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Amores serão sempre amáveis.

21 de março de 2016 por Camila

São Paulo, 9 de Agosto de 2006.

‘Sim, promessas fiz. Fiz projetos, pensei tanta coisa, e agora o coração me diz que só em teus braços, meu bem, eu ia ser feliz. Eu tenho esse amor para dar, o que é que eu vou fazer? Eu tentei esquecer e prometi apagar da minha vida este sonho, e vem o coração e diz que só em teus braços, amor, eu ia ser feliz. Que só em teus braços, amor.’

(GILBERTO, J.)

F.,

Não me apaixonei por você de maneira lenta e gradual. Eu já era sua quando o vi de longe, cruzando a esquina e completamente incógnito naquele bar sujinho e claustrofóbico. Seria impreciso dizer o tempo, mas quando dei por mim, já tinha me perdido em você.

Acho que tínhamos uns vinteepoucosanos quando você beijou a minha bochecha com a sua boca ébria, e os meus lábios já estavam completamente bêbados de cerveja barata quando eu balbuciei ‘menino doido’ ao vento. Eu nem sabia de mim, mas ouvi o mundo parando para nos sorrir e brindar ao encontro: escutei os nossos amigos entoando canções desafinadas e barulhos de mar e estrelas. Os meus cabelos emaranhados combinavam com os seus jeans surrados e a minha camiseta do Nirvana era parecida com a sua do The Who. Você era a cara do Julian Casablancas, enquanto eu fazia careta pra ‘banda-modinha-cópia-mal-feita-dos-Stones’, mas você era você, e o destino, caprichoso.

O hiato do tempo tão injusto e desigual pausou uma estória que nunca aconteceu mas que nunca foi apagada. Os anos passaram sem graça até que nos reencontramos de forma não-convencional (como tudo que sempre foi tão nosso): eu, sóbria. Você, sorrisos. A história estava escrita, e o nós não podia mais ser adiado. Fui, então, me perder na bagunça da sua vaidade e no seu amor inteiro.

A memória é vívida e prodigiosa: suas lágrimas molhando os meus seios e seu suor na minha boca naquela primeira noite em que dormimos juntos. O seu ‘eu amo você’, a sensação irremediável de realização, a certeza irrevogável que a vida inteira valia aquele momento, os seus dedos passeando pela minha barriga, as nossas conversas de madrugada, a mágica que era o nosso olhar, a sua adoração por mim, os contos mais bonitos de amor que eu escrevi, as nossas pernas entrelaçadas e os seus dentes nas sardas do meu ombro.

Em dias de amor total, houve também a ruptura: as teias e labirintos da vida foram confusões sobre as nossas cabeças. O sol de verão iluminou tudo de pior que havia em você. Eu já não tinha mais brilho. Você me consumia, eu o cuspia. O fogo ardia, mas o coração não aguentava mais um único suspiro. De companheiros, viramos rivais. De entusiasmo, nos tornamos cansaço. O fracasso das forças tornou nossas tentativas em miradas opacas e a desistência anunciou o que temíamos: a separação, o enfrentar em si de hojes sem a mão amiga do outro que era o abrir caminhos de amanhãs.

As noites eram febris e eu pensei que fosse morrer sem o seu corpo junto ao meu: o amor dos vinteepoucosanos sabe ser impiedoso como poucos. Em que mundo haveria de ser possível eu sem você e você sem mim? Você era oxigênio apaixonado para os meus pulmões fatigados do cinismo daqueles que não amam. Você era a recompensa dos que são castigados pelo marasmo dos dias.

Inacreditavelmente, eu sobrevivi. Em longas e imensas horas, a pilha de destruição que você deixou dentro de mim foi diminuindo e eu vi que era completa de novo. Mas você nunca foi anônimo e a sua voz nunca emudeceu. Você nunca foi desimportante, nunca foi qualquer um. Em todos os meus minutos de solidão conjunta com outro alguém ou acompanhada pela sua ausência, você me ensinou tanto sobre tudo em lições silenciosas. No espelho da minha mente, você era o empirismo explícito nos meus passos de pisar em ovos.

Você era paixão crua e desnuda, a minha maçã envenenada na mesa do professor: Com o seu egoísmo, eu aprendi a perdoar. Com as suas dúvidas, eu aprendi o valor da paciência. Com os seus olhos que prenunciavam tempestades castanhas, eu aprendi a sentir medo da chuva. Com os seus beijos, eu aprendi a me entregar. Com o seu toque, eu aprendi o que era ser completamente vulnerável a alguém. Com o seu sangue, eu aprendi o que era me queimar. Com os seus sonhos, eu aprendi o que era acreditar. Com a distorção da sua guitarra, eu aprendi o que era dilacerar de ciúmes e ver a lucidez se esvair de mim. Com os seus erros, eu aprendi o que era crueldade. Com a sua pele, eu aprendi a me misturar e ser menos minha. Com os seus berros, eu aprendi o que era saudade. Com o seu amor, eu aprendi a me fazer inteira. Com a sua dor, eu aprendi a ser mulher. Com a sua confiança, eu aprendi o que era cumplicidade. Com a sua aspereza, eu aprendi o que era verdade. Com a sua luz, eu aprendi a ser sombra. Com você, eu entendi a poesia exagerada e a miudez intransigente do morno. Com a sua inconstância, eu aprendi o vício em adrenalina. Com a sua teimosia, eu aprendi que sabia muito pouco sobre as coisas vis do mundo. Com a sua malícia, eu aprendi a traição da minha inocência. Com o seu tesão, eu aprendi o poder do meu corpo. Com o seu caos da entropia que rege o universo inteiro, eu aprendi o que era perder totalmente o controle.

Por anos, fui a mágoa escrita e a incompreensão de um amor subvertido. Esses dias, ao seu lado novamente, percebi que eu era mesmo gratidão e entendimento por todos os nossos ciclos ininterruptos. Resolvi que contar a minha vida e os meus processos para você – que me conhece de outros ‘lugares ancestrais’ nessa cidade pós-moderna que nos engole – era o sanar que eu precisava da loucura que me consumia por qualquer bobagem. Você, que me sabe de verdade no meu melhor e no meu pior. Você, que nunca esqueceu a data do meu aniversário (nem mesmo nos nossos anos apartados de palavras e contato!), mesmo quando vinha me desejar ‘Feliz Páscoa!’, naquele seu humor mordaz e tipicamente inglês. Você, me cantando Caetano baixinho e disperso enquanto dedilhava o violão para fazer a minha raiva por coisa qualquer passar (e gargalhava o seu sorriso irresistivelmente torto quando eu jogava o travesseiro na sua direção e o expulsava do quarto trancando a porta na casa que não era minha). Você, que me viu tão eu: que tinha me enxergado tão leoa quanto temor, tão frágil quanto forte. Que teve de mim os excessos bipolares, mas nunca o equilíbrio.

Com a pressa das semanas que passam se atropelando enquanto deliramos macios, você achou que seria uma boa idéia consertar o nosso passado e fazer de nós presente naquela noite de vinhos e confissões. Disse – com os mesmos olhinhos gulosos de outrora – que os nossos corpos já se conheciam tão bem quanto as nossas almas. Antes que as minhas convicções ultrapassadas o empurrasse para longe, você reavivou a velha mania de me roubar beijos ao me puxar pela nuca e me prender nos seus abraços. Você me calou com a sua boca uma vez mais. Engasguei. Perdi o fôlego. Depois, esfregando o meu nariz contra o seu e misturando a minha respiração com a sua, abaixei a cabeça e sorri em silêncio como da primeira vez (com você é tudo sempre como se fosse a primeira de todas as vezes que jamais cessam em se repetir).

Tudo o que reluz nessa Terra-De-Meu-Deus-Sem-Tamanho-E-Sem-Porquê sabe que não sou afeita à novas chances, mas com você danço o Samba da Volta. Porque – justifico a mim mesma enigmaticamente como a Bruta Flor de um querer – você é você e isso é ‘o começo e o fim de tudo’.

Paro e penso que, dos que vieram antes de você, eu já nem me recordo. E todos os que vieram depois foram somente isso: depois de você. De você, divisor das minhas visões de mundo em antes e pós-presença. Em você, suspensão de eras no espaço sideral que não me cabe enquanto a vida fingia passar e eu matava instantes imediatos buscando a sua pele em todos aqueles que eu não permitia que tocassem em mim o que eu fui para você: eles eram somente ruídos, enquanto você era a música inteira.

Obrigada por continuar me ensinando o valor da coragem de estar com quem nos enche de borboletas o estômago ulcerado e com quem muda tudo de lugar para reconstruir um tempo que nunca se perdeu.

Os anos nos devoram como goles sedentos por Milk Shakes na Avenida Paulista e finalmente entrego a verdade no meu sorriso mais bobo: eu realmente amo você de todas as formas que se pode amar alguém,

A.

'(...) You pierce my soul. I am half agony, half hope. (...) I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it eight years and a half ago. (...) I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. (...) For you alone I think and plan. - Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice, when they would be lost on others. (...) You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating in F.W..'
‘(…) You pierce my soul. I am half agony, half hope. (…) I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it eight years and a half ago. (…) I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. (…) For you alone I think and plan. – Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice, when they would be lost on others. (…) You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating in F.W..’ (AUSTEN, J. in ‘Persuasion’.).


Rascunhos de Outono VII: Tardes de junho.

1 de maio de 2015 por Camila

Brasília, 20 de junho de 2007.

G.,

Pois bem, hoje é Quinta-Feira. São mais ou menos 210 dias sem você. Dentre muitas outras, algumas considerações: voltei à pipoca de microondas, ao banho gelado, à insônia irrestrita, aos dias vazios, à gente sem graça, à arte abstrata, ao choro no chão da cozinha, à cidade concreta, à ruína de sonhos, aos copos de cerveja sem celebração, à solidão dilacerante do ser e, sobretudo, à ruptura do íntimo.

Faço planos a curto prazo porque não sei se terei paciência para lidar com o arrastar das horas e o atraso do futuro, que nunca chega. Tudo demora: O esquecer demora, o desligar-se do outro demora, o abandonar de corpos demora, o gosto amargo nos lábios demora, o secar das lágrimas demora, a esperança de que você mude de idéia e resolva chegar demora (a passar).

Você era você, e perto desse aforismo que trata de atestar o óbvio, lhe digo quase que vulgarmente: os outros são apenas os outros e o resto do mundo me enche de preguiça, indiferença e desinteresse. A garrafa vazia de café me frustra, o espaço desocupado me inquieta, o colchão parece grande demais e os livros não me contam histórias bonitas. Aliás, ninguém tem me contado coisas bonitas. Abro um parêntese para criar uma teoria tola e infundada, mas  seria  impressão minha ou estamos todos de ressaca do sentir?

Lembro dos nossos dias de faculdade e quase cesso nesse meu existir patético: Eu tão virgem enquanto tentava salvar o mundo com as teorias Marxistas-Leninistas e você proclamando poesia com os pulmões plenos de oxigênio e os olhos cheios de paixão. Você falava em Caio Fernando Abreu, Bukowski, Kerouac, Ana C., Nietzsche, Marçal Aquino, Ginsberg, no alter ego de Fante e nos livros que mais tarde iriam mesmo mudar a minha vida (como você, dono dos meus dias vindouros, já previra). Na direção de Truffaut, Godard, Bertolucci, Pasolini, Tornatore, Fellini, Glauber Rocha e Scorsese. Eu só sabia discorrer sobre política e sociologia enquanto você insistia que nossas únicas salvações possíveis eram a literatura e o cinema. Eu temia escrever sobre sentimentos, e você só me lançava uma mirada como quem olha o desperdício em um silêncio constrangedor.

Uma noite, depois de uma longa reunião do Diretório Estudantil, você me esperava e me chamou para sair ao me ver deixando a sala. Fomos a um boteco sujo, andando entre afastados e a vontade de segurar a mão do outro, como que perdidos entre possibilidades. Você começava a profetizar aquela mesma ladainha de que a literatura era o que ia nos salvar dessa loucura que é a vida, então eu acendia meu cigarro, tragava longamente e pensava se era mesmo tão relevante assim sentir alguma coisa por alguém ou pela idéia de amar. Se era mais urgente e mais merecedor da minha atenção do que a fome dos povos, as injustiças dos homens, a propriedade desigual e as pestes que assolam a humanidade. Sorria de canto de boca pra você e, já meio trôpega de tanta vodka, soprava a fumaça na sua cara enquanto você me mandava vestir a jaqueta por cima da minha blusa do Che Guevara, já que estava frio e não era bom arriscar uma gripe. Eu achava que você era uma gracinha com todas as suas idéias de amor, suas olheiras, sua barba mal feita, seus óculos que iam escorregando até o seu nariz e seu descaso pelo materialismo dialético (que me era tão vital!), mas você era do sentir e eu queria ir lutar. Um dia, eventualmente, você me convenceu e o céu foi mais azul.

Sinto saudades: Uma saudade enorme (e que me engole!) de você me abraçando na cozinha enquanto eu fazia brigadeiro, de você me acordando para pedir um abraço, de olhar para janela enquanto esperava a sua chegança, do barulho da sua máquina de escrever, do seu pé quentinho entrelaçado ao meu na bagunça que era a nossa cama, de você levando o cachorro para passear, de você me fotografando com o olhar com seus ângulos tão especiais, de você me roubando sorrisos, de você enchendo a minha taça de vinho tinto (‘você fica tão linda bêbada, Meu Amor!’), de quando você me beijava em luz e cor, de você saindo de casa precisamente às 18h para comprar pão quentinho na padaria da esquina, de você me acordando no sofá para levar para cama quando eu adormecia com a cara enfiada nos livros, de você me pedindo filhos, de você limpando os meus óculos de grau, das suas mãos sujas de tinta, da sua leveza, do seu lirismo, de você tirando a minha franja do rosto enquanto eu dançava e suava, de você tocando violão, de você me fazendo sua sem me exigir o apartar do mundo, do seu cheirinho de mar que nunca foi perdido em meio ao caos da cidade, de você sendo livre ao meu lado e, mais que tudo, de você existindo comigo. Nas minhas memórias mais doces, somos dois e estamos da nossa casa olhando a rua que passa sem porquê, sem premissa, sem prelúdio e sem samba.

Quando eu caí de cara (e me ralei inteira!) no cimento do mundo real e comecei a aceitar que Maquiavel era quem sabia mesmo das coisas, você me salvou do cinismo ao me dar a antologia do Neruda e o vinil do Chico Buarque. E eu vi, naquele valioso e deslumbrante instante, que você tinha razão desde os muitos outros anos anteriores quando perdi o meu coração para você: Só mesmo a arte pode salvar esse mundo que tem seu charme de caso perdido. O único importar é do que sentimos e do que fazemos em relação a isso. Eu sinto e eu me importo.

Ouço Crosby, Stills, Nash & Young e concluo: Hoje, 210 dias depois de você, eu sou só melancolia. E espero que você seja só vida.

Te quero sempre bem, meu querido.

M.

Do café frio, da letra trêmula, do abandono das coisas e da saudade latejante.
Do café frio, da letra trêmula, do abandono das coisas e da saudade latejante.


Rascunhos de Outono VI: Carta de Carnaval.

29 de abril de 2015 por Camila

Oslo, 9 de janeiro de 1973.

Amado T.,

Pois permita que diga-lhe algo sem muita brevidade ou cerimônia: Eu sinto muita pena de nós, muita pena por nós. Do que poderíamos ter sido, do que fomos, do que jamais seremos. Sinto pena pela não-aceitação plena e mútua do que é o outro e seu mundo, pelas cicatrizes nas almas ambíguas, pelos pesos das escolhas, pelas idéias adjacentes e paralelas, pelas consequências atribuídas a toda ação irresponsável e impensada.

T., querido  – tão doce querido – meu!, eu sinto tanta… pena. Que teríamos sido nós se não fôssemos nós mesmos? Desate. Que poderia o mundo ter feito de nós se os laços fossem em outras circunstâncias? Grite, meu bem, ‘grite poesias que eu ouvirei’. Mas esse seu silêncio eloquente e frustrante em nada ajuda: Digo-lhe aqui (e sem testemunhas deste tempo escasso), que este seu silêncio – veja você – é tão somente torpe e vil, é insone e injusto.

Onde estão os seus passos nos meus caminhos incertos e suas observações nas minhas gramáticas disléxicas? Onde está aquela xícara de café que você me trazia e eu esquecia até esfriar? Onde estão as notas das primeiras canções entoadas tão e sobretudo em desafino novíssimo e pós-moderno com gargalhadas contornadas nas silhuetas dos lábios e na rouquidão das vozes? Onde estão as promessas, foram entornadas displicentemente ao longo de todo este solo herege? E as páginas dos livros, rasgadas? Vês? Me olhas de viés e já te sei: Me queres em dias de muitos e longos aindas, mas insistes em ludibriar-me sobre isso e qualquer outra coisa que me alcance. Porque me enganas em desamor delineado em tons tão menores do que és ou de como enxergo?

Dias amorfos, noites que não cessam em existir, mil coisas para te contar desta terra de sagas  míticas muito poco conhecidas e desbravadas, e nada que seja relevante. Nada, um nada de proporções desmedidas e ignoradas. Desculpas vazias para buscá-lo nas minhas lembranças, na linha do telefonema distante, no telegrama que me chega com assunto vazio (e saudade óbvia e sobreposta!, você não tem jeito e não se disfarça, ainda que cale!) e na sua rispidez que resplandece emergida nas palavras sem cuidado com as quais me responde em cartas quando perde a paciência com as minhas próprias confusões. Estás tentando secar a fonte do que sente, eu sei de tudo aquilo que me explicas, eu estou aí também neste mesmo processo de finais fragmentados e adiados. Manda-me calar a boca e sequer finge arrepender-se de tê-lo feito: É mentira, noto, já não suportas a minha voz mas temes a minha mudez subseqüente e inédita.

Já sabes então que meu sangue é de carnaval e agora -, precisamente neste instante que me cerca e quase morre, e às vésperas de me reinventar em pleno fevereiro de renascimento – nesta cidade tão fria e tão pura não se pode encontrar a malícia de sorrisos bêbados, ritmos frenéticos ou confetes pelo chão. Sofro as lojuras de ti (e por ti, Amor tão meu!), os reflexos da saudade e o absolutismo esmagador das certezas de que algo já não é e par não há. Cambaleio pelas ruas sem destino e convivo com a nostalgia das marchinhas de outrora, relativizando todo o toque que me chega e toda a possibilidade tátil (que anulo com a eficiência alemã impecavelmente mordaz e a pontualidade britânica que vivem aos trancos neste coração vadio e latino que me pulsa). Você ficaria orgulhoso, acredite. Você acusaria secamente ad infinitum aos meus ouvidos que estas são as minhas escolhas e, portanto, mereço a culpa que recai inteiramente sobre mim sem divisores ou dividendos: O débito do tempo de nós que foi perdido é meu, já sei. Nada é simples e tudo que é efêmero padece de para sempre. O tempo me assusta e sua passagem tenta me embrutecer, mas o cinismo niilista do em nada crer jamais me caiu bem.

O caso é que eu te amo. Eu te amo sem fôlego e sem freios.

E beijo-te solenemente em Adeus com um espírito que queima ao som de um vulgar ‘até logo’,

A.

P.S.: Eu tinha toda a intenção do mundo de começar e terminar essa carta com a aposição exata dos pronomes oblíquos átonos somente depois dos verbos para que não lhe doessem aos olhos as minhas grosserias morfológicas ou sintáticas. Como vês – e já me sabes – evaporei as idéias e relutei contra os fatos. Comi verdades e pari as palavras como lhe pude e da única maneira que sei: Em voz ativa – e muito viva, ardendo em brasa e por vezes fagulha! –  e em mil pronomes desordenados e mal alocados, ainda que não menos diretos e extremamente pessoais.

P.S. do P.S.: Que sepas pues que te quiero, cariño. Y mañana te seguiré queriendo mientras me vaya a Barcelona de puta madre a ver si por fin se me quita la tristeza de los ojos llenos de mundo y se me levanta el ánimo… Guardate este bezaso apalabrado que en algún día de esperanza te lo regalo en la boca y en todo tu cuerpo delgado y reconfortante. No te olvides que a esta niña mala le gustan las travesuras y jamás ha podido con su propria alma.

Parti (-me) (em) mundos.
Parti (-me) (em) mundos.


Rascunhos de Outono II: Tempo de era(s).

5 de março de 2015 por Camila

Helsinque, 11 de Dezembro de 1978.

B., querido:

Acordei com saudades. E com a certeza de que foi melhor assim: Com essa lonjura que arde, que queima, que causa febre delirante e que tortura em ausência de corpos. Mas que, no meio de todo esse processo perturbado, é também cura.

É a cura de um coração machucado, ferido, atraiçoado e, pior, desconfiado: É remendo, emenda e soneto. É conto, conta, prosa, poema e poesia. Mas é tanta – é grande, é enorme, é urgente, é imensa! – saudade. Corro mundos (e o mundo inteiro!) buscando presença e sanidade e completude e liberdade e amplidão. Mas é tudo tão irremediável, tão vago, tão vão, tão desimportante, tão sem sentido e tão sem graça feito sol em dia de neve e gente que não se dá.

No entanto, me habita a falta. E é falta, entenda, sem que esteja vazio. Não adianta correr mundos, percebo (finalmente!), se é amor que há sem haver. É dúvida de sentir. É a nostalgia de um novo tempo que pereceu e envelheceu o sonho. É o querer-te perto e longe no espaço que pode compreender um átimo de segundo. É banir-te sem o conhecimento sobre se sei, de fato, amar-te (e não sei, concluo). É a escolha por mim ao invés de escolher a ti. É o que desejo e não quero mais. É pulso sem vida. É o existir que se arrasta. É a volição esquecida, dissolvida e apagada.

Tua voz, saiba, é como um punhado de sal na minha carne que sangra, na minha loucura de uma ferida eternamente aberta e incicatrizável. Tuas palavras me varam o fígado, sugam o ar dos meus pulmões, viram úlcera no meu estômago em chamas e tentam – inutilmente – ludibriar meu cérebro na criação de novos planos e na feitura de novas promessas. És o meu coma, o meu estado vegetativo aonde estou acordada e com metade do corpo funcionando.

De mundos diferentes, óticas desiguais e verdades distintas ungidas sob o pano de semelhanças: Esses somos nós. Esses sempre seremos nós – dois seres confusos, perdidos, um pouco sujos e abandonados pelas nossas vaidades rasas e arrogâncias superficiais – , ainda que já não sejamos e tenhamos há muito deixado de ser(mos). Cruzamos os passados e nos tornamos a verossimilhança pretérita subjuntiva e abstrata do fôssemos. Não, não fomos. Jamais hemos de ser.

O nosso tempo é um eterno e desconcertante ‘era’: Era para ser, era uma vez, já era. A Era melancólica do tempo e da vida que não foi. Desafinou. Desandou. Desdisse. Desamou sufocando de paixão. Deixou pra lá. Desapareceu no sólido. Desmanchou o laço. Desocupou espaços. Doeu na impossibilidade permanente.

Inverteu, atravessou, escreveu, mentiu, quebrou, pretendeu, escorreu, adormeceu, vagou, lamentou, lembrou, morreu.

Foi-se (o amor).

Fui-me (embora).

Näkemiin,

M.

Peregrinação de mundos: Já não estou em parte alguma.
Peregrinação de mundos: Já não estou em parte alguma.


Diálogos da Invisibilidade IX: Lago Cocite.

5 de fevereiro de 2015 por Camila

‘Vês! Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão – esta pantera – foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro: a mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, apedreja essa mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija!’

(ANJOS, A.)

Moscou, 11 de fevereiro de 1991.

Dante,

Você não entrou na minha vida de um jeito fácil, não permaneceu de um jeito suave e agora sai de um jeito amargo e travoso.

Preciso lhe dizer que este lastimoso processo de juntar pedaços estilhaçados no chão me é imensamente catastrófico. Quando passa o medo, vem a dor indizível e lancinante que quer apagar tudo que um dia foi graça e amor. Ela vem aclarar que foi tudo mentira e quer levar embora o que ficou de bom. Proteger as lembranças é uma arte bastante difícil, ou assim me soa. Então, perdoe as palavras que atravessam seu caminho e confundem o curso do seu dia de uma maneira embaralhada e um tanto quanto magoada. No momento só a bagunça causada pela melancolia me chega implacavelmente, e o azul dos dias que eram nossos foi por inteiro borrado com a paleta atormentada de Van Gogh.

E quanto a essa sensação despudorada e ardente que sufoca meu peito inteiro e que me diz, o tempo todo e em todo o tempo, que qualquer pessoa te conhece muito mais do que eu e que você não deixou que as previsões delas sobre você mesmo falhassem como se fossem elas senhoras e senhores da sua vida? Você se fez tão nítido aos outros e tão profundamente embaçado a mim. Você escolheu ser medíocre e permanecer em mais do mesmo quando eu tentei te apresentar o mundo inteiro de joelhos e colocar o universo aos seus pés. Você quis menos, eu só quis sonhar.

Você me acusou de ser insuportavelmente egoísta até mesmo quando eu abri mão das minhas mais puras convicções para acolher o seu sentir e a sua imensa necessidade da minha energia esgotada. O seu amor-desassossego sorria obliquamente das minhas lágrimas enquanto fingia chorar junto. Você dizia se importar mas não cuidou quando me feriu e me viu sangrando vida entre soluços silenciosos, porém não menos compulsivos. Você com seu eu dissimulado e seu cinismo torpe enraizado. Você que não é pra mim. Você que caminhou pelos Nove Círculos e disse sair inteiro de cada um, mas me parece que está indefinidamente parado no Lago Cocite com suas repetições – ad aeternum – comportamentais.

Diz que morreu quando me fui e agarrou a idéia de mim que se ia, mas então porque quem se sente tão vazia assim sou eu? Porque essa dormência de um coração que já não pulsa, essa alma recolhida, esses olhos molhados, essa frieza nas minhas mãos e esse recesso de curva nos meus lábios? Porque tanta ausência de virtudes neste corpo que me toma e que dizem ser meu? A injustiça fez morada: Os erros são seus, e quem padece por eles sou eu. A queda livre do Paraíso ao Purgatório e, de lá, diretamente ao Inferno é iminente. Procuro onde me segurar, mas tudo é barranco e encosta em períodos de tempestades. Tudo desliza. Nada do que era sólido finca.

Nunca um ‘eu te amo’ tão embevecido de passionalidade soou tão superficial. A poesia desmoronou. O que era romance, ficou barato (e de qualidade bastante duvidosa, diga-se de passagem). O que era conto, calou. O que era canto seu e pedaço de mim, agora é espaço tomado de relva não-arrefecida pelo tempo. Mato selvagem, seco, sem flor, erva daninha, aridez do sertão sem a força do mandacaru resiliente. Tudo se desmanchou no ar.

Obrigada pela ilusão, Dante querido. Você é, inquestionavelmente, o meu mais estimado desconhecido íntimo. A carência que mais me deu prazer. A vaidade que mais me alimentou. A mentira que mais embruteceu. E a omissão que menos sublimou. Você, de tentativas e desculpas e desistências e extremos. Você avesso do que poderia ter sido. Você é hoje o que já foi, o tempo passado que não é ido: pretéritos, imperfeitos, subjuntivos.

O amor é meu, e isso não é novidade aos seus ouvidos. E agora, o medo e o terror também o são. A bolha estourou e o que ficou pelos horizontes de mim foram os resquícios da pretensão de sermos. Vomito o pouco que sobrou e dou por encerrada qualquer discussão: Da minha boca, o silêncio eloquente. Dos seus olhos distantes, o arrependimento pelo vulgar impensado do mundo.

Você não será saudade de um tempo bom: Você já é a falta que eu me faço e a falta que vou sentir de quem eu era antes de você. De você, que nunca foi meu. Do alto da semiótica da minha nostalgia, pergunto-me: –como se pode sentir saudades do que não se conhece? Emudeço. Não se pode. Falta é a ausência gritante do que um dia se ocupou espaço e do que se quer de volta.

Trêmula, apago a luz e vago – insisto burramente em buscar! – sem esperanças pelo sono que não vem. O peito oprimido e o pânico escancarado: Eles tinham razão. E você me avisou. Saio de cena e o devolvo por fim à Comédia sem graça e nada Divina na qual o encontrei.

Assim mesmo, cuide-se. And so remember: open your eyes. 

De muito longe de todas as possibilidades e jamais sua por saber-me muito minha,

Beatriz.

Para uma tarde (de detox e inspiração) de verão no Parque Olhos D'Água: Alighieri, Buarque, passatempos e óculos escuro. ;)
Para uma tarde (de detox e inspiração) de verão no Parque Olhos D’Água: Alighieri, Buarque, passatempos e óculos escuro. ;)