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(des)Lugares.

12 de dezembro de 2017 por Camila

São Paulo, 03 de Julho de 1977.

‘(…) Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos. É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. (…) Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância. Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. (…) É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento. (…) Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível.’

(CAMPOS, Paulo M.)

T., Amado;

Com alegria recebi a tua carta. Que bom que perdeste o medo de Virginia Woolf. Já vais perceber como a escrita dela aumenta e amplia a gente. Desconserta. Desinquieta o que resolvemos automatizar. Incomoda o que, covardemente, quisemos calar. Coisas que fazem as grandes, sabes. Talvez era esse o teu receio? O desassossego do que falsamente estancamos. Andar com Clarissa D. por Londres deve ser, assim, su-bli-me. Precisas me contar mais, conheces o insaciável do meu imaginar. Se queres, te indico umas leituras mais aonde a cidade é quase personagem. Aliás, é.

Por aqui, São Paulinho, tenho tentado reparar no singelo dos dias e nas sutilezas universais. Nas flores que brotam desafiando o concreto e os amanhãs intempestivos. No que resiste. No que renasce, incessante e cheio de fé. No bonito do subverter a ordem implícita das coisas em desordem. No caminhar pulsante dos transeuntes da Avenida Paulista. No vão do MASP (censurado, sempre censurado). No milagre de sentar para tomar um café, cruzar as pernas, perder a vista no vertical da cidade e lembrar do quanto te gosto. Respirar para não pirar com esses dias, com esse governo, com esses tempos de insanidade coletiva, com esse Brasil de desesperança e muita miséria. Um desmundo, Thomás, um desmundo só. Tanta feiúra e tanta fuligem, nem acreditarias.

Eu gosto dos meus silêncios, sabes. Dos meus infinitos, dos meus particulares. Dos meus muitos, dos meus excessos, das minhas hipérboles, dos meus exageros. Dos meus sinônimos. Encontrei um sebo outro dia aqui perto de casa. Bom, até; escaparam com alguma habilidade do pente fino e ignorante dos militares. As melhores coisas, podes prever, escondidas nos fundos das estantes. Comprei uns livros de contos da Lygia Fagundes Telles; indecentes de tão lindos, te digo. Às vezes me arrancam o fôlego, mas de uma maneira bonita. Tento te mandar algo, nem que seja transcrito, para encher com a minha alma um pouco dos teus dias.

Falaste em Caetano na última carta que recebi de ti. Já ouviste o disco novo? ‘Bicho’, chama-se. Uma coisa de divina e maravilhosa. Deito no chão, com a cara pra cima, ouvindo, e cantando junto. Desafinada, claro, sabes. Vez em quando me distraio com os barulhos da agulha no vinil, mas depois retorno para refletir sobre a poesia estrondosa desse moço. Um pouco como naquele texto do Paulo Mendes Campos, te recordas? ‘Ser Brotinho’, te mando – pelo sim, pelo não -, em epígrafe. Lemos juntos, acho, naquela antologia de crônicas dos anos 60 que compramos na viagem ao Rio de Janeiro. Que anos, que anos! Te quero sempre tão perto e me machuca essa impossibilidade dissonante das distâncias. Tenho um sem número de coisas que quero te contar, pensar junto à ti, os filmes para vermos, as leituras para discutirmos, o teu violão, o lençol que me roubavas. O amor é coisa séria, concluo, mesmo que o nosso tenha sido sempre ecoado de risos.

Então fico assim. Tomo um gole de vinho chileno, vejo as gotas traçando seus desenhos pela taça, engulo devagar, e perco, consciente, a noção do tempo. O espaço também se dissolve, líquido, e, com isso, a cidade vai se tornando pequena e claustrofóbica. Já não caibo na minha sala, enquanto que a cama continua parecendo grande demais, imensa demais. Teus lugares são inocupáveis, dear.

Outro dia quase fujo. Só não sabia para onde. Antes era um costume tão meu rumar para a tua casa, para o teu quarto bagunçado, e descansar no teu sofá que cheirava à fumaça dos teus cigarros enquanto ouvia o teu digitar furioso e melódico na máquina de escrever quando te punhas sentado displicente na mesa de jantar. Depois, impreterivelmente, reclamavas de dores nas costas. Agora já nem sei. Não há refúgios, só solidões.

O ordinário me mata e me descolore aos poucos, dearest. Ainda não aprendi a lidar com o conformismo preguiçoso das coisas. Tudo parece um labirinto de tédio e desamor, apesar dos meus esforços remando em sentido contrário nessas águas que, de tão rasas, ferem feito lâminas. Cortam no profundo de mim. É uma luta, darling, e torço para que estejas vendo mais horizontes do que eu. Que a Inglaterra te seja gentil, te mate a sede de chá (ou de vodka!) e que nunca coisa alguma te baste. Bonito é o teu espírito de rebeldia e a tua recusa ao óbvio.

Sei que seremos sempre abrigos. Sempre retornos. Sempre revoltas. Sempre recomeços. Sempre indissociáveis nas nossas danças. Pares. Inabaláveis. E só por isso me sinto inteira, tua, viva, em cores, possível. Uma vez mais, só por hoje.

Beijo-te, então. E te contemplo, também. Te brindo. Te amo. Te sorrio. Todos os dias;

M.

P.S.: Já foste a Oxford? Que tal? Não te esqueces do que combinamos.

Te escrevo dos meus sempres.
Te escrevo dos meus sempres.


Junhos.

6 de dezembro de 2017 por Camila

London London, 15 de Junho de 1977.

‘(…) E no passo arrastado dos homens-sanduíche; nas fanfarras; nos realejos; no triunfo e no frêmito e no insólito e intenso zumbido de algum aeroplano no alto estava o que ela amava; a vida; Londres; este momento de junho. Pois eram meados de junho. (…) Era junho. (…) Pois podiam ter ficado separados durante centenas de anos, ela e Peter (…) mas de repente ocorria-lhe: Se ele estivesse comigo agora o que diria? – certos dias, certas paisagens traziam-no de volta, serenamente, sem a antiga amargura; o que talvez fosse a recompensa por ter querido bem às pessoas; elas vinham de volta no meio do St Jame’s Park, numa bonita manhã – realmente vinham. Mas Peter – por mais bonito que fosse o dia, e as árvores e a grama, e a menina de cor-de-rosa – Peter nunca via nada disso tudo. (…) E ela desperdiçava a sua piedade. (…) E, contudo, para ela, a vida era absolutamente absorvente; tudo isso; os táxis passando; e não diria de Peter, não diria de si mesma, sou isso, sou aquilo. (…) Mas todo mundo se lembrava; o que ela amava era isto, aqui, agora, à sua frente. (…) Mas que, de algum modo, nas ruas de Londres, no fluxo e refluxo das coisas, aqui e ali, ela sobreviveria, Peter sobreviveria, viveriam um no outro, ela fazendo parte, estava certa disso, das árvores de sua casa; daquela casa lá, tão feia, toda feita de remendos, como era; parte de pessoas que nunca chegara a conhecer; estendida como uma névoa por entre as pessoas que ela conhecia bem, que a ergueriam nos seus ramos como ela tinha visto as árvores fazerem com a névoa, mas que se estenderia para cada vez mais longe, a sua vida, ela própria. Mas com que sonhava enquanto olhava a vitrine da Hatchard’s? O que estava tentando recuperar? Qual imagem de branca aurora no campo?’. 

(WOOLF, V.)

M., Meu (sempre) Amor;

Junho chegou. Finalmente está aqui. Uma nova face de Londres surge. Uma desconhecida. Desconhecida como a vida de Clarissa Dalloway que começo, neste instante-já, a conhecer. Tinhas razão; era mesmo preciso perder o medo de Virginia Woolf. Todas as horas penso em ti e nos teus fluxos de consciência que aceleram os meus. As tuas idéias. O teu amor. Não sabes a falta que me fazes: teu sorriso engasgado na tua gargalhada, tua voz desafinada cantando Caetano às alturas, teu tropeçar nas bagunças da casa e tua boca de café nas horas confusas do despertar (os meus, confesso, andam mais amargos a cada manhã).

Tua fé me emociona. Estás certa, é preciso mesmo agarrar os amanhãs para suportar as provações e marasmo dos hojes. Entretanto, te digo, ainda adoro as tuas certezas em eternos e infinitos. No que me pergunto: estás bem? Que é de ti? Sentes saudades tão grandes quanto as minhas? Tudo plural neste mundo singular que és tu? Escreve-me. Londres, te conto, é de um azul irregular. Ou talvez eu que teime neste azul, que é tão teu, para romantizar o cinza que vejo realmente.

Fui a Camden Town na inexatidão desses dias. Acho que gostarias, lá é cheio de muita arte e muita vida, igual a ti nessa tua poesia de ver o mundo e de encantar as coisas mornas. Olhei para cima e deixei o sol arder nos meus olhos, bem fundo nas minhas retinas. Nas cores, vi o teu olhar de caleidoscópio. Que vontade de beijar as tuas pestanas e sentir o teu nariz na minha barba descuidada. Penso nos teus beijos serenos, mansos, lentos e igualmente apaixonados e posso quase, então, te ver dançando pelas calçadas largas por onde caminha essa gente contida. Uma gente, Amor, que cabe em quadrados. E então te ouço na mais sonora das risadas a maravilhar quem anda por aí, gris, se desperdiçando. Como quem vem e vai e não repara no que encontra nesses passos trocados da vida, que mistura tudo e recomeça mais uma vez.

Estive também em Barcelona. Na tua Barcelona, teu eterno estado de espírito. Afundei os pés na areia. Perdi as vistas mar adentro. Recitei Lorca, baixinho, para mim e para ti somente. Palavras ao vento. Ouviste? Passeei, livre – tão livre, Meu Amor! – pelas Ramblas. Fiquei pensando que é disso que se precisa. É quase nada, mas é tudo ao mesmo tempo.

Para celebrar a chegada de um verão que parecia impossível, cantarolo e dedilho no meu violão – oportunamente, aliás -, uma das canções do ‘Qualquer Coisa’, aquele disco ensolarado do Caê, cheio de brisa e de Brasil. 1975 foi um dia destes, parece, ainda te sinto – alegre feito bater de asas de borboleta – na pontinha dos meus dedos: 

‘A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça. A tua presença pelos olhos, boca, narinas e orelhas. A tua presença paralisa meu momento em que tudo começa. A tua presença desintegra e atualiza a minha presença. A tua presença envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas. (…) A tua presença transborda pelas portas e pelas janelas. A tua presença silencia os automóveis e as motocicletas. A tua presença se espalha no campo derrubando as cercas. A tua presença é tudo que se come, tudo que se reza. A tua presença coagula o jorro da noite sangrenta. A tua presença é a coisa mais bonita em toda a natureza. A tua presença mantém sempre teso o arco da promessa.’

Essa cidade não tem fim, Marcela, Querida. Me debruço na janela e percebo: meus olhos não enxergam dimensões. Não percebem, também, distâncias: estás aqui, insisto. Comigo. Viva nos meus porquês, e, sabes, nas minhas entranhas. No reflexo de luzes sobre o Tâmisa, no Thomás embriagado, nas esperanças nutridas, nas imensidões das bibliotecas públicas que adorarias, nas cores acastanhadas do outono, no bem que persiste, na música que me toca, nos meus inícios, nas minhas coragens, no mais bonito da vida e nos meus dias futuros. É preciso crer no porvir.

As notícias que me chegam do Brasil me retratam enormes incertezas. Um medo. Uma instabilidade generalizada. Um absurdo. Um erro descomunal. Mais censura. Mais negações. Mais desse pânico e dessas coisas todas que me fazem acreditar que cruzar o Atlântico era a opção mais coerente pela vida e pela urgência de estar vivo. Ainda lembro do meu rosto sendo procurado em cartazes pelos corredores da UnB, a marginalização das minhas idéias, o terror que assolava o meu país, a minha cidade, as minhas salas, os meus estares, a minha tortura. Geisel fechando o Congresso. As instituições democráticas completamente falidas, esfaceladas, roubadas, emudecidas, enganadas. A arbitrariedade. A barbárie. Só não achei que fosse trote pelo Dia da Mentira porque não era nem de longe engraçado. O povo amordaçado; sem sonho, sem voz, sem nada. Tens melhores novidades para me dizer? Uma flor ao fim do cano da espingarda protestando contra esses tempos de chumbo? E como estão H., D., C., R., J., A., L. e os nossos companheiros?

Não se desenha, no meu horizonte, ainda, uma volta. E, no entanto, fecho os olhos e vejo as estrelas, o jardim da casa, as nuvens, o orvalho, o verde e os amigos de Brasília em abraços e cheganças. Sinto a seca de setembro, a margem do Paranoá, as liberdades das Asas, os planos cartesianos e a arte Niemeyer nas curvas que não se findam, que seguem, que são. Nos entrelaçados do tempo, nos Eixos, no amarelo dos Ipês e nos caprichos da minha memória entorpecida de vodka e do dilacerar da saudade.

Vens? Concretiza-me. Estão aqui os teus lugares. Sinto tua falta de uma maneira que não me surpreende, mas que me incomoda imensamente. Parte da minha vida, da minha história, de quem sou e de como me sei repousa em ti. Muito do que eu acredito, carregas nas levezas da tua alma. Não te esqueças de quem és nesse descompasso. Não te percas nesse tumulto, nesses ruídos, nesses vazios, nessa insanidade, nessa pressa paulistana.

Preciso te ver sorrir;

T.

P.S.: Se não te bastou a epígrafe da carta para que creias na minha leitura, te envio uma polaroide para que vejas ilustrado os desafios literários das tuas recomendações. Também o meu lembrete para a tua alma alegre: que te recordes das tuas horas de desmelancolia, do teu amor à vida, do teu maravilhamento com o simples do mundo e com o que sonhavas enquanto estavas parada em frente às vitrines. E o meu sempre cumprimento das promessas que te faço.

Junhos ensolarados, 1977.
Junhos ensolarados, 1977.


Uma carta que pede perdão.

29 de novembro de 2017 por Camila

São Paulo, 05 de Maio de 1977.

‘(…) O meu corpo quer extensão, quer movimento, quer ziguezagues. (…) Na nebulosa da infância, a sensitiva já procurava bondade e beleza. Mas a bondade e a beleza são conceitos do homem. E a menina não encontrava a verdade e a beleza por onde procurava. Talvez porque já caminhasse fora dos conceitos humanos. Toda a vida eu quis dar. Dar até a anulação.’

(GALVÃO, P.)

T., dearest;

Sim, São Paulo. Ainda. Não sei porquê. Mas não duvido da fé. 1h45 da manhã de segunda-feira. Sem drama e, graças a Deus, sem dor. Pequenos surtos em silêncio. Solidão. Na ficção, tudo vai bem. Na vida real, acho, parece, todo mundo entediado, um bode só.

Nem sabes como os barulhos da cidade andam me irritando. É a hélice do meu ventilador conjugada aos latidos do cachorro louco que não me deixa dormir. E as buzinas, Deus do Céu!, as buzinas que não param, tão apressadas, carros cruzando à velocidade da luz. Para onde essas pessoas querem tanto ir? Que ânsia de vida e de tempo é essa?

Tergiverso. Pondero. Preciso chegar ao ponto da máxima honestidade: Mentira. Não é o mundo. Tu não me deixas dormir. A tua pele morta ainda retida à minha que pretende-se viva e lateja. Tuas lembranças emergentes, efervescentes e insubordinadas à minha vontade. A vista da tua caminhada em passos tímidos rumo ao avião da despedida me inquieta. Mais, me con-so-me. E ardo. Ateio-me fogo pela impossibilidade de uma Brasília em um passado que, de tão perfeito, é presente. Uma Brasília de nunca mais. Uma personagem da improbabilidade de um novo tempo. De um tempo de ontem, mas, novo. Um querer leve, porém, absurdo. Daí faço planos incoerentes de voltar. Vislumbro uma Asa Norte desregrada que não existe mais. E me recolho em resignação. Atino que é justamente essa nostalgia a única coisa fixa no meu universo de impermanências. 

Não obedeci ao Drummond. Não sosseguei o amor. Sou saudade. Sou estilhaços que cortam os pés de quem, descuidado, pisa. Sou fragmentos. Sou arestas congênitas inaparáveis. Sou a tua ausência na minha carne. Ando tão sensível, tão à flor, tão à tez. Tão ao toque. Por onde andas? Diz-me de ti, darling. Estás respirando? Sobreviveste à falta? Devoraste as cidades?

Levanto da cama em plenas ansiedades. Sabe-se quem do quê. Me pergunto até quando há de aguentar meu coração o não-sentir das coisas totais enquanto que suporta, conformista, os sentires um bocado vazios da rotina. Cínico, talvez. Faço um café, suspiro. Me ocupo de reorganizar a estante de livros, escrever cartas e diários, imaginar diálogos, conter o caos, preparar aulas, meditar a vida, conversar quietinha com Deus. Cadê aqueles horizontes? Ninguém responde o que ecôo.

Ainda lembro, vês, lembro sempre, daquele dia em que nos encontramos. Tão jovens, tão entregues. Saías da UnB em um andar incerto. De longe, ri. Imaginei que rumo tomarias no infinito dos corredores à tua frente. Derrubaste teus cadernos pelo chão e, sem graça, limpaste as lentes embaçadas dos teus óculos e sorriste. Disseste teu nome. Que sonoro soou, Thomás, doce. No que disse que era eu a Marcela naquela imensidão de rostos cansados a nossa volta. Muitos cafés e salas de cinema empoeiradas depois, um amor maior do que eu merecia. Tu, Thomás, ainda és. Sejas sempre.

Peço perdão por não te ter amado de repente; por não ter sufocado, por não ter perdido as rédeas nem as estribeiras da minha própria vida para viver a tua por ti. Perdoa-me por te ter amado apenas de maneira lenta e gradual, que assimila e sorve aos poucos, pensando durar vastidões impossíveis. Nessas noites, que chegam sorrateiras, penso que deveria ter ido contigo ao invés de ter ficado comigo mesma nos meus mil emaranhados de mim. Não importava muito o destino, somente a chegada.

Ias a Londres, não vais? Ou vais a Londres, não ias? Pois bem, conta-me. Compartilha da tua leveza que por aqui me doem as costas do peso do intangível e dos abismos que separam as minhas volições das minhas possibilidades. Não há porque escrever sobre isso, Sylvia Plath já o fez muito melhor do que eu jamais poderei fazê-lo. E já conheces bem essas distâncias adjacentes de quereres. Tuas gavetas vazias ainda suspendem o ar dos meus pulmões cada vez que abro nossos armários.

Que quero além de salvação? Que esperança é essa, pergunto, em oração, que não desiste? Ao contrário, que segue, incólume, opondo-se às realidades de uma São Paulo ácida e crua? Do que sou feita? De teimosia? Os quereres são brutos, Thomás. E não se concretizam, sabes. Me nego a enxergar o tamanho da frustração e pareço rasa aos meus próprios olhos. Me protejo. Me faço invisível. E grito calada. Não sou percebida. Me sinto esmagada.

Ainda assim, vês que paradoxo, tinha renegado ao olvido o quanto essa cidade pode ser inspiradora, apesar de me enlouquecer quase sempre. Me explico: Bairro da Aclimação, sábado vespertino, estou num prédio dos anos 1940 com um quê de Art Déco e absorta com a obra escrita de Pagu. Olho ao meu redor e acho que a coisa toda é uma outra forma de se dizer – bem baixinho, em sílabas e sorrindo – ‘pri-vi-lé-gio’. E deixo o sol entrar pelos vitrais, pelas frestas, por onde dá. Que é vida. Que é luz. Que ainda há poesia. Que há de haver mais em nós. Mando em anexo uma fotografia para que vislumbres a cena e me compreendas.

Reparaste? Não é bonito?

Pois então, deixa que entre a luz do sublime do mundo.

Daqui te beijo e te desejo um bem infalível para que acredites sempre mais em amanhãs. Deseja-me, então, uma paz enorme que viro, assim, remanso;

M.

Tardes de Agosto, fábrica de sóis, olhos de caleidoscópio, filtro de luz e você aqui dentro, inteiro.
Tardes de Maio, fábrica de sóis, olhos de caleidoscópio, filtro de luz e você aqui dentro, inteiro.


Ao afeto.

24 de novembro de 2017 por Camila

São Paulo, 12 de Novembro de 1987.

‘(…) De repente ela estava bonita demais com aquele vestido vermelho a gente estava bonito junto e foi indo fácil e leve. (…) Leva tempo? Leva tempo. Problema é que o esquema de Sampa me vampiriza, não me deixa produzir como gostaria. Por isso é que tou aqui, né? Mas fico dividido: já ando com saudade grande daí, dos lugares, das pessoas, dos feelings, dos moods.’

(ABREU, Caio F.)

L., mon chéri;

São Paulo exalando cheiro de Dama da Noite pelas ruas do Brooklin – por onde perambulo trôpega e bêbada – só me faz sentir uma falta imensa de Brasília. Chamam isso de saudade, parece. Deve ser. Essa nostalgia dilacerante. Esse ‘querer mais’ impossibilitado por mil entraves mas que, bravo, sobrevive. Amar é um tipo de resistência, não é?

Um resistir corajoso a esses anos que nos separam mas que não nos permitiram esquecer. Quando tudo me exaure, encontro exílio em você e nas nossas memórias. Umas lembranças que descansam meu corpo cansado no seu sempre manso, sempre quente, sempre acolhimento, sempre sorriso, sempre sonho. Sua mão como que deixada por acaso sobre a minha barriga, os meus lábios repousando no seu pescoço e o cheiro da sua pele que é bálsamo para as feridas da minha alma.

Sei que por aí tudo segue um curso inexorável nas curvas de linhas retas e concreto suspenso. Tudo aquarelado, tudo abstrato em pinceladas incalculáveis no azul infalível do céu: Me vejo em ti. Te quero aqui. Me quero aí. Te quero em mim. Pode? Pode. A negação é a covardia de quem não sabe quase nada do amor e de quem não ousa perder-se no outro para conhecer a si mesmo.

Lembro do seu primeiro olhar para mim e só por isso me sinto irremediavelmente feliz. Eu andava  tão distraída e protegida pelo acaso da desordem das coisas, de vestido vermelho esvoaçante, e não tomei para mim as suas palavras enunciadas numa voz tão baixinha que parecia não querer existir. Mas queria. E existiu, depois, tão alta que ecoa nos meus cantos e nos meus hojes. Nos ontens, entretanto, ainda sinto todos os minutos de um querer bem que era irrevogável e dono de uma urgência sem desespero. Em toda Quarta-Feira uma flor, um bilhete, uma canção, a calmaria de despertar ao seu lado e um beijo irresponsável para me dizer que eu não tivesse pressa, que tudo estava bem e que a vida seguiria sem sobressaltos.

E seguiu, enquanto estive com você. Por aqui, já não digo. Às vezes me sinto esmagada pela horas ferozes e aceleradas dessa cidade, sabe? Não vejo o céu nem o pôr-do-sol horizontal e alaranjado da beira do Paranoá. Vejo somente muitas esquinas e pessoas que não coexistem, apenas caminham por universos inteiramente paralelos ao meu. O jeito de manter-me sã, penso, é inspirar esperança e entusiasmo pelas pequeninas coisas, mesmo quando me falta o ar nos pulmões. Sobreviver é necessário; mas viver é luxo, Meu Muito Querido. No que me pergunto: -Onde anda você com seus buquês de trevos e tortas de maçã para me alegrar? Você é o meu afeto mais bonito.

Quê mais? Conto: dia cinza, muita chuva e um frio que fez da solidão substantivo palpável. Me tranquei no apartamento, vesti roupas velhas e largas, o cabelo prendi num coque mais frouxo que as minhas certezas, os óculos embaçados, tomei litros de café, fumei muitos cigarros (sim, tudo hiperbólico e desmedido, exagerado e desproporcional: mandei a justa medida de Aristóteles às favas!), li Foucault, repensei a existência vã de muitas coisas e escrevi onze páginas no meu diário. Acredita? Sim, diário; aquele mesmo de capa rubra que você conhece e que escrevo de modo intermitente há anos. Pois bem, diz o filósofo que as escritas de si nos tornam mais racionais porque, através de reflexões, meditações e do digerir a leitura do outro, acalmamos as agitações do cérebro e da alma causadas pelas dispersões e ansiedades do futuro. Que regressar ao passado nos torna mais sábios. Será? Tento. Nunca fui dada ao estoicismo, mas, quem sabe? Vamos.

Por falar em muitos pretéritos, aliás, preciso confessar: me sinto inapelavelmente sua dans le tourbillon de ma vie, e mais ainda quando tropeço nos dias em que estivemos juntos. Tu me manques beaucoup, tu sais. Sabem até os que me vêem fazendo as mais ordinárias coisas a qualquer hora: esperando o pão de manhã cedinho, cantando no carro enquanto estou presa no trânsito, passando batom para disfarçar o vazio que agora fez morada na minha íris, conversando as conversas sem graça no elevador do trabalho, digitando entediada na máquina de escrever da redação claustrofóbica do jornal uma notícia qualquer que informe a piora no mundo, esperando os passos lentos do carteiro que me trazem suas respostas prolixas e românticas (não há amor maior que reconhecer a sua caligrafia no envelope pardo e amassado, mon cœur!), na impaciência da fila do supermercado e do banco no meio da tarde, nas matinês do Cine Belas Artes e nas noites de calçadas sujas da Avenida Paulista enquanto ando apressada fugindo de monstros comuns. O tempo passa, passa, e as coisas ficam; um permanecer intransitivo das escolhas que eu já nem lembro de ter feito.

Te beijo da cabeça aos pés e prestando especial atenção no seu piscar de olhos que me arrancam de mim e me levam até você numa saudade maior do que posso suportar,

M.

P.S.: Caso não tenha ficado tão claro quanto o brilho de todas as Estrelas do Oeste, je t’aime toujours.

Na bagunça da casa, o meu constante elogio ao afeto.
Na bagunça da casa, o meu constante elogio ao afeto.

 


Romance Epistolar.

19 de novembro de 2017 por Camila

Brasília, 01 de Julho de 2018.

‘O que tem de ser, tem muita força. Ninguém precisa se assustar com a distância, os afastamentos que acontecem. Tudo volta! E voltam mais bonitas, mais maduras, voltam quando tem de voltar, voltam quando é pra ser. Acontece que entre o ainda-não-é-hora e nossa-hora-chegou, muita gente se perde. Não se perca, viu?’

(ABREU, Caio F.)

F., muito Querido;

Há dez anos passados chegaste na minha vida com uma tarefa tanto óbvia quanto insalubre: ensinar-me que o amor não precisa doer, que pode, à própria maneira, ser eco de gargalhadas contínuas e de um companheirismo que se reconhece no pouco alarde e no misterioso do silêncio.

A vida aconteceu, girou bem forte, rodopiou, bagunçou tudo e tratou de ser generosa conosco. Eu descobri o cheiro de Paris em pleno inverno e tu percorreste os múltiplos dos teus caminhos sem atalhos. Vivemos em mundos paralelos, amamos outras tantas histórias e encontros e, com máximo respeito à dimensão de todas elas, não erro em dizer que em todo esse compreender de tempo és tu, tem sido tu, e nunca deixaste de ser o homem que melhor soube me amar e a quem amei do melhor jeito, um cheio de leveza e sutileza na entrega.

De tal modo é o desenho abstrato do imprevisto nas danças do destino, que paro e penso na sorte do regresso e na coragem da nova chance que obriga, necessariamente, um alterar de rotinas. Do meu retorno à horizontes, planaltos, lagos, asas e alvoradas, das nossas convergências e completudes, das tuas cheganças balançando a chave de casa enquanto eu finjo dormir ansiosa na tua espera quando sobes apressado a escada para nosso quarto. No teu deitar ao meu lado, me puxas pra pertinho de ti e me dizes baixinho que nunca – nunca mesmo! – mais me vá embora. Que agora, no ímpar desse momento já conhecido, está estampada a felicidade singular da volta.

Vejo o manso do nosso presente e não me preocupo com o futuro. Está guardado, é possível, é real, é palpável e é reconhecível em tudo que queremos. Mas penso, com muita doçura e indisfarçável sorriso, nos nossos dias de ontens passada uma década de lonjuras: tu enxugavas as minhas lágrimas com as mangas do teu agasalho e me foste sempre abrigo, mesmo quando já não éramos mais um par e era por outro que eu chorava. Me levavas para a faculdade na secura das manhãs que me falhavam as forças e era eu o desamor tanto quanto me desarmavas e me fazias sorrir para além dos ânimos das minhas vontades nas noites úmidas. Eras meu consolo tantas vezes ao respeitar minhas más escolhas e nunca quebraste a tua promessa de não me perguntar o porquê das coisas que fugiam ao simples. Sabias entender meu segredo de erros viciados e talvez enxergaste antes de mim e esperaste sereno pela hora certa da pessoa certa. Ainda lembro bem todas as vezes nas quais fugi para o teu colo na tentativa de calar a polifonia esquizofrênica do mundo. Nunca mais nos beijamos depois das horas incertas do fim, mas sempre traçavas mapas com as pontas dos teus dedos nas palmas frias das minhas mãos, me contavas dos lugares para onde iríamos, esquentavas o meu nariz arrebitado de moça atrevida na tua barba, me acalmavas e me dizias que as coisas ficariam bem. Agora, finalmente, ficaram. Ao teu lado, para sempre, como não poderia deixar de ser.

Pelo capricho de quem nos rege e pela adorável entropia onipresente do universo: Tu e eu. Conjugados. E celebrando os nossos acertos.

Obrigada pelo teu amor. 

Sempre soubeste da grandeza que é viver na simplicidade de pão-de-queijo com filme em branco e preto ao cair da tarde enquanto nos amontoamos disformes no sofá.

Te quero bem todos os dias e me sei feliz pelo sublime da tua presença ao meu lado,

M.

‘¿Se pueden inventar verbos? Quiero decirte uno: yo te cielo, así mis alas se extienden enormes para amarte sin medida’. (KAHLO, F.).
‘¿Se pueden inventar verbos? Quiero decirte uno: yo te cielo, así mis alas se extienden enormes para amarte sin medida’. (KAHLO, F.).