Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Contos de Verão VI: O amor é meu.

11 de janeiro de 2015 por Camila

‘Penso em paisagens da PUC, coisas esperadas, disposições esperadas, e as caras! Deus, as caras! As pessoas tão estupidamente familiares: onde está a raridade, o precioso dos raros, a aura dos que vêm pouco, o halo dos desaparecidos? O que eu queria mesmo era aquele gesto sem olhos (a medo): eu também sei, eu também, eu entendo. Eu queria era aquele gesto que um dia conciliasse os desentendimentos, ou a ausência.’ 

(Ana C., ‘8 de outubro de 71’).

Tallinn, 20 de Setembro de 2014.

Ana,

Separações são tão difíceis. São mais, são exaustivas e demandantes de porções inteiras de alma. Tudo tem que ser tão explicado, tão pensado, tão campo minado, tão pisar em ovos. Você tem que ter uma obrigação quase que intermitente de saber o que quer e do que está abrindo mão. Eu, me achando muito esperta e desapegada de qualquer coisa que não fosse romance em carne viva, fui pela cartilha da Frida Kahlo: ‘Escoge un amante que te mire como si quizás fueras magia’, e, quando ele deixou de me olhar assim, acabou o amor em mim e acordei do sonho azul, sabe? Estou tão cansada de desconstruir tudo outra vez de novo.

E, antes que você me chame de neurótica, posso lhe afirmar com uma certeza que me arde na pele como sol de verão: as coisas mudaram. Elas, definitivamente, mudaram. Não sei precisar em que ponto ou por qual motivo, mas ninguém teve mais forças para permanecer as mesmas pessoas pelas quais nos apaixonamos. De repente, eu acho, eu olhei pra ele e vi que a falta de certeza que sempre me habitou agora fez morada no castanho dos olhos dele. Isso – ainda que egoisticamente – quebrou meu coração. 

Parei a leitura da carta e tomei fôlego. Mentira, tomei chá. Mas isso não importa, o que eu precisava mesmo era tomar cerveja e talvez duas doses de vodka. E alguma vergonha, por certo.  Não gosto de finais. Não gosto de pontos em histórias de amor. Pensei em Ana Cristina César, Caio Fernando Abreu, Vinícius de Moraes, Pablo Neruda, Lorca, num samba do Cartola e até nos sofrimentos de Goethe para tentar compreender em que momento se dá a ruptura e o mudar de curso que ela tentou inutilmente me explicar e que eu não tinha coração para entender. A poesia naquela carta era pouca, mas o sentimento era muito: Essas antíteses da vida tendem a me cansar, mas eu própria compartilho dessa natureza e por isso calo e tolero. Não concluí nada e meus olhos continuaram percorrendo as linhas tortas daquela carta que trazia notícias desconexas da realidade que eu imaginava que Marcela vivia, ou, pelo menos, da realidade que ela planejara para si há algum tempo.

Era primavera! Deus do Céu, era primavera! Não se pode deixar de amar ou interromper o amor em plena primavera, isso é privilégio do recolhimento e do silêncio outonal… Ignorei minha própria revolta com os desencontros das estações e fui ouvir um vinil do Caetano (ele sim, mais uma das minhas relações biunívocas que flutuam serenamente entre o amor e o ódio) com a carta de Marcela ainda nas mãos.

Ela seguia no que me parecia não fazer sentido mas que precisava ser dito mesmo assim:

O Thomás, Ana, já não me olha como deve. E isso me dói. Dói que lateja e machuca feito lonjura entre dois corpos em desacordo. Sei que você vai me acusar de vaidade, insegurança e excesso de mimo. Tenho noção da perda, mas não posso aceitar menos do máximo do que ele já me deu antes. Se tá dando menos é porque perdeu a vontade de dar mais, você entende? Tal qual o sexo, a vontade de dar-se é também um termômetro. Como posso me conformar? Não posso. Não jogo no time do desamor, da preguiça da paixão e do morno. O morno a gente cospe pra ter o luxo de escolher entre o quente e o frio. Não vivo na zona de conforto do meio termo de quem não sabe existir, crio meus extremos e rebolo um bocado pra me manter neles. Dou a minha vida inteira por isso. E a alma, também. Estar junto é escolha, não é penitência. E, veja bem, para estar junto tem que se dar. E tem que dar certo esse dar-se todo, se não, não funciona. Não me venha com porcentagens obscuras, você sabe que nunca vai me convencer do menos que mais de cem… Estou frustrada, é certo. Mas, olha só, eu vou ficar bem. Eu preciso ficar bem, então eu vou ficar bem. Depois dos trinta a gente sempre dá um jeito de ficar bem, né? Acho até que quando esta carta chegar em São Paulo eu já estarei bem. Já terei passado por uns dias de choro, uns dias de muito chocolate (e outros de muito álcool), uns dias de abandono e esquecimento próprio e já terei me afogado em novas possibilidades porque tenho convicção que elas existem. A gente tem que andar pra frente pra não enlouquecer e ver que o mundo é redondinho e que tem solução. E, sobretudo, que a vida há ser bela porque pode ser, independente de qualquer aresta congênita que queira tentar falhar.  

Eu apenas lia. Lia como alguém que acaba de descobrir que pode fazê-lo. E assim (para minha surpresa, confesso!), citando Guimarães irresponsavelmente e sem mais nem menos, Marcela assinou a carta:

Rosa dizia:

‘O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim: esquenta e esfria, 

aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.’

(Re) começos. E assim, recomeço. Uma vez mais… Vamos lá fazer tudo novo de novo.

The best is yet to come.

Ainda que perdida em semiótica e semânticas com breves atalhos pelo devaneio, continuo inteira por aqui.

Beijos,

Marcela. 

‘The best is yet to come’: Isso ficou martelando na minha cabeça. Marcela (aquela doida!) tem mesmo razão – dei o braço a torcer – e, por fim, sosseguei. Ela estava irremediavelmente certa e agora eu sabia. A vida não tem que ser ordinária: O amor tem que ser acima da média e nada conformista. Amor é rebeldia. Amor é vontade de ser. Amor é urgência de corpos. Amor é conflito. Amor é escolha. Amor é risco. Amor é coragem. E o amor não tem que durar pra sempre. Em duas páginas de uma carta vinda lá da Estônia eu descobri (e aprendi) o que nunca dei conta de sentir: O amor não é pouco e nem mais ou menos. O amor é tudo ou nada.

O amor é meu.
O amor é meu.

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De Nuvem.

1 de janeiro de 2015 por Camila

Para você, meu Amor. 

Para quando você existir.

É em sonho que você vem me visitar e me dizer que nossa vida há de ser boa, há de ser bela, há de ser inteira, há de ser doce. É também oniricamente que você me faz crer na delicadeza de um tempo que virá, de um futuro dado como presente, da chegança de um dia, da certeza desse amanhã que vale a espera intragável do hoje arrastado e demasiadamente prolongado sem um motivo besta que seja de haver-se.

‘…Ninguém – ninguém – verá o que eu sonhei. Só você, meu Amor, ninguém verá o sonho que sonhei: Um sorriso quando acordar pintado pelo sol nascente, eu vou te procurar na luz de cada olhar mais diferente…’

É verdade, meu Amor. É nas diferenças que eu te procuro – e, veja só qual não é o sentido maluco da vida  – nas quais eu (por fim) te encontro. Eu já sei como vai ser sem nem saber direitinho: Vou estar com a cara de tonta que tenho de quem olha o dia inteiro pro teto apenas por tédio – digo, prazer – em fazê-lo e você vai chegar como se já me conhecesse, falar qualquer coisa que vai me fazer rir de uma maneira quase que descompensada e vai me achar uma doida e justinho por isso vai morrer de amores. Porque sim, queremos risos. Teremos nossas lembranças e cicatrizes (mas não seremos ressabiados por elas, não, de jeito nenhum!) de amores prévios e paixões avassaladoras, mas queremos  sobretudo risos e beijos intermináveis. Seremos companheiros de noites de leituras e vinis e as pessoas hão de perguntar-se porque a vida não tratou de nos juntar tão mais rápido que a casualidade do encontro… Sim, porque é óbvio que seremos o tipo de casal que acaba com a certeza dos cínicos sobre o tudo e o nada. Vamos sair por aí a caçar luas e borboletas amarelas, devorar estradas sem rumo certo, nos perder sem perder-nos (para depois nos sabermos na cumplicidade do olhar), ter certezas vãs e dúvidas ridículas, achar que há lógica nos absurdos tão imenso é o mundo, ignorar o previsível, voar alto lá no azulzinho bem infinito do céu, comer brigadeiro depois da meia noite, tomar cerveja sem se preocupar com a ressaca (e com a barriga!), assistir filmes existencialistas (e películas patéticas, por favor!), crescer enlouquecendo um pouco e citando Kerouac, completando as nossas frases sem parecer que saímos diretamente de uma comédia romântica clichê, andar trôpegos e com as mãos dadas, ser  meros transeuntes nos becos anônimos de Barcelona e flanar pelas vielas de Paris, morrer de amor… E nascer de novo muitas outras vezes mais. Vamos, vamos sim.

Eu te espero, meu Amor. Eu te guardo porque sei que vale a pena a tua chegada. Por enquanto fico te sabendo nas minhas linhas de caderninhos muitos e nas noites lúdicas da tua presença suave e sutil. Um dia, naquele tempo da delicadeza, você há de despertar. E aí os nossos sonhos serão outros e percorreremos mundos deliciosamente reais.

Para você, meu Amor.

Para quando você existir.

‘Eu já estava sua antes: quis minhas mãos dadas, quis o seu sorriso me olhando, quis o seu abraço molhado de pôr-do-sol…’ #PoemeSe
‘Eu já estava sua antes: quis minhas mãos dadas, quis o seu sorriso me olhando, quis o seu abraço molhado de pôr-do-sol…’ #PoemeSe

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O silêncio em nós.

29 de dezembro de 2014 por Camila

Texto escrito a quatro mãos: Grata a você que me emprestou suas idéias e fez de mim o seu amor.  Gratidão ao encontro.

 –

No mesmo instante, numa mesma vida inteira, em dois paralelos. Assim se deu:

Ela: Li Neruda. Em silêncio, ele me suspirou. Beijou-me. Disse-me amar-me. Pediu-me em casamento. Em silêncio, suspirei-lhe. Nada mais disse. As palavras, naquele momento, seriam brutas. A voz, em tal instante, era nada mais que supérflua. Silêncio. Silêncio. Permitam-me apenas o olhar. O conforto de um beijo. O desespero do passar de um tempo.

Ele: E eu te olho em silêncio pra não te interromper. No mesmo silêncio, tu escreves compenetrada. Dois olhinhos verdes que se movem atentos atrás das lentes. Eu penso em silêncio e sobre o silêncio que nos une. Únicos. Conclui tua escrita e, apavorados, percebemos em silêncio que o silêncio era o fio condutor dos teus escritos. Só me beija pra adiar explicações. E esse silêncio que paira entre nós quando escrevemos lado a lado; ou nas horas que passamos mergulhados nos olhos um do outro, lendo nossos pensamentos; esse silêncio de gritos mudos no final da tarde, e nas madrugadas de Neruda e álcool; esse silêncio é nosso amor em carne viva.

Eram essas as interpretações de entreolhares mudos numa madrugada atípica e de calor paulistano (ou senegalês) onde dividiam o mesmo sofá inebriados pelos primeiros dias do amor demais. Ela, espevitada como sempre fora, levantou e pegou na estante mais alta do que os pés podiam alcançar a Antologia de Neruda recém-comprada. Decidiu ler um poema (ou dois ou três ou quatro ou cinco…) em voz alta para colocar em vivas cores os seus sonhos mais românticos de amor total. Ele ouvia sem muito expressar. Ouvia e a olhava com uma certa gula. Num estalo de coisa alguma sem importância e já esquecida que nem a poeira da semana passada sobre a mesa de centro que já não sabe nem de café na caneca borrada de batom e nem de mais nada, os dois largaram livros, beijos, álcool e agarraram-se a idéias. Ela foi divagar. Ele esperou que ela terminasse e, sem saber do que se tratava as garatujas todinhas dela, também foi escrever.

Ali parecia algo mágico. Hoje parece só a constatação de um momento.

Ontem sinalava que esse texto teria um fim diferente pela promessa de um novo começo. Amanhã é só outro consolo.

O amor acabou.

O tempo apagou a idéia.

…E, de algum modo, eles continuaram felizes para sempre.

‘…I cannot tell you how thankful I am for our little infinity.’ <3
‘…I cannot tell you how thankful I am for our little infinity.’ <3

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Contos de Verão V: Agonia.

26 de setembro de 2014 por Camila

Aqui as coisas ardem. Eu queimo, já não durmo e pouco respiro. E no silêncio desse calor imenso e bruto e insone e abafado, as constantes nunca variáveis: a saudade, a ausência, o vazio, o eco do nada, a falta que você me faz e a perturbação inexorável dos seus olhos não estarem repousando – nesse minuto urgente – nos meus.

Te sinto: e sinto em pronomes oblíquos, em próclises inexatas, nas minhas licenças poéticas, nos meus planos desconexos, nos meus abstratismos e, sobretudo, em mim inteira. E sempre meu, por completo.

Te busco: e procuro nas mãos desconcertadas e firmes que não acham as minhas, no sorriso molhado por todas as lágrimas da madrugada, nas pernas bambas e incertas, no afago último antes de partir pros novos horizontes, na paz angustiada que é o outro e, mais que nunca, nas promessas de amanhãs. Te encontro todas as vezes em que te (im) preciso.

Amor, beijo-te então por todas as noites que não vivemos e por todos os dias – azuis – que teremos. E então, seremos.

(Foto: Isadora Não Entende Nada.)
(Foto: Isadora Não Entende Nada.)

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Diálogos da Invisibilidade VII: Costuma acontecer em noites de inverno.

26 de setembro de 2014 por Camila

-Frio tem um cheiro, você sabia?

-Um cheiro? Você só pode estar louca!

-Não, tem um cheiro muito singular e ensimesmado de solidão e possibilidades…

Ela sabia disso. Melhor dito, ela tinha convicção disto por conta da quantidade absurda de minutos que passava com a cara enfiada na pequenina janela do banheiro a respirar o gélido do mundo enquanto a água escaldante corria por seu corpo pálido. –A água do mundo está acabando, é melhor eu me apressar – dizia para si mesma com uma voz inegavelmente preguiçosa enquanto lembrava qual o itinerário que o dia (ou a noite) iria exigir dela.

Mas o cheiro do frio não lhe saía da cabeça (claro que não era uma constante exaustiva, mas por vezes emergia à superfície do seu cérebro desorganizado sobre coisas muito mais importantes e, com certeza, úteis). Pensava em como poderia descrevê-lo a alguém que por ventura não pudesse senti-lo com a clareza que ela sentia. Ou pior, que não pudesse senti-lo e ponto. Como o pior pode ainda ficar pior, que alguém a achasse louca por atrelar um olor a uma temperatura.

-O frio tem cheiro de solidão. Não, de solidão não. Solidão é óbvio demais, é entrega demais. E solidão é também possibilidade. Isso! Isso! Finalmente cheguei a uma conclusão: o frio tem mesmo cheiro de possibilidades…

Sorriu tranqüila por findar a querela consigo mesma e seguiu no passo apressado da vida, prestando atenção agora ao que realmente valia a pena. Ou não valia tanto a pena assim. Divagar era de si e logo ela encontraria um outro elo abstrato qualquer para continuar com pensamento em nuvem. E depois chover-se.

Deixa a menina divagar em paz...
Deixa a menina divagar em paz…

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