Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Mea Culpa.

12 de novembro de 2015 por Camila

‘Have you ever been in love? Horrible isn’t it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means that someone can get inside you and mess you up.’

(GAIMAN, N.)

E então, entre beijos irresponsáveis, eu lhe disse:

-Menino, Menino, não se apegue a mim. Não se apaixone por mim. Não me queira ao seu lado. E, sobretudo, não me peça para ficar. Apesar do meu rostinho de boa moça e da doçura levemente maliciosa do meu sorriso torto, eu sou uma mulher muito estranha: Meu coração é bicho solto e meu corpo só fica ocupado pelo prazer hedonista de não pertencer e apenas estar sem ser. Não se perca nas minhas curvas, Menino, eu sou do tipo que só gosta de uma única música do Metallica e que nem é tão boa assim, sabe? Sim, The Unforgiven II. Isso já diz bastante sobre a minha esquisitice existencial, né? Mas antes que eu tergiverse e conceda um milhão de sins só por causa do jeito que você me faz derreter em só chegar perto com essa sua certeza irrefutável em me devorar, Menino, deixa que eu diga que não posso mais lidar com a culpa de – como canta por aí o Bruce Springsteen – encontrar fantasmas nos olhos dos homens que eu mando embora por não saber me dividir com o outro ou quinhoar meu tempo a alguém. Eu gostaria de poder dizer que eu sei como compartilhar espaços e deixar que a pessoa fique, mas a verdade é que tenho desejos compulsivos e vícios indecorosos por beijos demorados, porém, por solidões ainda mais prolongadas e silêncios imperscrutáveis. E você é lindo demais com essa sua cara Cubista de Mick Jagger e o diabo que dança nos seus quadris irresistíveis que se encaixam tão maravilhosamente bem nos meus para querer consigo o conceito de quem você pensa que eu sou. Sim, eu sei, isso parece algo que a Clementine diria naquele clássico insuperável com roteiro do Kaufman, mas sou eu mesma quem acautela a quem quer chegar junto.

Ainda recordo quando eu seguia obstinada em lhe avisar – e que hoje me enfurece duplamente a sua recusa descuidada em me ouvir – numa noite meio trôpega:

-Eu não sou para casar ou namorar ou construir dias e histórias de amor duradouro. Eu sou paixão efêmera e arrebatadora, feita para durar apenas o encantamento eterno dos segundos plausíveis. Os meus poros exalam estamina e as minhas pupilas dilatam liberdade. Eu sou egoísta e não quero estar em canto algum que não dentro de mim inteira, dos meus livros de romances possíveis, do mundo que ainda não percorri, dos meus filmes existencialistas de finais trágicos e impunes, das minhas músicas que nada mais são do que notas de pura melancolia e dos meus amigos que têm ainda menos juízo que eu e que estão por aí sempre perdidos a perambular em noites quase nunca estreladas. Eu tendo a refugar abraços protetores e a correr milhas de discussões de relacionamento. Na verdade, Menino Lindo Demais, eu não sou boa nesse papo de me relacionar com ninguém, sabe? Eu gosto mesmo é de dormir até bem tarde e ocupar as minhas horas com o que me inquieta e seduz e desperta qualquer coisa que não tenha que ser pra sempre. Sim, eu gosto mesmo é de impulsos.

Hoje, quando continuo forçando a memória no caminhar de lembranças, ainda evoca em mim a sensação de que você é raro e que ao menos disso eu sempre soube. Você é o homem pelo qual eu me apaixonaria se eu conseguisse abrir mão do que eu acredito em todas as coisas que eu busco. Você nunca seria um erro, mas a aposta de todas as horas mais seguras e do meu entregar completo e sem medo. O problema – Meu Menino Tão Insuportavelmente Lindo – é que nesses desencontros inexplicáveis do existir, eu sou barco a vela que gosta de viver no tumulto do mar e nas andanças do vento, com a boca cheia de sal e a alma que salta abismos verdes entre as ondas incessantes.

O que tínhamos era foda de tão bom. Era o nosso físico sagrado. Nossa carne trêmula e pulsante. Nosso sangue quente. Nossa chama que ardia. Nossa recusa em sentir algo além do agora. Nossos corpos em delírio febril: o meu cabelo entrelaçado nos seus dedos de forças que desconhecem medidas e limites, as suas pernas buscando espaços entre as minhas, a sua língua sedenta pela minha saliva que me invadia a boca e irrompia ímpetos urgentes, o abraço que me esmagava as costelas contra a parede, o olhar sacana que me desnudava sem sequer me tocar, a sua barba que machucava os meus seios de um jeito muito particular, a sua respiração úmida e intermitente, os gemidos monossilábicos que fariam corar a professora de português da quarta série que abolia os palavrões, a lascívia contínua e insistente, o suor que se misturava a outros fluidos igualmente humanos e incontroláveis, a cumplicidade do silêncio naquele cigarro pós-sexo e o ‘adeus’ que viria em breve para o meu profundo alívio do não-compromisso e o seu estado de graça de entrar imediatamente numa vida de não ter que dar satisfação a ninguém.

Você nos estragou quando quis ficar. Você acabou com a gente quando insistiu em me amar, Meu Menino. Nossos nós eram laços de liberdade. Nós não éramos além do haver das horas entre quatro ou cinco paredes, este era o nosso acordo implícito e urrado. Nós nunca fomos feito para construção: Ao contrário, nós demolíamos muros que cerceavam a possibilidade de um encontro meio desencontrado e deliciosamente errado por qualquer ângulo que tentasse se enxergar. Nós sempre fomos encaixe, nunca sentimento: Torpor que ensurdece e cala qualquer coisa da Bossa Nova que ousou tentar tocar de fundo em existência minimalista. Nós éramos a nulidade irresistível do depois, axioma inevitável e imprescindível do momento. Hard core, soft porn and all that jazz.

Mas eis aqui – e que seja sossego ao seu coração de leão enquanto o meu é de andorinha – a minha mais que mea maxima culpa risível, ridícula, estapafúrdia e sincera. Pela primeira vez será indiscutivelmente honesto dizer o velho ‘não é você, sou eu’: Sim, serei sempre eu com minhas necessidades absurdas de oxigênio, distâncias intangíveis, quietudes turbulentas e lonjuras inabitáveis.

Desculpa, Menino Meu Tão Lindo, mas Pássaro Livre não pousa sempre na mesma árvore ou fio de te(N)são porque sabe que há ainda horizonte largo pra voar.

‘…Me gusta la impunidad con la que tus ojos desnudan mi cuerpo. Me gusta la rebeldía con la que tu pelo discute con el viento. Me gusta la falta de respeto con la que tu sonrisa desafia al miedo.’ (BRANDO.)
‘…Me gusta la impunidad con la que tus ojos desnudan mi cuerpo. Me gusta la rebeldía con la que tu pelo discute con el viento. Me gusta la falta de respeto con la que tu sonrisa desafia al miedo.’ (BRANDO.)

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Laços (d)e Nós.

31 de julho de 2015 por Camila

‘Fala pra ele que ele é um sonho bom, que mudou o tom da tua vida comprida. Fala pra ele do disco do Tom Jobim, do seu apelido e de mim. (…) Fala pra ele que a vida é um balão, pra cuidar do seu coração.’

(ROSA, C.)

Posso dizer com alguma alegria que sonhei com você. E sabe, como de sutileza e saudade é feita a vida, posso dizer que isso foi suficiente.

Foi o tal sonhar de uma dimensão precisa, quero dizer, para alimentar a esperança de que um dia seja possível e justa a sua chegada. Para me ajudar a atravessar o enorme deserto que preenchem dias sem sentido, noites de solidão e tardes sem poesia. Fico aqui a sua espera, mas agora com uma partícula de alegria de que chegará o momento em que você se fará incuravelmente presente.

Não sei como estarei vestida, se nos meus surrados jeans ou no meu vestido curto. Não sei se a maquiagem estará conferindo alguma dignidade ao meu rosto pálido ou se as olheiras me serão óbvias e de impossível camuflagem. Não sei se a minha boca terá gosto de café puro e amargo ou vodka com cigarro, mas você se sentirá imensamente feliz em beijá-la. Não sei se minha pele estará ressecada pelos carinhos do inverno ou colorida pelo sol do verão, se as pétalas de leveza da primavera deslizarão sobre os meus ombros ou se a confusão do outono estará onipresente em meu coração. Não sei se estarei cansada pela rotina que me engole ou se sorrindo lírios por quem passe debaixo da minha janela quando eu acordar com gosto de caqui. Não sei se serei a melancolia descrita de um soneto ou o contágio de contentamento de um samba. Não sei se serei riscos ou aconchego, aventura ou mansidão. Não sei se serei o medo do sim ou não ou talvez, de hoje ou ontens ou amanhãs. Não sei se serei a burguesia burocrática do romance inglês ou o atirar-se do penhasco de olhos fechados reservado aos de coragem de sangue e poema francês. Não sei se serei balde de pipoca no sofá de sábado a noite ou petisco no bar de má reputação da esquina, vinho barato ou cerveja de degustação. Não sei se serei a que adora os amigos ou a que precisa estar só 24h de cada dia, a que vive pelo trabalho ou a que está de saco cheio de tudo. Não sei se serei a que considera algo além ou a que é incapaz de enxergar um palmo diante do nariz. Não sei se serei a esperta e atenta ou a que é tão facilmente enganada pelas pedras em que tropeça. Não sei se serei aquela a quem o amor desconhece fronteiras ou aquela que sabe calar o sentir. Não sei se saberei lhe dar o espaço que tanto me é preciso ou se lhe sufocarei com tanta ternura e delicadeza desesperadas. Não sei se serei a feminista que troca o pneu ou a que liga chorando porque o mundo-lhe-foi-injusto-e-esse-hoje-nunca-acaba. Não sei se lhe serei o desafio da compreensão ou a selvageria irrestrita do querer. Não sei se terei paciência pra discutir filosofia ou política ou se simplesmente serei lacônica e monossilábica nas minhas respostas tristemente previsíveis. Não sei se terei tido o cuidado de passar perfume antes de sair de casa na manhã azul ou se terei o cheiro da cidade em mim, nas minhas veias e na minha alma inteira. Não sei se serei carne por inteiro ou se saberei sublimar meu desejo. Não sei se serei uma mirada confiante ou se desviarei esses mesmos olhos pelos quatro cantos da parede para não enxergar o que você tanto procura com o lilás do seu olhar. Não sei se serei desperdício ou praticidade, Carnaval ou amor eterno, Nouvelle Vague ou Existencialismo alemão, Renoir ou Van Gogh, Lenin ou Giddens, Beatles ou Stones, gramática ou dislexia, sangue latino ou crença nórdica, alma desvairada a correr mundos ou o criar de raízes na verticalidade das cidades, desilusão ou construção, horizontes ou negação, lucidez ou desatino, divagação por mundos atemporais submersos ou precisão no existir concreto, prova irrefutável ou dúvida consistente, pássaro livre ou paixão em chamas, mensagens de celular bastante concisas ou ligação interurbana prolixa, irresponsabilidade dos arroubos da juventude ou seriedade e cinismo adulto, dever ou ruptura, a vida inteira numa mochila ou casa com jardim e cerca branca.

Quem de mim será o eu de nós? Não sei. Mas sei que há você, um dia, e haverá (Deus, por favor!) alguma certeza de mim. E sei que continuará havendo eu, ainda que nesse arrastar de existir no ultimato das horas até que chegue você: Seremos, então, nós de infinitos laços inquebrantáveis de cetim e sedas mil que enfeitarão os fios de cabelo das nossas filhas.

#PoemeSe
#PoemeSe

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Diálogos da Invisibilidade XIII: C’est Paris.

26 de julho de 2015 por Camila

‘Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente.’

(CLAUDEL, C.)

É apenas terça-feira e eu misturo minhas lágrimas aos goles espaçados de vinho: sinto, como Camille C., a tormenta da ausência de coisa alguma e que jamais haverá nome.

Não, não é de você. Não, também é a recusa do ser da nostalgia de um hoje construído a passos largos, de passados que não são os meus, das possibilidades do amanhã: Sim, eu tenho tudo e não sei o que me falta. Sou parte indissociável do tudo, e tudo me pertence sem estar nas minhas mãos.

Penso em Paris e na minha alma vendida. Desperdiço a vida bêbada em São Paulo quando deveria andar aos tropeços na beira do Seine com uma garrafa de vinho tinto nas mãos, sem prestar atenção em nada e ir sentindo tudo. Penso na poesia que não foi gritada, nas madrugadas que não me perdi pelo Louvre, no cigarro que não fumei nas ruas vazias e nos cinco Euros que não paguei naquele café claustrofóbico em Notre Dame. Penso em fugas, na queda da Bastilha e nas batatas fritas que comi em horas incertas. Penso em Marie Antoinette decapitada pelos revolucionários, penso na cobertura do Crème Brûlée sendo quebrada em mil pedaços, na sabedoria de Truffaut e na vida ordinária que tenho levado. Penso no amor sublimado de Simone de Beauvoir em detrimento da filosofia Sartriana e penso – Deus do Céu, quanto tempo gasto em pensar! – nas escolhas erradas e nas imprecisões que deram certo. Penso em labirintos de mim, no caos da capital organizada vista do alto da Tour Eiffel, nas chamas da liberdade do Arc De Triomphe e na histeria de Bardot.

Não quero ninguém, não quero você. Quero um apartamento de um quarto meio sujo e bagunçado (só pra desafiar o meu TOC), quero aprender a andar de metrô em Montamartre,  quero ser alguém famélico como Hemingway num café parisiense qualquer dentre milhares de outros cafés parisienses quaisquer e depois chamar o nada de banquete (…e deixar o cigarro ir fazendo aquela cinza enorme sem nem pensar em cinzeiro), quero gostar de sanduíche de padaria, quero assumir um tom blasè pela banalidade do mundo, quero desapegar da preocupação com as rugas do meu rosto balzaquiano, quero me perder num quadro de Renoir, quero flanar pela irresponsabilidade histórica dos becos e das vielas, quero um filho que faça tudo certo, quero o silêncio de um coração que pulsa afobado, quero a porta do inferno, o consolo dos Céus e quero a distância das certezas das dúvidas da vida.

Cruzo as pernas, desafio o frio e neutralizo as nuvens que me invadem: não quero coisa alguma que seja a longo prazo. Quero apenas o fim do semestre, quero comprar tempo sem culpa, quero falar francês sem erros de conjugação, quero a rispidez das palavras com sotaque de R gutural exagerado, quero a inspiração de ser-me livre e quero, mais que tudo, flanar sem querer nada. Quero o grandíssimo luxo de estar sozinha em Paris e perambulando por Saint-Germain-des-Prés sendo dona somente de mim, sem histórias e sem obrigações de futuros perfeitos e subjuntivos.

Quero becos, quero vielas, quero qualidade duvidosa, quero o charme vagabundo e quero a alegria da solidão destemida. Quero a pureza do Sacré Coeur, o fôlego que me foi tomado nas escadarias de qualquer ponto mais alto da cidade, a decadência dos moinhos vermelhos, a preguiça do joie de vivre e a (falsa) auto-suficiência da mulher francesa.

Quero me encontrar no desatino de um saltimbanco, no olhar desviado de um transeunte apressado, nos equívocos de quem não sabe dar direções e no desespero dos mortais por mais um dia passado.

Quero tudo isso e quase nada até que eu possa somente cometer o enorme e desvairado desregramento de ser. Ser seja lá quem eu deva ser: Apenas – e incansavelmente! – ser até que evapore e vire garoa fina anunciando o inverno injusto que devora a primavera de abril que o cego jamais pôde ver.

...La distance d'un rêve.
…La distance d’un rêve.

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Diálogos da Invisibilidade XII: Madrugada.

25 de julho de 2015 por Camila

‘Hold on to the thread: The currents will shift, glide me towards you. Know something’s left, and we’re all allowed to dream of the next (oh, the next!) time we touch. You don’t have to stray the oceans away: Waves roll in my thoughts, hold tight the ring. The sea will rise, please stand by the shore (oh, oh, oh, I will be)… I will be there once more.’

(VEDDER, E.)

Sobre a Nostalgia, Parte I:

Então eu olhei pra você e me deu uma saudade enorme. De outros tempos, eu acho.

Você, descabelado, cantarolava Pearl Jam e fazia meu coração voltar a minha adolescência, à todas aquelas promessas inconseqüentes e aos vinhos baratos nas calçadas pobremente iluminadas. A um tempo quando outro cara segurava as minhas mãos tímidas e você só observava. Nós, dentro daquele estúdio abafado e afônicos, tentando transformar o sentir em palavras, as revoltas em concreto, o coração em frangalhos. De quando tudo tudo era premissa e simplesmente complicado demais.

Velhos conhecidos que éramos das esquinas que nunca andamos, do cigarro que nunca dividimos, dos amigos em comum com os quais nunca compartilhamos história (ok, estórias) e a vida que nunca conjugamos.

Então eu olhei – de novo – para você e só senti saudades.

*

Sobre a Melancolia, Parte II:

Escrevendo descuidada e sem compromisso estas linhas platônicas e fúteis e improváveis, lembro novamente das noites vívidas em que tinha o batom vermelho borrando os meus lábios, as lágrimas teimosas molhando meu rosto, a manga da sua blusa enxugando os meus olhos e tudo aquilo ia virando poesia em mim, poemas sobre nós que nunca houvera.

Cercada pelos meus amigos lindos, loucos, músicos, boêmios de toda estirpe e artistas cheios de alma naquelas ruas sujas com cheiro de mar: Vida, eu ansiava pela vida. Eu queria sentir tudo aquilo como se tudo me pertencesse sem a responsabilidade de que tudo fosse meu. Eu queria ter – eu queria ser! – tempo e espaço para correr entre as paredes, desbravar o mundo inteiro, tropeçar em mil corpos errantes e beber da fonte inesgotável das certezas absolutamente incertas. Éramos incógnitas matemáticas de soluções inexatas, inexoráveis, incongruentes e inverossímeis.

Coragem, eu tinha coragem.

*

Sobre a Solidão, Parte III:

Depois que olhei pra você e senti todos aqueles momentos merecedores de uma breve saudade, eu olhei pra mim (com olhos enevoados) e me senti tão só: Eu enxerguei ao meu ao redor e estava todo ele numa construção contínua de ruínas, numa solidez indomável de pedaços, numa fé inabalável de que jamais teria ou seria aquilo que eu ainda nem sabia o que queria.

Eu não tinha palavras ou com quem conversar, eu apenas vivia compassivamente as histórias contadas, os amores inesquecivelmente passados, as páginas de livros há séculos escritos, a compulsão Niilista da impossibilidade, a fugacidade dos segundos, os caminhos perdidos, as frustrações de um silêncio eloquente, a plausibilidade da mudez, a ausência da salvação, o medo das más notícias, a tremulação da carne, as oportunidades desperdiçadas. Uma pausa e um parêntese: Nestas noites vazias eu me sentia um desperdício completo em toda a sua totalidade de âmbitos.

Na solidão embora tudo pareça palpável (e implacável, digo!), nada é digerido.

*

Sobre a Expectativa, Parte IV:

Agora a madrugada fez de si quase manhã, e, depois de horas de solidão e desejos abstratos de nada, vou viver meu dia numa noite em Tóquio com a única pessoa que me faz sentir menos saudades e mais porvires: Menos ontens inacabados e mais amanhãs possíveis.

A luz dos olhos dele enchem de ser a minha vida fastidiosa e aborrecida, como que descrito em romance: ‘His face was like a mirror for all my imaginings.’ Sim, eu sinto um enorme alívio por saber que ele existe em mim e que nós flanaremos pela imensidão alcançável e percorrível que é o universo inteiro. Ele então me expande, ele rompe as minhas fronteiras óbvias, ele está sempre além para me mostrar horizontes. Sim, nós ainda vamos ser errantes de um mundo sem esquinas e despido de nostalgias, melancolias, solidões: Seremos, então, expectativas realizadas.

Somos – eu e ele – o absurdo de um reencontro inevitável adiado apenas pela mesquinhez arrastada do dia a dia. Vamos – nós dois – escalar cansados o Monte Fuji apenas pela contemplação incomensurável do pôr-do-sol na Terra do Sol Nascente. E então, eu olharei diretamente para a mirada mágica da minha escolha mais acertada, e, sem que desvie meus olhos daquele imenso significado, eu terei o mínimo de certezas sem o fulgor trôpego das incoerências ou a maledicência dos ‘se’ e demais conjunções do hábito da auto-sabotagem.  

Porque, entenda-me bem, há amor com o qual se pague todas as madrugadas que demoram dias  (e noites!) demais para virar manhãs.

*

Pescando ilusões do meu próprio tempo.
Pescando ilusões e estrelas e noites e oceanos e idéias do meu próprio tempo.

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Olhos de Caleidoscópio.

12 de junho de 2015 por Camila

‘Des yeux qui font baisser les miens, un rire qui se perd sur sa bouche: Voilà le portrait sans retouche de l’homme auquel j’appartiens. Quand il me prend dans ses bras il me parle tout bas: -Je vois la vie en rose. Il me dit des mots d’amour, des mots de tous les jours, et ça me fait quelque chose. Il est entré dans mon coeur une part de bonheur dont je connais la cause. C’est lui pour moi, moi pour lui dans la vie, il me l’a dit, l’a juré, pour la vie. Et dès que je l’aperçois alors je sens en moi mon coeur qui bat. Des nuits d’amour à plus finir, un grand bonheur qui prend sa place. Des ennuis des chagrins s’effacent: Heureux, heureux à mourir…’

(PIAF,  E.)

Era tão bonito ver o mundo com os olhos cor de violeta do Bernardo: Eu não entendia direito a sua música, mas conhecia as curvas do seu corpo, dançava no mesmo ritmo e admirava os prismas que habitavam as luas do seu olhar.

Eu me apaixonei num dia que seria só mais um dia se ele não tivesse feito todo especial quando chegou assanhado e atrasado pra aula de francês: As lentes dos óculos estavam repletas de digitais e gotas de chuva, a camisa toda amassada, a barba por fazer e ele andava sem jeito e sem porquê. Parecia não saber de onde vinha ou para onde iria, mas a sua voz tinha um tom irresistivelmente calmo (e eu sempre achei – livre de qualquer tentativa de explicação – que boas pessoas tendem a falar baixo) e o jeito franco que pronunciava as palavras foi a melhor coisa que eu ouvi em muito tempo.

Naquela pequena Alliance Française do Brooklin incrustada no caos da zona sul paulistana, sentei sozinha numa mesa de canto – era a nova aluna da turma, imagine só! – com um café na mão e um livro na outra no intervalo entre as aulas. Ele pediu para sentar. Levantei o olhar. Corei. Disse que sim e depois disso já não sabia o que fazer. Deveria falar? Deveria voltar a ler aquele romance de qualidade questionável? Deveria dizer-lhe um ‘boa noite’ clichê e preguiçoso? Deveria, por fim, queimar a boca com o café quente e fazer disto uma desculpa para o meu silêncio e para a minha negação diante daquele mar de novas possibilidades que era o Bernardo? Eu era boa em me auto-sabotar – levava uma vida inteira de prática! -, mas ele era tão lindo e tão leve que, sublimando a minha dúvida a nada além de meros átomos, sorriu e falou qualquer coisa que me fez sorrir com ele. Sorrir para ele. Sorrir sem medo, sem jogos ou disfarces. Sorrir com naturalidade. Sorrir com uma insensatez só possível a quem não tem nada a perder e um universo inteiro de horizontes a ganhar. Sim, eu sorri.

Casamos pouco tempo depois. Ele tinha certezas, enquanto eu apenas cultivava solidões. Escolhi o vestido branco mais bonito que achei, me vesti de alma, enchi a cabeça (e as mãos!) de flores e, do altar, ele me esperava e me sussurrava baixinho: -Linda. Você está linda. Juramos amor sem a prepotência e a amargura do ‘para sempre’, recebemos bênçãos pelas nossas escolhas, juntamos as idéias e fomos percorrer o espaço-tempo da nossa vida e da existência que nos pertence por inteiro: Gostávamos – sim, gostávamos muito! – de pensar que o mundo era grande, parecia impedir que morrêssemos por claustrofobia.

Fomos morar na Holanda e, bravos sobreviventes que éramos da imensidão indeterminada do frio, ele me dava carinho e aconchego. Ele enchia a minha barriga de stroopwafels e de borboletas, me fazia chá ao cair da tarde e me trazia girassóis e tulipas roubadas do jardim do vizinho (que jamais fora mais verde que o nosso). Ele dava nós nos meus cabelos hermeticamente trançados, samba pro meu poema ordinário, direcionamento pros meus passos ora perdidos, oxigênio e esperança para os meus pulmões, bagunça pro meu metodismo e arte para minha vida outrora tão comum.

Atravessamos oceanos, dançamos valsas, falamos sobre os Beatles e Truffaut, quase explodimos de tantas cañas y pinchos na Espanha (o Bernardo adora cerveja!) e de amor em Paris. Andamos de mãos dadas pelas ruas limpas e gélidas de Reykjavík, fomos mascarados ao baile de Carnaval em Veneza, perdemos os olhos pelos tetos vermelhos de Copenhagen e decidimos que bom mesmo é andar até gastar a sola do sapato. Mais que isso, fazíamos piqueniques sobre toalhas xadrez em Bruxelas regados a vinho e respeitávamos os silêncios das nossas leituras vespertinas sem constrangimentos ou carências.

Bernardo é mansidão como o choque das cores e formas do caleidoscópio mágico que ganhei na minha infância e que hoje mora entre os livros da minha estante. O meu homem é singular assim: Sem medo e sem desgosto, sem dor e sem fim. É o homem dos meus sonhos e, paradoxalmente, eu encontrei em meio a realidade – que sempre me fora tão confusa e profunda em mistérios tão tolos e superficiais! – do mundo absurdo e pós-moderno.

E é nesse instante-já (que me habita de memórias e me toma de emoção, eu sei!) que se faz urgente a minha necessidade de declarar amor. Porque – sobretudo – há amor.

Olhos de um mundo mágico, amor em cor.
Olhos de um mundo mágico, amor em cor.

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