Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Contos de Verão V: Agonia.

26 de setembro de 2014 por Camila

Aqui as coisas ardem. Eu queimo, já não durmo e pouco respiro. E no silêncio desse calor imenso e bruto e insone e abafado, as constantes nunca variáveis: a saudade, a ausência, o vazio, o eco do nada, a falta que você me faz e a perturbação inexorável dos seus olhos não estarem repousando – nesse minuto urgente – nos meus.

Te sinto: e sinto em pronomes oblíquos, em próclises inexatas, nas minhas licenças poéticas, nos meus planos desconexos, nos meus abstratismos e, sobretudo, em mim inteira. E sempre meu, por completo.

Te busco: e procuro nas mãos desconcertadas e firmes que não acham as minhas, no sorriso molhado por todas as lágrimas da madrugada, nas pernas bambas e incertas, no afago último antes de partir pros novos horizontes, na paz angustiada que é o outro e, mais que nunca, nas promessas de amanhãs. Te encontro todas as vezes em que te (im) preciso.

Amor, beijo-te então por todas as noites que não vivemos e por todos os dias – azuis – que teremos. E então, seremos.

(Foto: Isadora Não Entende Nada.)
(Foto: Isadora Não Entende Nada.)

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Diálogos da Invisibilidade VII: Costuma acontecer em noites de inverno.

26 de setembro de 2014 por Camila

-Frio tem um cheiro, você sabia?

-Um cheiro? Você só pode estar louca!

-Não, tem um cheiro muito singular e ensimesmado de solidão e possibilidades…

Ela sabia disso. Melhor dito, ela tinha convicção disto por conta da quantidade absurda de minutos que passava com a cara enfiada na pequenina janela do banheiro a respirar o gélido do mundo enquanto a água escaldante corria por seu corpo pálido. –A água do mundo está acabando, é melhor eu me apressar – dizia para si mesma com uma voz inegavelmente preguiçosa enquanto lembrava qual o itinerário que o dia (ou a noite) iria exigir dela.

Mas o cheiro do frio não lhe saía da cabeça (claro que não era uma constante exaustiva, mas por vezes emergia à superfície do seu cérebro desorganizado sobre coisas muito mais importantes e, com certeza, úteis). Pensava em como poderia descrevê-lo a alguém que por ventura não pudesse senti-lo com a clareza que ela sentia. Ou pior, que não pudesse senti-lo e ponto. Como o pior pode ainda ficar pior, que alguém a achasse louca por atrelar um olor a uma temperatura.

-O frio tem cheiro de solidão. Não, de solidão não. Solidão é óbvio demais, é entrega demais. E solidão é também possibilidade. Isso! Isso! Finalmente cheguei a uma conclusão: o frio tem mesmo cheiro de possibilidades…

Sorriu tranqüila por findar a querela consigo mesma e seguiu no passo apressado da vida, prestando atenção agora ao que realmente valia a pena. Ou não valia tanto a pena assim. Divagar era de si e logo ela encontraria um outro elo abstrato qualquer para continuar com pensamento em nuvem. E depois chover-se.

Deixa a menina divagar em paz...
Deixa a menina divagar em paz…

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Uma nota qualquer, um lembrete qualquer, uma carta qualquer, um bilhete qualquer.

3 de setembro de 2014 por Camila

meu Amor,

Hoje brigamos mais uma vez. Brigamos tanto e feio e fundo. Verbalizamos o pior tipo de estupidez, de coisas desnecessárias, de rudez, de ironias cortantes, de sarcasmos mentirosos. Ficamos eloqüentes de palavras tortas e vomitamos as atravessadas. Confundimos a beleza dos sentimentos que nos unem em detrimento de tudo aquilo que pode nos afastar.

Sinto você tão pertinho de mim na iminência e na brutalidade da distância que pouco nos aparta, mas que insiste bastante. Percebo você tão meu nesse bairro frio e emudecido de casas com cheiro de mofo e gente que passa apressada – e jurando que têm vida – pra ir na padaria, na escola, na farmácia, no parque, na academia…

Ainda com o eco do que pecamos em dizer soando nos meus ouvidos, bati o telefone, tomei um chá e quase engasguei na raiva, vesti os pijamas pelo avesso, busquei abrigo no lençol e conforto na cama.

Fui deletar dados na tentativa de apagar você e encontrei todos os pequenos trechos que rabisquei em guardanapos digitais do que seria um conto de amor, uma ilustração da nossa história, um mundo azul do nosso querer, pequeninas crônicas de nós dois. Apaguei a luz. Perdi a paciência com o celular e desliguei na tentativa vã de dormir. Já chega de aplicativos que transbordam palavras de nós dois. Mando pra lixeira as milhares de notas que só me fazem lembrar de como é bom ter você juntinho.

Eu soube da impossibilidade do sono chegar no exato momento em que li a nota que apontava o que tínhamos consumido naquele longínquo onze de junho de dois mil e catorze numa pousada escondida de um litoral desconhecido, deserto e distante: dez Heinekens, quatro Coca-Colas, uma porção de camarão com -muita!- cebola, dois pratos de lagosta com abacaxi grelhado, duas águas-de-coco…

Eu adorava ficar bêbada ao seu lado: minha língua não desafinava em cinqüenta e cinco assuntos desconexos e seus olhos não paravam de me julgar em silêncio. Você, sóbrio, não permitiria que mal algum me acontecesse enquanto eu perdia a conta de quantas long necks já tinha tomado. Era totalmente caótico e tudo estava em seu lugar.

A brisa enchia de nós os meus cabelos, a rede acarinhava, as palhas de coqueiro musicavam, a areia fazia cócegas entre todos os dedinhos dos pés, a cadela que se enroscava nas minhas pernas enquanto eu caminhava rumo ao mar, a fartura do amor bem-nascido, o sal no sol e a gata que se espreguiçava em cada degrau da escada: aqueles dias de calor e lânguida preguiça foram o nosso mundo inteiro. Foram o que planejamos em sigilo total nas noites em que a saudade aparecia latejando e ardia sem aquecer. Nossa fuga para horas azuis, uma simbiose consciente de nós dois e o isolar de tudo aquilo que não fizesse parte da paz que a gente precisava depois das batalhas contra os moinhos de vento e os inimigos sem rostos.

Você gostava de beijar a flor nas minhas costas. Sendo mais exata: você gostava de dormir com a cara enfiada nas minhas costas e quase jurava que da minha tatuagem saía mesmo um cheiro de jasmim, ainda que ela fosse uma lótus. Eu me lembro com uma certa exatidão: a sua respiração quentinha estava ali, a noite toda, contrastando com a solidão há tanto esfriada do meu corpo. Você só dormia quando eu dormia, e, zelando pelos meus sonhos, se assegurava que seguíamos o mesmo compasso no respirar. Você era a afeição emocionada e a incredulidade diante da possibilidade de nós dois sermos – nesse minuto preciso – reais.

Tudo bem, agora eu sei. Eu também te amo. E acho que me amo o suficiente pra deixá-lo me amar. A dúvida sempre me permeia, não sou fácil em decisões. Mas, ora, você sabe: dizem por aí que, por mais imperfeito que seja, o tal do amor costuma valer a pena. E essas, por fim, são mesmo as flores da estação.

Vamos fazer as pazes?

Vamos dançar nos horizontes?

Vamos passar com alguma graça sobre os pedregulhos no caminho?

Vamos abrir o guarda-chuva pra sustar a tempestade? Ou, melhor, vamos dançar na chuva?

Beijo-te da cabeça aos pés e me despeço do hoje com a certeza de amanhãs,

seu Amor.

A vida que a gente quis... (#PoemeSe)
A vida que a gente quis… (#PoemeSe)

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Diálogos da Invisibilidade VI: Estocolmo.

11 de setembro de 2013 por Camila

“E que bobagem é essa de ‘esse-lance-todo-tem-me-deixado-assustada’? Sou um cara bacana e não um zumbi foragido de ‘Tomb Raider’. Pombos em praça pública ficam assustados, não garotas diante do amor. Sim, amor. Ela mesma disse, somos ótimo juntos, temos tudo em comum e muitas histórias para compartilhar, e o sexo, Deus do céu, nem Anaïs Nin saberia descrever. Se isso não é amor, eu não sei o que é. Venha com o peito aberto, estufado e cheio de coragem. Ou vá embora. Mas depois não vem me dizer que tem coração.”

(NUNES, G.)

Dirigia pelas curvas sempre retas de Brasília com o velocímetro marcando 100km/h às 5h30 da manhã quando um amigo – que costuma ser extremamente carrancudo e avesso a explosões sentimentais – me arranca um sorriso. Um sorriso sincero num fechar de olhos. Ele dizia:

-Vocês fazem um par tão legal, sabe? Mesma sintonia, eu acho. Ele te faz bem, é tão diferente daqueles seus sempre complicadíssimos relacionamentos. Tem uma certa calma e uma certeza no olhar de vocês quando se vêem… Não sei, talvez eu esteja só bêbado, mas tô enganado? E fala a verdade. Sei que às vezes é difícil assumir que está bem quando o resto do mundo anda frustrado…

Voltávamos de uma festa na casa de um alguém esquecido e irrelevante quando ponderei sua pergunta e sua afirmação. Lucas era um grande amigo que me visitava na Capital e tínhamos cumplicidade o suficiente para que ele invadisse meu mundo com indiscrições. Fotógrafo, era um canceriano sentimental que se escondia atrás de negações e garotas manipuladoras que ameaçavam suicídio toda vez que o amor acabava. Fora a trabalho para cobrir um festival e ficou hospedado na minha casa por uns dias. Conseguiu revelações pelas milhares de fotos que tirava de mim sem que eu percebesse e concluiu: –é, garota, você está feliz. Está, sei lá, leve.

-É, talvez sim. Dá até medo, sabe? Tão feliz que assusta. Que coisa louca, né? Não estou acostumada com essa mansidão, com essa vida sem gritos, com essa ausência de acusações, com essa paz no outro. Espero que eu saiba como me comportar. Tomara que eu esqueça daqueles outros padrões de comportamento radioativos. Mas, você sabe… Old habits die hard.

Deixei Lucas no aeroporto e vomitei a cerveja barata que flanava em meu estômago antes de deitar naquele amontoado de lençóis, roupas e toalha que já era ninho na minha cama. Droga, amanhã está fora de questão acordar antes dàs 14h. Maldita futura ressaca, pensei.

Não sei se a felicidade realmente desopila o fígado, mas a verdade é que despertei bem. Ele estava tocando a campanhia e eu, descabelada, abri a porta. Tentei esconder meus pés calçados com meias de dedinhos ridículas, mas ele me abraçou bem forte e disse ‘estou com saudades’ de um jeito tão bonitinho que eu esqueci que era domingo. Eu também estava com saudades, mas, mais que isso, estava de camisola e com restos de rímel nas olheiras (apenas garotas podem se sentir um urso panda no day after de uma festa, me acreditem!). Queria me esconder. Ele, tão lindo e tão vivo. Eu, com um olho aberto e o outro ainda fechado, parecia um filhote de pug engolido por um furacão.  Não sabia o que fazer com a presença dele ali. Não sabia como ser vulnerável a alguém. Não sabia me permitir à entrega aos olhos de um amor sem meu batom vermelho, meu salto alto, minha pose de mulher fatal e minha ilusão de perfeição. ‘Você está linda, pára de olhar pro chão’, ele disse. Eu só repliquei com um sorriso tímido e um ‘e você está louco.’ Achei que ele ia, sei lá, dar por encerrada a conversa e eu poderia ir tomar um banho pra virar gente. Mas não, ele era incapaz de ser realista e deixar pra lá a alma gentleman que lhe coube nesta vida quando mandou a seguinte tréplica: ‘não sou louco, Marcela. Sou um homem apaixonado. Por você, garota, por você. Eu gosto de você. Quer dizer, eu gosto muito de você.’

Pronto. Medo, terror e pânico. E meu silêncio. Minha mudez onipresente  – e contrastante com todos os outros momentos da minha vida – quando alguém falava de sentimentos para mim. Pior, por mim. Eu não sabia lidar com essas doçuras desinteressadas, com esse declarar por declarar, com essa pureza de palavras, com esse carinho e querer. Eu morria de medo de dizer a coisa errada, de fazer a coisa errada e de estragar tudo só em respirar. Eu tinha convicção que tinha nascido pra errar nessas coisas todas de amor e eu sabia que, cedo ou tarde, eu estava fadada a sucumbir ao perigo que é ter um relacionamento funcional, equilibrado e biunívoco.

E é claro, é óbvio, é ululante que eu fracassei. Não no momento das palavras com o meu calar. Não no meu congelar ao ouvir todas as coisas lindas que ele me falava. Mas eu fui, sim, veja que coisa triste, minando o bonito e o sincero que a gente construiu com a minha mania de fazer escolhas erradas e de agir inadvertidamente contra mim mesma.

Lembro muito dele desenhando nas minhas mãos os mapas dos lugares para onde queria me levar (Roma era sempre uma constante dele, e o México sempre idéia minha, eternamente influenciada pelas cores e as paixões arrebatadoras de Kahlo). E do horizonte para onde voaríamos quando consertássemos nossas asas que tinham caído perdidas no Lago Paranoá. ‘Devem estar lááááá no fundinho, já enterradas pela areia’, eu dizia, num certo pôr-do-sol. ‘Não tem problema, a gente arruma outras’, ele sorria e me animava com amanhãs.

A fita dele me chamando pra ir junto – pra bem pertinho –  de tudo que era bom e real é um eterno replay na minha mente. Na minha cabeça de infinitas reprises de momentos que eu mesma destruí e que agora sou obrigada a conviver em tortuosas lembranças vívidas de tudo que eu não tenho e tudo que eu não sou, embora já faça tanto tempo. Acho que, no fundo, eu sempre tive muito medo das coisas que podem dar certo, sabe? Uma espécie de Síndrome de Estocolmo com o drama e os finais infelizes que terminam com o travesseiro ensopado.

Um tal de um apego enorme que me faz inquilina de cativeiro das minhas péssimas escolhas. Um ser carcereira da minha própria prisão. Eu o vi tantas vezes e quis chamá-lo de volta, mas eu não podia ameaçar aquele sorriso. Não novamente. Vê-lo com todas aquelas outras garotas me fez acreditar que ele estava melhor sem mim, contudo, eu sabia que não. Mas qual era o ponto em trazê-lo de volta se eu faria a mesma coisa? Era pura vaidade. E olha, eu posso com o peso de ser covarde e de ter medo do amor e dessas coisas todas. Mas eu não suportaria o de ser egoísta, isso jamais.

-Sinceramente, garoto, me desculpa. Eu sempre tive uma inclinação muito grande em escolher o errado por acreditar de verdade que poderia ser o certo seja lá o que o certo for. Ou por Síndrome de Deus, você entende? De achar que eu posso consertar e salvar as pessoas e as coisas todas que formam o que são essas pessoas tão erradas no meu tempo certo. É confuso, eu sei. E você é meu namorado, não meu psicólogo. Aliás, eu detesto terapia. Meu negócio é o exagero, não o equilíbrio. Sou do time das paixões, não da sanidade.

Infelizmente ele não foi o único que eu machuquei irreversivelmente com a minha tendência autodestrutiva e o meu medo do que pode dar certo. Eu deveria usar uma plaquinha que sinalizasse ‘fique longe’ no meu pescoço. Eu era um repelente humano que atraía apenas os bons corações enquanto degustava meu copo de fel. E eu só queria despedaçar aquele  coração bandido que me afogou em ressaca sentimental.

É, Lucas, meu velho amigo, uma razão entre certezas inseguras eu tinha… Os velhos hábitos demoram mesmo a morrer. E eu continuo refém do que me aprisiona: Memórias, arrependimentos e renúncias.  Cada dia mais exorcizadas, mas ainda pesando algumas gramas nas asas de um pássaro que quer ser livre e que não consegue se perdoar pelas próprias injustiças.

 Hoje não dá. 

'I desire the things which will destroy me in the end.' (PLATH, S.)
‘I desire the things which will destroy me in the end.’ (PLATH, S.)

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Diálogos da Invisibilidade V: Das faltas que você me faz.

10 de setembro de 2013 por Camila

Don’t get up.  I can’t see the sunshine. I’ll be waiting for you baby, ’cause I’m through. Sit me down. Shut me up. I’ll calm down and I’ll get along with you…

Eu sinto falta de você interrompendo as minhas frases absurdas, as minhas acusações infantis e palavras ásperas com um beijo. Eu preciso que você me cale todos os dias para que eu não tropece nos meus verbos, nas minhas ações impensadas e nas minhas orações subordinadas.

Eu sinto falta de você andando apressado em minha direção com o seu All Star encardido, seu iPod ensurdecedor e suas mãos enfiadas nos bolsos do jeans tão surrado. Eu preciso que você me leve com você por qualquer caminho que você for, por qualquer poça de água que você pisar e por qualquer lugar que escolher.

Eu sinto falta de você segurando o meu rosto com as duas mãos, se surpreender com a minha temperatura ‘de mortinha’ e encostar meu nariz na sua barba para aquecê-lo. Eu preciso, eu preciso tanto que você me salve do frio das noites, do gelo das manhãs e do inverno da cama.

Eu sinto falta de você abrindo a porta da minha casa com a chave que eu te dei e subindo as escadas pro meu quarto ansioso para me contar as novidades de um dia quase comum. Eu preciso das suas cheganças, das suas voltas e dos seus retornos.

Eu sinto falta do seu jeito desastrado de errar e dos seus olhos em tempestade me pedindo perdão, jurando-que-mais-uma-vez-nunca-mais-vai-esquecer-de novo-como-isso-que-você-faz-sem-querer-me-tira-do-sério. Eu preciso dos seus acertos inesperados, dos seus consertos precisos e das suas calmas nos meus mares agitados.

Eu sinto falta de sentir o seu coração pulsar através do seu pijama quando eu me aninhava pra dormir no seu cheiro de azul,  bem ali, naquele quadrante do seu peito que era o meu canto. Eu preciso do seu corpo, do seu apoio, do seu sorriso, de ver você dormir e de acordar no mesmo lugar em que adormeci.

Eu sinto falta de você soprando em mim o chantilly do seu cappuccino cheio de planos e irritando o garçom com a sujeira que você fez na mesa daquele bistrot esquecido que a gente freqüentava. Eu preciso do calor dos seus sonhos, das certezas dos seus passos e dos traços dos seus desenhos.

Eu sinto falta de você me observando, me navegando e me descobrindo com a paz da espera antes de me arrancar de um mundo meu e construir para mim um mundo que é nosso, antes de me roubar pra você com a demora de um beijo. Eu preciso da invasão do mundo seu, do seu olhar pra mim e do seu abraço que nunca partiu.

Eu sinto falta de você medindo a distância entre a minha nuca e o final das minhas costas (nas covinhas que você amava, lembra?) pelo número de beijos possíveis nesse percurso. Eu preciso que você calcule –  de novo-pela-milésima-vez – o número de sinais e de sardas do meu corpo toda vez que me deito sem blusa pra dormir ao seu lado, eu preciso (muito, muitíssimo!) da sua exatidão.

Eu sinto falta de você me ouvindo falar empolgada do belo das coisas que me tocam e dizer que estava apaixonado por mim, justo ali, sem que eu nem esperasse, bem no meio de uma divagação qualquer e insensata tão comum a mim. Eu preciso das suas surpresas, dos seus rompantes, dos seus inesperados.

Eu sinto falta de você reclamando da minha bagunça, das minhas roupas pelo chão, do meu sapato fora do lugar e da toalha molhada que esqueci em cima da cama. Eu preciso de você cumprindo as promessas de desordem, juntando os nossos pedaços e da sua liberdade quando me aceita como sou.

Eu sinto falta de você morrendo de rir ao me ver comendo melão, porque, aparentemente, isso me deixa parecida com um guaxinim. Eu preciso, eu preciso muito das suas comparações lúdicas no meu dia-a-dia de pessoas sérias que se vestem de cinza e nunca sorriem até conseguir assinar contratos e bater recordes de valores capitais.

Eu sinto falta de você apertando minha barriga como se eu fosse um bichinho, comprando comida pra casa e levando meu cachorro pra passear enquanto eu me perco em páginas e películas. Eu preciso da sua ajuda na rotina que me pesa, das suas fugas e do seu acalanto.

Eu sinto falta de você repousando as mãos no meu corpo e entrelaçando os seus dedos nos meus porque – na sua cabeça – não há motivo para não grudar em mim estando já tão pertinho. Eu preciso da sua pele, dos seus cabelos longos e do você que você me deu e que nobody knows

Eu sinto falta de você secando as minhas lágrimas e sendo invencível contra tudo e contra todos que querem me fazer o mal até mesmo em pensamento. Eu preciso, eu preciso desesperadamente (e mesmo sem nunca tê-lo deixado saber) da sua proteção, dos seus abrigos e das suas batalhas contra a escuridão.

Eu sinto falta de você me mandando mensagem musical no meio da manhã para reclamar do vazio que ficou o nosso ninho porque parti tão cedo pra faculdade. Eu preciso do pão de queijo que você trazia no fim da tarde, das flores que você regava sem saber como e da sua insistência insuportável para que eu ouvisse aquela banda que você amava e que eu detestava.

Eu sinto falta de você não me deixar sentir nenhum tipo de terror noturno ou preocupação mundana ao seu lado porque qualquer ameaça era defensável. Eu preciso da sua força, da sua constância, do seu (super) heroísmo e do seu pavor ao abandono.

Eu sinto falta de você suspirando alto e perdendo a paciência em voz baixa porque eu não fico pronta-nunca-já-que-não-acho-meu-rímel-e-sair-de-casa-sem-super-cílios-é-humanamente-impossível. Eu preciso da sua tolerância com os meus atrasos, com o meu vestido curto e com as minhas escalas de prioridade. Mas, só hoje, então, preciso te contar que nunca mais vou perder a hora porque eu finalmente arrumei minha maquiagem e meu armário de um jeito muito funcional que te deixaria orgulhoso e que agora eu tenho TOC de organização.

Eu sinto falta de você dizendo pra sua mãe que conheceu a mulher da sua vida quando saiu comigo pela primeira vez e ignorando a passagem comprada meses antes para ir viver na Inglaterra dali a 30 dias a partir daquela noite, mas pesquisou qual o cheiro de Paris pra poder me contar e alegrar a minha fantasia francesa. Eu preciso me espantar de novo com o seu romantismo, com a sua velocidade e com as suas decisões sobre nós.

Eu sinto falta do que você sentiu por mim quando nos encontramos tão brevemente naquela confusão de gente que falava tão alto naquele pub já muito barulhento. Eu preciso sentir medo do seu amor, do seu querer, da sua vodka, das suas virtudes e de como foi tudo fácil e simples para nós.

Eu sinto falta de você me proibindo de desistir. Eu preciso do seu acreditar, do seu colo e da sua alma que conforta tão bem a minha.

Eu sinto falta das suas mãos trêmulas ao conhecer minha família e meus amigos, preocupado com o peso de uma desaprovação. Eu preciso que você saiba que todos eles acharam que ninguém nunca foi tão digno de mim, tão companheiro, tão adequado e tão capaz de me fazer feliz.

Eu sinto falta de você criando ângulos para tantas fotos que contam a nossa história. Eu preciso te dizer que tenho horror do desbotar dessas imagens, de virar passado e do ser estático.

Eu sinto falta do seu respirar junto ao meu. Eu preciso do seu movimento, de te assistir ao vivo, de não saber de você pelos outros, de construir memórias ao invés de vivê-las e de saber que eu sou sua.

Eu sinto falta de você me dizendo o quanto sentiu saudades de mim nas horas lentas do dia, entre gente que se arrasta e que quase vive. Eu preciso que você sinta tanta – mas muita mesmo – saudade de mim e que receba um sinal mágico da vida te dizendo pra voltar porque só eu sei andar pela casa com a sua camisa xadrez amassada e o cabelo desgrenhado num coque que deixa o meu pescoço livre ao seu imaginar (e que você imagina tanta coisa).

Eu sinto falta de você me pedindo pra ficar pra sempre e nunca mais ir embora a canto algum. Eu preciso que você me peça de novo em casamento pra que dessa vez eu diga sim e possamos ir para o Kansas logo.

Eu sinto falta do seu maço de Malboro Vermelho largado em cima da televisão, ali pertinho dos DVDs. Eu preciso que você me prometa que vai parar de fumar mesmo que não tenha a intenção de cumprir, só pra me enganar com esse seu charme enorme e o piscar de olhos sedutor.

Porque é o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que meus lábios não conseguem apagar. É o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que eu pronuncio quando quero compartilhar minha felicidade, quando choro sentada no chão da cozinha abraçada ao seu velho moletom, quando canto mais uma música de nós dois e quando estou morrendo de dor de dente, de cólica, de cabeça e de estômago. É o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que eu não quero e nem posso esquecer. É o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que me faz pedir perdão pelo mal irreparável que eu te fiz. Porque é o seu nome, e somente o seu nome entre tantos outros nomes, que deixa claro o quanto eu não sei ser o que te faz sentir falta e o quanto eu precisava que você sentisse.

É só você. E eu não suporto a idéia que você esqueça de quem sou eu. Eu preciso que você queira voltar e ficar no pra sempre que um dia eu neguei.

A gente só vive uma vez em cada segunda chance.

Voltando muitas vezes pro lugar e pro nosso conto de onde nunca saí.
‘Light… We need more light, beautiful Paris.’

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