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Contos de Verão XIII: A morada.

10 de abril de 2016 por Camila

‘You’ve got to give a little, take a little and let your poor heart break a little: that’s the story of, that’s the glory of love. (…) As long as there’s the two of us, we’ve got the world and all its charms. And when the world is through with us, we’ve got each other’s arms.’

(HILL, B.)

Cinco. Cinco foi o número total de pessoas que me perguntaram de (e sobre!) você nesse fim de semana. Nas minhas contas – e tendo em vista que já não estamos juntos há anos -, bastante gente. Se elas soubessem o efeito que o som do seu nome causa em mim, não teriam ousado sequer balbuciar. Nem tampouco ecoariam suas convicções a nosso respeito: que lindo casal fazíamos, o quão era evidente a sua felicidade ao meu lado, a paz e a tranqüilidade que passaram a fazer parte de você depois de mim, maldades diversas sobre a sua atual situação, o estado de bem que viam você quando estava comigo e, por fim, o quanto soava óbvio a todos que nós nos completávamos.

Pois é. Eu tive que ouvir tudo isso enquanto batia vodka com melancolia e frutas tropicais e entornava a dose em goles sedentos e cavalares. Só parava com a gula alcóolica para amarelar o sorriso, fingir satisfação, disfarçar a nostalgia e responder sem graça: -É, nós não estamos mais juntos. Terminamos há algum tempo já. As pessoas não escondiam o choque e, virando a cabeça de lado, tocavam o meu ombro desnudo e sardento. Eu me enchia de espíritos e replicava: -Está tudo bem, nós dois estamos bem. Tentei dançar para sentir menos saudade e, ao fechar os olhos na busca de um transe musical, via apenas o seu rosto fazendo as expressões mais bobas, taradas, bravas e ciumentas da história enquanto o meu vestido subia acima dos joelhos e a minha cintura girava. Sua língua roçando os seus lábios, você me puxando pelas mãos e dizendo: -Meu Amor, já chega de dança. E de vodka também. Vamos pra casa ver filme e ficar de conchinha? Eu ria da sua cara e respondia que você não era bom em ocultar o seu ‘zelo’. Negava com os dedos, fazia bico e cantarolava que ia dançar até a minha franja grudar na testa e a minha nuca molhasse de suor. Num gesto já automatizado dado o número de repetições que isso acontecia por noite, você suspirava em tom audível, erguia os braços pro ar e se resignava com um mau humor já confortável. Mas você era resiliente porque sabia ser o dono do monopólio da minha felicidade incontestável naqueles dias azuis.

A fantasia persistiu intermitente até o caminhar para casa. Estava intoxicada de você, uma vez mais, e tão longe do alcance das suas mãos. Sonhei com a sua figura durante o percurso sádico de uma noite inteira: você comigo, você sem mim, nós juntos, nós sem nós, a continuidade da sua vida, o seguimento da minha, as possibilidades infinitas de um futuro que não houve e o quão pouco sentido faz essa separação forjada num desejo contínuo de mudança. A minha carne ainda arde, reconheço baixinho. Acordava todo o tempo, e, depois de beber água apressadamente na contenção infantil dos prejuízos de uma ressaca iminente, sempre voltava ao mesmo sonho. Você estava lá (e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo!) me deixando sem fôlego e sem opção. Eu só queria a bênção de uma pausa nesses delírios oníricos, mas até a sua voz era palpável e acordei buscando você numa cama que não era exatamente a minha.

O despertar trouxe consigo uma vontade enorme de pegar o telefone, dizer todos os meus sins, me perder no seu corpo e correr para os seus braços que me protegem e me curam. Dizer que vai dar tudo certo, dessa vez. Que eu vou tentar de novo porque acho que esse encontro vale a pena. Que eu vou ceder ao seu charme de domingo como quem adia a dieta para a segunda-feira. Que agora não farei ouvidos moucos aos seus apelos insistentes. Que nós vamos casar, ter filhos e cachorros e morar na praia. Que eu vou fazer Brigadeiro pra você às 2h da manhã se você fizer pipoca pra mim no mesmo horário. Que os meus olhos serão novamente os seus guias. Que as minhas vontades hão de ser, mais uma vez, as suas alegrias. Que as nossas gargalhadas uníssonas serão músicas para quem sabe ouvir melodia desafinada. Que eu não vou mais respirar a tormenta da dúvida. Que eu vou repousar – serena – no seu peito e no lar que você construiu para nós.

Com qual das batidas do seu coração você me faz entender melhor a vida?

Você é a minha morada.

'Y cuando te busco no hay sitio en donde no estés.' <3
‘Y cuando te busco no hay sitio en donde no estés.’ <3


Contos de Verão XII: Carnaval incerto.

1 de fevereiro de 2016 por Camila

‘Nós: muita água já rolou aqui pra nós, nosso rio já entrou por alto mar e lá no fundo a gente sente o fim chegar. Nós: uma rosa que eu peguei na sua mão, tantas folhas de outono pelo chão, vem um vento balançando a nossa fé. É, insistimos em nadar contra a maré na esperança de voltar a um tempo bom que abençoe novas noites de verão. Nós sem querer parar, deixo o céu chorar: chuva irá lavar o coração.’

Às vezes eu tenho vontade – como nesta tarde de verão insólito – de mandar uma carta e perguntar se você acha que isso um dia vai passar. A ‘isso’ me refiro a esse nosso gostar recíproco e perturbador que assombra as novas pessoas das (e nas!) nossas vidas. A essa saudade do futuro que não tivemos, dos nossos corpos ardendo cheios de passado e desse imenso vazio que se fez presente. A essa intimidade louca que a gente silencia, mas que, quando fala mais alto que nós, faz parecer que foi ainda ontem que o seu olhar repousou em mim: Você ainda tão meu, eu ainda tão sua (e nem precisamos necessariamente conversar ou rememorar o amor para perceber isso, sabemos que prosear sobre a rotina do desassossego e flores amarelas é mais seguro para esse novo caminho).

Eu queria ter a certeza de que isso passa. De que vai passar para nós, também. Você não consegue me prometer e eu tampouco sei se conseguiria ouvir resposta contrária. Por enquanto, vou vivendo sem premissa de porquês e tentando bastar em mim tudo aquilo que era você: compro o pãozinho das 18h, tomo café amargo para acordar, masco chicletes que nem gosto até doer o meu maxilar, aprendo a me defender, acredito nas mentiras sobre as quais você me alertaria, vejo o meu time perder na televisão e atiro pra longe o controle remoto, finjo que não sou tão inocente o quanto me entrega o próprio sorriso, escuto canções que nos explicam, lavo os pratos que se acumulam na pia enquanto faço cara de nojinho e suspiro resignada, leio os maiores clássicos dos idiomas pós-modernos que você jamais tentou ler (e me pergunto se você já começou a se debruçar pelos 1903873 livros que dei de presente em datas significativas ou dias ordinários com dedicatórias de amor total ao seus sonhos), levo o carro na revisão e fico sem paciência com a conversa do mecânico, me irrito com a burocracia da cidade, xingo o cidadão que me cortou e não deu seta, declamo Neruda para as paredes, me encontro em outros mundos (e sinto uma nostalgia enorme dos seus!) e deixo que a minha alma mais leve finalmente me guie para as direções que me forcei a tomar.

Enquanto os dias se arrastam e exalam essa melancolia onipresente em tudo que vejo, fico querendo que alguma doença terminal aflija o meu corpo e o meu juízo para ter a desculpa de enfim perdoar você pelos seus erros de julgamento e péssimas escolhas e, desse jeito meio trágico, poder justificar a nossa volta nos meus últimos momentos de vida. Sinto uma saudade enorme da sua proteção nos meus dias de abandono e lembro como é difícil ser a mulher adulta e forte que não cede à tentações, ao calor, aos quereres urgentes e às paixões.

No hiato que nos invadiu, amei e fui amada por vários: todos eles melhores homens que você, mas – ironia do destino que me cospe a cara! – nenhum deles era você, e, portanto, não eram suficientemente bons para mim. O acaso me serve mil distrações e divertidos tropeços em lindas pedras, mas continuo procurando o seu rosto nas fotografias que não são suas. Fecho as portas e não consigo me compelir a cerrar as janelas, embora saiba que isto é o digno a se fazer. Tenho medo de me cortar com os meus próprios cacos e peço a Deus um abraço que coloque todos eles de volta no lugar. Ser inteira, depois de você, é desafio dos grandes: Olhar pro lado e não ver a sua sombra é andar descalça no asfalto do meio dia com o fogo em brasa queimando os meus pés outrora delicados.

Sei – através dos seus amigos e confidências indecorosas regadas a litros de álcool – que você anda por aí me procurando em outras línguas, em outros ritmos, em outras comparações, em outros temperamentos, em outros livros, em outros poemas, em outras arestas congênitas, em outras personalidades, em outras cadências, em outros discos e em outros carnavais em que você pensa ter me achado: Você não vai me encontrar porque eu nunca saí do meu lugar. Você não vai me esquecer em outros beijos tão falsos e pele tão fria porque a carne de nós é bruta em simbiose e a memória é flor que desabrocha em fina luz na alvorada de outros amanhãs.

Sou sua – concluo com certo enfado por não saber até quando em pequeninas doses de agonia – e tento me embebedar com o sono que não vem.

'Cartas de Amor - Monteiro Lobato'. (Foto: Laís V. Ribeiro).
‘Cartas de Amor – Monteiro Lobato’. (Foto: Laís V. Ribeiro).


Contos de Verão XI: Compromisso inadiável.

20 de janeiro de 2016 por Camila

‘Sometimes I’m terrified of my heart; of its constant hunger for whatever it is it wants. The way it stops and starts.’ 

(POE, E.A.)

Hoje fui até o restaurante chinês daquela rua onde costumávamos andar de mãos dadas e pedi um frango xadrez. Catei minuciosamente todos os pedaços de pimentão e, enquanto todos me julgavam em silêncio, pensei que só você me entenderia: entre o muito que sempre concordamos, sabíamos que pimentão era um desastre em qualquer circunstância e que cebola sim era tempero, assim como pipoca só é possível com queijo ralado e que não há a nós outro jeito que não juntos.

A noite me desperta, releio suas mensagens e, hesitante, já não sei se respondo o beijo que você me mandou por alguém ou se encerro o assunto em uma mudez atordoante. A dúvida me consome, mas não há propósito de que eu deva fazê-lo: nada positivo poderia resultar de um encontro que não o caos dos sentimentos amordaçados e o desejo que é tormenta na raiz. Queria te contar dos meus dias, mas não posso. Queria especificar a falta que você me faz, mas sufoco essa melancolia intrusa bem dentro de mim e vomito como me é de direito. Calo. Fecho os olhos. Respiro fundo. Controlo com a força do mármore frio o que é indomável, cruel e desregrado. Nada faz passar. Tudo arde, tudo é angústia: e, ainda assim, sei que é de mim o gosto perpétuo que habita a sua boca.

Imagino se você ainda segue emudecido os meus passos, se encontra meus olhos perdidos em cada esquina, se ainda lê os meus textos (e se os edita mentalmente, com todas as minhas crases indevidas – ou ausência delas! – e meus pronomes átonos mal alocados), se ainda me sente doer mansinho, se sabe da minha dificuldade em impor distância e de como eu morro a cada instante com as suas escolhas. E, sobretudo, como fraquejo com as minhas se formos fazer aqui em licença poética a justiça da mea culpa.

Já, já sei da certeza do seu amor enorme e que me engole desossada: me gritou o vento, os seus amigos, as ondas da Garça Torta, o seu sorriso atravessado no reconhecimento do meu olhar enviesado, a bebedeira do primeiro dia de um novo ano, o nosso silêncio amplo e irrestrito de perfeitos estranhos, o pôr-do-sol da Guaxuma e a ambiguidade das suas atitudes. Penso que quero ser maior do que me vejo e só aspiro a você felicidades e a mim o desapego. Tudo é confusão e espero impacientemente que o alívio substitua a dor da partida em vê-lo de (ao) longe: pulo de cabeça em mais distrações, em outros corpos, em novas intoxicações e em qualquer coisa que não tenha o toque embalsamado do seu cheiro no calor da sua saliva entre os meus dentes. Vou brincando de repor adições e correr menos riscos.

Toda viciada é estúpida mesmo quando tenta ser inteligente, e meu vício em adrenalina me deixa ligada em você no que parece um ciclo eterno. Fujo, desesperadamente: procuro curas, recomeços, explicações, mais um pedaço de ilusão, sua mão no meu quadril, meu medo inconseqüente, Gita, meditação e o ‘adeus’ que eu nunca te dei quando me desmanchei (feito tudo que é sólido!) no ar. Peço sinais que não chegam, prazeres efêmeros que em segundos me saciam, a minha vaidade cega feito faca amolada e o meu me perder nos meus próprios caminhos. ‘Sou forte’, repito a mim mesma em frente ao espelho – ao mesmo tempo em que passo batom carmim e embebedo meus lábios com vodka da pior qualidade! – quase que como um Mantra enquanto gargalho da sua convicção ao me rotular como ‘auto-suficiente’. Ah, se você soubesse; ah, se você ousasse divagar por essa trilha nas minhas curvas inexatas…

Você é querer sem poder: se corro pra você, desisto de mim e da mulher que eu gostaria de ser. Me recomponho enquanto me dilacero, me reinvento enquanto me destruo e lembro que o equilíbrio só é possível longe das paixões que nos implodem as vísceras e nos deixam na carne crua. Sei o quanto você gosta de me ver agonizar e me odeio por dar-lhe esta satisfação que, senão por mim, jamais existiria. Mais uma vez sou responsável por manter-me longe do que um dia foi lar, mas te amo feito bicho solto a vagar errante pelo mundo que é agora tão pequeno e claustrofóbico: estava certo quem um dia disse que corações são sim criaturas selvagens, pondero e reafirmo. E, por isso, não me culpo da insensatez que agora me tortura. Isso também vai passar, eu sei e repito para acreditar, como tantas coisas passarinho.

Escuto Sylvia Plath berrando aos meus ouvidos quase moucos e ao meu cérebro inapto: ‘Again, I feel the gulf between my desire and ambition and my naked abilities’, e digo a ela que eu também. Não há o que fazer com o prelúdio que já é premissa do fim. Ignoro minhas questões, acendo um cigarro e caminho com os pés descalços em pleno inverno.

Só por hoje, concluo, sou saudades. Amanhã, me prometo, volto a ser inteira.

Nos meus afluentes e amores pela cidade.
Liberdade: nos meus afluentes e amores pela cidade.


Contos de Verão X: Ruas vazias.

7 de janeiro de 2016 por Camila

‘When I desire you a part of me is gone.’

(CARSON, A.)

– 

Abri a porta de casa toda atrapalhada, com dois mundos em cada uma das mãos, e, sem acender a luz da sala ou tirar a chave do lado de fora, larguei as compras na cozinha. Respirei e me considerei vitoriosa na batalha infindável contra o trânsito. Perdi o olhar por uns 10 segundos e lembrei que precisava fechar a porta e iluminar a vida.

Nessa prática cotidiana da pressa e do descuido, vi que alguns envelopes se amontoavam no chão da entrada. Meio que com preguiça da burocracia de cortar papéis e já prevendo que se tratava de contas, peguei e debrucei a vista sobre eles. Eu estava certa, contas, desimportâncias e cobranças indevidas. Quando já tinha me preparado para largar tudo sobre a mesa e ir tomar um banho para tirar a cidade de mim,  encontrei a sua letra incerta num envelope pardo e sem remetente. Meu coração congelou. Trêmula, abri. Você, melancólico, me dizia no verso da fotografia mais bonita que tínhamos:

‘O retrato de uma saudade. O gesto do sentir falta. E, ainda assim, poder dizer que sorri paz em dias azuis, submerso em carnavais de silêncios e eloqüências.’

Quando bem de mansinho eu chorei e enxuguei a face para continuar a me embebedar com as  suas palavras, vi que você parafraseou aquele artista que canta mais ou menos assim:

‘…Fechei os olhos, chamei saudade. Olhei pra dentro, tenho você lá longe, bem longe. Um rumor dos corações, quero você na minha utopia. (…) E o beijo que tu me destes vou levar lá longe, bem longe.’

Fecha aspas. Encerra o tempo. Encolhe o meu mundo. Encurta o meu ar. O golpe foi baixo e a saudade me devora de dentro pra fora e em todas as minhas dimensões: me perco num espaço de 30m2, escorrego pela parede, abraço a foto das nossas pernas entrelaçadas enquanto estou em queda livre em direção ao solo, lembro dos detalhes do seu rosto e quase morro nove meses depois de tê-lo visto pela última vez.

Desisto de qualquer plano envolvendo livro e sofá e aceito a dura realidade que a paz da minha casa, naquele momento, seria o meu fim. ‘A louca morreu de nostalgia’, diriam as más línguas. Não coloco as frutas na geladeira ou me preocupo com a validade do iogurte, e, sem pensar, pego a chave do carro e saio em disparada. Não, não telefono pra você. Emudeço o celular para não correr riscos, mas saio perturbada a sua procura pela cidade. Nos lugares em que íamos, aonde fomos tão felizes e gargalhamos no mesmo compasso: aonde você censurava o meu vestido, me roubava flores, me abraçava forte e levava o meu corpo bêbado embora. Éramos par, simbiose e querer. Você entendia os meus sorrisos e eu conhecia os seus sinais. Seus defeitos que eram o caos de nós não permeiam mais a lista de ‘contras’, mas dançam macios na minha compreensão de lembranças: tudo que o tempo assola parece menor e mais perto do perdoável (que não é de mim exercer).

Não posso precisar o porquê de ter dirigido por quase 3 horas nessa cidade de verão à sua procura, não sei o que esperava que acontecesse. E se eu encontrasse você? Nada – um nada imenso – aconteceria. Acho que eu queria, talvez, ver a sombra do seu sorriso ou os seus trejeitos contidos de longe em bares de esquina. Não pretendia bagunçar a sua vida, encher sua alma de ilusões, roubar os seus chicletes de hortelã ou sequer estacionar o carro para falar com você (o outro lado da calçada é sempre mais seguro): não suportaria a sua voz de brisa a me chamar pelo nome. O seu tom inconcebível a mastigar e a cuspir palavras irresponsáveis pedindo pra voltar faria sangrar os meus ouvidos, ainda que aumentasse as cores do meu próprio viver. Eu sei que um encontro de peles e uma troca suave e malemolente de olhares não seria saudável mas não é sempre que consigo – ao contrário do que você me acusa! – conter os meus impulsos. Às vezes sou eu mesma a personificação da carne tórrida e da falta desmedida.

Sem conseguir decidir se foi melhor assim ou não, resoluta voltei pro meu micro-apartamento e me entreguei à justa solidão. Inocente, mal sabia eu que o perigo maior que corri essa noite não era o de encontrar você distraído por aí, era o de deitar na minha cama e não ter o seu corpo quente me abraçando. Era sentir sua ausência latejando como nunca. ‘Lobinho’, eu lhe dizia pela sua temperatura sempre acalorada, e mandava você parar de ficar tão junto de mim porque eu estava morrendo de aflição. Você, claro, ignorava os meus avisos e ficava se aninhando ainda mais. Eu fingia irritação e sorria timidamente com a certeza de você tão meu.

Com os olhos enevoados de noite pálida, concluo que hoje já nem sei mais os motivos que determinaram nosso fim ao que soa como séculos atrás, mas sigo convicta de que era esse o caminho traçado pelo destino a ser percorrido por nós: obedeço ao imposto pela sina mítica-universal e, com uma foice de gume afiado e passos cambaleantes, sigo cortando você da minha vida sem esperar o seu respeito a essa decisão.

Às vezes eu acho que essa saudade há de virar uma constante e que não tem solução equacional exata ou própria: seu silêncio, tal qual as suas palavras, mudam meu eixo e irrompem na minha razão e nas minhas decisões sem volta.

A coisa mais difícil que eu já tive que fazer em vida foi ficar longe de você.

'There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too tough for him, I say, stay in there, I'm not going to let anybody see you. There's a bluebird in my heart that wants to get out but I pour whiskey on him and inhale cigarette smoke. (...) There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too tough for him, I say, stay down, do you want to mess me up? You want to screw up the works? (...) There's a bluebird in my heart that wants to get out but I'm too clever, I only let him out at night sometimes when everybody's asleep. I say, I know that you're there, so don't be sad. Then I put him back, but he's singing a little in there, I haven't quite let him die and we sleep together like that with our secret pact and it's nice enough to make a man weep, but I don't weep, do you?'. (BUKOWSKI, C.)
‘There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too tough for him, I say, stay in there, I’m not going to let anybody see you. There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I pour whiskey on him and inhale cigarette smoke. (…) There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too tough for him, I say, stay down, do you want to mess me up? You want to screw up the works? (…) There’s a bluebird in my heart that wants to get out but I’m too clever, I only let him out at night sometimes when everybody’s asleep. I say, I know that you’re there, so don’t be sad. Then I put him back, but he’s singing a little in there, I haven’t quite let him die and we sleep together like that with our secret pact and it’s nice enough to make a man weep, but I don’t weep, do you?’. (BUKOWSKI, C.)


Contos de Verão IX: Pela última vez pra sempre.

23 de janeiro de 2015 por Camila

‘Vai longe. Não cheirou na rosa a cinza do coração de andorinha.’

(TREVISAN, D.)

O via escovando os dentes pela última vez pra sempre e sentia que já era tudo melancolia. Escovar os dentes – esse hábito tão desgraçadamente ordinário – passara agora a ser qualquer coisa de fantástico. Fotografava com o olhar em câmera lenta cada um dos gestos dele (dava zoom no rosto), temia esquecer o amor mais bonito que já vivera: Temia, sobretudo, que os caprichos da memória pouco prodigiosa fossem apagando a suavidade dos momentos, o sublime do dia a dia e os pequenos gestos de carinho que fazem das coisas miúdas algo majestoso.

Queria que os segundos passassem arrastados só pra recordar dos sonhos que tiveram. Desejou um pouco mais de tempo – tinha medo de como poderia ser a vida sem ele – para prolongar aquele último instante deles dois e, também, tinha alguma ansiedade para que os minutos passassem depressa para ver como seria quando o alívio de estar sozinha repousasse sobre seu corpo. Ela era toda antítese, seria assim pra sempre…

Pensou na barba que ele não tinha e que mesmo assim a espetava e irritava sua pele. Fixou discretamente a mirada nas atitudes corriqueiras dele e decidiu colocar a lembrança tão efêmera e presentemente passageira lá no fundo do relicário (que começara a talhar) dos dois. Um amor de memórias: Nisso haviam se transformado. Um amor de histórias, demoras, milhares de recomeços, pausas, interrupções, urgências, desacordos, descompasso e aspereza. Um amor de pela última vez pra sempre.

E como se amaram, um dia, aqueles dois (é, é de fazer pena tanto amor despedaçado). Amaram-se até que a última gota de afeição fosse sorvida num gole rápido e cortante pelo destino. Amaram-se profundamente até que o instante bruto e involuntário da quebra, da ruptura e da separação fosse a única escolha que restasse a ser feita: Dois mundos que colidiram – trôpegos – e agora voltavam cada um a sua própria órbita. Distantes. Vazios. Serenos. Dissonantes. E completamente apavorados.

Concluiu, portanto, que o fim quando chega é calmo e vem suave no seu silêncio desapegado e na ausência de conflitos. Dessa vez não fez questão de apagá-lo da sua vida ou dos seus contatos. Sabia, simplesmente como a pura paz que lhe cabia no por vir, que ele sumiria nas lembranças que já não entorpeciam ou agitavam sua mente. Haveria de vir um esquecimento tranquilo e certeiro como a brisa que varre as folhas caídas pelo chão de outono. Viria, ela esperava (e ele prometera!), e torcia que o tempo estivesse a seu favor. Ouviu novamente o som do seu coração quebrando e percebeu que, na verdade, ainda doía mais do que deveria: Era o incômodo da dúvida de quem precisa ir embora e sabe exatamente o que está deixando pra trás.

Foi arrancada das suas divagações pelo som dos passos dele, que caminhava até a porta onde deixara sua mala e todos os pertences que podem caber numa só despedida. Com a luz que entrava apenas pela janela da sala, tirou os olhos do chão e colocou sobre ela. Meio sem graça e com o constrangimento que só pode haver entre velhos novos desconhecidos e perfeitos estranhos que se sabem em cada centímetro, balbuciou:

– Já é tarde. Boa noite.

A indecisão borbulhava em sua mente antes que conseguisse escolher a entonação precisa para dizer-lhe ‘boa noite’ pela última vez pra sempre. De repente aquilo parecia a coisa mais importante e mais determinante que jamais dissera ou que emudecera sem coragem. Apenas seguiu e já nem se lembra de onde tirou forças pra responder:

– Boa noite.

Olharam-se apressadamente pela última vez pra sempre. Ele deu um beijo em sua testa que foi sentido mais ou menos como um paliativo que arde feito sal em ferida aberta.

E nunca mais se viram.

Coração de andorinha não cabe num sonho só.
Coração de andorinha não cabe num sonho só.