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Diálogos da Invisibilidade XIV: Autoficção.

24 de outubro de 2017 por Camila

‘(…) Fica difícil fazer literatura tendo Gil como leitor. Ele lê para desvendar mistérios e faz perguntas capciosas, pensando que cada verso oculta sintomas, segredos biográficos. Não perdoa o hermetismo. Não se confessa os próprios sentimentos. Já Mary me lê toda como literatura pura, e não entende as referências diretas.’

(Ana C., ‘Rio de Janeiro, Agosto de 1979’).

Sentou-se debaixo da mangueira naquela noite meio fria e orvalhada. Num canto especial de sua infância, a mesa aonde comera bolos diversos e tomara chá com sua Tia por longas e (insuportavelmente) felizes tardes. Na casa que era pura memória, ela era agora a melancolia. E lembrou-se. Lembrou-se das noites em que tudo tinha dado certo entre os dois. Das noites cálidas de vinho, das bocas urgentes de beijos e palavras, dos cabelos emaranhados entre os dedos apressados, dos sorrisos cúmplices de muitos segredos e das gargalhadas que ainda ecoavam em seus ouvidos.

Achava, agora, que a isso dá-se o nome de saudade. Pensou que cortava esse sentimento a própria carne. Insistia, entretanto, que era melhor assim. A solidão parecia lhe cair bem. Mas eram nessas madrugadas que só ela podia escutar o barulho secreto e abafado dos seus silêncios e sentires. Que eram tantos e altos e ruidosos e latejantes e cheios de lonjuras muitas. Doía, às vezes, mas a vida era cheia de causa e conseqüência. Aprendeu a aceitar o quinhão do que lhe cabia. A isso, tão sem graça, chamava maturidade.

Falta. A falta que fazia o café partilhado, a segurança do abraço, a cama desforrada, os espaços outrora largos eram então diminutos por corpos ocupados, as digitais dos dedos sujos nas capas dos livros escolhidos e ligeiramente empoeirados, as cartas espalhadas pelos cômodos vivos do lar, e as certezas. Tantas, infinitas, nem se cabiam.

Engoliu a seco. Permitiu-se a brevidade da nostalgia. Agarrou-se às próprias pernas para se proteger da aspereza do tempo. Fechou os olhos bem de-va-gar-zi-nho. Tudo é tão efêmero, ressoou. Já nem me sei hoje do que fui ontem. Que será de mim em amanhãs? Serei?

De pés descalços, pisou o molhado do jardim prateado de lua e de sonho. Era uma mulher tão comum. Dessas que andam pela rua com o saco de pão quentinho das 18h, que esquecem das desimportâncias, que se encerram em si mesmas, que nutrem todo o tipo de desejo censurado, que deixam a louça suja na pia para os depois e que vêem a vida passar. Sendo dela parte ou exclusão. Era ele, também, nada raro. Desses que só querem um final feliz, que passam inconscientes por seus erros consistentes, que fazem o que precisa ser feito e que nunca está só. Mas se viam especiais, juntos. Talvez por suas combinações desconexas ou por seus pactos implícitos que não ousavam romper a calma do silêncio. Ou ainda pelo medo iminente da grandeza do mundo diante da pequenez dos seus dias. Eram possibilidades que, agora, já nenhuma conjugavam ser

Músicas não iam curar. O absurdo da poesia não ia cicatrizar. As frases de um filme existencialista também já não iam mais explicar coisa alguma. O ardor eloqüente de uma prosa bem escrita tampouco surtiria efeito. A arte ainda importa, mas ela já nem sabia para quê. Era uma insistência cega, uma teimosia já tão enraizada que deixou de gerar questionamentos. Era o sólido a que se prendia quando tudo em sua volta era a abstração imediata de uma sucessão de ocupações imensamente vazias. O zelo incorruptível que se cria diante dos amores avassaladores e o nada absoluto ressignificando uma ruptura.

Abandonou os pensamentos e suas incoerências. Encarou a escuridão da casa. Tropeçou na própria bagunça. Deitou – desastrada – no sofá e deixou que a televisão refletisse sobre o rosto pálido suas luzes dementes e pouco iluminadas. Teve uma pequena epifania e esqueceu-se dela num átimo de segundo. Não estava necessariamente inquieta, talvez padecesse do mal reverso; o excesso de quietude também é, a seu modo, desassossego.

De lua, dela, dele, de noite, de sonho, de si.
De lua, dela, dele, de noite, de sonho, de si.


Diálogos da Invisibilidade XIII: C’est Paris.

26 de julho de 2015 por Camila

‘Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente.’

(CLAUDEL, C.)

É apenas terça-feira e eu misturo minhas lágrimas aos goles espaçados de vinho: sinto, como Camille C., a tormenta da ausência de coisa alguma e que jamais haverá nome.

Não, não é de você. Não, também é a recusa do ser da nostalgia de um hoje construído a passos largos, de passados que não são os meus, das possibilidades do amanhã: Sim, eu tenho tudo e não sei o que me falta. Sou parte indissociável do tudo, e tudo me pertence sem estar nas minhas mãos.

Penso em Paris e na minha alma vendida. Desperdiço a vida bêbada em São Paulo quando deveria andar aos tropeços na beira do Seine com uma garrafa de vinho tinto nas mãos, sem prestar atenção em nada e ir sentindo tudo. Penso na poesia que não foi gritada, nas madrugadas que não me perdi pelo Louvre, no cigarro que não fumei nas ruas vazias e nos cinco Euros que não paguei naquele café claustrofóbico em Notre Dame. Penso em fugas, na queda da Bastilha e nas batatas fritas que comi em horas incertas. Penso em Marie Antoinette decapitada pelos revolucionários, penso na cobertura do Crème Brûlée sendo quebrada em mil pedaços, na sabedoria de Truffaut e na vida ordinária que tenho levado. Penso no amor sublimado de Simone de Beauvoir em detrimento da filosofia Sartriana e penso – Deus do Céu, quanto tempo gasto em pensar! – nas escolhas erradas e nas imprecisões que deram certo. Penso em labirintos de mim, no caos da capital organizada vista do alto da Tour Eiffel, nas chamas da liberdade do Arc De Triomphe e na histeria de Bardot.

Não quero ninguém, não quero você. Quero um apartamento de um quarto meio sujo e bagunçado (só pra desafiar o meu TOC), quero aprender a andar de metrô em Montamartre,  quero ser alguém famélico como Hemingway num café parisiense qualquer dentre milhares de outros cafés parisienses quaisquer e depois chamar o nada de banquete (…e deixar o cigarro ir fazendo aquela cinza enorme sem nem pensar em cinzeiro), quero gostar de sanduíche de padaria, quero assumir um tom blasè pela banalidade do mundo, quero desapegar da preocupação com as rugas do meu rosto balzaquiano, quero me perder num quadro de Renoir, quero flanar pela irresponsabilidade histórica dos becos e das vielas, quero um filho que faça tudo certo, quero o silêncio de um coração que pulsa afobado, quero a porta do inferno, o consolo dos Céus e quero a distância das certezas das dúvidas da vida.

Cruzo as pernas, desafio o frio e neutralizo as nuvens que me invadem: não quero coisa alguma que seja a longo prazo. Quero apenas o fim do semestre, quero comprar tempo sem culpa, quero falar francês sem erros de conjugação, quero a rispidez das palavras com sotaque de R gutural exagerado, quero a inspiração de ser-me livre e quero, mais que tudo, flanar sem querer nada. Quero o grandíssimo luxo de estar sozinha em Paris e perambulando por Saint-Germain-des-Prés sendo dona somente de mim, sem histórias e sem obrigações de futuros perfeitos e subjuntivos.

Quero becos, quero vielas, quero qualidade duvidosa, quero o charme vagabundo e quero a alegria da solidão destemida. Quero a pureza do Sacré Coeur, o fôlego que me foi tomado nas escadarias de qualquer ponto mais alto da cidade, a decadência dos moinhos vermelhos, a preguiça do joie de vivre e a (falsa) auto-suficiência da mulher francesa.

Quero me encontrar no desatino de um saltimbanco, no olhar desviado de um transeunte apressado, nos equívocos de quem não sabe dar direções e no desespero dos mortais por mais um dia passado.

Quero tudo isso e quase nada até que eu possa somente cometer o enorme e desvairado desregramento de ser. Ser seja lá quem eu deva ser: Apenas – e incansavelmente! – ser até que evapore e vire garoa fina anunciando o inverno injusto que devora a primavera de abril que o cego jamais pôde ver.

...La distance d'un rêve.
…La distance d’un rêve.


Diálogos da Invisibilidade XII: Madrugada.

25 de julho de 2015 por Camila

‘Hold on to the thread: The currents will shift, glide me towards you. Know something’s left, and we’re all allowed to dream of the next (oh, the next!) time we touch. You don’t have to stray the oceans away: Waves roll in my thoughts, hold tight the ring. The sea will rise, please stand by the shore (oh, oh, oh, I will be)… I will be there once more.’

(VEDDER, E.)

Sobre a Nostalgia, Parte I:

Então eu olhei pra você e me deu uma saudade enorme. De outros tempos, eu acho.

Você, descabelado, cantarolava Pearl Jam e fazia meu coração voltar a minha adolescência, à todas aquelas promessas inconseqüentes e aos vinhos baratos nas calçadas pobremente iluminadas. A um tempo quando outro cara segurava as minhas mãos tímidas e você só observava. Nós, dentro daquele estúdio abafado e afônicos, tentando transformar o sentir em palavras, as revoltas em concreto, o coração em frangalhos. De quando tudo tudo era premissa e simplesmente complicado demais.

Velhos conhecidos que éramos das esquinas que nunca andamos, do cigarro que nunca dividimos, dos amigos em comum com os quais nunca compartilhamos história (ok, estórias) e a vida que nunca conjugamos.

Então eu olhei – de novo – para você e só senti saudades.

*

Sobre a Melancolia, Parte II:

Escrevendo descuidada e sem compromisso estas linhas platônicas e fúteis e improváveis, lembro novamente das noites vívidas em que tinha o batom vermelho borrando os meus lábios, as lágrimas teimosas molhando meu rosto, a manga da sua blusa enxugando os meus olhos e tudo aquilo ia virando poesia em mim, poemas sobre nós que nunca houvera.

Cercada pelos meus amigos lindos, loucos, músicos, boêmios de toda estirpe e artistas cheios de alma naquelas ruas sujas com cheiro de mar: Vida, eu ansiava pela vida. Eu queria sentir tudo aquilo como se tudo me pertencesse sem a responsabilidade de que tudo fosse meu. Eu queria ter – eu queria ser! – tempo e espaço para correr entre as paredes, desbravar o mundo inteiro, tropeçar em mil corpos errantes e beber da fonte inesgotável das certezas absolutamente incertas. Éramos incógnitas matemáticas de soluções inexatas, inexoráveis, incongruentes e inverossímeis.

Coragem, eu tinha coragem.

*

Sobre a Solidão, Parte III:

Depois que olhei pra você e senti todos aqueles momentos merecedores de uma breve saudade, eu olhei pra mim (com olhos enevoados) e me senti tão só: Eu enxerguei ao meu ao redor e estava todo ele numa construção contínua de ruínas, numa solidez indomável de pedaços, numa fé inabalável de que jamais teria ou seria aquilo que eu ainda nem sabia o que queria.

Eu não tinha palavras ou com quem conversar, eu apenas vivia compassivamente as histórias contadas, os amores inesquecivelmente passados, as páginas de livros há séculos escritos, a compulsão Niilista da impossibilidade, a fugacidade dos segundos, os caminhos perdidos, as frustrações de um silêncio eloquente, a plausibilidade da mudez, a ausência da salvação, o medo das más notícias, a tremulação da carne, as oportunidades desperdiçadas. Uma pausa e um parêntese: Nestas noites vazias eu me sentia um desperdício completo em toda a sua totalidade de âmbitos.

Na solidão embora tudo pareça palpável (e implacável, digo!), nada é digerido.

*

Sobre a Expectativa, Parte IV:

Agora a madrugada fez de si quase manhã, e, depois de horas de solidão e desejos abstratos de nada, vou viver meu dia numa noite em Tóquio com a única pessoa que me faz sentir menos saudades e mais porvires: Menos ontens inacabados e mais amanhãs possíveis.

A luz dos olhos dele enchem de ser a minha vida fastidiosa e aborrecida, como que descrito em romance: ‘His face was like a mirror for all my imaginings.’ Sim, eu sinto um enorme alívio por saber que ele existe em mim e que nós flanaremos pela imensidão alcançável e percorrível que é o universo inteiro. Ele então me expande, ele rompe as minhas fronteiras óbvias, ele está sempre além para me mostrar horizontes. Sim, nós ainda vamos ser errantes de um mundo sem esquinas e despido de nostalgias, melancolias, solidões: Seremos, então, expectativas realizadas.

Somos – eu e ele – o absurdo de um reencontro inevitável adiado apenas pela mesquinhez arrastada do dia a dia. Vamos – nós dois – escalar cansados o Monte Fuji apenas pela contemplação incomensurável do pôr-do-sol na Terra do Sol Nascente. E então, eu olharei diretamente para a mirada mágica da minha escolha mais acertada, e, sem que desvie meus olhos daquele imenso significado, eu terei o mínimo de certezas sem o fulgor trôpego das incoerências ou a maledicência dos ‘se’ e demais conjunções do hábito da auto-sabotagem.  

Porque, entenda-me bem, há amor com o qual se pague todas as madrugadas que demoram dias  (e noites!) demais para virar manhãs.

*

Pescando ilusões do meu próprio tempo.
Pescando ilusões e estrelas e noites e oceanos e idéias do meu próprio tempo.


Diálogos da Invisibilidade XI: De longe, aceno.

7 de fevereiro de 2015 por Camila

‘I loved you so madly, knew you would be true. Now this thing has happened, Dear: It’s over, all over, because we’re through. So sorry, Dear, it end this way… Since the world begin, the old folks say: Everything happens for the best.’

(HOLIDAY, B.)

Era manhã quando passei apressada por baixo de um pé-de-jasmim e pensei que a vida pode ser bonita em tudo que é singelo. Parei por um minuto e sorri. Mas aí, lembrei de você e fiquei triste.

Olhei pro mundo inteiro que cabia ao meu redor numa fração de segundos, e percebi que as ruas em que caminho todos os dias são adornadas por casas de muros baixos, setentistas e silenciosas. É possível até mesmo sentir o cheiro do abandono daqueles telhados melancólicos e daquelas paredes mofadas. Sendo mais concisa, é o próprio cheiro do esquecimento: Portões enferrujados prendiam os cães em seus lugares que realmente não eram seus e as janelas fechadas, gradeadas, claustrofóbicas e empoeiradas escondiam cortinas já desbotadas pelo efeito erosivo do tempo. Provavelmente chovia dentro de todos os quartos e os donos daquelas casas se vestiam sempre de cinza. Ainda assim, caminho. Diferente de quase todo mundo, ando por uma fagulha – uma lasca, que seja! – da esperança que pulsa um pouco abafada, mas que insiste em existir sem alarde. Padeço – e sei disso – de uma enorme (mas não mais eterna!) ressaca sentimental.

O que me inspira não se distingue da fonte dos outros: o amor, a frustração, a ternura desmedida, a dor de ter que deixar pra trás algo que tanto se quis, a ansiedade do olhar, as borboletas na barriga, a ponta fria do nariz, o diálogo comovido que acontece entre um copo de cerveja e outro mais, o cuidado, a vontade de sonhar junto, o calor do coração, as mãos dadas, o medo de uma realidade iminente com ausências presentes, o silêncio do telefone, o carinho eloquente, o contar de estrelas, as rusgas, a paixão incomensurável e as histórias bem contadas. E você, meu Bem, é um prato principal (e entrada e sobremesa e cafezinho) cheio de tudo isso. Você, a pessoa mais inconsciente e irresponsável que eu conheço. Você, que ama e nem sabe amar. Você, que diz saber de si mas que não sabe nem pra onde vai sem mim. Você, que é só desacerto e súplicas de perdão.

O que não mais tem importância é a saudade urgente que lhe sentia entre o seu tempo de sair da redação e chegar em casa com promessas de novas madrugadas: Daquelas que eram só nossas, do nosso jeito, de como poderíamos ser, de como fomos e da felicidade que sentíamos ainda que confrontados com tantas impossibilidades (devia ser a tal da certeza, alimento de amanhãs).

O que ficou irrelevante é dizer que aqui estou, sozinha. Nessa solidão de você em mim: Com meus pensamentos, com suas fotos, me perdendo no seu olhar (e lembrando que, estando de licença poética, posso usar o pronome oblíquo antes do verbo no início da frase se assim quiser, e quero), imaginando quantos – e quais! – dos nossos caminhos me levaram a você. E o quanto dos seus passos o trouxeram – entre tropeços e erros e soluços e circunstâncias – até mim por escolha e por um sentir inexplicável numa noite qualquer que só significou alguma coisa depois do passar de dias inúteis.

O que é obsoleto é eu ficar aqui, num luar de raro silêncio em São Paulo, escutando a nostalgia  prosaica de Dominguinhos e lembrando exatamente do que eu estava fazendo e por quais estradas me havia perdido numa busca frenética pelo algo que – quando o conheci – julgava ter encontrado. Um final feliz, quem sabe? Eu sei: Não foi feliz, foi só final. Você, que era o objeto da minha afeição e o tecedor de dias que viriam, assinou com papel passado e carimbado o ponto final que não abrange o entendimento nem dos meios e nem dos começos. É ordinariamente final, só isso e nada mais.

O que é insignificante é contar a você que abri outra cerveja, acabei com a quentura na minha boca e continuo pensando com certa melancolia em dias que se foram imbuídos no antecipar de dias que, de alguma forma, já existem. Mas que também ainda virão: E você não estará mais lá. São dias e são sonhos que não mais o pertencem. São meus com direito de exclusividade, registrado por testemunha ocular e legalizado pela burocracia preguiçosa que nos rege.

Preciso mesmo lembrá-lo de que deixamos – por alívio ou por tragédia – que o nosso amor morresse? Caiu duro e frio como neve na Rússia quando você (implacavelmente, diga-se de passagem) me atirou no meio de uma highway cheia de informações que eu desconhecia quando me julgava tão sua cúmplice. Tateei meu caminho de volta para a calçada segura e, com lágrimas nos olhos já turvos e o coração que afundou como âncora de navio ao se aproximar do cais, decidi que aquilo era imperdoável. A falta de lealdade, como repeti à exaustão, é pecado capital: A punhalada nas costas e a flecha no meu calcanhar de Aquiles sangra (por fim a heroína foi abatida em pleno combate). É ferida que não cicatriza. É ela que diz ‘não‘ aos seus apelos de volta. É ela quem lhe silencia e lhe indica que o seu arrependimento mesclado ao próprio remorso não me diz coisa alguma.

Não posso reclamar, já me tinham alertado: Minha vida seria mais fácil sem você (se você nunca tivesse entrado nela, mais precisamente), porém, essa minha personalidade empiricamente destrutiva (ou vice-versa?) quis pagar pra ver. Aquele papo de ‘veni, vidi, vici’, sabe? Bem, no seu caso, perdi. E talvez nem tanto assim (embora seja caro o preço que pago pelos meus erros. E eles parecem vir parcelados e contínuos). Quantificar não é comigo, acho que por isso não conto nem as horas e nem os dias. Apenas espero, com certa ânsia contida, o passar do tempo que traz a redução gradativa de tudo que agora parece tão grave e tão doído.

Sou das teses e das antíteses. Prolixa que sou, ironicamente, posso me dar ao enorme luxo de ser – também – síntese (pura Dialética de quem passa a vida sendo Semântica): as minhas contra-argumentações me geram novas teses, repelidas por novas antíteses e continuo a parir síntese. Simplificando, é somente o processo que não parece ter fim de dor, pequenos placebos de alegria e, por último, o consolo que me cabe (que geram outros confortos, momentos de insensatez emudecidas e novas neuroses). É um ciclo que não se fecha e todos os dias eu tenho que procurar novas fórmulas para conseguir funcionar e não deixar que a sua bagunça determine a minha vida: Para impedir, sobretudo, que o seu esparramar de si e o seu invadir de espaços vire a minha paranóia. São diálogos silenciosos que explodem dentro de mim e que jamais se calam. Na metodologia estranha e pessoal que desenvolvi a duras penas para tentar entendê-lo, permiti perder-me de mim e do meu equilíbrio construído em longas batalhas contra as noites vazias. E, por isso, só quero ficar longe de você. Só quero ser se for pra mim: Perceba que, também eu, às vezes me preciso distante. Às vezes me sou bálsamo próprio quando tento me ser cura.

Se eu fosse voyeur de mim mesma, seria tão mais simples observar meus problemas e definir  as minhas rotas de soluções e opções de fuga. No entanto, olhei pra mim e senti tanta pena: Trajava uma camiseta cor-de-rosa com a imagem dilacerada de Billie Holiday e, só por isso, concluí que era claro que meu destino só podia ser esse em que vivo no agora.

Nessa minha eterna mania de entorpecer e domesticar palavras, hoje as digo muito claramente: este é um conto de adeus.

Já me fui.
Já me fui com todos os pedaços de mim que me juntei.


Diálogos da Invisibilidade X: Oblívio.

7 de fevereiro de 2015 por Camila

‘…El recuerdo es sentir el vacío en el pecho y el nudo en la garganta.’

(GANE, M.)

– 

Você se matou em mim. Você já não é.

Seus vestígios pela minha casa já foram varridos para debaixo do tapete que nem existe, mas que finjo existir. Fingir: Esse tem sido meu verbo favorito esses dias. Ou apenas o mais conjugado em todos os meus eus plurais. E eu que me saiba. E eu que me sobre. E eu que me baste em justaposição (obrigada, Aristóteles!) e medida exata (logo eu, que vivo me esparramando por aí).

Suas camisas já estão jogadas no meu armário, aonde não podem andar de par com a minha memória e minhas lembranças de você, nessa sua tentativa frustrante e desesperada de me fazer cambalear num passo que dei e não voltarei atrás. Joguei na máquina de lavar para tirar delas o seu cheiro e a sua pele, depois as deixei esturricadas ao sol para que desbotassem suas cores. Por último, a pá de cal de um carinho qualquer que já não há: o esquecimento e a obsolescência do fundo escuro do guarda-roupa. Não o guardo, você não me tem. Você, o meu erro líquido que evapora e chove e evapora e chove e evapora e chove e evapora e chove e evapora e chove…

Seu pacote de chicletes – esquecido displicentemente em cima da minha caixinha de chás e sobre a minha decência – já está atirado ao lixo junto com todas as outras coisas que passaram da validade dentro da minha geladeira. Hortelã: Sabor que arde, hálito que queima, língua áspera, lábios afiados, coração em frangalhos. Você é hoje o expoente máximo da arte dos resquícios, ainda que seja nas pequenas coisas que repouse a saudade.

Ao revés de mim e do meu querer, reencontro você e seus poemas dentro dos meus livros de Nietzsche. Parece um passo mal calculado da sua desfaçatez: Essa sua insistência de permanecer perto da minha cama, ainda que esquecido na poeira do meu criado-mudo e nos escritos que ali vivem. Sua letra trêmula e insegura em guardanapos, seus traços desconexos e incertos, as minhas verdades irrefutáveis e o meu lirismo inteiro. Você, sombra de si mesmo.

Da minha estante, me grita – quase já rouco de tanto desespero – Quintana: ‘Do amoroso esquecimento: Eu agora – que desfecho! – Já nem penso mais em ti… Mas será que nunca deixo de lembrar que te esqueci?’. Coloco Bob Dylan na vitrola e ele esfrega nossa história na minha cara. Não pense duas vezes, tá tudo bem… Continuo a evitá-lo pelo microcosmo onde vivo e tropeço mais uma vez no você que está – ainda e não por muito – dentro do meu apartamento: Na lata de leite condensado que ficou pra trás (e na sua voz a ecoar me pedindo brigadeiro repetidamente no meio da noite, coisa mais sem sentido!), nas coisas fora de lugar, no caos da minha cama, nas minhas madrugadas insones, no milho da pipoca que queimou, nas minhas olheiras onipresentes, nas milhares de latas de Coca-Cola e nas xícaras borradas de café. Você, meu arrependimento inquietante e crucial do vivido.

Forço a memória na tentativa de procurar pedaços de você dentro de mim e arrancar antes que novamente me apareça de surpresa e acabe com meus planos de sublimar lembranças. Encontro você, inevitavelmente, no pior de mim: Na quebra de confiança, nos questionamentos, na agonia, na insensatez dos desejos não-atendidos, na falta, na desesperança, na ansiedade mal gerida, no cinismo da omissão, na traição de uma mentira, na minha tendência de fazer péssimas escolhas, no choque de vivências, na covardia de onerar o outro pelos seus erros crassos e grosseiros, no desgaste iminente, na perda da inocência, no fim. Você, o meu tempo perdido.

Encontro rabiscos de Gane – sim, de novo ele com sua dor especial e sevillana –  na minha agenda e a circunstância do escrito me lembra – por fim lembrei! – de você: ‘Anoche lloré. Lloré porque no sentía, porque no tenía ni una gota de amor adentro aunque llovían recuerdos tuyos por todos los lados.’ A data? Ironicamente, meados de setembro, primavera em flor. Às vezes demora muito a amanhecer e a madrugada – trôpega – se arrasta fria e silenciosamente num vazio de dimensões ignoradas. Estou tão… cansada. ‘Sufro de noches sin ti’, emenda Miguel G. Eu apenas agradeço a ocasião que o levou embora antes que eu desistisse dos meus planos para viver os seus. Você, minha decepção.

Quase que em modo automático – um zumbi, caçoariam alguns -, acendo uma vela, Plum Dahlia. Não, nunca mais a fragrância das rosas amarelas para escrever sobre você, seria um desperdício de paz e aconchego e suavidade e sutileza. Cada um faz por merecer o que lhe chega e – honestamente, Benzinho – você fez muito pouco somado a quase nada. Apenas observou passivamente e culpou tudo que estava fora de você e dentro dos outros. Você, entenda, é a sua própria fraqueza. Você, tão irrelevante.

Como que meramente por capricho da vida, durmo. E, nos piores pesadelos que me invadem, todas as suas promessas e pedidos de desculpa e justificativas supérfluas e meu fingimento do acreditar nas suas mentiras. Mas não dói mais, e escrevo meramente por hábito e bons costumes. Você, a desimportância do que já me foi.

Um dia, um conselho: enxergue de verdade cada um dos seus amores, tal qual cada um é. Com os olhos desnudos da paixão, finalmente o enxerguei. E sinto dizer, carinho meu, não gostei do que vi quando me vi. A bagunça de você por inteiro é só aresta congênita para minha mania de organização tentar reparar. E falhar em absolutamente todas as vezes. Sou eu a personificação pálida desse caso perdido de eterna tentativa e erro? Você, a minha desistência.

As pessoas insistem em dizer que, para certas coisas, há que se ter coração. Discordo e vocifero que há que se ter estômago. E, assim como tudo é graça e antítese, tenho um coração que já não pulsa e muita (muita!) fome.

Você se matou em mim, repito para crer. O homem por quem me apaixonei jamais seria dado a tamanho despudor e vulgaridade. Ele era um ser mágico que se esforçava para remendar erros e costurar novos amanhãs. Ele nunca seria ordinário e fundamentalmente vil e vaidoso. Ele, tenho certeza, não me negaria o prazer e a dor da verdade em detrimento do doce amargo da mentira. Eu, a que se engana.

Apenas vá, estranho. Vá embora e não deixe pegadas pelo caminho ou impressões digitais na minha porta, ela está fechada e joguei a chave bem dentro do meu abandono, num lugar bem fundo da minha vergonha. Fiz como Kaufman me sugeriu e o escondi nas profundezas da minha humilhação, aonde você permanecerá encarcerado até que eu consiga, por fim e irrevogavelmente, apagá-lo.

Você, tão pouco. Você – que imenso paradoxo! -, que poderia ter sido tanto e agora já é quase nada.

Etm. do latim: obliviu. s.m. Ação ou efeito de esquecer; perda de memória; esquecimento. Figurado. Condição do que ou de quem se encontra em repouso; descanso ou adormecimento.
Etm. do latim: obliviu. s.m. Ação ou efeito de esquecer; perda de memória; esquecimento. Figurado. Condição do que ou de quem se encontra em repouso; descanso ou adormecimento.