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Daqui, de dentro.

3 de junho de 2018 por Camila

São Paulo, 05 de Agosto de 1977.

T.,

Era tão fácil sorrir contigo, Amor. Devo, então, agradecer pelos melhores outonos e pelos melhores invernos da minha vida.

Meus pés tocavam a grama áspera do Cerrado no auge da seca, me lembro. Mas, na verdade, não tocavam. Tocavam todo aquele desenho que tinhas traçado para mim, as linhas que se encontravam nas nossas mãos, os planos de alvoradas e horizontes, as horas de gargalhadas, as longitudes e latitudes do mundo, a comida quente que – por tua causa, claro! – não me queimava a boca, os livros que te dei com as minhas estrelas esboçadas nas notas de rodapé, os filmes em preto e branco que te fazia assistir ainda que me dormisse na metade, os teus passos subindo as escadas pro meu quarto madrugada adentro, o aconchego sereno do teu corpo que me protegia dos monstros que moram embaixo da cama a noite inteira, os teus mil bilhetes pela casa, as lembranças do teu amor suave e os desejos de permanência.

Fico pensando naquela do Guimarães nos pedindo coragem, sabes? Mas a verdade é que anda difícil sem ti e sem o ecoar das nossas risadas. Uma melancolia só, Thomás, que bom que não estás aqui para ver. Não que imagine que para ti esteja mais fácil – sei que a injustiça da saudade sufoca em todos os lados -, mas o sentir do sentidor gri-ta. E grita alto. E, não fosse meu o próprio grito, certamente me ensurdeceria a mim mesma. Não sei se tens aí contigo uma cópia de Grande Sertão: Veredas, então te transcrevo para que te recordes:

‘(…) O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada. O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. Viver é muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar estas coisas. Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.’

Ando espaçando e tentando me salvar por todos os lados. Fujo pra literatura, encontro na arte o meu abrigo. Percebo que assim melhor entendo o mundo. Ou me confundo mais ainda, mas ali há refúgio. Sento, suspiro. Tento manter os olhos abertos, mas há em mim um sono e um cansaço que às vezes ganham e me cerram as pálpebras. Há tanto, e há um nada enorme. Café, café, café, café, café, café. Só assim. À noite, insone, misturo a alma com chá de camomila e valeriana. Só assim, também. Pra não pirar. Pra não entrar no sonífero. Pra sobreviver ao frio e à solidão. Escrevo. E lembro de horas mais amáveis e pessoas mais minhas. Lembro de ti, sempre. Tua gentileza, teu cuidado. Espero que a vida esteja te tratando com todas as coisas lindas que mais mereces.

Comecei a fazer lista, te conto, das pequenas alegrias cotidianas. De novo, insisto, salvações e lucidez. Ao longo dessa semana, essas foram as que consegui enumerar, meio apressada, nas páginas da minha agenda: 1.Café quentinho a cada manhã. 2. Abstrair o trânsito a caminho do trabalho enquanto canto as boas canções do rádio. Hoje, por exemplo, teve especial do Chico Buarque. 3. As variedades de São Paulo, o mundo inteiro dentro dessa cidade. E, daí, ouvir na rua um milhão de sotaques e poder experimentar muitos temperos a cada almoço. 4. Máquina de escrever no-vi-nha. Me dei de presente. Tenho editado trabalhos lindos (à margem) e escrito o que é possível passar pela censura. Uma tristeza ainda vivermos sob este espectro, mas, por enquanto, sem maiores novidades. Só a esperança, teimosa. Pra frente, insistimos. 5. Reler as obras dos grandes. Para sossego imediato, sabes, gosto de organizar os meus livros e as minhas estantes. Acabei me jogando no sofá na tarde de domingo em companhia de Leão Tolstói. Há um prazer clandestino e subversivo em ler um russo nesses dias de Brasil. Afinal, já sabes que não precisamos olhar diretamente ao sol para enxergá-lo, não é? A Literatura está sempre certa. 6. Receber correspondências: nesta semana, os correios andaram generosos. Chegaram notícias tuas e dos amigos de Brasília. Amor em letras, caligrafias, garatujas, escritas, espaços. Nasceu o filho de L., ela está feliz. Graças a Deus. Chegou com saúde. 7. Férias planejadas: a perspectiva de uma viagem ao Nordeste no fim do ano. C. me convidou para ficar na casa de praia de seus parentes. Perder minha vista no horizonte azul me enche de paz. 8. Pão quentinho das 17h e sonho da padaria na esquina de casa. A formiga que há em mim come até que os dedos fiquem grudentos e depois sorri, como tivesse feito travessura de criança. 9. Uma fé imensa. 10. Um cigarro de pernas cruzadas, enquanto vejo a vida passar.

Sei que não há nada de extraordinário nessas coisas todas que ilustram minha lista, tão pequena quanto honesta. Mas entendi que ser feliz, é, talvez, olhar o ordinário com os olhos cheios de luz. Um olhar mais transversal para essas verdades abjetas do mundo. Uma certa evasão poética, uma capacidade de transgredir na fantasia, de projetar realidades diversas, de contraste entre o que é e o que gostaríamos que fosse. Então fazemos assim: me recolho nos teus abraços e fujo dos meus medos de vazios desse mundo descompensado e destoante do que tem aqui, dentro.

Preciso te contar, para que te alegres, que todos sentem enormes saudades de ti, Thomás. De tudo que representas. Do melhor de nós. Da tua coragem. E do teu amor por tudo que vemos, respiramos, vivemos e sentimos. Somos ainda.

Penso que tenha-se extraviado alguns dos meus escritos, e alguns dos teus. Tudo bem, tudo bem. Tomara que te chegue este. Para que saibas de mim. E saibas que não é fácil sem ti, mas sigo firme. Promessas de felicidade hão de cumprir-se, precisamos acreditar nisso e em todo o resto.

Te quero sempre (por) inteiro,

M.

Daqui, de dentro, de mim, de perto, de ti.
Daqui, de dentro, de mim, de perto, de ti.


Cartão Postal.

8 de maio de 2018 por Camila

Manhã brasileira e ensolarada, Julho de 1983.

M.,

Beijar-te de novo foi como voltar para casa depois de uma longa viagem. Tudo pareceu certo. ‘Eu te amo todas as manhãs’, me dizias, entre lágrimas e sorrisos. Mas o tempo sempre nos foi indelicado, e, ao cair da tarde, tudo mudava de lugar. É um tal de não querer, mas querer sempre. Fomos, nós dois, desencontro. Uma distância impercorrível. Desenlace. Dissoluto. Descartáveis.

Entretanto, desperto perturbada com a tua presença onírica e castanha, e posso sentir o cheiro de mar, a areia áspera sob meus pés, as nossas roupas brancas fluídas e cheias de paz contra o vento, os teus dentes perfeitamente alinhados e cravados nas sardas da minha pele enquanto me encaras e a sombra entrecortada de luzes dos comungóis do corredor – infinito – aonde estávamos no meu sonho.

Perturbada, sim. O beijo não parecia refletir o hiato de onze anos de separação. Tudo estava em seu lugar. Perturbada, ainda. Não te amo todas as horas, mas os teus olhos morenos – abertos ou fechados – me fazem refém de um beijo que colocou tudo em seu lugar outra vez. A minha bagunça nossa. Não te quero, mas quero. Eu também te amo em todas as manhãs, às tardes já não sei. À noite não é questão de amor, mas de silêncio. O teu corpo conhece o meu. O meu corpo conhece o teu. E conhecer não é mistério, é magia. É encontro. É enlaçar. É insolúvel. É permanente.

Perturbada, continuo. Não aceito que sejas a minha chave. Não quero. Des-quero. Mas é manhã. E pelas manhãs, há sempre esse amor que me ensinaste a sentir. Um para sempre sem intenção, um para sempre que renego. Um para sempre que flana, próximo, insistente. Afasto. Perco. Mas é manhã e a tarde custa a chegar. A noite é infinito. É manhã azul, repito, entre a incoerência e a resignação. Logo passa. Não passa. O tempo é lento e zomba das minhas aflições imperdoáveis. Fica. Ele fica. Tu ficas. Ficamos. O para sempre é rejunte dos pedaços de amor inabaláveis que viraram estilhaços no passado. Um para sempre de momentos. Um para sempre imperfeito. É só manhã, recordo bem baixinho. Rezo pela chegada apressada, porém mais mansa da tarde.

Perturbada, sigo. Teus beijos com gosto de rios e mares, de invasões, absurdos e barbaridades, de indecência e obstinação. Teus beijos que me cegam e confundem, que me desarmam e desatinam. Teus beijos, meus tumultos. Teus beijos, bruscos, meus inimigos.

Mas é manhã. Ainda.

E pelas manhãs, eu te amo sempre.

Te beijo, então, outra vez, devagar e urgentemente,

M.

P.S.: Guarda com carinho esse cartão postal que te chega como manhã de verão no cinza da tua vida. Eterna duração, eternas palavras. Eternidades fugazes. Manhãs ensolaradas. Já viste, já sabes, quanto sentimento cabe em pequenos pedaços de papel. São as horas da manhã – insanas e condensadas – que pedem para existir uns minutos mais de um tempo que já não é teu. A tarde caiu. 

Sol nascente.
Sol nascente.


(des)Lugares.

12 de dezembro de 2017 por Camila

São Paulo, 03 de Julho de 1977.

‘(…) Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos. É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. (…) Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância. Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. (…) É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento. (…) Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível.’

(CAMPOS, Paulo M.)

T., Amado;

Com alegria recebi a tua carta. Que bom que perdeste o medo de Virginia Woolf. Já vais perceber como a escrita dela aumenta e amplia a gente. Desconserta. Desinquieta o que resolvemos automatizar. Incomoda o que, covardemente, quisemos calar. Coisas que fazem as grandes, sabes. Talvez era esse o teu receio? O desassossego do que falsamente estancamos. Andar com Clarissa D. por Londres deve ser, assim, su-bli-me. Precisas me contar mais, conheces o insaciável do meu imaginar. Se queres, te indico umas leituras mais aonde a cidade é quase personagem. Aliás, é.

Por aqui, São Paulinho, tenho tentado reparar no singelo dos dias e nas sutilezas universais. Nas flores que brotam desafiando o concreto e os amanhãs intempestivos. No que resiste. No que renasce, incessante e cheio de fé. No bonito do subverter a ordem implícita das coisas em desordem. No caminhar pulsante dos transeuntes da Avenida Paulista. No vão do MASP (censurado, sempre censurado). No milagre de sentar para tomar um café, cruzar as pernas, perder a vista no vertical da cidade e lembrar do quanto te gosto. Respirar para não pirar com esses dias, com esse governo, com esses tempos de insanidade coletiva, com esse Brasil de desesperança e muita miséria. Um desmundo, Thomás, um desmundo só. Tanta feiúra e tanta fuligem, nem acreditarias.

Eu gosto dos meus silêncios, sabes. Dos meus infinitos, dos meus particulares. Dos meus muitos, dos meus excessos, das minhas hipérboles, dos meus exageros. Dos meus sinônimos. Encontrei um sebo outro dia aqui perto de casa. Bom, até; escaparam com alguma habilidade do pente fino e ignorante dos militares. As melhores coisas, podes prever, escondidas nos fundos das estantes. Comprei uns livros de contos da Lygia Fagundes Telles; indecentes de tão lindos, te digo. Às vezes me arrancam o fôlego, mas de uma maneira bonita. Tento te mandar algo, nem que seja transcrito, para encher com a minha alma um pouco dos teus dias.

Falaste em Caetano na última carta que recebi de ti. Já ouviste o disco novo? ‘Bicho’, chama-se. Uma coisa de divina e maravilhosa. Deito no chão, com a cara pra cima, ouvindo, e cantando junto. Desafinada, claro, sabes. Vez em quando me distraio com os barulhos da agulha no vinil, mas depois retorno para refletir sobre a poesia estrondosa desse moço. Um pouco como naquele texto do Paulo Mendes Campos, te recordas? ‘Ser Brotinho’, te mando – pelo sim, pelo não -, em epígrafe. Lemos juntos, acho, naquela antologia de crônicas dos anos 60 que compramos na viagem ao Rio de Janeiro. Que anos, que anos! Te quero sempre tão perto e me machuca essa impossibilidade dissonante das distâncias. Tenho um sem número de coisas que quero te contar, pensar junto à ti, os filmes para vermos, as leituras para discutirmos, o teu violão, o lençol que me roubavas. O amor é coisa séria, concluo, mesmo que o nosso tenha sido sempre ecoado de risos.

Então fico assim. Tomo um gole de vinho chileno, vejo as gotas traçando seus desenhos pela taça, engulo devagar, e perco, consciente, a noção do tempo. O espaço também se dissolve, líquido, e, com isso, a cidade vai se tornando pequena e claustrofóbica. Já não caibo na minha sala, enquanto que a cama continua parecendo grande demais, imensa demais. Teus lugares são inocupáveis, dear.

Outro dia quase fujo. Só não sabia para onde. Antes era um costume tão meu rumar para a tua casa, para o teu quarto bagunçado, e descansar no teu sofá que cheirava à fumaça dos teus cigarros enquanto ouvia o teu digitar furioso e melódico na máquina de escrever quando te punhas sentado displicente na mesa de jantar. Depois, impreterivelmente, reclamavas de dores nas costas. Agora já nem sei. Não há refúgios, só solidões.

O ordinário me mata e me descolore aos poucos, dearest. Ainda não aprendi a lidar com o conformismo preguiçoso das coisas. Tudo parece um labirinto de tédio e desamor, apesar dos meus esforços remando em sentido contrário nessas águas que, de tão rasas, ferem feito lâminas. Cortam no profundo de mim. É uma luta, darling, e torço para que estejas vendo mais horizontes do que eu. Que a Inglaterra te seja gentil, te mate a sede de chá (ou de vodka!) e que nunca coisa alguma te baste. Bonito é o teu espírito de rebeldia e a tua recusa ao óbvio.

Sei que seremos sempre abrigos. Sempre retornos. Sempre revoltas. Sempre recomeços. Sempre indissociáveis nas nossas danças. Pares. Inabaláveis. E só por isso me sinto inteira, tua, viva, em cores, possível. Uma vez mais, só por hoje.

Beijo-te, então. E te contemplo, também. Te brindo. Te amo. Te sorrio. Todos os dias;

M.

P.S.: Já foste a Oxford? Que tal? Não te esqueces do que combinamos.

Te escrevo dos meus sempres.
Te escrevo dos meus sempres.


Junhos.

6 de dezembro de 2017 por Camila

London London, 15 de Junho de 1977.

‘(…) E no passo arrastado dos homens-sanduíche; nas fanfarras; nos realejos; no triunfo e no frêmito e no insólito e intenso zumbido de algum aeroplano no alto estava o que ela amava; a vida; Londres; este momento de junho. Pois eram meados de junho. (…) Era junho. (…) Pois podiam ter ficado separados durante centenas de anos, ela e Peter (…) mas de repente ocorria-lhe: Se ele estivesse comigo agora o que diria? – certos dias, certas paisagens traziam-no de volta, serenamente, sem a antiga amargura; o que talvez fosse a recompensa por ter querido bem às pessoas; elas vinham de volta no meio do St Jame’s Park, numa bonita manhã – realmente vinham. Mas Peter – por mais bonito que fosse o dia, e as árvores e a grama, e a menina de cor-de-rosa – Peter nunca via nada disso tudo. (…) E ela desperdiçava a sua piedade. (…) E, contudo, para ela, a vida era absolutamente absorvente; tudo isso; os táxis passando; e não diria de Peter, não diria de si mesma, sou isso, sou aquilo. (…) Mas todo mundo se lembrava; o que ela amava era isto, aqui, agora, à sua frente. (…) Mas que, de algum modo, nas ruas de Londres, no fluxo e refluxo das coisas, aqui e ali, ela sobreviveria, Peter sobreviveria, viveriam um no outro, ela fazendo parte, estava certa disso, das árvores de sua casa; daquela casa lá, tão feia, toda feita de remendos, como era; parte de pessoas que nunca chegara a conhecer; estendida como uma névoa por entre as pessoas que ela conhecia bem, que a ergueriam nos seus ramos como ela tinha visto as árvores fazerem com a névoa, mas que se estenderia para cada vez mais longe, a sua vida, ela própria. Mas com que sonhava enquanto olhava a vitrine da Hatchard’s? O que estava tentando recuperar? Qual imagem de branca aurora no campo?’. 

(WOOLF, V.)

M., Meu (sempre) Amor;

Junho chegou. Finalmente está aqui. Uma nova face de Londres surge. Uma desconhecida. Desconhecida como a vida de Clarissa Dalloway que começo, neste instante-já, a conhecer. Tinhas razão; era mesmo preciso perder o medo de Virginia Woolf. Todas as horas penso em ti e nos teus fluxos de consciência que aceleram os meus. As tuas idéias. O teu amor. Não sabes a falta que me fazes: teu sorriso engasgado na tua gargalhada, tua voz desafinada cantando Caetano às alturas, teu tropeçar nas bagunças da casa e tua boca de café nas horas confusas do despertar (os meus, confesso, andam mais amargos a cada manhã).

Tua fé me emociona. Estás certa, é preciso mesmo agarrar os amanhãs para suportar as provações e marasmo dos hojes. Entretanto, te digo, ainda adoro as tuas certezas em eternos e infinitos. No que me pergunto: estás bem? Que é de ti? Sentes saudades tão grandes quanto as minhas? Tudo plural neste mundo singular que és tu? Escreve-me. Londres, te conto, é de um azul irregular. Ou talvez eu que teime neste azul, que é tão teu, para romantizar o cinza que vejo realmente.

Fui a Camden Town na inexatidão desses dias. Acho que gostarias, lá é cheio de muita arte e muita vida, igual a ti nessa tua poesia de ver o mundo e de encantar as coisas mornas. Olhei para cima e deixei o sol arder nos meus olhos, bem fundo nas minhas retinas. Nas cores, vi o teu olhar de caleidoscópio. Que vontade de beijar as tuas pestanas e sentir o teu nariz na minha barba descuidada. Penso nos teus beijos serenos, mansos, lentos e igualmente apaixonados e posso quase, então, te ver dançando pelas calçadas largas por onde caminha essa gente contida. Uma gente, Amor, que cabe em quadrados. E então te ouço na mais sonora das risadas a maravilhar quem anda por aí, gris, se desperdiçando. Como quem vem e vai e não repara no que encontra nesses passos trocados da vida, que mistura tudo e recomeça mais uma vez.

Estive também em Barcelona. Na tua Barcelona, teu eterno estado de espírito. Afundei os pés na areia. Perdi as vistas mar adentro. Recitei Lorca, baixinho, para mim e para ti somente. Palavras ao vento. Ouviste? Passeei, livre – tão livre, Meu Amor! – pelas Ramblas. Fiquei pensando que é disso que se precisa. É quase nada, mas é tudo ao mesmo tempo.

Para celebrar a chegada de um verão que parecia impossível, cantarolo e dedilho no meu violão – oportunamente, aliás -, uma das canções do ‘Qualquer Coisa’, aquele disco ensolarado do Caê, cheio de brisa e de Brasil. 1975 foi um dia destes, parece, ainda te sinto – alegre feito bater de asas de borboleta – na pontinha dos meus dedos: 

‘A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça. A tua presença pelos olhos, boca, narinas e orelhas. A tua presença paralisa meu momento em que tudo começa. A tua presença desintegra e atualiza a minha presença. A tua presença envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas. (…) A tua presença transborda pelas portas e pelas janelas. A tua presença silencia os automóveis e as motocicletas. A tua presença se espalha no campo derrubando as cercas. A tua presença é tudo que se come, tudo que se reza. A tua presença coagula o jorro da noite sangrenta. A tua presença é a coisa mais bonita em toda a natureza. A tua presença mantém sempre teso o arco da promessa.’

Essa cidade não tem fim, Marcela, Querida. Me debruço na janela e percebo: meus olhos não enxergam dimensões. Não percebem, também, distâncias: estás aqui, insisto. Comigo. Viva nos meus porquês, e, sabes, nas minhas entranhas. No reflexo de luzes sobre o Tâmisa, no Thomás embriagado, nas esperanças nutridas, nas imensidões das bibliotecas públicas que adorarias, nas cores acastanhadas do outono, no bem que persiste, na música que me toca, nos meus inícios, nas minhas coragens, no mais bonito da vida e nos meus dias futuros. É preciso crer no porvir.

As notícias que me chegam do Brasil me retratam enormes incertezas. Um medo. Uma instabilidade generalizada. Um absurdo. Um erro descomunal. Mais censura. Mais negações. Mais desse pânico e dessas coisas todas que me fazem acreditar que cruzar o Atlântico era a opção mais coerente pela vida e pela urgência de estar vivo. Ainda lembro do meu rosto sendo procurado em cartazes pelos corredores da UnB, a marginalização das minhas idéias, o terror que assolava o meu país, a minha cidade, as minhas salas, os meus estares, a minha tortura. Geisel fechando o Congresso. As instituições democráticas completamente falidas, esfaceladas, roubadas, emudecidas, enganadas. A arbitrariedade. A barbárie. Só não achei que fosse trote pelo Dia da Mentira porque não era nem de longe engraçado. O povo amordaçado; sem sonho, sem voz, sem nada. Tens melhores novidades para me dizer? Uma flor ao fim do cano da espingarda protestando contra esses tempos de chumbo? E como estão H., D., C., R., J., A., L. e os nossos companheiros?

Não se desenha, no meu horizonte, ainda, uma volta. E, no entanto, fecho os olhos e vejo as estrelas, o jardim da casa, as nuvens, o orvalho, o verde e os amigos de Brasília em abraços e cheganças. Sinto a seca de setembro, a margem do Paranoá, as liberdades das Asas, os planos cartesianos e a arte Niemeyer nas curvas que não se findam, que seguem, que são. Nos entrelaçados do tempo, nos Eixos, no amarelo dos Ipês e nos caprichos da minha memória entorpecida de vodka e do dilacerar da saudade.

Vens? Concretiza-me. Estão aqui os teus lugares. Sinto tua falta de uma maneira que não me surpreende, mas que me incomoda imensamente. Parte da minha vida, da minha história, de quem sou e de como me sei repousa em ti. Muito do que eu acredito, carregas nas levezas da tua alma. Não te esqueças de quem és nesse descompasso. Não te percas nesse tumulto, nesses ruídos, nesses vazios, nessa insanidade, nessa pressa paulistana.

Preciso te ver sorrir;

T.

P.S.: Se não te bastou a epígrafe da carta para que creias na minha leitura, te envio uma polaroide para que vejas ilustrado os desafios literários das tuas recomendações. Também o meu lembrete para a tua alma alegre: que te recordes das tuas horas de desmelancolia, do teu amor à vida, do teu maravilhamento com o simples do mundo e com o que sonhavas enquanto estavas parada em frente às vitrines. E o meu sempre cumprimento das promessas que te faço.

Junhos ensolarados, 1977.
Junhos ensolarados, 1977.


Uma carta que pede perdão.

29 de novembro de 2017 por Camila

São Paulo, 05 de Maio de 1977.

‘(…) O meu corpo quer extensão, quer movimento, quer ziguezagues. (…) Na nebulosa da infância, a sensitiva já procurava bondade e beleza. Mas a bondade e a beleza são conceitos do homem. E a menina não encontrava a verdade e a beleza por onde procurava. Talvez porque já caminhasse fora dos conceitos humanos. Toda a vida eu quis dar. Dar até a anulação.’

(GALVÃO, P.)

T., dearest;

Sim, São Paulo. Ainda. Não sei porquê. Mas não duvido da fé. 1h45 da manhã de segunda-feira. Sem drama e, graças a Deus, sem dor. Pequenos surtos em silêncio. Solidão. Na ficção, tudo vai bem. Na vida real, acho, parece, todo mundo entediado, um bode só.

Nem sabes como os barulhos da cidade andam me irritando. É a hélice do meu ventilador conjugada aos latidos do cachorro louco que não me deixa dormir. E as buzinas, Deus do Céu!, as buzinas que não param, tão apressadas, carros cruzando à velocidade da luz. Para onde essas pessoas querem tanto ir? Que ânsia de vida e de tempo é essa?

Tergiverso. Pondero. Preciso chegar ao ponto da máxima honestidade: Mentira. Não é o mundo. Tu não me deixas dormir. A tua pele morta ainda retida à minha que pretende-se viva e lateja. Tuas lembranças emergentes, efervescentes e insubordinadas à minha vontade. A vista da tua caminhada em passos tímidos rumo ao avião da despedida me inquieta. Mais, me con-so-me. E ardo. Ateio-me fogo pela impossibilidade de uma Brasília em um passado que, de tão perfeito, é presente. Uma Brasília de nunca mais. Uma personagem da improbabilidade de um novo tempo. De um tempo de ontem, mas, novo. Um querer leve, porém, absurdo. Daí faço planos incoerentes de voltar. Vislumbro uma Asa Norte desregrada que não existe mais. E me recolho em resignação. Atino que é justamente essa nostalgia a única coisa fixa no meu universo de impermanências. 

Não obedeci ao Drummond. Não sosseguei o amor. Sou saudade. Sou estilhaços que cortam os pés de quem, descuidado, pisa. Sou fragmentos. Sou arestas congênitas inaparáveis. Sou a tua ausência na minha carne. Ando tão sensível, tão à flor, tão à tez. Tão ao toque. Por onde andas? Diz-me de ti, darling. Estás respirando? Sobreviveste à falta? Devoraste as cidades?

Levanto da cama em plenas ansiedades. Sabe-se quem do quê. Me pergunto até quando há de aguentar meu coração o não-sentir das coisas totais enquanto que suporta, conformista, os sentires um bocado vazios da rotina. Cínico, talvez. Faço um café, suspiro. Me ocupo de reorganizar a estante de livros, escrever cartas e diários, imaginar diálogos, conter o caos, preparar aulas, meditar a vida, conversar quietinha com Deus. Cadê aqueles horizontes? Ninguém responde o que ecôo.

Ainda lembro, vês, lembro sempre, daquele dia em que nos encontramos. Tão jovens, tão entregues. Saías da UnB em um andar incerto. De longe, ri. Imaginei que rumo tomarias no infinito dos corredores à tua frente. Derrubaste teus cadernos pelo chão e, sem graça, limpaste as lentes embaçadas dos teus óculos e sorriste. Disseste teu nome. Que sonoro soou, Thomás, doce. No que disse que era eu a Marcela naquela imensidão de rostos cansados a nossa volta. Muitos cafés e salas de cinema empoeiradas depois, um amor maior do que eu merecia. Tu, Thomás, ainda és. Sejas sempre.

Peço perdão por não te ter amado de repente; por não ter sufocado, por não ter perdido as rédeas nem as estribeiras da minha própria vida para viver a tua por ti. Perdoa-me por te ter amado apenas de maneira lenta e gradual, que assimila e sorve aos poucos, pensando durar vastidões impossíveis. Nessas noites, que chegam sorrateiras, penso que deveria ter ido contigo ao invés de ter ficado comigo mesma nos meus mil emaranhados de mim. Não importava muito o destino, somente a chegada.

Ias a Londres, não vais? Ou vais a Londres, não ias? Pois bem, conta-me. Compartilha da tua leveza que por aqui me doem as costas do peso do intangível e dos abismos que separam as minhas volições das minhas possibilidades. Não há porque escrever sobre isso, Sylvia Plath já o fez muito melhor do que eu jamais poderei fazê-lo. E já conheces bem essas distâncias adjacentes de quereres. Tuas gavetas vazias ainda suspendem o ar dos meus pulmões cada vez que abro nossos armários.

Que quero além de salvação? Que esperança é essa, pergunto, em oração, que não desiste? Ao contrário, que segue, incólume, opondo-se às realidades de uma São Paulo ácida e crua? Do que sou feita? De teimosia? Os quereres são brutos, Thomás. E não se concretizam, sabes. Me nego a enxergar o tamanho da frustração e pareço rasa aos meus próprios olhos. Me protejo. Me faço invisível. E grito calada. Não sou percebida. Me sinto esmagada.

Ainda assim, vês que paradoxo, tinha renegado ao olvido o quanto essa cidade pode ser inspiradora, apesar de me enlouquecer quase sempre. Me explico: Bairro da Aclimação, sábado vespertino, estou num prédio dos anos 1940 com um quê de Art Déco e absorta com a obra escrita de Pagu. Olho ao meu redor e acho que a coisa toda é uma outra forma de se dizer – bem baixinho, em sílabas e sorrindo – ‘pri-vi-lé-gio’. E deixo o sol entrar pelos vitrais, pelas frestas, por onde dá. Que é vida. Que é luz. Que ainda há poesia. Que há de haver mais em nós. Mando em anexo uma fotografia para que vislumbres a cena e me compreendas.

Reparaste? Não é bonito?

Pois então, deixa que entre a luz do sublime do mundo.

Daqui te beijo e te desejo um bem infalível para que acredites sempre mais em amanhãs. Deseja-me, então, uma paz enorme que viro, assim, remanso;

M.

Tardes de Agosto, fábrica de sóis, olhos de caleidoscópio, filtro de luz e você aqui dentro, inteiro.
Tardes de Maio, fábrica de sóis, olhos de caleidoscópio, filtro de luz e você aqui dentro, inteiro.