Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


De Nuvem.

1 de janeiro de 2015 por Camila

Para você, meu Amor. 

Para quando você existir.

É em sonho que você vem me visitar e me dizer que nossa vida há de ser boa, há de ser bela, há de ser inteira, há de ser doce. É também oniricamente que você me faz crer na delicadeza de um tempo que virá, de um futuro dado como presente, da chegança de um dia, da certeza desse amanhã que vale a espera intragável do hoje arrastado e demasiadamente prolongado sem um motivo besta que seja de haver-se.

‘…Ninguém – ninguém – verá o que eu sonhei. Só você, meu Amor, ninguém verá o sonho que sonhei: Um sorriso quando acordar pintado pelo sol nascente, eu vou te procurar na luz de cada olhar mais diferente…’

É verdade, meu Amor. É nas diferenças que eu te procuro – e, veja só qual não é o sentido maluco da vida  – nas quais eu (por fim) te encontro. Eu já sei como vai ser sem nem saber direitinho: Vou estar com a cara de tonta que tenho de quem olha o dia inteiro pro teto apenas por tédio – digo, prazer – em fazê-lo e você vai chegar como se já me conhecesse, falar qualquer coisa que vai me fazer rir de uma maneira quase que descompensada e vai me achar uma doida e justinho por isso vai morrer de amores. Porque sim, queremos risos. Teremos nossas lembranças e cicatrizes (mas não seremos ressabiados por elas, não, de jeito nenhum!) de amores prévios e paixões avassaladoras, mas queremos  sobretudo risos e beijos intermináveis. Seremos companheiros de noites de leituras e vinis e as pessoas hão de perguntar-se porque a vida não tratou de nos juntar tão mais rápido que a casualidade do encontro… Sim, porque é óbvio que seremos o tipo de casal que acaba com a certeza dos cínicos sobre o tudo e o nada. Vamos sair por aí a caçar luas e borboletas amarelas, devorar estradas sem rumo certo, nos perder sem perder-nos (para depois nos sabermos na cumplicidade do olhar), ter certezas vãs e dúvidas ridículas, achar que há lógica nos absurdos tão imenso é o mundo, ignorar o previsível, voar alto lá no azulzinho bem infinito do céu, comer brigadeiro depois da meia noite, tomar cerveja sem se preocupar com a ressaca (e com a barriga!), assistir filmes existencialistas (e películas patéticas, por favor!), crescer enlouquecendo um pouco e citando Kerouac, completando as nossas frases sem parecer que saímos diretamente de uma comédia romântica clichê, andar trôpegos e com as mãos dadas, ser  meros transeuntes nos becos anônimos de Barcelona e flanar pelas vielas de Paris, morrer de amor… E nascer de novo muitas outras vezes mais. Vamos, vamos sim.

Eu te espero, meu Amor. Eu te guardo porque sei que vale a pena a tua chegada. Por enquanto fico te sabendo nas minhas linhas de caderninhos muitos e nas noites lúdicas da tua presença suave e sutil. Um dia, naquele tempo da delicadeza, você há de despertar. E aí os nossos sonhos serão outros e percorreremos mundos deliciosamente reais.

Para você, meu Amor.

Para quando você existir.

‘Eu já estava sua antes: quis minhas mãos dadas, quis o seu sorriso me olhando, quis o seu abraço molhado de pôr-do-sol…’ #PoemeSe
‘Eu já estava sua antes: quis minhas mãos dadas, quis o seu sorriso me olhando, quis o seu abraço molhado de pôr-do-sol…’ #PoemeSe

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O silêncio em nós.

29 de dezembro de 2014 por Camila

Texto escrito a quatro mãos: Grata a você que me emprestou suas idéias e fez de mim o seu amor.  Gratidão ao encontro.

 –

No mesmo instante, numa mesma vida inteira, em dois paralelos. Assim se deu:

Ela: Li Neruda. Em silêncio, ele me suspirou. Beijou-me. Disse-me amar-me. Pediu-me em casamento. Em silêncio, suspirei-lhe. Nada mais disse. As palavras, naquele momento, seriam brutas. A voz, em tal instante, era nada mais que supérflua. Silêncio. Silêncio. Permitam-me apenas o olhar. O conforto de um beijo. O desespero do passar de um tempo.

Ele: E eu te olho em silêncio pra não te interromper. No mesmo silêncio, tu escreves compenetrada. Dois olhinhos verdes que se movem atentos atrás das lentes. Eu penso em silêncio e sobre o silêncio que nos une. Únicos. Conclui tua escrita e, apavorados, percebemos em silêncio que o silêncio era o fio condutor dos teus escritos. Só me beija pra adiar explicações. E esse silêncio que paira entre nós quando escrevemos lado a lado; ou nas horas que passamos mergulhados nos olhos um do outro, lendo nossos pensamentos; esse silêncio de gritos mudos no final da tarde, e nas madrugadas de Neruda e álcool; esse silêncio é nosso amor em carne viva.

Eram essas as interpretações de entreolhares mudos numa madrugada atípica e de calor paulistano (ou senegalês) onde dividiam o mesmo sofá inebriados pelos primeiros dias do amor demais. Ela, espevitada como sempre fora, levantou e pegou na estante mais alta do que os pés podiam alcançar a Antologia de Neruda recém-comprada. Decidiu ler um poema (ou dois ou três ou quatro ou cinco…) em voz alta para colocar em vivas cores os seus sonhos mais românticos de amor total. Ele ouvia sem muito expressar. Ouvia e a olhava com uma certa gula. Num estalo de coisa alguma sem importância e já esquecida que nem a poeira da semana passada sobre a mesa de centro que já não sabe nem de café na caneca borrada de batom e nem de mais nada, os dois largaram livros, beijos, álcool e agarraram-se a idéias. Ela foi divagar. Ele esperou que ela terminasse e, sem saber do que se tratava as garatujas todinhas dela, também foi escrever.

Ali parecia algo mágico. Hoje parece só a constatação de um momento.

Ontem sinalava que esse texto teria um fim diferente pela promessa de um novo começo. Amanhã é só outro consolo.

O amor acabou.

O tempo apagou a idéia.

…E, de algum modo, eles continuaram felizes para sempre.

‘…I cannot tell you how thankful I am for our little infinity.’ <3
‘…I cannot tell you how thankful I am for our little infinity.’ <3

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Contos de Verão V: Agonia.

26 de setembro de 2014 por Camila

Aqui as coisas ardem. Eu queimo, já não durmo e pouco respiro. E no silêncio desse calor imenso e bruto e insone e abafado, as constantes nunca variáveis: a saudade, a ausência, o vazio, o eco do nada, a falta que você me faz e a perturbação inexorável dos seus olhos não estarem repousando – nesse minuto urgente – nos meus.

Te sinto: e sinto em pronomes oblíquos, em próclises inexatas, nas minhas licenças poéticas, nos meus planos desconexos, nos meus abstratismos e, sobretudo, em mim inteira. E sempre meu, por completo.

Te busco: e procuro nas mãos desconcertadas e firmes que não acham as minhas, no sorriso molhado por todas as lágrimas da madrugada, nas pernas bambas e incertas, no afago último antes de partir pros novos horizontes, na paz angustiada que é o outro e, mais que nunca, nas promessas de amanhãs. Te encontro todas as vezes em que te (im) preciso.

Amor, beijo-te então por todas as noites que não vivemos e por todos os dias – azuis – que teremos. E então, seremos.

(Foto: Isadora Não Entende Nada.)
(Foto: Isadora Não Entende Nada.)

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Diálogos da Invisibilidade VII: Costuma acontecer em noites de inverno.

26 de setembro de 2014 por Camila

-Frio tem um cheiro, você sabia?

-Um cheiro? Você só pode estar louca!

-Não, tem um cheiro muito singular e ensimesmado de solidão e possibilidades…

Ela sabia disso. Melhor dito, ela tinha convicção disto por conta da quantidade absurda de minutos que passava com a cara enfiada na pequenina janela do banheiro a respirar o gélido do mundo enquanto a água escaldante corria por seu corpo pálido. –A água do mundo está acabando, é melhor eu me apressar – dizia para si mesma com uma voz inegavelmente preguiçosa enquanto lembrava qual o itinerário que o dia (ou a noite) iria exigir dela.

Mas o cheiro do frio não lhe saía da cabeça (claro que não era uma constante exaustiva, mas por vezes emergia à superfície do seu cérebro desorganizado sobre coisas muito mais importantes e, com certeza, úteis). Pensava em como poderia descrevê-lo a alguém que por ventura não pudesse senti-lo com a clareza que ela sentia. Ou pior, que não pudesse senti-lo e ponto. Como o pior pode ainda ficar pior, que alguém a achasse louca por atrelar um olor a uma temperatura.

-O frio tem cheiro de solidão. Não, de solidão não. Solidão é óbvio demais, é entrega demais. E solidão é também possibilidade. Isso! Isso! Finalmente cheguei a uma conclusão: o frio tem mesmo cheiro de possibilidades…

Sorriu tranqüila por findar a querela consigo mesma e seguiu no passo apressado da vida, prestando atenção agora ao que realmente valia a pena. Ou não valia tanto a pena assim. Divagar era de si e logo ela encontraria um outro elo abstrato qualquer para continuar com pensamento em nuvem. E depois chover-se.

Deixa a menina divagar em paz...
Deixa a menina divagar em paz…

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Uma nota qualquer, um lembrete qualquer, uma carta qualquer, um bilhete qualquer.

3 de setembro de 2014 por Camila

meu Amor,

Hoje brigamos mais uma vez. Brigamos tanto e feio e fundo. Verbalizamos o pior tipo de estupidez, de coisas desnecessárias, de rudez, de ironias cortantes, de sarcasmos mentirosos. Ficamos eloqüentes de palavras tortas e vomitamos as atravessadas. Confundimos a beleza dos sentimentos que nos unem em detrimento de tudo aquilo que pode nos afastar.

Sinto você tão pertinho de mim na iminência e na brutalidade da distância que pouco nos aparta, mas que insiste bastante. Percebo você tão meu nesse bairro frio e emudecido de casas com cheiro de mofo e gente que passa apressada – e jurando que têm vida – pra ir na padaria, na escola, na farmácia, no parque, na academia…

Ainda com o eco do que pecamos em dizer soando nos meus ouvidos, bati o telefone, tomei um chá e quase engasguei na raiva, vesti os pijamas pelo avesso, busquei abrigo no lençol e conforto na cama.

Fui deletar dados na tentativa de apagar você e encontrei todos os pequenos trechos que rabisquei em guardanapos digitais do que seria um conto de amor, uma ilustração da nossa história, um mundo azul do nosso querer, pequeninas crônicas de nós dois. Apaguei a luz. Perdi a paciência com o celular e desliguei na tentativa vã de dormir. Já chega de aplicativos que transbordam palavras de nós dois. Mando pra lixeira as milhares de notas que só me fazem lembrar de como é bom ter você juntinho.

Eu soube da impossibilidade do sono chegar no exato momento em que li a nota que apontava o que tínhamos consumido naquele longínquo onze de junho de dois mil e catorze numa pousada escondida de um litoral desconhecido, deserto e distante: dez Heinekens, quatro Coca-Colas, uma porção de camarão com -muita!- cebola, dois pratos de lagosta com abacaxi grelhado, duas águas-de-coco…

Eu adorava ficar bêbada ao seu lado: minha língua não desafinava em cinqüenta e cinco assuntos desconexos e seus olhos não paravam de me julgar em silêncio. Você, sóbrio, não permitiria que mal algum me acontecesse enquanto eu perdia a conta de quantas long necks já tinha tomado. Era totalmente caótico e tudo estava em seu lugar.

A brisa enchia de nós os meus cabelos, a rede acarinhava, as palhas de coqueiro musicavam, a areia fazia cócegas entre todos os dedinhos dos pés, a cadela que se enroscava nas minhas pernas enquanto eu caminhava rumo ao mar, a fartura do amor bem-nascido, o sal no sol e a gata que se espreguiçava em cada degrau da escada: aqueles dias de calor e lânguida preguiça foram o nosso mundo inteiro. Foram o que planejamos em sigilo total nas noites em que a saudade aparecia latejando e ardia sem aquecer. Nossa fuga para horas azuis, uma simbiose consciente de nós dois e o isolar de tudo aquilo que não fizesse parte da paz que a gente precisava depois das batalhas contra os moinhos de vento e os inimigos sem rostos.

Você gostava de beijar a flor nas minhas costas. Sendo mais exata: você gostava de dormir com a cara enfiada nas minhas costas e quase jurava que da minha tatuagem saía mesmo um cheiro de jasmim, ainda que ela fosse uma lótus. Eu me lembro com uma certa exatidão: a sua respiração quentinha estava ali, a noite toda, contrastando com a solidão há tanto esfriada do meu corpo. Você só dormia quando eu dormia, e, zelando pelos meus sonhos, se assegurava que seguíamos o mesmo compasso no respirar. Você era a afeição emocionada e a incredulidade diante da possibilidade de nós dois sermos – nesse minuto preciso – reais.

Tudo bem, agora eu sei. Eu também te amo. E acho que me amo o suficiente pra deixá-lo me amar. A dúvida sempre me permeia, não sou fácil em decisões. Mas, ora, você sabe: dizem por aí que, por mais imperfeito que seja, o tal do amor costuma valer a pena. E essas, por fim, são mesmo as flores da estação.

Vamos fazer as pazes?

Vamos dançar nos horizontes?

Vamos passar com alguma graça sobre os pedregulhos no caminho?

Vamos abrir o guarda-chuva pra sustar a tempestade? Ou, melhor, vamos dançar na chuva?

Beijo-te da cabeça aos pés e me despeço do hoje com a certeza de amanhãs,

seu Amor.

A vida que a gente quis... (#PoemeSe)
A vida que a gente quis… (#PoemeSe)

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