Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Contos de Verão XI: Compromisso inadiável.

20 de janeiro de 2016 por Camila

‘Sometimes I’m terrified of my heart; of its constant hunger for whatever it is it wants. The way it stops and starts.’ 

(POE, E.A.)

Hoje fui até o restaurante chinês daquela rua onde costumávamos andar de mãos dadas e pedi um frango xadrez. Catei minuciosamente todos os pedaços de pimentão e, enquanto todos me julgavam em silêncio, pensei que só você me entenderia: entre o muito que sempre concordamos, sabíamos que pimentão era um desastre em qualquer circunstância e que cebola sim era tempero, assim como pipoca só é possível com queijo ralado e que não há a nós outro jeito que não juntos.

A noite me desperta, releio suas mensagens e, hesitante, já não sei se respondo o beijo que você me mandou por alguém ou se encerro o assunto em uma mudez atordoante. A dúvida me consome, mas não há propósito de que eu deva fazê-lo: nada positivo poderia resultar de um encontro que não o caos dos sentimentos amordaçados e o desejo que é tormenta na raiz. Queria te contar dos meus dias, mas não posso. Queria especificar a falta que você me faz, mas sufoco essa melancolia intrusa bem dentro de mim e vomito como me é de direito. Calo. Fecho os olhos. Respiro fundo. Controlo com a força do mármore frio o que é indomável, cruel e desregrado. Nada faz passar. Tudo arde, tudo é angústia: e, ainda assim, sei que é de mim o gosto perpétuo que habita a sua boca.

Imagino se você ainda segue emudecido os meus passos, se encontra meus olhos perdidos em cada esquina, se ainda lê os meus textos (e se os edita mentalmente, com todas as minhas crases indevidas – ou ausência delas! – e meus pronomes átonos mal alocados), se ainda me sente doer mansinho, se sabe da minha dificuldade em impor distância e de como eu morro a cada instante com as suas escolhas. E, sobretudo, como fraquejo com as minhas se formos fazer aqui em licença poética a justiça da mea culpa.

Já, já sei da certeza do seu amor enorme e que me engole desossada: me gritou o vento, os seus amigos, as ondas da Garça Torta, o seu sorriso atravessado no reconhecimento do meu olhar enviesado, a bebedeira do primeiro dia de um novo ano, o nosso silêncio amplo e irrestrito de perfeitos estranhos, o pôr-do-sol da Guaxuma e a ambiguidade das suas atitudes. Penso que quero ser maior do que me vejo e só aspiro a você felicidades e a mim o desapego. Tudo é confusão e espero impacientemente que o alívio substitua a dor da partida em vê-lo de (ao) longe: pulo de cabeça em mais distrações, em outros corpos, em novas intoxicações e em qualquer coisa que não tenha o toque embalsamado do seu cheiro no calor da sua saliva entre os meus dentes. Vou brincando de repor adições e correr menos riscos.

Toda viciada é estúpida mesmo quando tenta ser inteligente, e meu vício em adrenalina me deixa ligada em você no que parece um ciclo eterno. Fujo, desesperadamente: procuro curas, recomeços, explicações, mais um pedaço de ilusão, sua mão no meu quadril, meu medo inconseqüente, Gita, meditação e o ‘adeus’ que eu nunca te dei quando me desmanchei (feito tudo que é sólido!) no ar. Peço sinais que não chegam, prazeres efêmeros que em segundos me saciam, a minha vaidade cega feito faca amolada e o meu me perder nos meus próprios caminhos. ‘Sou forte’, repito a mim mesma em frente ao espelho – ao mesmo tempo em que passo batom carmim e embebedo meus lábios com vodka da pior qualidade! – quase que como um Mantra enquanto gargalho da sua convicção ao me rotular como ‘auto-suficiente’. Ah, se você soubesse; ah, se você ousasse divagar por essa trilha nas minhas curvas inexatas…

Você é querer sem poder: se corro pra você, desisto de mim e da mulher que eu gostaria de ser. Me recomponho enquanto me dilacero, me reinvento enquanto me destruo e lembro que o equilíbrio só é possível longe das paixões que nos implodem as vísceras e nos deixam na carne crua. Sei o quanto você gosta de me ver agonizar e me odeio por dar-lhe esta satisfação que, senão por mim, jamais existiria. Mais uma vez sou responsável por manter-me longe do que um dia foi lar, mas te amo feito bicho solto a vagar errante pelo mundo que é agora tão pequeno e claustrofóbico: estava certo quem um dia disse que corações são sim criaturas selvagens, pondero e reafirmo. E, por isso, não me culpo da insensatez que agora me tortura. Isso também vai passar, eu sei e repito para acreditar, como tantas coisas passarinho.

Escuto Sylvia Plath berrando aos meus ouvidos quase moucos e ao meu cérebro inapto: ‘Again, I feel the gulf between my desire and ambition and my naked abilities’, e digo a ela que eu também. Não há o que fazer com o prelúdio que já é premissa do fim. Ignoro minhas questões, acendo um cigarro e caminho com os pés descalços em pleno inverno.

Só por hoje, concluo, sou saudades. Amanhã, me prometo, volto a ser inteira.

Nos meus afluentes e amores pela cidade.
Liberdade: nos meus afluentes e amores pela cidade.

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Contos de Verão X: Ruas vazias.

7 de janeiro de 2016 por Camila

‘When I desire you a part of me is gone.’

(CARSON, A.)

– 

Abri a porta de casa toda atrapalhada, com dois mundos em cada uma das mãos, e, sem acender a luz da sala ou tirar a chave do lado de fora, larguei as compras na cozinha. Respirei e me considerei vitoriosa na batalha infindável contra o trânsito. Perdi o olhar por uns 10 segundos e lembrei que precisava fechar a porta e iluminar a vida.

Nessa prática cotidiana da pressa e do descuido, vi que alguns envelopes se amontoavam no chão da entrada. Meio que com preguiça da burocracia de cortar papéis e já prevendo que se tratava de contas, peguei e debrucei a vista sobre eles. Eu estava certa, contas, desimportâncias e cobranças indevidas. Quando já tinha me preparado para largar tudo sobre a mesa e ir tomar um banho para tirar a cidade de mim,  encontrei a sua letra incerta num envelope pardo e sem remetente. Meu coração congelou. Trêmula, abri. Você, melancólico, me dizia no verso da fotografia mais bonita que tínhamos:

‘O retrato de uma saudade. O gesto do sentir falta. E, ainda assim, poder dizer que sorri paz em dias azuis, submerso em carnavais de silêncios e eloqüências.’

Quando bem de mansinho eu chorei e enxuguei a face para continuar a me embebedar com as  suas palavras, vi que você parafraseou aquele artista que canta mais ou menos assim:

‘…Fechei os olhos, chamei saudade. Olhei pra dentro, tenho você lá longe, bem longe. Um rumor dos corações, quero você na minha utopia. (…) E o beijo que tu me destes vou levar lá longe, bem longe.’

Fecha aspas. Encerra o tempo. Encolhe o meu mundo. Encurta o meu ar. O golpe foi baixo e a saudade me devora de dentro pra fora e em todas as minhas dimensões: me perco num espaço de 30m2, escorrego pela parede, abraço a foto das nossas pernas entrelaçadas enquanto estou em queda livre em direção ao solo, lembro dos detalhes do seu rosto e quase morro nove meses depois de tê-lo visto pela última vez.

Desisto de qualquer plano envolvendo livro e sofá e aceito a dura realidade que a paz da minha casa, naquele momento, seria o meu fim. ‘A louca morreu de nostalgia’, diriam as más línguas. Não coloco as frutas na geladeira ou me preocupo com a validade do iogurte, e, sem pensar, pego a chave do carro e saio em disparada. Não, não telefono pra você. Emudeço o celular para não correr riscos, mas saio perturbada a sua procura pela cidade. Nos lugares em que íamos, aonde fomos tão felizes e gargalhamos no mesmo compasso: aonde você censurava o meu vestido, me roubava flores, me abraçava forte e levava o meu corpo bêbado embora. Éramos par, simbiose e querer. Você entendia os meus sorrisos e eu conhecia os seus sinais. Seus defeitos que eram o caos de nós não permeiam mais a lista de ‘contras’, mas dançam macios na minha compreensão de lembranças: tudo que o tempo assola parece menor e mais perto do perdoável (que não é de mim exercer).

Não posso precisar o porquê de ter dirigido por quase 3 horas nessa cidade de verão à sua procura, não sei o que esperava que acontecesse. E se eu encontrasse você? Nada – um nada imenso – aconteceria. Acho que eu queria, talvez, ver a sombra do seu sorriso ou os seus trejeitos contidos de longe em bares de esquina. Não pretendia bagunçar a sua vida, encher sua alma de ilusões, roubar os seus chicletes de hortelã ou sequer estacionar o carro para falar com você (o outro lado da calçada é sempre mais seguro): não suportaria a sua voz de brisa a me chamar pelo nome. O seu tom inconcebível a mastigar e a cuspir palavras irresponsáveis pedindo pra voltar faria sangrar os meus ouvidos, ainda que aumentasse as cores do meu próprio viver. Eu sei que um encontro de peles e uma troca suave e malemolente de olhares não seria saudável mas não é sempre que consigo – ao contrário do que você me acusa! – conter os meus impulsos. Às vezes sou eu mesma a personificação da carne tórrida e da falta desmedida.

Sem conseguir decidir se foi melhor assim ou não, resoluta voltei pro meu micro-apartamento e me entreguei à justa solidão. Inocente, mal sabia eu que o perigo maior que corri essa noite não era o de encontrar você distraído por aí, era o de deitar na minha cama e não ter o seu corpo quente me abraçando. Era sentir sua ausência latejando como nunca. ‘Lobinho’, eu lhe dizia pela sua temperatura sempre acalorada, e mandava você parar de ficar tão junto de mim porque eu estava morrendo de aflição. Você, claro, ignorava os meus avisos e ficava se aninhando ainda mais. Eu fingia irritação e sorria timidamente com a certeza de você tão meu.

Com os olhos enevoados de noite pálida, concluo que hoje já nem sei mais os motivos que determinaram nosso fim ao que soa como séculos atrás, mas sigo convicta de que era esse o caminho traçado pelo destino a ser percorrido por nós: obedeço ao imposto pela sina mítica-universal e, com uma foice de gume afiado e passos cambaleantes, sigo cortando você da minha vida sem esperar o seu respeito a essa decisão.

Às vezes eu acho que essa saudade há de virar uma constante e que não tem solução equacional exata ou própria: seu silêncio, tal qual as suas palavras, mudam meu eixo e irrompem na minha razão e nas minhas decisões sem volta.

A coisa mais difícil que eu já tive que fazer em vida foi ficar longe de você.

'There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too tough for him, I say, stay in there, I'm not going to let anybody see you. There's a bluebird in my heart that wants to get out but I pour whiskey on him and inhale cigarette smoke. (...) There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too tough for him, I say, stay down, do you want to mess me up? You want to screw up the works? (...) There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too clever, I only let him out at night sometimes when everybody's asleep. I say, I know that you're there, so don't be sad. Then I put him back, but he's singing a little in there, I haven't quite let him die and we sleep together like that with our secret pact and it's nice enough to make a man weep, but I don't weep, do you?'. (BUKOWSKI, C.)
‘There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too tough for him, I say, stay in there, I’m not going to let anybody see you. There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I pour whiskey on him and inhale cigarette smoke. (…) There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too tough for him, I say, stay down, do you want to mess me up? You want to screw up the works? (…) There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too clever, I only let him out at night sometimes when everybody’s asleep. I say, I know that you’re there, so don’t be sad. Then I put him back, but he’s singing a little in there, I haven’t quite let him die and we sleep together like that with our secret pact and it’s nice enough to make a man weep, but I don’t weep, do you?’. (BUKOWSKI, C.)

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Mea Culpa.

12 de novembro de 2015 por Camila

‘Have you ever been in love? Horrible isn’t it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means that someone can get inside you and mess you up.’

(GAIMAN, N.)

E então, entre beijos irresponsáveis, eu lhe disse:

-Menino, Menino, não se apegue a mim. Não se apaixone por mim. Não me queira ao seu lado. E, sobretudo, não me peça para ficar. Apesar do meu rostinho de boa moça e da doçura levemente maliciosa do meu sorriso torto, eu sou uma mulher muito estranha: Meu coração é bicho solto e meu corpo só fica ocupado pelo prazer hedonista de não pertencer e apenas estar sem ser. Não se perca nas minhas curvas, Menino, eu sou do tipo que só gosta de uma única música do Metallica e que nem é tão boa assim, sabe? Sim, The Unforgiven II. Isso já diz bastante sobre a minha esquisitice existencial, né? Mas antes que eu tergiverse e conceda um milhão de sins só por causa do jeito que você me faz derreter em só chegar perto com essa sua certeza irrefutável em me devorar, Menino, deixa que eu diga que não posso mais lidar com a culpa de – como canta por aí o Bruce Springsteen – encontrar fantasmas nos olhos dos homens que eu mando embora por não saber me dividir com o outro ou quinhoar meu tempo a alguém. Eu gostaria de poder dizer que eu sei como compartilhar espaços e deixar que a pessoa fique, mas a verdade é que tenho desejos compulsivos e vícios indecorosos por beijos demorados, porém, por solidões ainda mais prolongadas e silêncios imperscrutáveis. E você é lindo demais com essa sua cara Cubista de Mick Jagger e o diabo que dança nos seus quadris irresistíveis que se encaixam tão maravilhosamente bem nos meus para querer consigo o conceito de quem você pensa que eu sou. Sim, eu sei, isso parece algo que a Clementine diria naquele clássico insuperável com roteiro do Kaufman, mas sou eu mesma quem acautela a quem quer chegar junto.

Ainda recordo quando eu seguia obstinada em lhe avisar – e que hoje me enfurece duplamente a sua recusa descuidada em me ouvir – numa noite meio trôpega:

-Eu não sou para casar ou namorar ou construir dias e histórias de amor duradouro. Eu sou paixão efêmera e arrebatadora, feita para durar apenas o encantamento eterno dos segundos plausíveis. Os meus poros exalam estamina e as minhas pupilas dilatam liberdade. Eu sou egoísta e não quero estar em canto algum que não dentro de mim inteira, dos meus livros de romances possíveis, do mundo que ainda não percorri, dos meus filmes existencialistas de finais trágicos e impunes, das minhas músicas que nada mais são do que notas de pura melancolia e dos meus amigos que têm ainda menos juízo que eu e que estão por aí sempre perdidos a perambular em noites quase nunca estreladas. Eu tendo a refugar abraços protetores e a correr milhas de discussões de relacionamento. Na verdade, Menino Lindo Demais, eu não sou boa nesse papo de me relacionar com ninguém, sabe? Eu gosto mesmo é de dormir até bem tarde e ocupar as minhas horas com o que me inquieta e seduz e desperta qualquer coisa que não tenha que ser pra sempre. Sim, eu gosto mesmo é de impulsos.

Hoje, quando continuo forçando a memória no caminhar de lembranças, ainda evoca em mim a sensação de que você é raro e que ao menos disso eu sempre soube. Você é o homem pelo qual eu me apaixonaria se eu conseguisse abrir mão do que eu acredito em todas as coisas que eu busco. Você nunca seria um erro, mas a aposta de todas as horas mais seguras e do meu entregar completo e sem medo. O problema – Meu Menino Tão Insuportavelmente Lindo – é que nesses desencontros inexplicáveis do existir, eu sou barco a vela que gosta de viver no tumulto do mar e nas andanças do vento, com a boca cheia de sal e a alma que salta abismos verdes entre as ondas incessantes.

O que tínhamos era foda de tão bom. Era o nosso físico sagrado. Nossa carne trêmula e pulsante. Nosso sangue quente. Nossa chama que ardia. Nossa recusa em sentir algo além do agora. Nossos corpos em delírio febril: o meu cabelo entrelaçado nos seus dedos de forças que desconhecem medidas e limites, as suas pernas buscando espaços entre as minhas, a sua língua sedenta pela minha saliva que me invadia a boca e irrompia ímpetos urgentes, o abraço que me esmagava as costelas contra a parede, o olhar sacana que me desnudava sem sequer me tocar, a sua barba que machucava os meus seios de um jeito muito particular, a sua respiração úmida e intermitente, os gemidos monossilábicos que fariam corar a professora de português da quarta série que abolia os palavrões, a lascívia contínua e insistente, o suor que se misturava a outros fluidos igualmente humanos e incontroláveis, a cumplicidade do silêncio naquele cigarro pós-sexo e o ‘adeus’ que viria em breve para o meu profundo alívio do não-compromisso e o seu estado de graça de entrar imediatamente numa vida de não ter que dar satisfação a ninguém.

Você nos estragou quando quis ficar. Você acabou com a gente quando insistiu em me amar, Meu Menino. Nossos nós eram laços de liberdade. Nós não éramos além do haver das horas entre quatro ou cinco paredes, este era o nosso acordo implícito e urrado. Nós nunca fomos feito para construção: Ao contrário, nós demolíamos muros que cerceavam a possibilidade de um encontro meio desencontrado e deliciosamente errado por qualquer ângulo que tentasse se enxergar. Nós sempre fomos encaixe, nunca sentimento: Torpor que ensurdece e cala qualquer coisa da Bossa Nova que ousou tentar tocar de fundo em existência minimalista. Nós éramos a nulidade irresistível do depois, axioma inevitável e imprescindível do momento. Hard core, soft porn and all that jazz.

Mas eis aqui – e que seja sossego ao seu coração de leão enquanto o meu é de andorinha – a minha mais que mea maxima culpa risível, ridícula, estapafúrdia e sincera. Pela primeira vez será indiscutivelmente honesto dizer o velho ‘não é você, sou eu’: Sim, serei sempre eu com minhas necessidades absurdas de oxigênio, distâncias intangíveis, quietudes turbulentas e lonjuras inabitáveis.

Desculpa, Menino Meu Tão Lindo, mas Pássaro Livre não pousa sempre na mesma árvore ou fio de te(N)são porque sabe que há ainda horizonte largo pra voar.

‘…Me gusta la impunidad con la que tus ojos desnudan mi cuerpo. Me gusta la rebeldía con la que tu pelo discute con el viento. Me gusta la falta de respeto con la que tu sonrisa desafia al miedo.’ (BRANDO.)
‘…Me gusta la impunidad con la que tus ojos desnudan mi cuerpo. Me gusta la rebeldía con la que tu pelo discute con el viento. Me gusta la falta de respeto con la que tu sonrisa desafia al miedo.’ (BRANDO.)

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Laços (d)e Nós.

31 de julho de 2015 por Camila

‘Fala pra ele que ele é um sonho bom, que mudou o tom da tua vida comprida. Fala pra ele do disco do Tom Jobim, do seu apelido e de mim. (…) Fala pra ele que a vida é um balão, pra cuidar do seu coração.’

(ROSA, C.)

Posso dizer com alguma alegria que sonhei com você. E sabe, como de sutileza e saudade é feita a vida, posso dizer que isso foi suficiente.

Foi o tal sonhar de uma dimensão precisa, quero dizer, para alimentar a esperança de que um dia seja possível e justa a sua chegada. Para me ajudar a atravessar o enorme deserto que preenchem dias sem sentido, noites de solidão e tardes sem poesia. Fico aqui a sua espera, mas agora com uma partícula de alegria de que chegará o momento em que você se fará incuravelmente presente.

Não sei como estarei vestida, se nos meus surrados jeans ou no meu vestido curto. Não sei se a maquiagem estará conferindo alguma dignidade ao meu rosto pálido ou se as olheiras me serão óbvias e de impossível camuflagem. Não sei se a minha boca terá gosto de café puro e amargo ou vodka com cigarro, mas você se sentirá imensamente feliz em beijá-la. Não sei se minha pele estará ressecada pelos carinhos do inverno ou colorida pelo sol do verão, se as pétalas de leveza da primavera deslizarão sobre os meus ombros ou se a confusão do outono estará onipresente em meu coração. Não sei se estarei cansada pela rotina que me engole ou se sorrindo lírios por quem passe debaixo da minha janela quando eu acordar com gosto de caqui. Não sei se serei a melancolia descrita de um soneto ou o contágio de contentamento de um samba. Não sei se serei riscos ou aconchego, aventura ou mansidão. Não sei se serei o medo do sim ou não ou talvez, de hoje ou ontens ou amanhãs. Não sei se serei a burguesia burocrática do romance inglês ou o atirar-se do penhasco de olhos fechados reservado aos de coragem de sangue e poema francês. Não sei se serei balde de pipoca no sofá de sábado a noite ou petisco no bar de má reputação da esquina, vinho barato ou cerveja de degustação. Não sei se serei a que adora os amigos ou a que precisa estar só 24h de cada dia, a que vive pelo trabalho ou a que está de saco cheio de tudo. Não sei se serei a que considera algo além ou a que é incapaz de enxergar um palmo diante do nariz. Não sei se serei a esperta e atenta ou a que é tão facilmente enganada pelas pedras em que tropeça. Não sei se serei aquela a quem o amor desconhece fronteiras ou aquela que sabe calar o sentir. Não sei se saberei lhe dar o espaço que tanto me é preciso ou se lhe sufocarei com tanta ternura e delicadeza desesperadas. Não sei se serei a feminista que troca o pneu ou a que liga chorando porque o mundo-lhe-foi-injusto-e-esse-hoje-nunca-acaba. Não sei se lhe serei o desafio da compreensão ou a selvageria irrestrita do querer. Não sei se terei paciência pra discutir filosofia ou política ou se simplesmente serei lacônica e monossilábica nas minhas respostas tristemente previsíveis. Não sei se terei tido o cuidado de passar perfume antes de sair de casa na manhã azul ou se terei o cheiro da cidade em mim, nas minhas veias e na minha alma inteira. Não sei se serei carne por inteiro ou se saberei sublimar meu desejo. Não sei se serei uma mirada confiante ou se desviarei esses mesmos olhos pelos quatro cantos da parede para não enxergar o que você tanto procura com o lilás do seu olhar. Não sei se serei desperdício ou praticidade, Carnaval ou amor eterno, Nouvelle Vague ou Existencialismo alemão, Renoir ou Van Gogh, Lenin ou Giddens, Beatles ou Stones, gramática ou dislexia, sangue latino ou crença nórdica, alma desvairada a correr mundos ou o criar de raízes na verticalidade das cidades, desilusão ou construção, horizontes ou negação, lucidez ou desatino, divagação por mundos atemporais submersos ou precisão no existir concreto, prova irrefutável ou dúvida consistente, pássaro livre ou paixão em chamas, mensagens de celular bastante concisas ou ligação interurbana prolixa, irresponsabilidade dos arroubos da juventude ou seriedade e cinismo adulto, dever ou ruptura, a vida inteira numa mochila ou casa com jardim e cerca branca.

Quem de mim será o eu de nós? Não sei. Mas sei que há você, um dia, e haverá (Deus, por favor!) alguma certeza de mim. E sei que continuará havendo eu, ainda que nesse arrastar de existir no ultimato das horas até que chegue você: Seremos, então, nós de infinitos laços inquebrantáveis de cetim e sedas mil que enfeitarão os fios de cabelo das nossas filhas.

#PoemeSe
#PoemeSe

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Diálogos da Invisibilidade XIII: C’est Paris.

26 de julho de 2015 por Camila

‘Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente.’

(CLAUDEL, C.)

É apenas terça-feira e eu misturo minhas lágrimas aos goles espaçados de vinho: sinto, como Camille C., a tormenta da ausência de coisa alguma e que jamais haverá nome.

Não, não é de você. Não, também é a recusa do ser da nostalgia de um hoje construído a passos largos, de passados que não são os meus, das possibilidades do amanhã: Sim, eu tenho tudo e não sei o que me falta. Sou parte indissociável do tudo, e tudo me pertence sem estar nas minhas mãos.

Penso em Paris e na minha alma vendida. Desperdiço a vida bêbada em São Paulo quando deveria andar aos tropeços na beira do Seine com uma garrafa de vinho tinto nas mãos, sem prestar atenção em nada e ir sentindo tudo. Penso na poesia que não foi gritada, nas madrugadas que não me perdi pelo Louvre, no cigarro que não fumei nas ruas vazias e nos cinco Euros que não paguei naquele café claustrofóbico em Notre Dame. Penso em fugas, na queda da Bastilha e nas batatas fritas que comi em horas incertas. Penso em Marie Antoinette decapitada pelos revolucionários, penso na cobertura do Crème Brûlée sendo quebrada em mil pedaços, na sabedoria de Truffaut e na vida ordinária que tenho levado. Penso no amor sublimado de Simone de Beauvoir em detrimento da filosofia Sartriana e penso – Deus do Céu, quanto tempo gasto em pensar! – nas escolhas erradas e nas imprecisões que deram certo. Penso em labirintos de mim, no caos da capital organizada vista do alto da Tour Eiffel, nas chamas da liberdade do Arc De Triomphe e na histeria de Bardot.

Não quero ninguém, não quero você. Quero um apartamento de um quarto meio sujo e bagunçado (só pra desafiar o meu TOC), quero aprender a andar de metrô em Montamartre,  quero ser alguém famélico como Hemingway num café parisiense qualquer dentre milhares de outros cafés parisienses quaisquer e depois chamar o nada de banquete (…e deixar o cigarro ir fazendo aquela cinza enorme sem nem pensar em cinzeiro), quero gostar de sanduíche de padaria, quero assumir um tom blasè pela banalidade do mundo, quero desapegar da preocupação com as rugas do meu rosto balzaquiano, quero me perder num quadro de Renoir, quero flanar pela irresponsabilidade histórica dos becos e das vielas, quero um filho que faça tudo certo, quero o silêncio de um coração que pulsa afobado, quero a porta do inferno, o consolo dos Céus e quero a distância das certezas das dúvidas da vida.

Cruzo as pernas, desafio o frio e neutralizo as nuvens que me invadem: não quero coisa alguma que seja a longo prazo. Quero apenas o fim do semestre, quero comprar tempo sem culpa, quero falar francês sem erros de conjugação, quero a rispidez das palavras com sotaque de R gutural exagerado, quero a inspiração de ser-me livre e quero, mais que tudo, flanar sem querer nada. Quero o grandíssimo luxo de estar sozinha em Paris e perambulando por Saint-Germain-des-Prés sendo dona somente de mim, sem histórias e sem obrigações de futuros perfeitos e subjuntivos.

Quero becos, quero vielas, quero qualidade duvidosa, quero o charme vagabundo e quero a alegria da solidão destemida. Quero a pureza do Sacré Coeur, o fôlego que me foi tomado nas escadarias de qualquer ponto mais alto da cidade, a decadência dos moinhos vermelhos, a preguiça do joie de vivre e a (falsa) auto-suficiência da mulher francesa.

Quero me encontrar no desatino de um saltimbanco, no olhar desviado de um transeunte apressado, nos equívocos de quem não sabe dar direções e no desespero dos mortais por mais um dia passado.

Quero tudo isso e quase nada até que eu possa somente cometer o enorme e desvairado desregramento de ser. Ser seja lá quem eu deva ser: Apenas – e incansavelmente! – ser até que evapore e vire garoa fina anunciando o inverno injusto que devora a primavera de abril que o cego jamais pôde ver.

...La distance d'un rêve.
…La distance d’un rêve.

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