Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Rascunhos de Outono IV: Enquanto você falava.

20 de março de 2015 por Camila

‘Then it came to me like crashing thunder, like death and destruction. I got up from the counter and walked away in fear, walking fast down the boardwalk, passing people who seemed strange and ghostly: the world seemed a myth, a transparent plane, and all things upon it were here for only a little while; all of us, Bandini, and Hackmuth and Camilla and Vera, all of us were here for a little while, and then we were somewhere else; we were not alive at all; we approached living, but we never achieved it. We are going to die. Everybody was going to die. Even you, Arturo, even you must die. I knew what it was that swept over me. It was a great white cross pointing into my brain and telling me I was a stupid man, because I was going to die, and there was nothing I could do about it. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. A mortal sin, Arturo. Thou shalt not commit adultery. There it was, persistent to the end, assuring me that there was no escape from what I had done. (…) There will be confusions, and there will be hunger; there will be loneliness with only my tears like wet consoling little birds, tumbling to sweeten my dry lips. But there shall be consolation, and there shall be beauty like the love of some dead girl. There shall be some laughter, a restrained laughter, and quiet waiting in the night, a soft fear of the night like the lavish, taunting kiss of death. Then it will be night, and the sweet oils from the shores of my sea, poured upon my senses by the captains I deserted in the dreamy impetuousness of my youth. But I shall be forgiven for that, and for other things, for Vera Rivken, and for the ceaseless flapping of the wings of Voltaire, for pausing to listen and watch that fascinating bird, for all things there shall be forgiveness when I return to my homeland by the sea.’

(FANTE, J.)

Enquanto você falava, eu nem ouvia: Eu apenas olhava. Eu olhava a sua voz, decorava o traço desafinado do seu tom, me entristecia com esse hiato enorme de (em) nós dois e desenhava rascunhos mentais. Eu escrevia – no silêncio de miradas que fogem de horizontes – um conto para você sobre o que fomos e sobre a nostalgia do que não fomos (ou do que somos de fato). Ambicionei profundamente por acreditar, mas só me veio a dúvida corrosiva. Quis crer em si – e quase mi morri de sem conseguir ré-troceder em meio a possível -lsidade. Não, esse dia de sol que não é azul nem onde você mora e nem cá com meus botões, não pode ser dos nossos se o que sobra em laços de nós é só e tão pura melancolia -, mas a desconfiança já se havia feito de mim sua morada.

Você falava e eu nem ouvia: Voz passiva dos meus desejos, essa sua. Nada é da sua culpa ou do seu feitio quando o mundo ruiu e me sorriu ironicamente de canto. Você, vítima da vida, das próprias escolhas e do caos. Você, autor inocente e inerte da minha (sua?) dor que renuncia e se embebe em refugar.

Você falava e eu nem ouvia: Timbre dos meus quereres de silêncios e calares, esse seu desafino. Amordaço os meus sentimentos e faço deles deserção e fuga no mais profícuo jardim do esquecimento: mato, em sangria, um a um. Depois arranco pela raiz e encharco de pesticida apenas como garantia que não mais irão florescer e assim me trazer o fim. Esqueço do que sou depois de você e tento lembrar como a vida funcionava antes dos meus arroubos, volições, cobiças, lascívia, febres e vontades cruas (muito burras e muito brutas, registre-se).

Você falava e eu nem ouvia: Larguei os meus olhos na minha estante de livros. ‘Pergunte ao Pó’  berra-me – de algum lugar esquecido da minha prateleira – John Fante:

‘You got a bottle from your purse and we drank it up: First your turn, then mine. When the bottle was empty I went down to the drugstore and bought another, a big bottle. All night we wept and we drank, and drunk I could say the things bubbling in my heart, all those swell words, all the clever similes, because you were crying for the other guy and you didn’t hear a word I said, but I heard them myself, and Arturo Bandini was pretty good that night, because he was talking to his true love, and it wasn’t you, and it wasn’t Vera Rivken either, it was just his true love. But I said some swell things that night, Camilla. Kneeling beside you on the bed, I held your hand and I said: – Ah Camilla, you lost girl! Open your long fingers and give me back my tired soul! Kiss me with your mouth because I hunger for the bread of a Mexican hill. Breathe the fragrance of lost cities into fevered nostrils, and let me die here, my hand upon the soft contour of your throat, so like the whiteness of some halfforgotten southern shore. Take the longing in these restless eyes and feed it to lonely swallows cruising an autumn cornfield, because I love you Camilla, and your name is sacred like that of some brave princess who died with a smile for a love that was never returned. I was drunk that night, Camilla, drunk on seventy-eight cent whiskey, and you were drunk on whiskey and grief. I remember that after turning off the lights, naked except for one shoe that baffled me, I held you in my arms and slept, at peace in the midst of your sobs, yet annoyed when the hot tears from your eyes dripped upon my lips and I tasted their saltiness. (…) When we woke up it was morning and we were both nauseated, and your swollen lip was more grotesque than ever, and your black eye was now green. You got up, staggered to the wash-stand and washed your face. I heard you groan. I watched you dress. I felt your kiss on my forehead as you said goodbye, and that nauseated me too.’

Você falava e eu nem ouvia: O pó não me explica coisa alguma, Fante emudeceu. O pó que forma camada sobre o livro negligenciado em detrimento de uma rotina apática é p(ó)esia marginal, clichê genial, soberba volúpia, pretensa gana e que me mata lentamente de reconhecimento e falta. Sinto raiva de nós e de Fante, varro pra longe o desatino e separo de mim o desconexo que é este estorvo de nos ver em literatura. Virou poeira e abandono. Preocupo-me com o excesso de adjetivos e esqueço o grau dessa desimportância. Pobre Bandini, pobre Camilla (de que lhe adianta ser musa se é pra ser sempre tão honesta? De que lhe serve tanta suposta fidelidade se sempre só lhe importou o conceito abstrato de lealdade?). Penso freneticamente: Fante – seu velho safado! – deixe-me dormir e deixe-me em paz com tanta crueldade. Você me roubou o ar, a alma, a história, o nome, a calma e o sono. Bandini, ladrão de amanhãs. Converso com escritores mortos e estou completamente louca, concluo.

‘Under water the current rushed, rolling and dragging me. So this was the end of Camilla, and this was the end of Arturo Bandini — but even then I was writing it all down, seeing it across a page in a typewriter, writing it out and coasting along the sharp sand, so sure I would never come out alive. Then I was in water to my waist, limp and too far gone to do anything about it, floundering helplessly with my mind clear, composing the whole thing, worrying about excessive adjectives. (…) I have forgot much, Camilla! gone with the wind, Flung roses, roses riotously with the throng, Dancing, to put the pale, lost lilies out of mind; But I was desolate and sick with an old passion, yes, all the time, because the dance was long; I have been faithful to thee, Camilla, in my fashion.’

Você calou e eu finalmente ouvi: Porque, sobretudo, é você a minha saudade ativa e dissimulada do que poderia(mos) – algum dia, talvez – ter(mos) sido, mas que escolheu ser mediano e irrelevante com a ajuda enclausurada do tempo e do absurdo. Você é a minha narrativa bêbada de whiskey barato, de lágrimas inconsoláveis, de cinzas de cigarro que adormecem no cinzeiro e de paixão insensata. Você é o torpor da minha ressaca, do meu café frio no meio da tarde, do meu devaneio sem caminho, da minha falta de ar e da minha mágoa incurável.

Sua voz e o meu devaneio.
Sua voz e o meu devaneio.

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Rascunhos de Outono III: Parênteses.

13 de março de 2015 por Camila

Olha, você gostaria de saber que hoje eu fiz uma baliza perfeita? Aliás, duas. E, em uma delas, estacionei o carro de primeira naquela minha garagem assimétrica. E então, ao fazê-lo, quase deu pra ouvir o seu aplauso e palpar o seu sorriso cheio de orgulho e contentamento (e, é claro, recheado de um punhado da sua ironia peculiar seguido do verbalizado ‘finalmente, meu Bem’).

E que pensei no andamento do seu livro a tarde inteira e novamente antes de dormir, você gostaria? Fiquei elocubrando cá com meus botões se você avançou nas idéias e nos capítulos, na narrativa e no enredo, no começo e no meio (por que o fim – como você sabe – nós nunca entenderemos).

Então você acha que se interessaria em saber que a sua ausência me perturba na mesma proporção que a sua presença? Que o seu silêncio me arde tanto quanto as suas palavras? Que essa distância está tão perto que me confunde os sentidos e que anda por aí desembestada e afirmando que já nem sabe mais de nada? E que eu não reclamei do amargo do café e que ri da hiperatividade que ele me trouxe em seguida (descobri que as noites insones só podem ser salvas por manhãs de cafeína!), você se interessaria?

Freio meus impulsos e digo a mim mesma que você não iria querer saber disso (que é pura bobagem de mim!), mas tentei traçar na minha mente as portas que hoje lhe foram abertas (ou fechadas): Tentei calcular milimetricamente (sim, eu – justo eu – calculando coisa alguma!) o tamanho da alegria ou da profundeza escura da sua decepção, do seu desapontamento ou da sua desesperança. Tive vontade de saber com quantas pessoas já saiu ou aonde foi para buscar curas, porque, obviamente, o meu colo não procurou para o conforto e nem o meu companheirismo para celebração.

E que fui reler os seus poemas antigos, rever as suas fotos velhas, relembrar suas estórias,  reviver os seus momentos e procurá-lo nas redes sociais para saber um pouco mais da sua vida presente, você gostaria de saber? Passos ultrapassados e guiados pelo desconhecer (de ti).

Será que você pensaria ser relevante que, mesmo agora, quando chego em casa apenas levemente molhada enquanto vejo o mundo desabar sob a chuva paulistana e sinto – Deus, como sinto! – tanta pena dessas pessoas que estão encharcadas no corpo e vazias na alma e que buzinam desesperadas ou correm entre poças para chegar até àquilo que chamam ‘lar’ (seja qual é o conceito!), eu penso fastidiosamente sobre as suas hipóteses e vertigens?

Pois hoje foi dia de levar o carro para revisão. E, honestamente, me diga: você consegue pensar em uma tarefa que me sugue mais a vida do que isso? Bem, talvez fila de banco me mate o espírito, mas, revisão do carro?! Posso imaginar a sua cara ao me ouvir dizer pela 97839371 vez que não fui feita para as burocracias do mundo: -Dêem-me algo impassível de ser quebrado e uma impressora que transforme em cédulas o que eu tenho na conta, ora.

É que é na feitura dos meus planos em que fico me indagando continuamente sobre o que você me diria se soubesse deles. Nas suas expressões ao ouvir as minhas novidades e criações de horizontes quando tudo ao meu redor me enfada e me mata de tédio. No seu estar incondicional ao meu lado, mesmo quando me torno mais marasmo que aventura. Nas flores amarelas e azuis que você me traz mesmo quando faço bico e não mereço coisa alguma. Na sua falta de atenção quando a carência me consome. Na nossa via de mão dupla em sentido único. Nos nossos antagonismos semelhantes. No que nos completa e no que nos racha, nos afoga, nos quebra  e nos separa.

E, portanto, lhe digo livre de pretensão ou licença poética: Hoje foi um dia ordinariamente comum, no qual fui feliz nas pequenas coisas e sobrevivi ao sem graça do mundo, à ignorância da gente que me cerca, ao meu próprio mau humor (e TPM, claro!), ao cinza da paisagem, à garoa preguiçosa (que é ora tempestade e ora mansidão), ao destempero do trânsito de uma cidade caótica, às minhas incertezas indestrutíveis e ao carinho do próximo. Hoje foi só mais um dia como tantos foram aqueles outros em que tive vontade de falar com você, de me aninhar no seu peito, de beijá-lo apressadamente, de calar-lhe a boca com alguma rudez proferida e dar um basta na rotina que me exaure. Ou de (te) escrever um conto (sobre nós ou sobre tudo aquilo que me é você). Hoje brinquei de desenhá-lo nas minhas memórias mais bonitas, nos cantinhos tão meus que são só saudades e doçura: Hoje, provavelmente e muito talvez só por hoje, a minha mágoa não latejou feito a louca que é e que há de ser.

No meio de tantas dúvidas sobre suas posturas e tentativas de criar em fantasias (fantasmagóricas?) as suas possibilidades de ações, (te) falo tudo isso porque sei que você ainda vem aqui para beber as minhas lágrimas em taça de champagne ou talvez apenas atrás de notícias, súplicas, fatos, remorsos e sonhos. E que ainda quer saber de mim, mesmo quando eu própria já não quero (e me convenço disso ao fechar meus olhos em mais uma tentativa frustrada de dormir cedo).

Parênteses (cheios) de nós, quereres (plenos) de mins.

Das sutilezas de esquecer de mim em dias comuns de você.
Das sutilezas de esquecer de mim em dias comuns de você.

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Rascunhos de Outono II: Tempo de era(s).

5 de março de 2015 por Camila

Helsinque, 11 de Dezembro de 1978.

B., querido:

Acordei com saudades. E com a certeza de que foi melhor assim: Com essa lonjura que arde, que queima, que causa febre delirante e que tortura em ausência de corpos. Mas que, no meio de todo esse processo perturbado, é também cura.

É a cura de um coração machucado, ferido, atraiçoado e, pior, desconfiado: É remendo, emenda e soneto. É conto, conta, prosa, poema e poesia. Mas é tanta – é grande, é enorme, é urgente, é imensa! – saudade. Corro mundos (e o mundo inteiro!) buscando presença e sanidade e completude e liberdade e amplidão. Mas é tudo tão irremediável, tão vago, tão vão, tão desimportante, tão sem sentido e tão sem graça feito sol em dia de neve e gente que não se dá.

No entanto, me habita a falta. E é falta, entenda, sem que esteja vazio. Não adianta correr mundos, percebo (finalmente!), se é amor que há sem haver. É dúvida de sentir. É a nostalgia de um novo tempo que pereceu e envelheceu o sonho. É o querer-te perto e longe no espaço que pode compreender um átimo de segundo. É banir-te sem o conhecimento sobre se sei, de fato, amar-te (e não sei, concluo). É a escolha por mim ao invés de escolher a ti. É o que desejo e não quero mais. É pulso sem vida. É o existir que se arrasta. É a volição esquecida, dissolvida e apagada.

Tua voz, saiba, é como um punhado de sal na minha carne que sangra, na minha loucura de uma ferida eternamente aberta e incicatrizável. Tuas palavras me varam o fígado, sugam o ar dos meus pulmões, viram úlcera no meu estômago em chamas e tentam – inutilmente – ludibriar meu cérebro na criação de novos planos e na feitura de novas promessas. És o meu coma, o meu estado vegetativo aonde estou acordada e com metade do corpo funcionando.

De mundos diferentes, óticas desiguais e verdades distintas ungidas sob o pano de semelhanças: Esses somos nós. Esses sempre seremos nós – dois seres confusos, perdidos, um pouco sujos e abandonados pelas nossas vaidades rasas e arrogâncias superficiais – , ainda que já não sejamos e tenhamos há muito deixado de ser(mos). Cruzamos os passados e nos tornamos a verossimilhança pretérita subjuntiva e abstrata do fôssemos. Não, não fomos. Jamais hemos de ser.

O nosso tempo é um eterno e desconcertante ‘era’: Era para ser, era uma vez, já era. A Era melancólica do tempo e da vida que não foi. Desafinou. Desandou. Desdisse. Desamou sufocando de paixão. Deixou pra lá. Desapareceu no sólido. Desmanchou o laço. Desocupou espaços. Doeu na impossibilidade permanente.

Inverteu, atravessou, escreveu, mentiu, quebrou, pretendeu, escorreu, adormeceu, vagou, lamentou, lembrou, morreu.

Foi-se (o amor).

Fui-me (embora).

Näkemiin,

M.

Peregrinação de mundos: Já não estou em parte alguma.
Peregrinação de mundos: Já não estou em parte alguma.

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Rascunhos de Outono I: Ambivalência.

28 de fevereiro de 2015 por Camila

Irônica que era a vida, já não era dele o beijo que habitava a boca dela: Eram outros beijos, era um outro carnaval inteiro. Mas era dele a saudade. Era dele a falta onipresente. Era dele a lembrança. Eram dele os pensamentos. E, sobretudo, era dele – ainda que de um jeito bastante torto, é bem verdade – o amor que lhe restara.

Mas ia passar. Amor evapora. Amores – como tempestades – sempre chovem em telhados rachados e depois secam. E fica tudo árido. E fica tudo o que já não há. Fica o gosto amargo da cerveja, a punhalada da deslealdade, a ruptura que traz a solidão, o silêncio rouco e desesperado, o cigarro que ninguém fumou, o abandono não-requerido, a poesia bruta emudecida e as promessas quebradas: Por fim, nada é bem-vindo e a porta está fechada.

Gritos abafados, manhãs de calor, o tempo que corre vadio e os tropeços em livrarias: ‘Amor, de novo’, dizia a capa em cinza feita por algum designer pós-moderno. Doris Lessing. Nobel em Literatura. Pareceu promissor. Pareceu apaziguador. E, quase que de maneira ambivalente, pareceu uma tortura enorme. Mas, desde que não tivesse um final feliz em mais uma estória mentirosa, parecia bom e real e condizente com aquilo que ela chamava de vida. Arriscou. Enquanto no caixa: -Débito, por favor.

Andou mais uns metros por aquela rua que era toda charme de um entardecer atípico de outono e sentou-se – sozinha como lhe era de direito – numa das mesas da varanda daquele Café. Com a brisa que lhe rachava os lábios enquanto o sol injustamente ardia, deixou que os dedos passeassem entre pautas e percorressem sedentos por palavras. Se escondendo por trás dos óculos escuros maiores que a face, não se sabia preparada para aquilo no presente instante, mas estava segura que um dia aquele livro seria necessário feito bálsamo que perfuma machados no corte. Sangrava, mas a cura não viria agora e sabia apreciar o tempo de recolhimento com certa resignação. Era toda feito lagarta em casulo, ainda que paciência não fosse uma das suas poucas virtudes. Perdeu o olhar nos transeuntes e, com o coração melancólico, se esforçou pra ver a beleza na natureza cotidiana das coisas. Mais que um exercício constante, era um ato de fé no amanhã e no possível sonhado.

-Um espresso, por favor. Duplo.

Entre queimar a língua com o café sem açúcar – como devem ser todos os cafés jamais servidos em qualquer parte! – e a observação calada e obsessiva do mundo (que, concluiu, precisava ser mais doce!), decidiu que naquele preciso momento de uma tarde fria e ensolarada, deveria responder a carta que ele a enviara três meses atrás. Antes, apenas se sufocou em palavras. Agora, era uma máquina de escrever mágoas e reverberar seus mais sinceros e íntimos sentimentos. Muito concisa, apenas rascunhou numa letra cheia de preguiça e má vontade:

Eu tive que escolher entre amar a você ou a mim mesma. Escolhi não apenas o amor por mim, mas o próprio respeito. Perdoe, mas entendi que romances só são reais em livros e talvez num ou noutro filme menos clichê e menos barato. A vida é uma selva e temos que tentar nos salvar quando quem deveria ser abrigo vira deslize, barranco e encosta em plena chuva torrencial. Mentira, – fui relapsa! – Cartola tinha razão: A vida (tal qual o mundo inteiro), na verdade, é um moinho. Não há mais lugar para o idílico, apenas o verdadeiro de alma límpida me interessa. Não faço da minha morada um punhado de lama. Sorte e saúde a você, porque há de vir mundo. E há de vir mais, não seja somente ainda. Já me fiz amanhãs. Seja feliz. Luto bravamente para sê-lo. De longe, lhe beijo com gosto de adeus embora não lhe queira mal. 

Assinou justamente em cima do logotipo do Café impresso no guardanapo e deixou que o correio fizesse a sua parte. A dela já estava feita. A decisão – sobre o próprio destino – fora irremediavelmente tomada: Era, finalmente, dona de si.

Let it be.
Let it be.

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Continho de circunstância.

8 de fevereiro de 2015 por Camila

Então, me deixa te contar uma coisa. Antes de tudo, hoje foi um dia injusto: dormi apenas duas horas, não ouvi o despertador, acordei com saudades de ti, perdi a hora de despertar – e o horário do ônibus! -, choveu a cântaros numa São Paulo que alaga (e falta água ao mesmo tempo!), meus alunos não apareceram, senti saudades de você, furei a dieta – e comi batata frita! -, enfiei o pé em poça d’água (mas isso me fez sorrir, então tudo bem), o meu ciúme quase sempre recatado hoje fez morada em coração de leão, acabou a bateria do meu iPod enquanto eu caminhava de volta pra casa, senti sua falta, não me empolguei com os blocos de carnaval, fiquei com preguiça de existir, passei frio e calor num espaço insano de 20 minutos, não consegui fechar os olhos e cochilar, sujei toda a cozinha de sei lá o quê, refleti e dei replay umas 40 vezes nas nossas brigas nas minhas memórias, não fui pra academia, ainda não sei de ti, as crianças do vizinho não param de berrar, as lentes dos meus óculos estão imundas, crio os piores cenários sobre o seu paradeiro, o livro que estou lendo está empacado numa estória paralela e sem graça, o vinho não está na temperatura ideal, queimei meu dedo no isqueiro enquanto tentava acender minhas velas de cheiro – e derrubei o maldito dentro do pote, que acabou mergulhado em parafina e imprestável pro resto de sua vidinha inanimada! – e, bem, eu já mencionei que ainda não ouvi sua voz? E quanto as minhas saudades, já proclamei?

Já li e reli suas mensagens insistentes uma centena de vezes. Você não consegue cumprir sua promessa de manter-se longe, eu tento manter a minha linha de não ceder e você dificulta as minhas resoluções. Seu charme é quase irresistível, mas está sempre confrontando o meu amor próprio e as promessas que me fiz.

-Sinto tanto a sua falta… É, é exatamente assim, com esse jeito reticente e filhodaputa que você arruma uma maneira de bagunçar meus dias e trazer seu caos pra organização metódica da minha existência no meio de uma tarde comum. Por que, por uma vez na sua vida, você não pode se calar? Ou então dar nós nos dedos e vencer a tentação de mensagens? Escreva-me cartas, pois. Assim terei a opção de guardar no fundo da gaveta ou esquecer displicentemente dentro de um livro qualquer e não abrí-las enquanto você ainda me doer mansinho

Posso – quase que de maneira palpável – sentir a sua carne trêmula ardendo contra a minha, sua língua quente, seu morder de lábios, seu fechar de olhos, seus dedos que aprenderam a me passear, o ângulo exato em que você me roubava beijos, sua mirada quando queria me pedir qualquer coisa – a de cachorro pidão querendo carinho e brigadeiro e perdões a homem que sabe como olhar sua mulher e expressar todo o seu desejo desregrado e ímpeto lascivo -, seu repouso quando eu queria vida acelerada, suas mãos enormes que abarcavam as minhas tão frágeis, sua necessidade constante de me abraçar a noite inteira, seu perder-se de si quando me ia, sua reclamação com o comprimento da minha saia e meus eventuais descuidos no cruzar das pernas, sua impaciência quando eu prometia ser aquela a última Heineken e pedia mais umas três depois, seu encarar de viés quando algum desconhecido passava e me tocava a cintura, sua dificuldade em dizer não as minhas vontades fora de hora, sua hiperatividade quando eu queria – simplesmente – quietude e marasmo, seus erros perdoáveis, o seu agir contrariado só pra evitar a fadiga de perder a discussão pra mim (sim, porque você de antemão já sabia que isto iria eventualmente acontecer), seu corpo tão protetor quando eu fugia pra você parecendo um coelhinho amedrontado pelo mundo… É, eu – também – sinto tanto a sua falta.

Respiro e pondero: -Eu sei, eu sei que as pessoas falam que aos domingos é sempre mais difícil administrar a saudade. Só que hoje é sábado, pôxa… Você traiu nossos hojes e amanhãs possíveis pelo seu passado indecoroso e um pouco encardido. Você bem sabe que, se aqui estivesse e eu o aceitasse, estaríamos agora aninhados num nó só no sofá vendo uma maratona de filmes ou seriados. Você, provavelmente, fazendo pipoca. E eu, com certeza, morrendo de preguiça e pedindo para que você trouxesse tudo pra mim: queijo ralado, refrigentante, álcool em gel para limpar minhas mãos, travesseiro, dengo, beijo, massagem, estalar meus dedinhos dos pés…

Sentei pra escrever um conto besta, desses continhos de circunstância e mera ocasião. Quando terminei, me dei conta de que eu precisava de um revisor das regras gramaticais i-men-sa-men-te tediosas da língua portuguesa. Hoje, mais uma vez – você não vai acreditar nisso – tive dúvidas quanto ao uso da crase… É, eu sei, eu já devia saber. Mas eu tinha você pra cuidar disso pra mim e agora tenho que me perder em índices de gramática para ver em que página constam as normas tão desimportantes… Era bom quando você me revisava sem coragem de me editar. Eu apenas o olhava nos olhos e ria baixinho quando o via se debater contra a própria natureza da chatice e ter que dar o braço a torcer que nenhuma estrutura do texto precisaria ser mudada.

Agora, neste fim de tarde de um dia que começou muito cedo, a fome me chega. Abro a geladeira. Nada me apetece. Mais uma vez furo a dieta: Estou ligando pra pizzaria de sempre. Sim, eu sei qual o sabor da metade que você quer. Não, oito fatias é um exagero, vou pedir a de seis. Sim, a de seis, conforme-se. E pode deixar, eu passo o endereço e explico como chegar aqui. Mas então você desce pra ir buscar na portaria, certo? Se não, eu faço beicinho e desço de camisola mesmo. E aí, já te quase escuto liquidamente dizer: -Não, é claro que eu vou! Menina sem pudor!  E eu caía pra trás de tanto dar risada desse seu ciúme ridículo do meu corpo (-tô gorda, ninguém vai me olhar, bobinho.) e do seu medo apavorado quando eu refletia sobre tudo que não dava certo entre nós enquanto roubava a sua azeitona preta e a cebola quase toda pra mim. -Me dá um gole da sua Coca-Cola, Amor? Mas tem bastante gelo? Só gosto com muito gelo, você sabe disso. Não, nós não vamos comer nada doce depois. Faço questão de lembrar que você é um Gordinho e bem guloso, mesmo tão esguio.

Paro e berro para que o eco do meu grito retorne ao vazio do meu silêncio: -Por que você foi fazer isso com a gente, hein? Dessa eu não posso te perdoar… Não sou boa de perdões, idiotinha. Você sabe que eu fujo para as montanhas sem olhar pra trás quando alguém quebra o meu lirismo, fere o meu eu lúdico ou rompe as fronteiras do aceitável pro meu coração. A solidão é sua. Mas o amor? Ah, o amor é meu. E o que eu faço com ele quando ele acaba mas ainda há? Que droga! 

E, antes de tudo, torno a dizer que injusto são os dias de hojes: Por um erro seu já não posso mais contar com você na minha existência e tenho que lhe dizer repetidos nãos quando todo o meu corpo implora pela existência constante de sins. E volto a vagar sozinha a procura do que nem vou saber quando (ou se) encontrar.

Je veux t’aimer tous les jours, imbécile.
Je veux t’aimer tous les jours, imbécile.

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