and Hackmuth and Camilla and Vera, all of us were here for a little while, and then we were somewhere else; we were not alive at all; we approached living, but we never achieved it. We are going to die. Everybody was going to die. Even you, Arturo, even you must die. I knew what it was that swept over me. It was a great white cross pointing into my brain and telling me I was a stupid man, because I was going to die, and there was nothing I could do about it. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. A mortal sin, Arturo. Thou shalt not commit adultery. There it was, persistent to the end, assuring me that there was no escape from what I had done. (…) There will be confusions, and there will be hunger; there will be loneliness with only my tears like wet consoling little birds, tumbling to sweeten my dry lips. But there shall be consolation, and there shall be beauty like the love of some dead girl. There shall be some laughter, a restrained laughter, and quiet waiting in the night, a soft fear of the night like the lavish, taunting kiss of death. Then it will be night, and the sweet oils from the shores of my sea, poured upon my senses by the captains I deserted in the dreamy impetuousness of my youth. But I shall be forgiven for that, and for other things, for Vera Rivken, and for the ceaseless flapping of the wings of Voltaire, for pausing to listen and watch that fascinating bird, for all things there shall be forgiveness when I return to my homeland by the sea.’

(FANTE, J.)

Enquanto você falava, eu nem ouvia: Eu apenas olhava. Eu olhava a sua voz, decorava o traço desafinado do seu tom, me entristecia com esse hiato enorme de (em) nós dois e desenhava rascunhos mentais. Eu escrevia – no silêncio de miradas que fogem de horizontes – um conto para você sobre o que fomos e sobre a nostalgia do que não fomos (ou do que somos de fato). Ambicionei profundamente por acreditar, mas só me veio a dúvida corrosiva. Quis crer em si – e quase mi morri de sem conseguir ré-troceder em meio a possível -lsidade. Não, esse dia de sol que não é azul nem onde você mora e nem cá com meus botões, não pode ser dos nossos se o que sobra em laços de nós é só e tão pura melancolia -, mas a desconfiança já se havia feito de mim sua morada.

Você falava e eu nem ouvia: Voz passiva dos meus desejos, essa sua. Nada é da sua culpa ou do seu feitio quando o mundo ruiu e me sorriu ironicamente de canto. Você, vítima da vida, das próprias escolhas e do caos. Você, autor inocente e inerte da minha (sua?) dor que renuncia e se embebe em refugar.

Você falava e eu nem ouvia: Timbre dos meus quereres de silêncios e calares, esse seu desafino. Amordaço os meus sentimentos e faço deles deserção e fuga no mais profícuo jardim do esquecimento: mato, em sangria, um a um. Depois arranco pela raiz e encharco de pesticida apenas como garantia que não mais irão florescer e assim me trazer o fim. Esqueço do que sou depois de você e tento lembrar como a vida funcionava antes dos meus arroubos, volições, cobiças, lascívia, febres e vontades cruas (muito burras e muito brutas, registre-se).

Você falava e eu nem ouvia: Larguei os meus olhos na minha estante de livros. ‘Pergunte ao Pó’  berra-me – de algum lugar esquecido da minha prateleira – John Fante:

‘You got a bottle from your purse and we drank it up: First your turn, then mine. When the bottle was empty I went down to the drugstore and bought another, a big bottle. All night we wept and we drank, and drunk I could say the things bubbling in my heart, all those swell words, all the clever similes, because you were crying for the other guy and you didn’t hear a word I said, but I heard them myself, and Arturo Bandini was pretty good that night, because he was talking to his true love, and it wasn’t you, and it wasn’t Vera Rivken either, it was just his true love. But I said some swell things that night, Camilla. Kneeling beside you on the bed, I held your hand and I said: – Ah Camilla, you lost girl! Open your long fingers and give me back my tired soul! Kiss me with your mouth because I hunger for the bread of a Mexican hill. Breathe the fragrance of lost cities into fevered nostrils, and let me die here, my hand upon the soft contour of your throat, so like the whiteness of some halfforgotten southern shore. Take the longing in these restless eyes and feed it to lonely swallows cruising an autumn cornfield, because I love you Camilla, and your name is sacred like that of some brave princess who died with a smile for a love that was never returned. I was drunk that night, Camilla, drunk on seventy-eight cent whiskey, and you were drunk on whiskey and grief. I remember that after turning off the lights, naked except for one shoe that baffled me, I held you in my arms and slept, at peace in the midst of your sobs, yet annoyed when the hot tears from your eyes dripped upon my lips and I tasted their saltiness. (…) When we woke up it was morning and we were both nauseated, and your swollen lip was more grotesque than ever, and your black eye was now green. You got up, staggered to the wash-stand and washed your face. I heard you groan. I watched you dress. I felt your kiss on my forehead as you said goodbye, and that nauseated me too.’

Você falava e eu nem ouvia: O pó não me explica coisa alguma, Fante emudeceu. O pó que forma camada sobre o livro negligenciado em detrimento de uma rotina apática é p(ó)esia marginal, clichê genial, soberba volúpia, pretensa gana e que me mata lentamente de reconhecimento e falta. Sinto raiva de nós e de Fante, varro pra longe o desatino e separo de mim o desconexo que é este estorvo de nos ver em literatura. Virou poeira e abandono. Preocupo-me com o excesso de adjetivos e esqueço o grau dessa desimportância. Pobre Bandini, pobre Camilla (de que lhe adianta ser musa se é pra ser sempre tão honesta? De que lhe serve tanta suposta fidelidade se sempre só lhe importou o conceito abstrato de lealdade?). Penso freneticamente: Fante – seu velho safado! – deixe-me dormir e deixe-me em paz com tanta crueldade. Você me roubou o ar, a alma, a história, o nome, a calma e o sono. Bandini, ladrão de amanhãs. Converso com escritores mortos e estou completamente louca, concluo.

‘Under water the current rushed, rolling and dragging me. So this was the end of Camilla, and this was the end of Arturo Bandini — but even then I was writing it all down, seeing it across a page in a typewriter, writing it out and coasting along the sharp sand, so sure I would never come out alive. Then I was in water to my waist, limp and too far gone to do anything about it, floundering helplessly with my mind clear, composing the whole thing, worrying about excessive adjectives. (…) I have forgot much, Camilla! gone with the wind, Flung roses, roses riotously with the throng, Dancing, to put the pale, lost lilies out of mind; But I was desolate and sick with an old passion, yes, all the time, because the dance was long; I have been faithful to thee, Camilla, in my fashion.’

Você calou e eu finalmente ouvi: Porque, sobretudo, é você a minha saudade ativa e dissimulada do que poderia(mos) – algum dia, talvez – ter(mos) sido, mas que escolheu ser mediano e irrelevante com a ajuda enclausurada do tempo e do absurdo. Você é a minha narrativa bêbada de whiskey barato, de lágrimas inconsoláveis, de cinzas de cigarro que adormecem no cinzeiro e de paixão insensata. Você é o torpor da minha ressaca, do meu café frio no meio da tarde, do meu devaneio sem caminho, da minha falta de ar e da minha mágoa incurável.

Sua voz e o meu devaneio.
Sua voz e o meu devaneio.

Deixe um comentário

Rascunhos de Outono III: Parênteses.

13 de março de 2015 por Camila

Olha, você gostaria de saber que hoje eu fiz uma baliza perfeita? Aliás, duas. E, em uma delas, estacionei o carro de primeira naquela minha garagem assimétrica. E então, ao fazê-lo, quase deu pra ouvir o seu aplauso e palpar o seu sorriso cheio de orgulho e contentamento (e, é claro, recheado de um punhado da sua ironia peculiar seguido do verbalizado ‘finalmente, meu Bem’).

E que pensei no andamento do seu livro a tarde inteira e novamente antes de dormir, você gostaria? Fiquei elocubrando cá com meus botões se você avançou nas idéias e nos capítulos, na narrativa e no enredo, no começo e no meio (por que o fim – como você sabe – nós nunca entenderemos).

Então você acha que se interessaria em saber que a sua ausência me perturba na mesma proporção que a sua presença? Que o seu silêncio me arde tanto quanto as suas palavras? Que essa distância está tão perto que me confunde os sentidos e que anda por aí desembestada e afirmando que já nem sabe mais de nada? E que eu não reclamei do amargo do café e que ri da hiperatividade que ele me trouxe em seguida (descobri que as noites insones só podem ser salvas por manhãs de cafeína!), você se interessaria?

Freio meus impulsos e digo a mim mesma que você não iria querer saber disso (que é pura bobagem de mim!), mas tentei traçar na minha mente as portas que hoje lhe foram abertas (ou fechadas): Tentei calcular milimetricamente (sim, eu – justo eu – calculando coisa alguma!) o tamanho da alegria ou da profundeza escura da sua decepção, do seu desapontamento ou da sua desesperança. Tive vontade de saber com quantas pessoas já saiu ou aonde foi para buscar curas, porque, obviamente, o meu colo não procurou para o conforto e nem o meu companheirismo para celebração.

E que fui reler os seus poemas antigos, rever as suas fotos velhas, relembrar suas estórias,  reviver os seus momentos e procurá-lo nas redes sociais para saber um pouco mais da sua vida presente, você gostaria de saber? Passos ultrapassados e guiados pelo desconhecer (de ti).

Será que você pensaria ser relevante que, mesmo agora, quando chego em casa apenas levemente molhada enquanto vejo o mundo desabar sob a chuva paulistana e sinto – Deus, como sinto! – tanta pena dessas pessoas que estão encharcadas no corpo e vazias na alma e que buzinam desesperadas ou correm entre poças para chegar até àquilo que chamam ‘lar’ (seja qual é o conceito!), eu penso fastidiosamente sobre as suas hipóteses e vertigens?

Pois hoje foi dia de levar o carro para revisão. E, honestamente, me diga: você consegue pensar em uma tarefa que me sugue mais a vida do que isso? Bem, talvez fila de banco me mate o espírito, mas, revisão do carro?! Posso imaginar a sua cara ao me ouvir dizer pela 97839371 vez que não fui feita para as burocracias do mundo: -Dêem-me algo impassível de ser quebrado e uma impressora que transforme em cédulas o que eu tenho na conta, ora.

É que é na feitura dos meus planos em que fico me indagando continuamente sobre o que você me diria se soubesse deles. Nas suas expressões ao ouvir as minhas novidades e criações de horizontes quando tudo ao meu redor me enfada e me mata de tédio. No seu estar incondicional ao meu lado, mesmo quando me torno mais marasmo que aventura. Nas flores amarelas e azuis que você me traz mesmo quando faço bico e não mereço coisa alguma. Na sua falta de atenção quando a carência me consome. Na nossa via de mão dupla em sentido único. Nos nossos antagonismos semelhantes. No que nos completa e no que nos racha, nos afoga, nos quebra  e nos separa.

E, portanto, lhe digo livre de pretensão ou licença poética: Hoje foi um dia ordinariamente comum, no qual fui feliz nas pequenas coisas e sobrevivi ao sem graça do mundo, à ignorância da gente que me cerca, ao meu próprio mau humor (e TPM, claro!), ao cinza da paisagem, à garoa preguiçosa (que é ora tempestade e ora mansidão), ao destempero do trânsito de uma cidade caótica, às minhas incertezas indestrutíveis e ao carinho do próximo. Hoje foi só mais um dia como tantos foram aqueles outros em que tive vontade de falar com você, de me aninhar no seu peito, de beijá-lo apressadamente, de calar-lhe a boca com alguma rudez proferida e dar um basta na rotina que me exaure. Ou de (te) escrever um conto (sobre nós ou sobre tudo aquilo que me é você). Hoje brinquei de desenhá-lo nas minhas memórias mais bonitas, nos cantinhos tão meus que são só saudades e doçura: Hoje, provavelmente e muito talvez só por hoje, a minha mágoa não latejou feito a louca que é e que há de ser.

No meio de tantas dúvidas sobre suas posturas e tentativas de criar em fantasias (fantasmagóricas?) as suas possibilidades de ações, (te) falo tudo isso porque sei que você ainda vem aqui para beber as minhas lágrimas em taça de champagne ou talvez apenas atrás de notícias, súplicas, fatos, remorsos e sonhos. E que ainda quer saber de mim, mesmo quando eu própria já não quero (e me convenço disso ao fechar meus olhos em mais uma tentativa frustrada de dormir cedo).

Parênteses (cheios) de nós, quereres (plenos) de mins.

Das sutilezas de esquecer de mim em dias comuns de você.
Das sutilezas de esquecer de mim em dias comuns de você.

3 comentários

Rascunhos de Outono II: Tempo de era(s).

5 de março de 2015 por Camila

Helsinque, 11 de Dezembro de 1978.

B., querido:

Acordei com saudades. E com a certeza de que foi melhor assim: Com essa lonjura que arde, que queima, que causa febre delirante e que tortura em ausência de corpos. Mas que, no meio de todo esse processo perturbado, é também cura.

É a cura de um coração machucado, ferido, atraiçoado e, pior, desconfiado: É remendo, emenda e soneto. É conto, conta, prosa, poema e poesia. Mas é tanta – é grande, é enorme, é urgente, é imensa! – saudade. Corro mundos (e o mundo inteiro!) buscando presença e sanidade e completude e liberdade e amplidão. Mas é tudo tão irremediável, tão vago, tão vão, tão desimportante, tão sem sentido e tão sem graça feito sol em dia de neve e gente que não se dá.

No entanto, me habita a falta. E é falta, entenda, sem que esteja vazio. Não adianta correr mundos, percebo (finalmente!), se é amor que há sem haver. É dúvida de sentir. É a nostalgia de um novo tempo que pereceu e envelheceu o sonho. É o querer-te perto e longe no espaço que pode compreender um átimo de segundo. É banir-te sem o conhecimento sobre se sei, de fato, amar-te (e não sei, concluo). É a escolha por mim ao invés de escolher a ti. É o que desejo e não quero mais. É pulso sem vida. É o existir que se arrasta. É a volição esquecida, dissolvida e apagada.

Tua voz, saiba, é como um punhado de sal na minha carne que sangra, na minha loucura de uma ferida eternamente aberta e incicatrizável. Tuas palavras me varam o fígado, sugam o ar dos meus pulmões, viram úlcera no meu estômago em chamas e tentam – inutilmente – ludibriar meu cérebro na criação de novos planos e na feitura de novas promessas. És o meu coma, o meu estado vegetativo aonde estou acordada e com metade do corpo funcionando.

De mundos diferentes, óticas desiguais e verdades distintas ungidas sob o pano de semelhanças: Esses somos nós. Esses sempre seremos nós – dois seres confusos, perdidos, um pouco sujos e abandonados pelas nossas vaidades rasas e arrogâncias superficiais – , ainda que já não sejamos e tenhamos há muito deixado de ser(mos). Cruzamos os passados e nos tornamos a verossimilhança pretérita subjuntiva e abstrata do fôssemos. Não, não fomos. Jamais hemos de ser.

O nosso tempo é um eterno e desconcertante ‘era’: Era para ser, era uma vez, já era. A Era melancólica do tempo e da vida que não foi. Desafinou. Desandou. Desdisse. Desamou sufocando de paixão. Deixou pra lá. Desapareceu no sólido. Desmanchou o laço. Desocupou espaços. Doeu na impossibilidade permanente.

Inverteu, atravessou, escreveu, mentiu, quebrou, pretendeu, escorreu, adormeceu, vagou, lamentou, lembrou, morreu.

Foi-se (o amor).

Fui-me (embora).

Näkemiin,

M.

Peregrinação de mundos: Já não estou em parte alguma.
Peregrinação de mundos: Já não estou em parte alguma.

Deixe um comentário