Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Diálogos da Invisibilidade XI: De longe, aceno.

7 de fevereiro de 2015 por Camila

‘I loved you so madly, knew you would be true. Now this thing has happened, Dear: It’s over, all over, because we’re through. So sorry, Dear, it end this way… Since the world begin, the old folks say: Everything happens for the best.’

(HOLIDAY, B.)

Era manhã quando passei apressada por baixo de um pé-de-jasmim e pensei que a vida pode ser bonita em tudo que é singelo. Parei por um minuto e sorri. Mas aí, lembrei de você e fiquei triste.

Olhei pro mundo inteiro que cabia ao meu redor numa fração de segundos, e percebi que as ruas em que caminho todos os dias são adornadas por casas de muros baixos, setentistas e silenciosas. É possível até mesmo sentir o cheiro do abandono daqueles telhados melancólicos e daquelas paredes mofadas. Sendo mais concisa, é o próprio cheiro do esquecimento: Portões enferrujados prendiam os cães em seus lugares que realmente não eram seus e as janelas fechadas, gradeadas, claustrofóbicas e empoeiradas escondiam cortinas já desbotadas pelo efeito erosivo do tempo. Provavelmente chovia dentro de todos os quartos e os donos daquelas casas se vestiam sempre de cinza. Ainda assim, caminho. Diferente de quase todo mundo, ando por uma fagulha – uma lasca, que seja! – da esperança que pulsa um pouco abafada, mas que insiste em existir sem alarde. Padeço – e sei disso – de uma enorme (mas não mais eterna!) ressaca sentimental.

O que me inspira não se distingue da fonte dos outros: o amor, a frustração, a ternura desmedida, a dor de ter que deixar pra trás algo que tanto se quis, a ansiedade do olhar, as borboletas na barriga, a ponta fria do nariz, o diálogo comovido que acontece entre um copo de cerveja e outro mais, o cuidado, a vontade de sonhar junto, o calor do coração, as mãos dadas, o medo de uma realidade iminente com ausências presentes, o silêncio do telefone, o carinho eloquente, o contar de estrelas, as rusgas, a paixão incomensurável e as histórias bem contadas. E você, meu Bem, é um prato principal (e entrada e sobremesa e cafezinho) cheio de tudo isso. Você, a pessoa mais inconsciente e irresponsável que eu conheço. Você, que ama e nem sabe amar. Você, que diz saber de si mas que não sabe nem pra onde vai sem mim. Você, que é só desacerto e súplicas de perdão.

O que não mais tem importância é a saudade urgente que lhe sentia entre o seu tempo de sair da redação e chegar em casa com promessas de novas madrugadas: Daquelas que eram só nossas, do nosso jeito, de como poderíamos ser, de como fomos e da felicidade que sentíamos ainda que confrontados com tantas impossibilidades (devia ser a tal da certeza, alimento de amanhãs).

O que ficou irrelevante é dizer que aqui estou, sozinha. Nessa solidão de você em mim: Com meus pensamentos, com suas fotos, me perdendo no seu olhar (e lembrando que, estando de licença poética, posso usar o pronome oblíquo antes do verbo no início da frase se assim quiser, e quero), imaginando quantos – e quais! – dos nossos caminhos me levaram a você. E o quanto dos seus passos o trouxeram – entre tropeços e erros e soluços e circunstâncias – até mim por escolha e por um sentir inexplicável numa noite qualquer que só significou alguma coisa depois do passar de dias inúteis.

O que é obsoleto é eu ficar aqui, num luar de raro silêncio em São Paulo, escutando a nostalgia  prosaica de Dominguinhos e lembrando exatamente do que eu estava fazendo e por quais estradas me havia perdido numa busca frenética pelo algo que – quando o conheci – julgava ter encontrado. Um final feliz, quem sabe? Eu sei: Não foi feliz, foi só final. Você, que era o objeto da minha afeição e o tecedor de dias que viriam, assinou com papel passado e carimbado o ponto final que não abrange o entendimento nem dos meios e nem dos começos. É ordinariamente final, só isso e nada mais.

O que é insignificante é contar a você que abri outra cerveja, acabei com a quentura na minha boca e continuo pensando com certa melancolia em dias que se foram imbuídos no antecipar de dias que, de alguma forma, já existem. Mas que também ainda virão: E você não estará mais lá. São dias e são sonhos que não mais o pertencem. São meus com direito de exclusividade, registrado por testemunha ocular e legalizado pela burocracia preguiçosa que nos rege.

Preciso mesmo lembrá-lo de que deixamos – por alívio ou por tragédia – que o nosso amor morresse? Caiu duro e frio como neve na Rússia quando você (implacavelmente, diga-se de passagem) me atirou no meio de uma highway cheia de informações que eu desconhecia quando me julgava tão sua cúmplice. Tateei meu caminho de volta para a calçada segura e, com lágrimas nos olhos já turvos e o coração que afundou como âncora de navio ao se aproximar do cais, decidi que aquilo era imperdoável. A falta de lealdade, como repeti à exaustão, é pecado capital: A punhalada nas costas e a flecha no meu calcanhar de Aquiles sangra (por fim a heroína foi abatida em pleno combate). É ferida que não cicatriza. É ela que diz ‘não‘ aos seus apelos de volta. É ela quem lhe silencia e lhe indica que o seu arrependimento mesclado ao próprio remorso não me diz coisa alguma.

Não posso reclamar, já me tinham alertado: Minha vida seria mais fácil sem você (se você nunca tivesse entrado nela, mais precisamente), porém, essa minha personalidade empiricamente destrutiva (ou vice-versa?) quis pagar pra ver. Aquele papo de ‘veni, vidi, vici’, sabe? Bem, no seu caso, perdi. E talvez nem tanto assim (embora seja caro o preço que pago pelos meus erros. E eles parecem vir parcelados e contínuos). Quantificar não é comigo, acho que por isso não conto nem as horas e nem os dias. Apenas espero, com certa ânsia contida, o passar do tempo que traz a redução gradativa de tudo que agora parece tão grave e tão doído.

Sou das teses e das antíteses. Prolixa que sou, ironicamente, posso me dar ao enorme luxo de ser – também – síntese (pura Dialética de quem passa a vida sendo Semântica): as minhas contra-argumentações me geram novas teses, repelidas por novas antíteses e continuo a parir síntese. Simplificando, é somente o processo que não parece ter fim de dor, pequenos placebos de alegria e, por último, o consolo que me cabe (que geram outros confortos, momentos de insensatez emudecidas e novas neuroses). É um ciclo que não se fecha e todos os dias eu tenho que procurar novas fórmulas para conseguir funcionar e não deixar que a sua bagunça determine a minha vida: Para impedir, sobretudo, que o seu esparramar de si e o seu invadir de espaços vire a minha paranóia. São diálogos silenciosos que explodem dentro de mim e que jamais se calam. Na metodologia estranha e pessoal que desenvolvi a duras penas para tentar entendê-lo, permiti perder-me de mim e do meu equilíbrio construído em longas batalhas contra as noites vazias. E, por isso, só quero ficar longe de você. Só quero ser se for pra mim: Perceba que, também eu, às vezes me preciso distante. Às vezes me sou bálsamo próprio quando tento me ser cura.

Se eu fosse voyeur de mim mesma, seria tão mais simples observar meus problemas e definir  as minhas rotas de soluções e opções de fuga. No entanto, olhei pra mim e senti tanta pena: Trajava uma camiseta cor-de-rosa com a imagem dilacerada de Billie Holiday e, só por isso, concluí que era claro que meu destino só podia ser esse em que vivo no agora.

Nessa minha eterna mania de entorpecer e domesticar palavras, hoje as digo muito claramente: este é um conto de adeus.

Já me fui.
Já me fui com todos os pedaços de mim que me juntei.

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Diálogos da Invisibilidade X: Oblívio.

7 de fevereiro de 2015 por Camila

‘…El recuerdo es sentir el vacío en el pecho y el nudo en la garganta.’

(GANE, M.)

– 

Você se matou em mim. Você já não é.

Seus vestígios pela minha casa já foram varridos para debaixo do tapete que nem existe, mas que finjo existir. Fingir: Esse tem sido meu verbo favorito esses dias. Ou apenas o mais conjugado em todos os meus eus plurais. E eu que me saiba. E eu que me sobre. E eu que me baste em justaposição (obrigada, Aristóteles!) e medida exata (logo eu, que vivo me esparramando por aí).

Suas camisas já estão jogadas no meu armário, aonde não podem andar de par com a minha memória e minhas lembranças de você, nessa sua tentativa frustrante e desesperada de me fazer cambalear num passo que dei e não voltarei atrás. Joguei na máquina de lavar para tirar delas o seu cheiro e a sua pele, depois as deixei esturricadas ao sol para que desbotassem suas cores. Por último, a pá de cal de um carinho qualquer que já não há: o esquecimento e a obsolescência do fundo escuro do guarda-roupa. Não o guardo, você não me tem. Você, o meu erro líquido que evapora e chove e evapora e chove e evapora e chove e evapora e chove e evapora e chove…

Seu pacote de chicletes – esquecido displicentemente em cima da minha caixinha de chás e sobre a minha decência – já está atirado ao lixo junto com todas as outras coisas que passaram da validade dentro da minha geladeira. Hortelã: Sabor que arde, hálito que queima, língua áspera, lábios afiados, coração em frangalhos. Você é hoje o expoente máximo da arte dos resquícios, ainda que seja nas pequenas coisas que repouse a saudade.

Ao revés de mim e do meu querer, reencontro você e seus poemas dentro dos meus livros de Nietzsche. Parece um passo mal calculado da sua desfaçatez: Essa sua insistência de permanecer perto da minha cama, ainda que esquecido na poeira do meu criado-mudo e nos escritos que ali vivem. Sua letra trêmula e insegura em guardanapos, seus traços desconexos e incertos, as minhas verdades irrefutáveis e o meu lirismo inteiro. Você, sombra de si mesmo.

Da minha estante, me grita – quase já rouco de tanto desespero – Quintana: ‘Do amoroso esquecimento: Eu agora – que desfecho! – Já nem penso mais em ti… Mas será que nunca deixo de lembrar que te esqueci?’. Coloco Bob Dylan na vitrola e ele esfrega nossa história na minha cara. Não pense duas vezes, tá tudo bem… Continuo a evitá-lo pelo microcosmo onde vivo e tropeço mais uma vez no você que está – ainda e não por muito – dentro do meu apartamento: Na lata de leite condensado que ficou pra trás (e na sua voz a ecoar me pedindo brigadeiro repetidamente no meio da noite, coisa mais sem sentido!), nas coisas fora de lugar, no caos da minha cama, nas minhas madrugadas insones, no milho da pipoca que queimou, nas minhas olheiras onipresentes, nas milhares de latas de Coca-Cola e nas xícaras borradas de café. Você, meu arrependimento inquietante e crucial do vivido.

Forço a memória na tentativa de procurar pedaços de você dentro de mim e arrancar antes que novamente me apareça de surpresa e acabe com meus planos de sublimar lembranças. Encontro você, inevitavelmente, no pior de mim: Na quebra de confiança, nos questionamentos, na agonia, na insensatez dos desejos não-atendidos, na falta, na desesperança, na ansiedade mal gerida, no cinismo da omissão, na traição de uma mentira, na minha tendência de fazer péssimas escolhas, no choque de vivências, na covardia de onerar o outro pelos seus erros crassos e grosseiros, no desgaste iminente, na perda da inocência, no fim. Você, o meu tempo perdido.

Encontro rabiscos de Gane – sim, de novo ele com sua dor especial e sevillana –  na minha agenda e a circunstância do escrito me lembra – por fim lembrei! – de você: ‘Anoche lloré. Lloré porque no sentía, porque no tenía ni una gota de amor adentro aunque llovían recuerdos tuyos por todos los lados.’ A data? Ironicamente, meados de setembro, primavera em flor. Às vezes demora muito a amanhecer e a madrugada – trôpega – se arrasta fria e silenciosamente num vazio de dimensões ignoradas. Estou tão… cansada. ‘Sufro de noches sin ti’, emenda Miguel G. Eu apenas agradeço a ocasião que o levou embora antes que eu desistisse dos meus planos para viver os seus. Você, minha decepção.

Quase que em modo automático – um zumbi, caçoariam alguns -, acendo uma vela, Plum Dahlia. Não, nunca mais a fragrância das rosas amarelas para escrever sobre você, seria um desperdício de paz e aconchego e suavidade e sutileza. Cada um faz por merecer o que lhe chega e – honestamente, Benzinho – você fez muito pouco somado a quase nada. Apenas observou passivamente e culpou tudo que estava fora de você e dentro dos outros. Você, entenda, é a sua própria fraqueza. Você, tão irrelevante.

Como que meramente por capricho da vida, durmo. E, nos piores pesadelos que me invadem, todas as suas promessas e pedidos de desculpa e justificativas supérfluas e meu fingimento do acreditar nas suas mentiras. Mas não dói mais, e escrevo meramente por hábito e bons costumes. Você, a desimportância do que já me foi.

Um dia, um conselho: enxergue de verdade cada um dos seus amores, tal qual cada um é. Com os olhos desnudos da paixão, finalmente o enxerguei. E sinto dizer, carinho meu, não gostei do que vi quando me vi. A bagunça de você por inteiro é só aresta congênita para minha mania de organização tentar reparar. E falhar em absolutamente todas as vezes. Sou eu a personificação pálida desse caso perdido de eterna tentativa e erro? Você, a minha desistência.

As pessoas insistem em dizer que, para certas coisas, há que se ter coração. Discordo e vocifero que há que se ter estômago. E, assim como tudo é graça e antítese, tenho um coração que já não pulsa e muita (muita!) fome.

Você se matou em mim, repito para crer. O homem por quem me apaixonei jamais seria dado a tamanho despudor e vulgaridade. Ele era um ser mágico que se esforçava para remendar erros e costurar novos amanhãs. Ele nunca seria ordinário e fundamentalmente vil e vaidoso. Ele, tenho certeza, não me negaria o prazer e a dor da verdade em detrimento do doce amargo da mentira. Eu, a que se engana.

Apenas vá, estranho. Vá embora e não deixe pegadas pelo caminho ou impressões digitais na minha porta, ela está fechada e joguei a chave bem dentro do meu abandono, num lugar bem fundo da minha vergonha. Fiz como Kaufman me sugeriu e o escondi nas profundezas da minha humilhação, aonde você permanecerá encarcerado até que eu consiga, por fim e irrevogavelmente, apagá-lo.

Você, tão pouco. Você – que imenso paradoxo! -, que poderia ter sido tanto e agora já é quase nada.

Etm. do latim: obliviu. s.m. Ação ou efeito de esquecer; perda de memória; esquecimento. Figurado. Condição do que ou de quem se encontra em repouso; descanso ou adormecimento.
Etm. do latim: obliviu. s.m. Ação ou efeito de esquecer; perda de memória; esquecimento. Figurado. Condição do que ou de quem se encontra em repouso; descanso ou adormecimento.

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Diálogos da Invisibilidade IX: Lago Cocite.

5 de fevereiro de 2015 por Camila

‘Vês! Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão – esta pantera – foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro: a mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, apedreja essa mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija!’

(ANJOS, A.)

Moscou, 11 de fevereiro de 1991.

Dante,

Você não entrou na minha vida de um jeito fácil, não permaneceu de um jeito suave e agora sai de um jeito amargo e travoso.

Preciso lhe dizer que este lastimoso processo de juntar pedaços estilhaçados no chão me é imensamente catastrófico. Quando passa o medo, vem a dor indizível e lancinante que quer apagar tudo que um dia foi graça e amor. Ela vem aclarar que foi tudo mentira e quer levar embora o que ficou de bom. Proteger as lembranças é uma arte bastante difícil, ou assim me soa. Então, perdoe as palavras que atravessam seu caminho e confundem o curso do seu dia de uma maneira embaralhada e um tanto quanto magoada. No momento só a bagunça causada pela melancolia me chega implacavelmente, e o azul dos dias que eram nossos foi por inteiro borrado com a paleta atormentada de Van Gogh.

E quanto a essa sensação despudorada e ardente que sufoca meu peito inteiro e que me diz, o tempo todo e em todo o tempo, que qualquer pessoa te conhece muito mais do que eu e que você não deixou que as previsões delas sobre você mesmo falhassem como se fossem elas senhoras e senhores da sua vida? Você se fez tão nítido aos outros e tão profundamente embaçado a mim. Você escolheu ser medíocre e permanecer em mais do mesmo quando eu tentei te apresentar o mundo inteiro de joelhos e colocar o universo aos seus pés. Você quis menos, eu só quis sonhar.

Você me acusou de ser insuportavelmente egoísta até mesmo quando eu abri mão das minhas mais puras convicções para acolher o seu sentir e a sua imensa necessidade da minha energia esgotada. O seu amor-desassossego sorria obliquamente das minhas lágrimas enquanto fingia chorar junto. Você dizia se importar mas não cuidou quando me feriu e me viu sangrando vida entre soluços silenciosos, porém não menos compulsivos. Você com seu eu dissimulado e seu cinismo torpe enraizado. Você que não é pra mim. Você que caminhou pelos Nove Círculos e disse sair inteiro de cada um, mas me parece que está indefinidamente parado no Lago Cocite com suas repetições – ad aeternum – comportamentais.

Diz que morreu quando me fui e agarrou a idéia de mim que se ia, mas então porque quem se sente tão vazia assim sou eu? Porque essa dormência de um coração que já não pulsa, essa alma recolhida, esses olhos molhados, essa frieza nas minhas mãos e esse recesso de curva nos meus lábios? Porque tanta ausência de virtudes neste corpo que me toma e que dizem ser meu? A injustiça fez morada: Os erros são seus, e quem padece por eles sou eu. A queda livre do Paraíso ao Purgatório e, de lá, diretamente ao Inferno é iminente. Procuro onde me segurar, mas tudo é barranco e encosta em períodos de tempestades. Tudo desliza. Nada do que era sólido finca.

Nunca um ‘eu te amo’ tão embevecido de passionalidade soou tão superficial. A poesia desmoronou. O que era romance, ficou barato (e de qualidade bastante duvidosa, diga-se de passagem). O que era conto, calou. O que era canto seu e pedaço de mim, agora é espaço tomado de relva não-arrefecida pelo tempo. Mato selvagem, seco, sem flor, erva daninha, aridez do sertão sem a força do mandacaru resiliente. Tudo se desmanchou no ar.

Obrigada pela ilusão, Dante querido. Você é, inquestionavelmente, o meu mais estimado desconhecido íntimo. A carência que mais me deu prazer. A vaidade que mais me alimentou. A mentira que mais embruteceu. E a omissão que menos sublimou. Você, de tentativas e desculpas e desistências e extremos. Você avesso do que poderia ter sido. Você é hoje o que já foi, o tempo passado que não é ido: pretéritos, imperfeitos, subjuntivos.

O amor é meu, e isso não é novidade aos seus ouvidos. E agora, o medo e o terror também o são. A bolha estourou e o que ficou pelos horizontes de mim foram os resquícios da pretensão de sermos. Vomito o pouco que sobrou e dou por encerrada qualquer discussão: Da minha boca, o silêncio eloquente. Dos seus olhos distantes, o arrependimento pelo vulgar impensado do mundo.

Você não será saudade de um tempo bom: Você já é a falta que eu me faço e a falta que vou sentir de quem eu era antes de você. De você, que nunca foi meu. Do alto da semiótica da minha nostalgia, pergunto-me: –como se pode sentir saudades do que não se conhece? Emudeço. Não se pode. Falta é a ausência gritante do que um dia se ocupou espaço e do que se quer de volta.

Trêmula, apago a luz e vago – insisto burramente em buscar! – sem esperanças pelo sono que não vem. O peito oprimido e o pânico escancarado: Eles tinham razão. E você me avisou. Saio de cena e o devolvo por fim à Comédia sem graça e nada Divina na qual o encontrei.

Assim mesmo, cuide-se. And so remember: open your eyes. 

De muito longe de todas as possibilidades e jamais sua por saber-me muito minha,

Beatriz.

Para uma tarde (de detox e inspiração) de verão no Parque Olhos D'Água: Alighieri, Buarque, passatempos e óculos escuro. ;)
Para uma tarde (de detox e inspiração) de verão no Parque Olhos D’Água: Alighieri, Buarque, passatempos e óculos escuro. ;)

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Diálogos da Invisibilidade VIII: Leãozinho.

5 de fevereiro de 2015 por Camila

‘She slept with wolves without fear, for the wolves knew a lion was among them.’

(DRAKE, R.M.)

Sentou na calçada em frente àquela antiga casa da Ramón y Cajal e, agarrada ao diário que trazia impresso as suas iniciais, pensou sobre tudo que não gostaria: Todos os erros, como essa cidade tinha cores e cheiros de promessas e recomeços, como não conseguia fazer o que a todos parecia tão óbvio e simples, como desperdiçava a ela mesma e aos outros, como não percebia chances, como não reconhecia o valor das coisas, como era fácil ser enganada, como permitia que tudo quebrasse dentro de si (sobretudo o próprio coração, veja você), como era dada ao estrago, como tinha uma facilidade enorme em falhar, como era perigosamente hedonista e como – Santo Deus, como! – ela cometia o pecado de insistir e acreditar.

Perdida em cacofonias de advérbios de modo, pronomes indefinidos, morfologias mil e sintaxes afins, segurou firmemente aquela xícara de chocolate quente que lhe adoçava a vida naquele entardecer melancólico de outono. Deixou o olhar perdido nos transeuntes que passavam apressados e inadvertidos, nas folhas no chão, nas nuvens disformes e naquela paleta de cores inesperadas que só o outubro do hemisfério Norte pode trazer. Sentia o vento frio queimando seus lábios e dava um jeito de ignorar, naquele minuto preciso, qualquer resquício de incômodo. Os pensamentos já lhe doíam o suficiente. Engoliu a própria solidão enquanto mordia a tampa da caneta que agora rabiscava palavras desconexas numa página sem pautas: Queria escrever uma carta, uma afirmação, um grito, um desabafo, um manifesto ou um conto.

Inocente, diziam-lhe. Essa daí não vai aprender nada nunca, acusavam-lhe. Coitada! Sempre será usada por alguém mais esperto, riam-se ao se achar superiores. Estuda tanto e não entende nada da vida que não esteja escrito nos livros, ironizavam-a. Mas era corajosa, aquela menina. Cruzou os mares para encontrar consigo e teve a bravura de manter a própria essência diante de todos os apesares e de pessoas que lhe cobravam posturas desleais. Era casta porque buscava fazer e enxergar o bem (ainda que no mói do mundo). Era burra porque era do tipo de pessoa que crê nos sentimentos e nos outros. Era frágil porque tinha convicções e mantinha valores dos quais se orgulhava. Era objeto de escárnio porque tinha fé inabalável no que lhe parecia certo e não revidava quando a oportunidade se apresentava. O mundo inteiro parecia não fazer sentido na direção que seguia e ela caminhava em direção oposta a que encontrava pegadas ou vestígios. Em todas as vezes que lhe foi dada a opção, ela escolheu parecer idiota e correr o risco de ser feliz a viver encarcerada em si e desconfiar das intenções de qualquer alma errante. Sim, ela sabia que havia o mal cármico e sádico. Ela até mesmo o enxergava, mas sua índole nunca fora a de agir igual a alguém, sobretudo a quem atuava deliberadamente com o intuito de causar um tipo qualquer de crueldade leviana, perversão sintomática ou coisa que (pouco) o valha. A vida e o amor lhe interessavam muito mais.

E era inteira, aquela menina. Em todos os seus (des)encontros, colecionou as pessoas mais interessantes, bebeu das melhores fontes, tropeçou nas mais belas esquinas, padeceu das ressacas mais ingratas, entregou sua alma a tudo que fez, disse não a uma vida que lhe seria insuficiente, jogou para o alto a covardia da dúvida, se embeveceu diante das paixões, deixou um pedaço de si onde encontrou paz, viveu carnavais o ano inteiro, renegou o cinismo, chorou no colo que lhe cabia, mergulhou no desassossego, se fez alada, sorriu sem motivos, escreveu pelas paredes, colheu trevos de quatro folhas, beijou os horizontes, alimentou a própria curiosidade, engoliu a chuva que lhe pegava desprevenida nas ruas por onde andava, deu sempre um jeito de dar um jeito, brincou com fogo e água, se perdeu nos por aís dos caminhos que tanto conhecia (e se encontrou aonde nunca tinha ido!), desmereceu o que era pequeno e mesquinho, deixou o vento lhe embaraçar os cabelos, desprezou o medo e a desonestidade de quem não se dá de verdade, dançou até muitos amanheceres, explicou o que não sabia, foi embora quando decidiu que tinha esgotado sua paciência e suas possibilidades, reagiu a toda e qualquer forma de apatia, escolheu dizer mais sins do que nãos e amou todas as vezes como se fosse a primeira (sim, era uma louca completa que fingia desconhecer todas as curvas dessa estrada e esquecia quesão demais os perigos dessa vida pra quem tem paixão’, como lhe alertava incessantemente seu favorito Poetinha).

E teve sabedoria para manter a sensibilidade quando tentaram lhe secar o coração, aquela menina. Há de vir o bem para quem acredita nele – ela sabia – e por isso mesmo se atrevia a cometer o pecado imperdoável de insistir e acreditar (além do mais, era demasiadamente arrogante para admitir que poderia, talvez, estar errada). Mas ela sabia quem era e, justinho por isso, podia se dar ao luxo de ser.

Ela era livre, aquela menina. Eu gostava um bocado dela e, em silêncio, a aplaudia conservando em mim seus ensinamentos de desapego ao desdém e ao menor da vida.

'...Do not become like those who hurt you.'
‘…Do not become like those who hurt you.’

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Contos de Verão IX: Pela última vez pra sempre.

23 de janeiro de 2015 por Camila

‘Vai longe. Não cheirou na rosa a cinza do coração de andorinha.’

(TREVISAN, D.)

O via escovando os dentes pela última vez pra sempre e sentia que já era tudo melancolia. Escovar os dentes – esse hábito tão desgraçadamente ordinário – passara agora a ser qualquer coisa de fantástico. Fotografava com o olhar em câmera lenta cada um dos gestos dele (dava zoom no rosto), temia esquecer o amor mais bonito que já vivera: Temia, sobretudo, que os caprichos da memória pouco prodigiosa fossem apagando a suavidade dos momentos, o sublime do dia a dia e os pequenos gestos de carinho que fazem das coisas miúdas algo majestoso.

Queria que os segundos passassem arrastados só pra recordar dos sonhos que tiveram. Desejou um pouco mais de tempo – tinha medo de como poderia ser a vida sem ele – para prolongar aquele último instante deles dois e, também, tinha alguma ansiedade para que os minutos passassem depressa para ver como seria quando o alívio de estar sozinha repousasse sobre seu corpo. Ela era toda antítese, seria assim pra sempre…

Pensou na barba que ele não tinha e que mesmo assim a espetava e irritava sua pele. Fixou discretamente a mirada nas atitudes corriqueiras dele e decidiu colocar a lembrança tão efêmera e presentemente passageira lá no fundo do relicário (que começara a talhar) dos dois. Um amor de memórias: Nisso haviam se transformado. Um amor de histórias, demoras, milhares de recomeços, pausas, interrupções, urgências, desacordos, descompasso e aspereza. Um amor de pela última vez pra sempre.

E como se amaram, um dia, aqueles dois (é, é de fazer pena tanto amor despedaçado). Amaram-se até que a última gota de afeição fosse sorvida num gole rápido e cortante pelo destino. Amaram-se profundamente até que o instante bruto e involuntário da quebra, da ruptura e da separação fosse a única escolha que restasse a ser feita: Dois mundos que colidiram – trôpegos – e agora voltavam cada um a sua própria órbita. Distantes. Vazios. Serenos. Dissonantes. E completamente apavorados.

Concluiu, portanto, que o fim quando chega é calmo e vem suave no seu silêncio desapegado e na ausência de conflitos. Dessa vez não fez questão de apagá-lo da sua vida ou dos seus contatos. Sabia, simplesmente como a pura paz que lhe cabia no por vir, que ele sumiria nas lembranças que já não entorpeciam ou agitavam sua mente. Haveria de vir um esquecimento tranquilo e certeiro como a brisa que varre as folhas caídas pelo chão de outono. Viria, ela esperava (e ele prometera!), e torcia que o tempo estivesse a seu favor. Ouviu novamente o som do seu coração quebrando e percebeu que, na verdade, ainda doía mais do que deveria: Era o incômodo da dúvida de quem precisa ir embora e sabe exatamente o que está deixando pra trás.

Foi arrancada das suas divagações pelo som dos passos dele, que caminhava até a porta onde deixara sua mala e todos os pertences que podem caber numa só despedida. Com a luz que entrava apenas pela janela da sala, tirou os olhos do chão e colocou sobre ela. Meio sem graça e com o constrangimento que só pode haver entre velhos novos desconhecidos e perfeitos estranhos que se sabem em cada centímetro, balbuciou:

– Já é tarde. Boa noite.

A indecisão borbulhava em sua mente antes que conseguisse escolher a entonação precisa para dizer-lhe ‘boa noite’ pela última vez pra sempre. De repente aquilo parecia a coisa mais importante e mais determinante que jamais dissera ou que emudecera sem coragem. Apenas seguiu e já nem se lembra de onde tirou forças pra responder:

– Boa noite.

Olharam-se apressadamente pela última vez pra sempre. Ele deu um beijo em sua testa que foi sentido mais ou menos como um paliativo que arde feito sal em ferida aberta.

E nunca mais se viram.

Coração de andorinha não cabe num sonho só.
Coração de andorinha não cabe num sonho só.

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