Brincando de verborragia com as minhas particularidades, com os eus de mim e com os mins nos outros. Alguns textos novos, escritos mal acabados, garatujas que querem ser criadas e rabiscos que já nem são.


Quarta-feira.

2 de setembro de 2013 por Camila

-Éramos tão felizes, não? Acho que fomos felizes desde a noite em que eu te vi pela primeira vez. Tão linda de vestido vermelho esvoaçante, cheia de certezas e sorrisos largos no meio daquele festival tão sujo de rock’n’roll e daquela gente tão estranha… E você hoje sabe o quanto eu te persegui pela cidade quando você desviou de mim sem nem saber que eu estava ali. E foi tudo tão fácil, amar você, eu digo. Você facilitou tanto pra mim querer te pedir em casamento meses depois quando estávamos completamente bêbados naquelas colinas irlandesas. Você me fez acordar sabendo do que eu nunca soube antes sobre todas aquelas coisas de depois do arco-íris que você cantava e que existia naqueles filmes esquisitos em preto e branco que você gostava tanto.

-Sim, sempre fomos felizes. E casar com você foi a melhor escolha que eu fiz. Você foi uma grande escolha. O grande acerto na minha vida até hoje. E eu não sei o que aconteceu. Eu acho que a gente se perdeu da gente. Acabou a nossa sintonia com o nosso tempo. É tão triste que talvez tenhamos tomado atalhos de comodidades pelos caminhos misteriosos que é o coração de cada um, né?

-Eu te amo tanto. Isso tem que ser suficiente, não pode que haja nada maior que isso a pesar em decisões. Você é tão leve. Será que a gente não pode se buscar de novo? Se a gente tentar, talvez a gente se encontre nos muitos caminhos possíveis. Você não acha que a gente vale a pena? Por toda a comida quente que eu sopro antes de deixar você comer para que não queime a boca nessa sua sempre pressa de terminar logo o que está fazendo para pular numa velocidade estonteante para a próxima atividade. Por aquela madrugada que você nem se sabia minha e que ficou chorando no meu colo por causa daquele seu ex tão complicado. Você já era para mim desde ali. Você sempre foi para mim. Porque sou eu que entendo que você, sendo tão tolerante, nunca soube ser paciente. Porque sou eu que sorrio convicto do que somos quando te escuto falar sobre quão fabuloso Nietzsche é ao despertar. Porque sou eu que adormeço cantando Everlong pra você e com você tão desafinada insistindo em cantar junto aos meus ouvidos musicalmente tão críticos. Porque sou eu que te abraço a noite inteira sem te incomodar enquanto dormimos. Porque é o meu All Star tão velho e tão batido que combina perfeitamente com as suas sapatilhas impecáveis. E sou eu que não rio dessa sua obsessão pelo Elvis e por esse seu túnel do tempo imaginário que te leva de volta aos anos 50 e eu tenho que ir lá e te trazer para o mundo de wi-fis, bluetooths e QR Codes em que vivemos. Porque sou eu que não morro de medo de andar de passageiro enquanto você dirige descompensada. E sou eu que morro de medo enquanto dirijo e tenho que te puxar pela cintura porque você bota a cara pra fora da janela e fica berrando uma canção qualquer ao vento, sua doida.

-Eu sempre vou achar que a gente vale a pena por tudo isso e pelo buquê de trevos que você me deu enquanto eu sonhava acordada com a sorte que eu tenho mesmo em tantos tropeços. Eu vou me importar da mesma maneira como me importei quando você me beijou e disse que me amava com sete dias de namoro. Você sabe que você me assustou. Eu só nunca te disse que você me fez acreditar em mágica, em final feliz e na possibilidade de amar e ser amada ao mesmo tempo. E eu acredito até hoje por sua causa. Acredito por estarmos aqui tentando consertar uma coisa da melhor maneira que podemos ao invés de jogá-la fora sem meias palavras e luvas de pelica, mesmo trombando no inseguro e tateando no escuro. Acredito porque você me convenceu que quando a gente se beijava e ria ao mesmo tempo, o mundo inteiro sentia inveja de nós porque tínhamos conseguido nos encontrar entre almas errantes. E, sobretudo, porque éramos felizes. Mas veja o tempo verbal que usamos pra falar do que somos. A gente continua merecendo muito mais do que aquilo que podemos nos dar agora. E, droga, pára com isso, você tá me fazendo chorar e, sabe, eu realmente não quero que seja em dor porque nós nunca existimos em dor. Sempre fomos cura de saudade e da crueldade do mundo…

-Mas… Onde foi que erramos? Quando o tudo deixou de ser suficiente? Você já tinha deixado pra trás essa onda errada de achar que não merece ser feliz e toda essa autosabotagem adolescente. Me fala? Foi por falta de beijo na testa e torta de maçã durante a TPM? Foi ataque de insatisfação crônica e desconstrução de alicerces? O caos pelo caos?

-Eu não sei. Mas eu preciso de um tempo. Eu preciso ir embora. E eu não estou falando isso pra ser nenhuma filhadaputa, mas, eu ainda te amo muito. Só que eu tenho que ir pra qualquer outro lugar que não seja agora, que não seja aqui.

-Agora que já descobrimos que não somos perfeitos, podemos voltar a ser feliz?

Pronto. Foi aí, neste instante, que ele soube que a batalha estava vencida. Ela ia embora, ele sabia. Mas ela nunca ia esquecer da força do que ele disse por último. Ele não sabia que isso ecoaria por tantos anos na cabeça dela, mas as palavras eram despretensiosamente inesquecíveis. Foi exatamente o que estava genialmente escrito no bilhete mal cuidado em uma folha amassada de caderno que ele mandou por debaixo da porta para ela depois da primeira e única briga dos dois. Mas ele era grande em pequenos gestos. E a nota tão breve e assinada pelo apelido que se chamavam veio acompanhada por delicados vasos de todas as cores de Violeta que ele tinha conseguido comprar do vendedor no meio da rua e equilibrar até chegar no apartamento dela. Ela riu baixinho quando lembrou que ele só sabia o que era uma Violeta por causa dela e de suas manias esquisitas. Ele dizia que, como todas as outras garotas que ele conhecia preferiam rosas, então a maioria dos homens tratava qualquer outra flor como um mistério e mal sabiam se era de comer ou de enfeitar. Mas, por causa dela e pela diferença que era ela aos olhos dele, ele descobriu a existência de Orquídeas, Hortências, Angélicas e, como não poderia deixar de ser, Amor-Perfeito.

Ela baixou a cabeça, suspirou e deixou escapar uma lágrima que se perdeu num sorriso. E ali, do encontro daquele paradoxo, renasceu a certeza que um dia quase partiu de dentro dela. E, por fim, ela lembrou que só ele pode transformar um dia ordinário como todas as quartas-feiras em toda Quarta-Feira De Dia Especial Do Primeiro Beijo dos dois. E comemorar com ela como se fosse novidade. E daí tudo perdeu a importância e a urgência era outra.

Ela então não quis mais ir e nunca mais foi.

E eles são.

'Arrastando o meu olhar como um ímã...'
‘Arrastando o meu olhar como um ímã…’

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Diálogos da Invisibilidade II: Recaídas.

2 de setembro de 2013 por Camila

‘…Te preguntaba sobre esa estrella mientras tu manjo dibujaba el aire, y te ibas conmigo después. Dormí conmigo hasta que me sueñes, te besé la espalda para que te acuerdes que somos uno los dos.’

Ele levou a minha camisa dos Beatles embora depois de uma noite mal dormida na minha cama em um amanhecer preguiçoso e sem perspectivas. Tudo bem, eu sempre preferi os Rolling Stones mesmo, pensei. Mas daí a devolvê-la em um par de dias com lembranças, resquícios de pele, olhar pidão e cheiro do que somos já é muito desaforo… Bati a porta. Já vai tarde, cretino. Sentei no chão e chorei até quase odiá-lo pela sucessão interminável de seus erros e a ter pena de mim mesma e do que eu quero. Comiseração e auto indulgência estragam todo o trabalho que tenho em me convencer diária e exaustivamente de que foi-mesmo-melhor-assim.

De rir juntos. É disso que mais sinto falta, mas ele nem sabe. É essa a memória que mais me perturba, sou só humana e ele tão lindo com aquele jeito atrapalhado de ser e amar. É justinho esse o futuro que mais me apavora: O de nunca mais encontrar alguém que me faça rir até fechar os olhos, até a barriga doer, até o ar faltar, até a bochecha queimar, até perder o medo da entrega completa e da vulnerabilidade. …É de quando ríamos juntos que sinto mais saudades, idiota. Você com seus personagens e vozes dubladas para acabar com a minha fome e o stress do meu dia, eu com o meu gosto peculiar por piadas que não fariam rir a mais ninguém. Porque você me levou isso? Porque me deixou traços tão sérios nos lábios? Porque o siso? Porque esse meu novo cinismo engole minha gargalhada que era tão inocente? Entender não adianta, nada vai mudar em nós. Não precisa responder, canalha. Você não é mais o você de mim. Você não tem mais o direito de consertar o meu dia e nem a minha vida. Fugi das elocubrações e levantei do sofá para tomar um banho e me livrar de mais reminiscências de sua alma, de seu corpo, de seu suor, de seu hálito de vinho, de sua saudade sufocante e de seu coração caótico. Ele, ele, ele, ele… Tudo era dele e para ele retornarás. Não!

Depois dele os meus domingos são claras manhãs, a minha semana é de rotina e o meu sábado é dia de escolher a solidão do pijama de flanela ao invés dos barulhos, dos convites, dos mais-do-mesmo, dos amigos de ocasião e de toda a gente errante noite a fora que não se parece em nada com ele e nem carrega a mesma graça em ser. Padecer dessa eterna ressaca sentimental é sua culpa, imbecil. Me dê de volta minha capacidade de acreditar em alguém além da vaidade e da insegurança, mais aquém dessa bagunça emocional e dessa ignorância sobre o sentir.

A água quente escorre e dessa vez sim, o odeio. É ódio, de-fi-ni-ti-va-men-te, só pode ser! Odeio que ele me manipule a dizer sempre sim, a ser sempre dele, a me fazer derreter inteira em sua boca, a não me deixar ir embora quando sabe que eu preciso, a me deixar saber que ele (incontestavelmente) conhece cada centímetro do meu corpo melhor que eu mesma, a me pedir pra ficar pra sempre com flores, mãos e gentilezas. Eu não vou voltar, amor meu. Eu não sou mais a sua de você. Agora é tempo de ser a minha de mim. Eu te quero muito, eu vou sempre te querer muito. Mas eu não posso mais com tudo aquilo que você representa, com esse me invadir de mundos, com esse seu amor por mim tão de verdade e cheio de falhas, com o transbordar desavisado dos arroubos românticos, com a delicadeza vinda do arrependimento e com a constância da indecisão. Não, irrevogavelmente, eu nunca mais vou deixá-lo me ver só mais um pouquinho, nem mesmo pra entregar a camiseta. O pouquinho desarruma a cama, a cabeça, o juramento, o nunca mais e a decisão.

Desato os mil nós do meu cabelo molhado e me convenço de ter a certeza absoluta que às vezes a inteligência emocional precisa prevalecer sobre tanto querer, sobre o tanto que somos – digo – que fomos, ele e eu. Sobre o tanto qualquer que sejamos. Você não deveria jamais ter me devolvido essa maldita camisa, palhaço. Nunca me trouxe o vinil dos Mutantes nem o livro do José Agripino de Paula, porque fez questão desse trapo de pano que já está até desbotado? Há anos compramos essa camiseta juntos naquela viagem que fizemos a Londres, eu sei, eu também me lembro que eu escolhi a do Rubber Soul e você a do Revolver logo depois que cruzamos a Abbey Road de mãos dadas e sorrisos postos. Ahhhhh, eu te amo. Sai de mim. Sério, me deixa. Nenhuma palavra foi dita em viva voz.

Pensamentos desordenados, quereres atravessados, mágoas do maior amor do mundo, vontades superficialmente controladas, histórias vividas e quase que brutalmente rompidas, lágrimas fundidas a sorrisos e milhares de outras singularidades minha e dele não serão suficientes para me fazer acreditar em promessas de dias azuis de comerciais de margarina ou em roteiro hollywoodiano de comédia romântica. Eu sempre fui uma garota muito mais dada ao existencialismo de Truffaut e da Nouvelle Vague, enfim. Concluí. Tudo em silêncio.

Chá amargo na caneca de porcelana e a inevitável compreensão de que isso tudo me mete medo com tanta grandeza. De que vivemos, eu e ele, a balada do amor sem fim cheio de nãos e sins e tudo que há entre essas possíveis concessões. Um amor igual a tantos outros em tantas partes, mas esse era dele e era meu. Um sentir tão doído e amordaçado que habita um espaço que já não cabe um nosso e subjugado a existir num tempo débil em refazer o desfeito, em tomar de volta a flecha lançada ou emudecer cada ouvido a palavra dita e desdita. Mas era incapaz, este tempo, também de apagar o muito que sobrou, a aspereza da barba dele na minha tez, o toque profundo e o entender mútuo em silêncio. Eu ainda não tinha esquecido o porque de tanto tê-lo amado. E eu sabia que, quando ele me olhava, ele também não tinha esquecido de porque ficamos juntos tanto tempo e muito menos das razões que fizeram ele cruzar a cidade e ficar na minha porta com uma camiseta velha na mão me esperando chegar pra dizer que todo o resto era menos importante. E que ele se importava. Que iria sempre se importar com a garota que era dele e dele somente. Você quer que eu te prometa um final feliz quando eu nem sei se eu te posso prometer um dia de sol, meu amor. Eu não posso mais. Aqui chove muito. Que o que ele sentia era mesmo uma adoração tão grande que ele não conseguia dormir e que, num impulso, agarrou a camiseta que jogou no fundo do armário pra abafar a coisa qualquer e dirigiu o mais rápido que pôde mesmo sabendo que eu ainda demoraria algumas horas para chegar em casa porque ele conhecia meus passos incertos e retornáveis ao mesmo lugar de onde saía já que eu sempre esquecia alguma coisa em algum lugar e isso justificava todos os meus atrasos com tamanha excelência que ele era mesmo capaz de aceitar um ritmo só meu. A minha urgência em dizer sim era tão grande que me quase sufocou. Escuta, você não quer entrar pra tomar um vinho e fazer as coisas ficarem bem por pelo menos alguns minutos por nós? Sei lá, brincar de placebo, doses homeopáticas de paliativos, o desapego lento. Tentar aceitar que alguma coisa não foi partida com tantos abraços? Me dói muito, também. Mas você sabe que eu não posso. E nem você pode mais. É saudade e talvez até um pouco mais, mas, seja como for, não podemos. Dói tanto, eu sei. Silenciosamente e entre olhares emudecidos, a chave parecia saber o que fazer sozinha quando destrancou a porta apesar de uma mão tão insegura girar o trinco.

Por você, por mim, por nós, acabou para sempre.

Mas amanhã é outro dia e a promessa de pra sempre sempre acaba. E eu sei que ele também sabe que é nessa finitude dúbia e frágil que renascem muitas vezes as recaídas, as taças de vinho, o amor inacabado, as noites mal dormidas e a mania que ele tem de atacar a minha gaveta de camisas-limpas-de-todas-as-bandas-que-a gente-costumava-ouvir e usar uma delas na hora de ir embora da minha casa em todo amanhecer preguiçoso e sem perspectivas quando ele finge que vai aceitar a minha decisão de ficarmos longe um do outro.

Sério mesmo, essa foi a última vez e acabou pra sempre.

I love you, I love you.
I love you, I love you.

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Quereres.

31 de agosto de 2013 por Camila

Eu te quis sorrir. Eu te quis todo aquele tempo em que abaixei a cabeça na piscina escondida que é o teu olhar: Eu te quis retribuir.

Eu te quero quando passas. Eu te quero quando paras, quando cessas e quando repousas. Eu te quero que saibas disso. Eu te quero viver nesse verde misterioso e simples que é você.

Eu te quero meu. Eu te quero nas minhas manhãs de promessas e nas minhas noites frias. Deixo-te as tardes a ti mesmo, para que, separados, nos busquemos nos recônditos nossos que desconhecemos e que precisamos descobrir.

Eu te quero atravessando discreto e silencioso esse salão em minha direção. Eu te quero mais quando finges estar longe, mas queres estar tão perto desse mistério simples e verde que também eu te sou. Eu te quero mãos dadas. Eu te quero fantasia desmedida. Eu te quero luz que não falta. Eu te quero flores azuis e amarelas.

Eu te quero música, eu te quero liberdade, eu te quero contar, eu te quero beijos na chuva, eu te quero mar, eu te quero inspiração, eu te quero faminto de mim, eu te quero quietude, eu te quero em horas intermináveis, eu te quero na brevidade de cada momento. Eu te quero suor, eu te quero eloqüência, eu te quero lágrimas, eu te quero consentir, eu te quero solidão, eu te quero movimento, eu te quero arroubos, eu te quero teu, eu te quero indefeso, eu te quero príncipe invencível, eu te quero sutilezas, eu te quero mundo inteiro. Eu te quero lembranças, eu te quero nuvens, eu te quero diferenças, eu te quero reminiscências, eu te quero arremates, eu te quero sorte, eu te quero gestos, eu te quero arestas congênitas, eu te quero pureza, eu te quero inconseqüência, eu te quero esperanças, eu te quero urgências, eu te quero calar, eu te quero novo tempo. Eu te quero imensamente listas intermináveis de quereres.

Eu te quero abstrato e em cores preenchendo vazios concretos que há em mim. Eu te quero certeza insolúvel em meio a minhas dúvidas. Eu te quero caminhos de volta quando me perco. Eu te quero sempre caminhos. Eu te quero possibilidades. E eu te quero horizontes. Eu te quero serenidade. Eu te quero paz dentro do meu caos e da minha bagunça infinita, monocromática, claustrofófica e barulhenta. Eu te quero neste agora. Eu te quero neste instante em que me sou. Eu te quero quando me tomas de susto.

Eu te quero quando ouço tua voz desconhecida. Eu te quero quando me surpreendes com o teu ser-estar e me arrancas o ar em suspiros mudos. Eu te quero me fazendo perder as horas. Eu te quero transformando o que imagino no que é presente. Eu te quero, mais que tudo, realidade.

Eu te quero ao meu lado como estás agora: Um tiquinho mais perto, talvez. Um bocadinho mais meu, quem sabe. Um tantinho mais nós, quiçá.

Eu te quero rompendo silêncios em mim. Eu te quero dizer que te acho e te vejo tão bonito. Eu te quero, sobretudo, destruindo as minhas esperas. Eu te quero me obrigando a fazer o que detesto pela sua convicção de que me fará bem. Eu te quero, ainda mais, acabando com meus anseios por nós.

Entretanto, veja bem, por essas intermitências pouco mágicas e irônicas que insistem em habitar o mundo comum, há entre nós tanta falta de coragem, timidez desmedida e muita vontade do que pode ser: Será?

Ainda assim, eu te quero você.

Quem há de quereres?

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Diálogos da Invisibilidade I: Setembro.

31 de agosto de 2013 por Camila

Setembro ainda nem havia chegado, pensou com certa surpresa.

Mas, junto ao frio insistente e à promessas da primavera, as contas já se acumulavam no vão da porta.

Nas raras vezes em que abria aquela mesma passagem abarrotada por papéis pouco interessantes e imensamente burocráticos, era para permitir a visita constante daquela ressaca sentimental que vinha sempre checar-lhe o juízo, o tino e as atitudes.

Constava no calendário abstrato do tempo que era noite de domingo a última vez em que recebera a visita nem tão bem-vinda daquele porre e seus sentimentalismos baratos, clichês e conhecidos que lhe reviram o pouco estômago que sobrara das tantas aventuras. Desventuras?

Então, decidira que algum final deveria ser feliz. Por isto, colocou o play no DVD e aconchegou-se com uma manta no sofá florido para dois. –Flores, sussurrou, –setembro. Abraçou a pipoca como se fora um manjar digno de chef da moda e bebericou suavemente o chá verde que enfeitara com mirtilos como a uma poção mágica que nada cura, mas que é placebo e paliativo.

Blueberries, falou baixinho.

A vida há de ser mais azul.

Menos blues e um pouco mais de soul, garota.

De alma. E com menos calma. Na bossa do rock. Na velocidade dos ontens e anseios por amanhãs completamente livres do eterno hoje. Desse hoje que nunca compensa o desperdício de derramar-se por aí.

Melancolia, velha amiga pouco querida e muito presente. É primavera, sai de mim.
Melancolia, velha amiga pouco querida e muito presente, é primavera. Sai de mim.

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Cheganças.

31 de agosto de 2013 por Camila

Para Victor, por tudo que você representa em mim.

Parecia-lhe que sempre havia uma certa mística permeando a ambiguidade das lágrimas vistas nos aeroportos: as da alegria eufórica e incontida das chegadas e as das iminentes e inadiáveis dores da partida. Ainda que haja volta, ponderava, o tempo não se permite calcular. E a sua passagem se torna sempre um mistério aos nossos olhos tão efêmeros. Em aeroportos, todo o decorrer dos segundos é fugaz.

Então esperou num caminhar nervoso e ansioso. Com as pernas, acompanhava os ponteiros do relógio. Ou olhava de relance para os indicativos digitais entre uma ou outra troca de palavra com estranhos que lhe pediam direções. Checou mais uma vez  o terminal, o portão, o vôo e as horas. Eram muitos números e quase todos eles, ainda que carregado de informações, lhe diziam muito pouco.

Prostrou-se na saída daquela porta de vidro desajeitada e meio suja. Suspirou, impaciente. Soprou a franja. E então a razão para existir naquele dia fez-se presente. O desembarque, por fim, lhes permitiria a ruptura de uma saudade.

Ele saiu daquela sala tediosa já com os braços abertos e os olhos emocionados de lágrimas de mar na cidade cinza. Abraçou-a forte, não como que sentindo a ausência dos sete anos passados, mas com a cumplicidade inquebrantável que só os anos de intensidade lhes haviam garantido.

Pausa.

Alguém mais desavisado pode pensar que conto sobre um amor romântico de encontros no meio de um mundo de desencontros. Mas falo mesmo é da amizade de duas almas que se acharam sem estarem perdidas.

Depois de minutos entrelaçados e perfeitamente acolhidos num entendimento mútuo e merecido, sentaram num bar improvisado como tantas vezes já fizeram antes. A trilha sonora, entretanto, já não era aquele punk rock juvenil que sempre tocava no carro dele naquelas noites de porres homéricos, mas o incessante barulho de pousos e decolagens. De promessas e partidas. De juras, quiçá, quebradas. Riram histericamente. Confidenciaram sobre essas intermitências estranhas da vida, da morte e de todas as outras coisas entre uma e a outra. E, em algum ponto e outro de um diálogo eloquente, seguiram surpresos e gratos ao destino que lhes havia permitido uma permanência na história de cada um. Os dias que chegariam, disseram um ao outro, eram cheios de dúvidas e inseguranças, mas algo dentro deles se tranquilizava por saber que se teriam. Eles acreditavam que num mundo que gira tão rápido, ter algo que ele chamou de ‘incondicional’ era uma preciosidade cabível apenas ao coração. Mas ela gostava de pensar que tinha um quê de alma por aí. Ela e suas explicações místicas. Ele e as excessões à racionalidade que abria somente para ela.

Falaram por cinco horas do que foi, do que poderia ter sido e do que talvez viria a ser num dia qualquer. Sentiram a nostalgia de um novo tempo. E, pela primeira vez, um certo medo do futuro. Mas voltaram ao pretérito perfeito e ela lhe fez saber o quanto ele era constante nela própria. O quanto ela lhe fizera seu desde a primeira vez em que o vira. O quanto eram vívidas e líquidas as suas lembranças de momentos vacilantes e cheios de poréns em que ele lhe apoiou com olhares silenciosos e com palavras imbuídas de desespero e disfarçadas de gritos pelo despertar de algo maior, de méritos, de discordâncias e de felicidades possíveis. O quanto era ele, também, uma lucidez pura, entorpecida e embriagada. E como eram sobreviventes de todas as estruturas que eles mesmo criaram. Ali, naquele momento, souberam que o que haviam construído era fino e que a distância travestida de tempo não ousou apagar. Sobre aquela amizade repousava a ação misericordiosa de memórias prodigiosas. E se entreolharam com essa certeza.

O momento da partida se aproximava e, com ele, o outro lado da lágrima. A ânsia de não poder parar o tempo. E o tempo – ele, de novo! – que já não cabe no tempo.

-Nós não temos uma música para chamar de nossa depois de tanto tempo de amizade, Vic.

-Fique tranquila, vou escrever uma em que cante a nossa história.

-Vai com Deus, meu velho amigo. E conserve pulsando esse coração bonito que me cabe.

-Eu amo você incondicionalmente. Obrigado pela sua amizade.

Um beijo na bochecha rosada e salgada de emoção da menina. Mais um abraço. Ela, agora, de ponta de pés.

E um ‘adeus’ que chegou subtraído de dor pela certeza palpável de que sempre iriam se encontrar mais uma vez. Fosse em fragmentos de anos ou em cada palavra escrita. Fosse pela força das lembranças ou pelas possibilidade de criar novas histórias.

Eles sabiam se esperar.

And so remember: 'not all those who wander are lost.'
And so remember: ‘not all those who wander are lost.’

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